Um pequeno comentário sobre monstros

 

 

Por Marcelo Veras*

 

Uma das maiores formas de violência é negar ao outro o direito ao nome próprio. Trata-se de negar a existência de alguém que passou muitas vezes por anos, décadas, em busca de uma nomeação. Nos campos de concentração, e Primo Levi nos deixou esse legado, a maior opressão era justamente eliminar o nome próprio e reduzir os corpos à números tatuados em seus braços. Faz anos que suporto a violência das ruas. Muito dessa violência vem da abissal distância entre ricos e pobres. Por mais que ela me incomodasse esse fator nunca foi decisivo para que eu deixasse minha terra. A Bahia, como aprendi de um mestre do direito, professor Sobral Pinto, sempre foi dividida entre os que não dormem porque tem fome, e os que não dormem porque tem medo dos que tem fome. Porém, o que me preocupa é a violência de Estado. Quando o Estado deixa de zelar por Todos seus cidadãos e estabelece cidadãos de primeira e de segunda categoria não mais estamos em uma democracia. Suprimir o nome que os Trans, não sem uma luta interna e externa desigual, chegaram a encontrar para justificar sua existência, para mim é uma violência similar à praticada nos campos de concentração. Negar o direito ao nome, sobretudo quando a proposição atende à princípios religiosos, é para mim um assassinato cometido em nome de Deus. O que se busca é a exposição e a vergonha pública, tal como se fazia ao exigir que judeus fossem identificados nas ruas após a promulgação das leis raciais de Nuremberg em 1935. Com Hanna Arendt aprendemos que os maiores crimes podem ser cometidos de um modo absolutamente banal, simples assim. Basta convencer um grupo de pares e simpatizantes que podemos votar uma lei. Aquele que não é capaz de alcançar o sofrimento do outro e trata uma necessidade de nomeação como um simples capricho é, a meu ver, o verdadeiro monstro.

 

*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise

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