Submundos | Como produzir um linchamento

Por Marcelo Veras*

Ao afirmar que um gozo incomunicável se infiltra em toda comunicação, Lacan reitera sua tese de que não há comunicação sem mal-entendidos, e que o único modo de ultrapassar essa condição estrutural da fala é através da crença de que há um sentido comum. Tal crença é difícil de ser sustentada, naturalmente, uma vez que tudo leva à sua inconsistência. Ou seja, sem o Outro, não nos entendemos. O problema é que a consistência desse Outro é sempre uma estrutura de ficção.

Onde mais percebemos a incomunicabilidade dos corpos é no sexo. Nossas primeiras experiências sexuais não foram programadas pelos códigos do que é certo ou errado. Há, desse modo, sempre um desencontro entre o gozo experimentado no corpo e o tratamento simbólico que vem, como resposta do Outro, tentar esclarecer os mistérios do corpo sexuado. Configura-se, portanto, um núcleo de solidão e incomunicabilidade sexual que se fará presente no escândalo lacaniano da célebre afirmação: “não há relação sexual”. Na teoria lacaniana, que passou por várias etapas, essa frase foi proferida em perfeita coerência com os desenvolvimentos em torno de conceitos como a “lalíngua” e a “apalavra”, neologismos lacanianos dos anos 70.

Essa solidão nos traz um desafio. A definição de humano como categoria universal fixa o sujeito como um ser social, que se humaniza precisamente através da experiência da linguagem e do contato com o Outro. Mas, como diz Lacan, o ser é habitado pela lalíngua, os ruídos que fazemos com o corpo e que são a prova mesmo de que o corpo vivo se distingue da comunicação. Isso provoca imediatamente um complexo giro na relação entre o que pode ser definido como fala e o que pode ser definido como comunicação. É como entendo o neologismo falasser de Lacan: um ser que experimenta, em sua própria essência, a linguagem em seu limite último, exilada de qualquer significação.

A inversão que se produz, a partir dessa concepção de falasser, é que aquilo que faz Um, ou seja, aquilo que dá ao sujeito a certeza de existir, passa a ser vivido como um corpo estranho ao Eu que fala, pois as palavras nunca dão conta daquela primeira experiência de gozo, sempre ficando um resto que não consegue ser alcançado pelas palavras.

Isso aproxima o pensamento lacaniano do Tao chinês, como mostram os versos do velho sábio Lao Tzu:

juntaram-se uma vez ao um:
“O céu ao juntar-se ao um tornou-se luminoso
a terra ao juntar-se ao um tornou-se estável
as forças naturais ao juntarem-se ao um ficaram poderosas
os vales ao juntarem-se ao um tornaram-se plenos
os que governaram, ao juntarem-se ao um,
tornaram-se autênticos chefes sob o céu”

Da perspectiva do falasser, o laço social não é ordenado exclusivamente pelo discurso e pelas trocas da intersubjetividade e inclui, para além da significação das palavras, o modo como estas vibram no corpo como instrumentos de gozo. Não se trata do corpo que serve para trocas imaginárias ou que pode ser falado através de palavras. Trata-se do corpo que funciona como obstáculo ao laço social, no que ele tem de eminentemente incomunicável e que resiste à significação. Todo discurso totalitário tem aversão ao que não faz parte de seus códigos. O que mais incomoda é o modo de gozar do vizinho.

Por isso me causou espanto que o discurso de um deputado de extrema direita seja acolhido com palmas em pleno reduto da sociedade hebraica. Isso mostra uma outra vertente do laço social que não passa pela identificação ao líder ou o apego a determinado discurso do mestre: algo muito mais perturbador entra em jogo aqui. Explico através de um outro exemplo recente. Na semana passada circulou nas redes sociais que um casal vinha sequestrando crianças em uma cidade do sudeste. Bastou a divulgação dessa notícia para que um casal em seu carro, estranho a uma população local, fosse alvo de linchamento e por muito pouco não fosse assassinado. É possível que os primeiros linchadores tivessem ainda em mente a ideia de que teriam encontrado o casal criminoso, mas o movimento que se seguiu, e que pode ser visto na internet, mostra que em instantes uma população ávida de linchamento participava sem saber do que se tratava.

A comunhão do discurso de extrema direita do deputado e parte da sociedade hebraica mostra que, para além dos discursos, uma conjunção heteróclita fez surgir o objeto da segregação. Quanto mais sem sentido, quanto mais estranho aos discursos, mais chances temos de esse objeto ser eliminado, numa vã tentativa de eliminar o gozo perturbador que desde a infância nos habita.

Como afirma o psicanalista Jacques-Alain Miller, ninguém melhor do que o louco para denunciar a ironia de que o laço social, no fundo, é uma escroqueria – já que o Outro que garantiria o laço social não existe – e que todos nós estamos sós no momento em que apostamos na humanização do outro com quem partilhamos o estar no mundo.

Se por um lado a clínica psicanalítica é o avesso dos movimentos de massa, o momento para a aproximação dos dois no mesmo campo de trabalho é dos mais oportunos. Nenhum significante mestre do momento está à altura de pacificar o coletivo sem restos. É preciso, em qualquer discurso, sermos um pouco mais humildes e aceitar que algo será perdido. Podemos estar unidos em nossos ideais, mas sempre solitários em nossas perdas.

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

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