Textos, Ensaios & Entrevistas | Retrato falado de um totem sem tabu

Marcus André  Vieira

No tratamento analítico nos deslocamos em uma matriz, que Lacan denomina estrutura; lugares e relações definirão as essências e não o inverso. O ganho permitido por esta referência estrutural permite que se aja onde falham as coordenadas realistas, quando, por exemplo, assistimos uma anorética, vendo-se no lugar da obesa, insistir em perder peso até o fim. O estruturalismo permite, assim, que se radicalize a aposta freudiana de uma revolução que refaz o real sem dar-lhe um sentido último e profundo, sem fazer dele uma verdade oculta. Lacan assim formaliza o mito edípico como uma estrutura que define lugares e relações que, ao serem ocupados pela criança, constituem sua identidade sexual.

Uma estrutura análoga, ainda que pelo avesso, à matriz individual delineada pelo triângulo edípico, será transposta por Freud para o plano social em Totem e Tabu. O texto põe em cena uma tribo primordial em que um macho dominante submetia todos seus filhos e usufruía das fêmeas com exclusividade. Em vez de um dos filhos vencer o pai em um confronto individual e assumir seu lugar seguindo a lei da natureza, os irmãos decidem associar-se para matá-lo. Surge assim um contrato inaugural, assinalando o nascimento da primeira comunidade humana. Aqui, em vez da relação mãe-bebê é a comunidade dos irmãos, o corpo social que figura a caverna. De maneira semelhante, no entanto, o assassinato do Pai escava no centro da coletividade recém-surgida dos irmãos um vazio essencial, pois ninguém mais poderá ser Pai. Pai morto, ponto de fuga posto. Sua presença garante a estabilidade do mundo e sustenta a crença em um outro plano de existência. O Pai das Idéias, segundo Freud está no imaterial infinito. O primeiro grande segredo freudiano se enuncia assim: o túmulo de Abraão está vazio.(Leia mais aqui)


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: