Triste caminho?

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Por Sonia Bonzi

“[…] Se você quer ser minha namorada
Oh!… que linda namorada você poderia ser…
…E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada,
Minha amada mais amada pra valer,
Aquela amada pelo amor predestinada,
Sem a qual a vida é nada,
Sem a qual se quer morrer,
Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez este caminho seja triste pra você..
…E vc tem que ser a estrela derradeira,
Minha amiga e companheira,
no infinito de nós dois …”

(Minha Namorada – Vinícius de Moraes)

Quando debaixo da minha janela ele cantava “Minha Namorada”, de Vinícius, eu não imaginava qual poderia ser a tristeza do caminho que ele me convidava a percorrer. Fui, lentamente, descobrindo.

Sair de Minas, deixar para trás meus pais, amigos, alunos, o gato angorá, tirou-me do prumo. A viagem de ônibus parecia interminável. Depois de Sete Lagoas a paisagem machucou meus olhos e tive a impressão de que Deus estava sem inspiração quando criou aquelas árvores secas e retorcidas, onde não se viam pássaros, nem qualquer outro tipo de animais. Tudo triste.

E como era longe a capital. As estradas batiam no horizonte e davam a impressão de serem infinitas. Numa manhã de céu muito azul, chegamos. Fui, pela primeira vez, viver longe do chão. Penduramo-nos no segundo andar de um bloco recém construído, já cheio de rachaduras nas paredes e chão que arrebentava em bolhas.

Olhar pela janela, ver a terra vermelha, seca, de onde as árvores brotavam sem vontade, me enchia de saudades dos morros e do verde de Minas.

Fui aos poucos me acostumando com a nova vida. Arrumei um emprego, conheci gente nova, fiz amigos, comecei a entender o significado da música que meu amor cantava debaixo da janela.

Minha origem humilde havia me privado de muitas coisas. Não tive acesso à intelectualidade. Meu diploma de normalista era o único que eu tinha para mostrar. Não conhecia os clássicos, não falava outras línguas, não sabia nada sobre política. Sabia outras coisas: alfabetizar, bordar, fazer crochê,..

Passei a filar cultura, meti-me num curso de inglês, aprendi algumas regras do jogo da vida diplomática. Muitas vezes senti enjoo nas reuniões, assustei-me com as casas cheias de objetos de prata, paredes recobertas de quadros, estante abarrotadas de livros.

Foi entre os diplomatas que conheci muitos dos meus melhores amigos. Todos muito cultos, finos e generosos. Fui aceita e respeitada, apesar das minhas limitações. Jamais neguei minhas origens e fazia meus amigos rirem contando os casos do interior, as histórias da minha família, as piadas apimentadas que ouvia do meu pai.

Três anos passaram rápidos. Chegou a hora de arrancar as ainda frágeis raízes, que começavam a se firmar no cerrado, que eu aprendi a amar. Deixar o Brasil, despedir dos meus pais, abandonar o conhecido e me lançar em um outro desafio não foi fácil. Derramei litros de lágrimas.

Em Viena, tomei mais consciência do que realmente me esperava nesta vida de acompanhante de diplomata, sem tempo para enraizar. Caminho de mudanças, instalações, adaptações e submissão às novidades. O Embaixador, Chefe do Cerimonial do Itamaraty, dizia que cinquenta por cento da carreira dos maridos dependia das mulheres. Poderia assumir tanta responsabilidade?

Eram tantas as perguntas que eu me fazia. A cabeça não parava e eu duvidava de minha capacidade de ser a “amiga e companheira”, de sobreviver às idiossincrasias do caminho.

Logo na chegada a Viena, fomos recebidos, muito carinhosamente, por funcionários da embaixada. Sem eles, que se tornaram nossos amigos queridos, a vida teria sido insuportável.

Um jantar muito formal nos foi oferecido na residência do Embaixador. Parecia que, entre as intenções do chefe e de sua esposa, estava a de avaliar o desempenho de seus subalternos recém chegados, no caso, nós.

Fui atrás de informações de como me vestir, relembrei as regras de etiqueta que me ensinaram, repassei na cabeça a posição dos talheres, dos copos… Mandamos para a embaixatriz um número ímpar de flores, conforme as normas do protocolo. Determinei que falaria pouco, não usaria “porra”, nem “pô”, como se fossem vírgulas. Não soltaria nenhuma gargalhada. Piada não contaria.

A dona da casa recebeu-nos com um olhar que nos despiu. Meu marido não lhe beijou a mão como ela esperava. Minha espontaneidade esvaiu-se, minhas mãos suavam. O sangue ferveu e afogueou meu rosto. A voz ficou pequena e uma timidez desconhecida me fez encolher os ombros.

Meus olhos buscaram refúgio na suntuosidade dos salões, nos móveis de época, enfeitados de dourado e forrados de brocados “bordeaux”. Depois vagaram pelos quadros pendurados nas paredes e pelas vitrines de cristal bisotado, repletas de obras de arte e preciosidades…

As mãos suadas, o maxilar trincado…

Tudo muito diferente!…

Sobre a mesa de jantar muitas flores, candelabros e velas, sal e pimenta em cestinhas de prata, “sous-plats”, cinzeirinhos individuais, cartões com os nomes dos comensais, cardápio escrito à mão, lavandas, objetos de porcelana, todos os tipos de pratos, pratinhos, taças e talheres.

Os garçons serviam à francesa. Eu à direita do anfitrião. Temia fazer o garçon derrubar a travessa, deixar os talheres caírem, perder a carne no caminho até o prato… Reprimia os gestos com medo de quebrar o copo de vinho branco, ou pior, o de vinho tinto e manchar a toalha de linho bordada. Não sabia se cruzava as pernas, se me encostava no espaldar, se descansava o braço na mesa, se saia correndo…

Tudo muito formal, muito distinto do que me era conhecido.

Lembrei-me da mesa da casa dos meus pais. Um prato, um garfo e uma faca para cada um. Sempre virados para baixo a fim de evitar pouso de mosca e poeira.

Fui a primeira a ser servida.

Peguei um pãozinho e logo me arrependi. Não sabia em qual dos pratinhos depositá-lo. Passar recibo de que não sabia nem onde pôr o pão eu não queria. Mantive o pãozinho entre os dedos. Continuei a conversa com o embaixador, muito elegantemente vestido. Gesticulei comedidamente. O pãozinho na mão.

Quando minha amiga, mais fina e experiente, não titubeou ao escolher o pratinho, imitei-a. Grande alívio!…

A comida chegou fria e eu me permiti achar pouco fino.

Lá em casa a comida era servida quentinha, soltando fumaça, cheirosa.

Um copo de vinho branco, outro de vinho tinto e já estava mais à vontade. Ouvi mais do que falei, mas não fiquei muda. Contei até caso. O Embaixador foi receptivo com minha juventude. Riu, brincou.
O café tomado na outra sala foi mais constrangedor. Tive que ficar perto da embaixatriz, que, depois de falar de sua origem quase nobre, quis saber o sobrenome da minha família. Foi difícil segurar o riso. Como ela poderia conhecer meus antepassados, imigrantes italianos no Espírito Santo, colonos em lavoura de café, donos de venda?

Meu olhar passeava pela escadaria imponente, que descia em curva até o “hall” de entrada.
Não combinava comigo aquele constrangimento cerimonioso. Onde estava a moça animada, alegre e falante lá de Minas? Anjos passavam levando a conversa. Eu não tinha o que dizer quando a embaixatriz falava de porcelanas, pratas, baixelas… Menos ainda quando contava de seus encontros com gente da altíssima, dos casamentos pomposos ou divórcios reais… A empolgação da embaixatriz com a aristocracia me deixava perplexa. Eu não conhecia rei, rainha, príncipe, conde ou duquesa. Nem os nomes dos burgueses notáveis eu sabia. Desconhecia a genealogia dos Habsburg, nunca tinha ido à Grécia, nem sequer tinha visto um iate de perto…

Voltei para casa desconsolada, descrente do meu sucesso como mulher de diplomata, sem nenhum entusiasmo com o caminho que começava a percorrer.

…E chorei bem de mansinho sem ninguém saber por quê…

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