Textos, ensaios & entrevistas | O que trago em mim

por Felipe Esteves

Escrevo em preto, muito embora tenha à minha disposição uma infinidade de cores. Assim o faço pelo constrangimento imposto a meu lugar neste jogo. Sigo certas regras, buscando reconhecimento entre pares. O despertar desta consciência não me ilude; é justamente ao vislumbrá-las (as regras) que percebo onde atacar. Tento não ser cruel, minha índole não é afeita a tal sentimento. Ademais, não sou ingênuo, calculo minha posição na hierarquia do jogo em baixo grau. Seria pretensioso de minha parte situar-me, ainda que distante da superfície? Parece-me que não. Também esta consciência é benéfica: faz-me ser prudente e saber de onde atuo. A pretensão talvez resida no meu objetivo, de fato ainda desconhecido, mas pouco importante nesse caso. Ocupo-me dos caminhos, e nada impede que minhas expectativas sejam constantemente reajustadas. Tento apenas manter um mínimo de sanidade, e porque não dizer, humanidade, no fim que almejo.

Escrevo em preto, afinado. Mas não descarto o silêncio, o branco ou a escrita. Em muitas ocasiões nem mesmo escrevo; deixo que o papel seja tingido pelo que não me diz respeito, em parte porque é preciso, simplesmente. Saio de cena, recolho estilhaços de pigmentos que explodem pelos ares, tentando manter a ordem. Acredito valer a pena, ofereço-me passiva e pacientemente. 

Mas se escrevo agora é porque tenho algo a dizer. Denuncio-me perante a platéia, apresento-me ao sacrifício. Reafirmo, e agora para mim mesmo, que não me julgo superior. Iludo-me em achar que não lhes imponho nada. Mas realizo essa ilusão e acredito transmitir apenas palavras. Traços inofensivos, imóveis. Difícil é imaginar que guio seu entendimento, que não serei tomado por outro, e que desenhos sobre um papel não ferem ninguém. Retiro-me humildemente, peço que me perdoem

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