Submundos | Quando o psicanalista atravessa a rua (Ou, porque quando respiramos deixamos a neutralidade analítica)

 

 

Por Marcelo Veras*

 

 

Pouco importa os anos de análise, os textos publicados ou os pacientes na clínica. Ao atravessar a rua, todo analista deve olhar para a esquerda e a direita. Para justificar minha opinião eis o tríptico:

1- Conversando sobre impossíveis e as telecidadanias

Na educação, na política e na psicanálise o impossível está presente, ao menos é essa a proposta freudiana. Nem sempre é fácil identificar, tanto no mundo como nos nossos consultórios, o que é impotência e o que é impossibilidade. Há uma aversão ou recusa do impossível na contemporaneidade. A degradação do impossível à impotência faz com que esse três domínios do impossível sofram suas consequências. Na educação, passa-se do impossível à educar para um ensino que tem como vocação maior a inserção no mercado, sem nenhum compromisso na formação crítica. Na política, passa-se da exigência de formar uma consciência política que acolha a alteridades para sua redução em mera doutrinação a-crítica. Já na psicanálise, somos confrontados a sujeitos com tolerância zero à frustração, submetidos a uma exigência de uma imagem de sucesso, levando cada vez mais a procura de tratamento do sofrimento subjetivo pela lógica do coaching

Nesse caldo azedo, há ainda um inquietante fenômeno moderno, que é a doutrinação pelas mídias atuais. Essa mídias são mais agressivas pois não seduzem apenas pelos escritos, discursos e mecanismos clássicos de identificação na formação de massas. Há, acima de tudo, o componente aditivo que faz com que o sujeito, passivo diante da televisão, assista compulsivamente o noticiário das 8, das 9, das 10, sem se dar conta que o “mesmo ” em questão não vem da notícia, e sim da pulsão. Assim, o noticiário televisivo produz uma estranha massa ao combinar identificação e submissão aos significantes mestres impostos e reiterados com um dispositivo de sublimação da pulsão sexual. Quem sabe um pouco mais de sexo e menos Globonews ou CNN faça bem ao telecidadão

2 – Zadig e o Corridor de la tentation

Há um capítulo intitulado “A dança”, no final de Zadig – de Voltaire – que parece retratar questões muito atuais, aliás o que sempre acontece com Voltaire. 

O rei Nabussan pede ao sábio Zadig que lhe ajude à encontrar um Tesoureiro honesto. O sábio faz uma proposta. E assim, os 64 candidatos devem inicialmente passar sozinhos por uma sala onde se encontram todos os tesouros do rei. E assim todos procederam. O que não sabiam é que em seguida teriam que dançar na frente de todos.

Como assim? Pergunta o Rei, por quê dançar?

Eis que todos começam a dançar horrivelmente, desajeitados, pesados, e só então se percebe que todos estavam com os bolsos repletos de peças de ouro. Apenas um dançou levemente e com altivez, sua roupa de seda estava leve e não possuía ouro algum consigo. Foi difícil resistir ao charme dessa sala que Voltaire chama de Corridor de la Tentation.
Zadig encontra ao final um homem virtuoso para servir ao rei. Quem dançará mais leve em Brasília, haverá alguém que possa dançar nu ao sair do Corridor de la Tentation?

3 – O cidadão analista

Que a psicanálise se inscreve na cidade é um fato consumado. Hoje é possível saber com que ferramentas um psicanalista pode se servir ao dialogar com a psiquiatria, com o discurso jurídico ou mesmo, sentado nas calçadas, com os consumidores de crack. Quando Lacan propõe, em uma nota de pé de página dos Escritos, que a realidade seja tomada como uma fita de moebius, surge o avesso da questão. Como a cidade incide sobre o cidadão analista, aquele que supostamente deve saber que em toda formação social há um gozo insensato que escapa à doutrinação dos ideais. 

Minimamente, o cidadão analista deve se posicionar sem fazer uso da obviedade do discurso moral. O gozo e a violência da pulsão são (a)morais, ou seja, os ideais de uma cidade sem pichações, de uma política sem corrupção, de drogas apenas reguladas pelos lucros da indústria farmacêutica, fazem parte da utopia de uma polis higienizada por um esforço coletivo de sublimação sem restos. 

Como cidadão, por sinal também analista, sou um conversador. Conversar quer dizer também escutar. Com o tempo venho percebendo que há várias maneiras de estancar uma conversa. Uma delas é conduzir a conversa para denominadores comuns, daqueles que aniquilam qualquer diferença entre ácido e básico, esquerda e direita, Voltaire e Rousseau, e por aí vai.

Ultimamente um dos maiores denominadores comuns é “Não tenho partido, tenho um país”, ou “Queremos acabar com a corrupção”. Fico pensando, há alguém que ouse dizer em público, “Quero corrupção” ou “Acabemos o país”? Isso apenas mostra como entre a enunciação e o recalcado há um mundo. 

Como muitos colegas, me bato diariamente contra o lacanês, aquele jargão que cala qualquer interlocução. Assim, quando tento conversar sobre política, percebo que nada é mais hipnótico do que o eixo a-a’ das pequenas diferenças ( quem roubou mais, quem foi mais corruptor…). 

Ora, um programa político é muito mais do que a (má) qualidade dos políticos. Estão em jogo valores essenciais como a qualidade da educação, da saúde, dos direitos humanos, valores que deveriam ir além do banal comércio da corrupção generalizada. Prefiro pensar que um cidadão atravessado pela psicanálise saiba distanciar-se das miragens que apagam diferenças irreconciliáveis em um Brasil tão grande.

Como pensar que meritocracia é apenas dar oportunidades iguais para populações desiguais? Como pensar que caminhamos no bom sentido e ao mesmo tempo vemos a escalada crescente de mortes de jovens, de pretos, de trans, de homos, de mulheres, und so weiter…?

O cidadão analista pode ser aquele que sabe elevar o objeto dejeto de uma cidade à dignidade de um discurso. Fazer falar o que se quer calar, e não fazer coro ao que quer se identificar

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

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