Entrevista com Ana Lúcia Lutterbach Holck

Acompanhe abaixo o início do bate-bola entre Antônio Teixeira e Ana Lucia Lutterbach Holck. Por ocasião do lançamento de Patu – A mulher abismada, pedimos a Antônio que elaborasse algumas questões para a autora.

***

Antônio Teixeira: Ana, no final de sua primeira incursão, você afirma que sobrevivemos à morte de Deus, à guerra e ao muro, mas que se a mulher tomar existência será o fim do mundo, o fim do buraco sobre o qual se pode tecer. O curioso é que, aos olhos de Jean-Claude Milner, esse fim do mundo já se apresenta, na forma do liberalismo americano, como triunfo justamente do regime do não-todo, cuja erótica você aborda no segundo ensaio. É o que se conclui quando ele afirma, no final de seu comentário sobre Eyes wide shut, de S. Kubrick, que hoje cabe à mulher, e não ao homem, tomar a iniciativa e pronunciar a palavra “fuck“, maître-mot contemporâneo que se desdobra nos seguintetermos:

i. há uma relação sexual, que é uma relação de produção;

ii. a relação sexual, se existe uma (ora, há uma, mas somente a mulher pode garanti-la), é a pedra angular da sociedade;

iii. uma sociedade que faz da relação sexual sua pedra angular é também uma sociedade que faz de toda espécie de relação ao mesmo tempo seu elemento e seu limite: a sociedade começa e termina onde existem relações;

iv. para que do sexo surja qualquer relação, é preciso a família;

v. pensar que o homem é dela o único garantidor é ser reacionário (Bush pai ou filho); pensar que a mulher é dela a garantia é ser progressista (Clinton, marido e mulher);

vi. a mulher existe, tanto e mais do que o homem.
Eu gostaria de ouvir o que você tem a dizer, a partir dessa observação, a respeito da sociedade atual em que o Múltiplo da relação floresce no ocaso do Um, gerando, como você descreve, um conjunto aberto definido pela impossibilidade de circunscrever uma totalidade.

 

Ana Lucia Lutterbach Holck: Quando prevalece o falo, a mulher fica dividida entre duas identificações, a fálica e a não-toda. “O fim do mundo” seria a mulher existir, ou seja, seria o privilégio da identificação fálica e a mulher passar a ocupar o lugar que tradicionalmente é ocupado pelo homem. Como parece que foi a proposta de um certo feminismo, já ultrapassado.

Parece que o comentário de Milner aborda outra perspectiva, ou seja, a prevalência do não-todo, a prevalência do feminino, a pulverização dos gozos, portanto é justamente o inverso da ordenação fálica.  

O risco é agora o surgimento de uma mulher “descrente” do falo, que passa a denunciar a posição masculina como impostura, um semblante entre outros. Como disse Miller:

As novas [mulheres] sabem que [o homem] não é mais que um semblante, não o tomam a sério: é a feminilidade sem complexos. Uma Sarah Palin não reconhece nenhuma falta, não tem medo de nada, cria filhos enquanto maneja um fuzil, se apresenta como uma nova força que vai, um pitbull com os lábios pintados.

Bem, estamos diante do ocaso do Um, floresce o múltiplo e por enquanto só posso dizer que se o mundo torna-se feminino, as soluções também devem ser encontradas aí. Sara Palin é a versão da descrença no falo, mas no lugar da referência única, o feminino é o lugar das invenções singulares, do savoir y faire com o sintoma, e entre uma invenção e outra, caos esporádicos, evanescentes e pontuais.

Antônio: Com relação à comparação magistral que você faz entre Ana Karenina e Lol V. Stein, chama atenção o fato de que, no primeiro caso, embora a protagonista seja levada a um desfecho trágico, sua evolução se encontra esteticamente emoldurada pelo brilho do arrebatamento que a acompanha,

ficando em segundo plano a estabilização pequeno-burguesa assumida pela personagem de Kitty. Em Lol, evidencia-se antes o arrebatamento duro e seco, como você se exprime, do love stein, do amor petrificado na estática do fantasma, que se segue a uma estabilização imaginária da qual Duras expõe, sem rodeios, o que ela comporta de patético e derrisório. Você acha que poderíamos dizer que essa saída contemporânea, representada por Lol, estaria relacionada ao fato da inexistência do Outro como sentido possível da sublimação, inexistência que se traduz, no dizer de F. Bacon, pelo fato de que o homem finalmente se descobre como um acidente desprovido de sentido?
 

Ana Lucia: Sua questão está muito condensada, mas traz em seu bojo a resposta nesta citação de Bacon, que sintetiza bem o momento atual. Mas eu faria aí uma distinção entre a solução forjada pelo personagem Lol e a escrita de Duras. Prefiro me deter na saída encontrada na escrita de Duras, exemplar de uma sublimação sem o Outro. Não há mais a referência comum que garantia uma moldura estável, permitindo uma certa presença do real nas soluções estéticas. A Coisa não é cingida, não há véu, não há o que desvelar.

Antônio: Com relação à discussão sobre o feminino e o espaço sexual, você esclarece a formulação, extraída de Lacan, de que Don Juan seria um fantasma feminino na medida em que Don Juan justamente dispensa o limite do fantasma como condição de desejo. Ao percorrer todas as mulheres, uma a uma, Don Juan não deixar seu desejo estancar na inscrição perversa do gozo masculino, que se interrompe diante da mulher suposta conter o objeto a. Eu gostaria que você esclarecesse porque esse homem hors série vem constituir um fantasma feminino.

 

Ana Lucia: Na verdade, no seminário da angústia, Lacan se refere à D. Juan como um sonho feminino. Bem, em primeiro lugar é um sonho feminino porque só uma mulher pode supor um gozo masculino sem o limite da fantasia, a experiência do homem não lhe permite ter o mesmo sonho. D. Juan não inspira o desejo, ele se infiltra na cama das mulheres, como diz Lacan, sem que ele, nem ninguém, saiba como. É o sonho feminino porque, assim, não produz angústia, o angustiante para a mulher é sentir-se o objeto que está no centro do desejo.

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