Uma política do sincericídio [1]

 

 

Por Thereza De Felice*

Comentário sobre a notícia da implementação do Sistema de Crédito Social na China.

A psicanálise é uma prática que recolhe os efeitos do desencontro entre as representações que criamos para dar sentido às coisas e a própria experiência. Freud inventa o inconsciente ao perceber a falha na tentativa de resumir nosso funcionamento psíquico à unidade aparente do indivíduo; o eu não é senhor de sua própria morada. Lacan retoma os textos freudianos, lançando mão da linguística como recurso, e, em sua releitura sobre o inconsciente freudiano, passa a tomá-lo como uma questão de linguagem. Tudo o que Freud explicou em termos de libido, eu, isso, supereu, apoiado nos mitos e histórias, Lacan retoma como dimensões do discurso, no qual o ser humano nasce imerso. O corpo-carne só poderá ser chamado de corpo, efetivamente, quando for recortado pelos significantes do Outro, podendo emergir daí, então, uma existência que vai se ajambrar com o mundo como puder. O fundamental desta operação de extração e construção de um corpo é que, necessariamente, há um real que fica perdido. Uma existência se fundará referida a esse real como perda. Esse pedaço da existência insondável – mas também o que parece ter mais valor de verdade – é que vai engendrar as possibilidades de se fazer um ser unitário, bem como as situações de angústia quando a unidade egoica falhar em sua função de deixar de fora isso que não entra no discurso. Encontrar um modo próprio e singular de incluir alguma coisa desse real na vida, sem saturá-lo de sentidos, e sem, necessariamente, ser tomado de assalto pela angústia, é o que se pode vir a construir em uma análise.

Isto dito, as marchas em curso da ciência, das tecnologias e do capitalismo parecem ter outro projeto para o real em jogo: pretendem, a cada dia, fazer dele um pouco menos impossível e um pouco mais universal.

“Uma visão futursística do Big Brother fora de controle? Não, é o que já acontece na China, onde o governo desenvolve o Sistema de Crédito Social (SCS) para avaliar a confiabilidade de seus 1.3 bilhões de cidadãos. O governo chinês está anunciando o sistema como uma forma desejável de medir e aumentar a “confiança” em toda a nação e construir uma cultura de “sinceridade”. Como indica a proposta, “[o SCS] vai forjar um ambiente de opinião pública onde manter a confiança será glorioso. Vai reforçar a sinceridade em assuntos governamentais, sinceridade comercial, sinceridade social e construir credibilidade judicial”. […] O novo sistema reflete uma astuciosa mudança de paradigma. Como notamos, ao invés de tentar forçar a estabilidade e conformidade com a chibata e uma boa dose de medo vindo de cima, o governo está tentando fazer com que a obediência seja sentida como um ‘game’ [tradução em inglês da palavra ‘jogo’, usada para designar jogos eletrônicos] . Trata-se de ume método de controle social fantasiado de sistema de pontos. Trata-se de obediência ‘gamificada'”.      

(Cf. http://www.wired.co.uk/article/chinese-government-social-credit-score-privacy-invasion, Tradução nossa).

A cultura da sinceridade total: eis a promessa do Sistema de Crédito Social. Sem entrarmos aqui nas mil nuances capitalísticas envolvidas nesse projeto (absolutamente centrais, e não estamos ingênuos quanto isso), parece haver, aí, algo que interessa de perto à psicanálise porque expõe uma mudança importante com relação ao tipo de alteridade em torno da qual se organiza a cultura atualmente. Se a alteridade discursiva em que se organizavam os corpos nos tempos de Freud e Lacan se estruturava a partir de um pedaço de coisa perdida, como dissemos, impossível de alcançar, mas também causa de um movimento desejante em torno dela – fundamental nas observações clínicas que sustentam as consequências teóricas que estudamos em psicanálise –, interessa-nos perguntar como podem se organizar os corpos diante desse projeto de alteridade à qual nada escapa, de modo a produzir nesse funcionamento alguma descontinuidade.

Que lugar se pode construir para os corpos, se a referência for esse discurso sem brecha, inequívoco, que liquidifica todas as existências em algoritmos? Que lugar para os furos da linguagem, que nossos corpos carregam como marca fundamental, nisso que vem se alastrando como um deserto de verdades chapadas e unificadas?

No Sistema proposto pelo governo chinês – de modo algum isolado de todos os outros movimentos desérticos que vêm se instaurando no mundo, mas, talvez, apenas um pouco mais escancarado em sua loucura –, a vigilância é inteiriça. Não há enquadre para os olhos que veem tudo. Não há ruído que parcialize o barulho total. Não há lugar para o mal-entendido. Ou, pelo menos, é assim que se pretende o Sistema sincericida.

Resistir é preciso. Parece que a militância que podemos fazer e que tem sido feita funciona também num movimento novo, diferente das conhecidas revoluções em que se formava uma massa homogênea, cujo objetivo era depor o sistema vigente. Os movimentos coletivos de resistência atuais aparecem de modo mais fluido e evanescente, e precisam se reiterar a cada vez para que possam existir sem serem capturados ou aniquilados pelo mercado. Frente à lógica da eliminação das diferenças, por vezes se destaca e encontra algum lugar a militância com e pelos nossos corpos furados, pelo direito ao corpo descontínuo, operando com, pelo menos, algum balanço na norma total. Sejamos, então, corpo-suposto-fracasso do Sistema, fazendo rupturas – evanescentes, mas insistentes. Sejamos corpos trans, gays, não-binários, travestis, devedores, errantes. Não se trata de restaurar um corpo antigo, mas de infiltrar nossos corpos estranhos no bloco concreto e opaco instaurado no poder. Vamos nos agarrando às emergências de singularidades, elevando-as à dignidade de significantes inengolíveis pela voracidade do mercado.

 

Notas

[1] Este tema poderia ser desenvolvido amplamente a partir de inúmeras referências. A proposta destas linhas, no entanto, é de uma manifestação livre de algumas inquietações a partir do que a notícia da instauração do Sistema de Crédito Social na China parece condensar de um movimento atual do mundo. Agradeço a Marcus André Vieira, que vem discutindo, especialmente em seu seminário A Psicanálise do Fim do Mundo, junto à Escola Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, questões que desembocam nesta postagem.

 

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* Thereza De Felice é psicanalista, mestranda em Psicologia Clínica: psicanálise, clínica e cultura na PUC-Rio e editora da Subversos.

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