Textos Curvos: Família

 

Por Luiz Guilherme Barbosa e Oficina Literária Ato Zero*

 

Falar é trabalhar para a destruição do dicionário. As palavras, como se existissem, são listadas num dicionário, e ali dormem em estado de dicionário. Quando se deparou com a tortura, durante da ditadura civil-militar, Armando Freitas Filho precisou reescrever os significados do verbete pele, no poema A flor da pele (1975): 12. Fig. sua própria pessoa violentada; seu próprio corpo escancarado: sentir sua pele rasgada pela minha mão de gancho [q.v.]; ofender a pele, foder você. Roland Barthes, em 1980, pensou o dicionário como uma máquina de sonhar que, se usada à revelia de sua função catalográfica, transforma-se numa coleção de navios: cada palavra, a princípio precisamente descrita, convida ao passeio da imaginação pelos sentidos não escritos. Foi Drummond quem, por exemplo, esculpiu um poema passeando pelos sentidos de um verbete: áporo. Cada palavra, um inseto sem saída. Cada uma: aporia. Então o jogo foi responder à convocação do Instituto Antônio Houaiss, através do projeto Todas as Famílias, para redefinir o verbete família. O estranho familiar inscrito no verbete: porque agora o lexicólogo foi convocado, em coro de vozes, público e virtual, a reescrever e dar termo ao termo. No caso da Oficina Ato Zero, o procedimento seguiu a lição barthesiana: para descrever a coisa, para passar da palavra à coisa, ainda são necessárias outras palavras, e isso ao infinito. Por isso cada escritor em oficina escolheu, para definir família, o significado de outro verbete já descrito no dicionário Houaiss, procedimento que batizei de adicionário: no jogo do adicionário, o lance é adicionar verbetes desorganizando os significados do dicionário, trabalhando, assim, contra o dicionário. E para os escritores em oficina, família é, por ora, apesar, conjunto, inquestionável, retorno, vida.

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Apesar – Mariana Freitas

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Conjunto – Júlia Moura

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Inquestionável Alexandre Magalhães

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Retorno – Luiz Guilherme Barbosa

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Vida – Gabriela Almeida

 

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* A Oficina Literária Ato Zero reúne escritores adolescentes que são alunos do Colégio Pedro II, em seu campus no bairro de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro. Saiba mais aqui: http://subversos.com.br/textos-curvos/

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