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Walker Evans, Igreja Rural, Carolina do Sul, 1936

 

 

Por Ioana Mello*

 

 

“Na verdade, tudo é propaganda em favor do que você acredita, não é?
Sim, é isso. Não consigo pensar de outro jeito.” – Dorothea Lange

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Proponho a vocês seguirmos um pouco as relações entre política, imagem, documentação e poder, através da Farm Security Administration (FSA)e um de seus mais ilustres fotógrafos, Walker Evans. Em época de dificuldades políticas e econômicas pelo mundo, devemos ter cuidado com o que lemos e vemos. Somos bombardeados por opiniões prontas, fotografias recortadas, reportagens direcionadas e responsabilidades emolduradas. Os meios de comunicação nos passam, muitas vezes, verdades generalizadas que perigosamente manipulam os fatos para uma história que interessa diretamente aos detentores do poder.

O que é o poder? Muitas vezes, ele aparece mascarado e mitificado, dificultando-nos seu reconhecimento e sua origem. Segundo o filósofo francês Michel Foucault em seu livro Microfísica do Poder, o poder não existe, o que há são relações e práticas de poder. Com isso é difícil definir o poder, pois ele não tem uma forma bem delineada; ele se personifica de diferentes maneiras e se perpetua através das relações humanas. O que podemos tentar compreender é de que forma este poder é perpassado entre os homens. Todas as relações são, de alguma maneira, um jogo de poder e, onde houver poder, ele se exercerá sobre alguém.

Os grandes governos, detentores de poder, sempre foram acompanhados de produção ideológica. Sejam eles democráticos ou totalitários, algumas das práticas de coerção de poder usam formas implícitas e sutis para “produzir” verdades. Podemos citar, por exemplo, Hitler e Goebbels que utilizaram a imagem cinematográfica, com a diretora Leni Riefenstahl, para veicularem mensagens positivas do nazismo. A democracia pode ser também coercitiva ao manipular diferentes instrumentos e discursos pelos quais canaliza-se o poder.

Uma das formas mais abrangentes do poder é aquela que se propaga pelos meios midiáticos de massa, os quais implantam sorrateiramente seus interesses. O cinema, a fotografia, a televisão são eficientes manipuladores de emoções, criando desejos e sentimentos em prol de interesses ideológicos, políticos e econômicos. A fotografia sobretudo, é extremamente poderosa pois carrega uma intrínseca ligação ao objeto fotografado. Pensamos a fotografia como o congelamento “eterno” de um momento que existiu, mas não existe mais no mundo real: o referente tem a sua existência congelada na foto. Filósofos como Roland Barthes ou Walter Benjamin realçam o “espanto” do objeto fotografado ter obrigatoriamente existido; em oposição à pintura, por exemplo, que pode criar seus objetos retratados.

Como explica o teórico brasileiro Boris Kossoy em seu livro Fotografia e História, a sociedade contemporânea se baseia hoje enormemente nos estímulos visuais, sendo a imagem considerada em muitos casos como uma realidade factual inquestionável. Isso é uma ilusão pois a fotografia tem um discurso específico com finalidades e intenções que devem ser sempre analisadas e consideradas.

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“Revista de Yale: É possível a câmera mentir?
Walker Evans: Certamente. Na maioria das vezes ela mente.”
Yale Alumni Magazine, 1974

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A Farm Security Administration foi um organismo criado em 1935, após a crise americana de 1929, durante a presidência de Franklin D. Roosevelt. A FSA era encarregada de documentar com imagens o impacto da Grande Depressão na América rural. Este registro fotográfico durou até 1943 e contou com o trabalho de inúmeros fotógrafos extremamente qualificados como Walker Evans, Dorothea Lange, Theodor Jung, Louise Rosskam, Ben Shahn, Sheldon Dick, Jack Delano, Russell Lee, Gordon Parks, entre outros.

 

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Walker Evans, Estúdio Fotográfico, NY, 1934

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A FSA tinha como objetivo ilustrar e embasar as necessidades e a importância dos programas econômicos do New Deal (programa pensado por Roosevelt para combater a crise). Os fotógrafos recebiam ordens explícitas e instruções detalhadas do que precisava ser mostrado ao grande público, mesmo tendo uma certa liberdade de campo. Não era tanto a estética que contava, mas o conteúdo: tudo tinha de ser justificado e refletir na edição dessas imagens. Sendo um departamento governamental, o empenho da FSA era de enquadrar o processo documental com diretrizes propagandistas. Porém, frequentemente, os fotógrafos ilustravam exatamente o oposto, sobretudo o rebelde Walker Evans.

Walker Evans foi um dos mais importantes fotógrafos americanos, o precursor da fotografia documental americana. Com um estilo direto e literal, com enquadramento frontal e simples, suas imagens retratam o vernáculo americano. Objetos populares, rostos comuns, fachadas de prédios banais, cruzamentos de estradas; o que interessa ao fotógrafo são os pequenos detalhes comuns, utilitários, quase invisíveis da cultura americana.

Junto ao FSA e seu diretor Roy Stryker, Evans teve alguns atritos, saindo definitivamente da agência em meados dos anos trinta. Evans negava categoricamente qualquer agenda de propaganda política, culminando com sua negação a assinar um contrato onde isso poderia constar. Além disso, ele nunca se preocupou com as diretrizes da agência, usava uma câmera de negativo 8×10 ao invés da portátil 35mm, demorava muito tempo para enviar imagens e, quando o fazia, enviava os negativos que não gostava para Washington, guardando em seu arquivo pessoal as obras que o interessava.

A FSA tem sido objeto de grande controvérsia em relação à sua objetividade: era simplesmente informação e documentação da vida rural, um espelho no qual a América poderia reconhecer a si mesma, ou um canal de propaganda? Esta questão era particularmente crucial durante os anos trinta, quando duas outras potências mundiais – a Alemanha e a União Soviética – cresciam em relação aos EUA, aumentando os esforços de seus governos em controlar o fluxo de informações, interno e externo.

Em 1936, Evans sai da FSA e continua sua carreira, até o início da década de setenta, registrando o cotidiano americano e criando uma enciclopédia visual da América moderna em construção. Ele documenta o metrô de Nova Iorque, as habitações campesinas… Em 1937, ele se junta ao escritor James Agee em um projeto que resulta no livro Let us now praise famous men, onde eles conviveram durante meses com famílias rurais americanas do Alabama. O livro, lançado em 1941, é um clássico da fotografia documental.

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“Documentário: essa é uma palavra sofisticada e enganosa, e não muito clara.
O termo deveria ser estilo documentário; afinal, um documento tem um propósito, enquanto a arte é inútil.”
Walker Evans

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Walker Evans, Allie Mae, Connecticut, 1934
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Se o documento tem um propósito, qual seria o intuito do FSA? Hoje o arquivo fotográfico da FSA, mantido na Biblioteca do Congresso Americano, contém 178 mil negativos P&B, 107 mil impressões fotográficas e 1.610 dispositivos. Seus fotógrafos são considerados artistas da fotografia documental que retrataram a realidade “nua e crua” de uma época intensa, e as imagens são vistas hoje como documentos históricos e artísticos, participando de inúmeras exposições ao redor do mundo. No entanto, na maioria das vezes, esquece-se de mencionar a motivação política por trás das impressões “documentais” e a clara intenção de controlar o grande público.

Estamos propensos a muitas distorções da realidade. A rede de imagens que nos cerca é tão densa, tecida de forma tão intrincada, que é quase impossível não ceder a uma invasão de mentiras, ou meias verdades. Se o truque for praticado de modo convincente, não há como escapar. Muita gente acredita que o fotojornalismo é um registro fiel da realidade, como um indicador de que “isso aconteceu”, como se a imagem fosse a prova da existência de um fato. Mas cuidado: toda imagem é uma representação elaborada dentro de uma estética, uma cultura, um ideal e uma técnica e não pode ser compreendida isoladamente, desvinculada de seu processo de construção, edição e veiculação.

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Walker Evans, Restaurante do Paul, NY, 1934

 

 

 

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*Ioana Mello é carioca, formada em Publicidade e Cinema, com mestrado em História da Arte e Estética e Arte Contemporânea e pós graduação em Arte e Filosofia e Mercado de Arte. É sobretudo uma apaixonada por fotografia, trabalhando sempre em torno da imagem, seja em festivais e galerias de fotofrafia, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com

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