Textos, ensaios & entrevistas | Ana Cristina César: Iluminuras da letra

Por Fátima Pinheiro

Ana Cristina César dedicou-se à escrita e dela fez poesia. Antes mesmo de saber ler já se encontrava imersa na escrita, e muito precocemente compôs seus primeiros versos, soprando-os para a sua mãe, nas brincadeiras no sofá da sala, jogando-se de um lado ao outro. Sua escrita traz a marca da brevidade, da multiplicidade, da rapidez e do corte. Essas características que inscrevem a singularidade de sua escrita poética são visíveis também no trabalho caligráfico delicado, que muitas vezes realiza em seus manuscritos que, de acordo com Armando Freitas Filho, se aproximam do desenho ou do arabesco criando verdadeiras iluminuras que solicitam, para além da leitura, que neles seja depositado o olhar. A sua poética requer também uma escuta, porque assim como o olhar que demanda contemplação, esta é construída a partir do que ela escutava, diariamente, na rua e nas conversas telefônicas. A poesia de Ana Cristina César é tecida pelo olhar e pela voz, tessitura corporal que faz com que o leitor seja tocado mais pela surpresa do que, propriamente, por uma idéia.

Longe da verve literária de muitos poetas contemporâneos a escritora utiliza nas suas poesias uma linguagem espontânea, imprevisível, contingente, e como ela mesma diz: escrevo in loco, sem literatura.

Ana Cristina César se estivesse viva teria completado, este mês, 60 anos. Morreu cedo aos 31 anos. Sua poesia, entretanto, forjada pelo real, toca a nós, leitores, de forma indelével, e revela pontos de clareza e de opacidade, tão peculiares a sua escrita. Os primeiros estão presentes na leveza do trabalho caligráfico, nos tons do arco-íris, ao utilizar canetas coloridas em muitos trechos de seus manuscritos, e os segundos se manifestam por meio da densidade poética verificada em grande parte de suas poesias, como por exemplo, em “Recuperação da adolescência”:

 é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço.

Em seu livro A teus pés, de 1982, revela já na primeira página a ênfase dada ao registro íntimo, em forma de diário, contudo retira, de forma surpreendente, da sua escrita uma possível referência autobiográfica, ao enunciar: Autobiografia. Não, biografia. Mulher. Na segunda página do livro, entre duas fotos suas, uma quando tinha um ano e outra aos dois anos de idade, lê-se:

Sou fiel aos acontecimentos biográficos.

Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras!

Os cortes na sua escrita são sucessivos, o que faz com que a sua poesia seja ritmada por uma cadência não narrativa, possibilitando ao texto movimentar-se, ora na direção de um diálogo ora na direção de um monólogo.

Precisaria trabalhar – afundar-
– como você- saudades loucas-
Nesta arte – ininterrupta –
De pintar –
A poesia não – telegráfica – ocasional-
Me deixa sola – solta-
À mercê do impossível-
– do real.

Ou:

Frente a frente, derramando enfim
todas as palavras, dizemos, com os
olhos, do silêncio que não é mudez.

Em Novas Seletas, de 2004, livro organizado por Armando Freitas Filho, com as poesias de Ana Cristina César, escritas entre 1963 e 1983, observa-se a alusão que a escritora faz a vários autores. Essa alusão não remete a uma mera citação do autor, mas a uma apropriação do nome próprio do autor na poesia, situando-o em um lugar êxtimo, que evidencia a relação do sujeito com o significante, como uma operação de inclusão externa. O termo êxtimo traduz aquilo que está mais próximo, o mais interior, sem deixar de ser exterior. Ana Cristina César localiza o autor nesta perspectiva, marcando-o no lugar de um “Outro” do significante, como por exemplo, ao se referir a Fernando Pessoa:

A gente sempre acha que é Fernando Pessoa.

Ou ainda a Freud ou ao poema de Manuel Bandeira “Irene no céu”:

Noite de Natal
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
Com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
Estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera.

A poesia de Ana Cristina César parece, também, transitar como uma carta, e por este aspecto pode-se remetê-la a carta do conto de Edgar Allan Poe “A Carta Roubada” cuja peculiaridade aponta para a dimensão de envelope que a palavra detém, onde o significado ou o sentido não são revelados, uma vez que não se sabe o conteúdo da carta, mas somente a imagem sonora do significante. Como diz Silviano Santiago, a poesia de Ana Cristina César como uma carta passeia sozinha “solta no ar da folha de papel”, desvelando a questão do feminino, tão própria a toda carta de amor:

Pergunto aqui meus senhores
Quem é a loura donzela
Que se chama Ana Cristina.

Na impossibilidade de dar conta dessa resposta, uma vez que esta é inapreensível, só nos resta, então, recolher algo que essa loura donzela que se chama Ana Cristina nos mostra: que a palavra não se prende ao seu valor de verdade, mas ao seu valor de iluminura da letra, como poesia.

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