Submundos | A velhice entre o real, o simbólico e o imaginário

Por Marcelo Veras*

 

São muitos os fatores para que estejamos encurralados entre as exigências da própria vida e a velhice de nossos pais. As famílias do passado tinham seis, nove, mesmo doze filhos. Nessas grandes famílias, um virava doutor, um morria atropelado, um dava pra beber; um pouco de tudo se diluía nas expectativas familiares. Tudo muda com o afunilamento das famílias. Hoje, um casal que se arrisque a ter três filhos já é considerado um casal corajoso. Se em 1940 a taxa de fecundidade no Brasil era de 6,16, em 2015 atingimos 1,78. Isso contando com todo o território nacional. Paralelamente, a expectativa de vida que em 1940 era de 45,5 anos, em 2015 passou para 74,68 anos. Ou seja, os números são o retrato de um novo tema, invariável na maioria dos nossos pacientes, a velhice dos pais.

É quase um anagrama: ávida vida. Nossa avidez, contudo, não é de vida, é de juventude. Acontece que envelhecemos e duramos, muito mais do que a razão em nossos cérebros previa. Enquanto o número de filhos encolheu, os pais sobreviveram. Ninguém mais sabe o que fazer com seus velhos pais e avós. A velhice é um pouco de tudo; decadência, fragilidade, debilidade, isolamento, separação, objetalidade. Pensei em como poderia abordar a questão do envelhecimento a partir da última clínica de Lacan.

As separações, a perda da memória, a proximidade da morte, tudo leva a pensar que o que dá consistência ao Eu está prestes a se desenlaçar. Lacan trabalha as questões da vida em um rebatimento dos nós em uma superfície bidimensional, o que nos permite pensar a velhice e a demência senil a partir do Real, do Simbólico e do Imaginário.

Normalmente, não coloco gráficos e matemas em meus textos aqui no Blog, mas hoje achei que valeria a pena. Falarei de modo simplificado, espero. Trago uma imagem de uma conferência de Lacan chamada “A terceira”, que está publicada na revista Opção Lacaniana, número 62.

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E o que essa imagem nos traz? Nossa existência supõe que a carne, a matéria de nossa chegada no mundo, encontra todo um universo familiar simbólico que antecipa o próprio nascimento. Houve quem apostasse no trauma físico. Sem dúvidas, quando chegamos no mundo, células, fibras e neurônios encontram mudanças no ambiente real. O conforto do útero é substituído por um ambiente inóspito. Essa é a teoria de Otto Rank, a existência de um traumatismo no nascimento de origem corporali [1]. Mas não é esse o trauma que importa para Lacan. É do real do corpo e do universo simbólico que lhe antecede que emerge um ser único, consistente e capaz de se identificar no espelho e se dizer “eu”.

O que chama a atenção é que algo funciona como furo de cada um dos registros lacanianos. Temos, de início, o Real. E o que é mistério para o real – nesse gráfico, o real da psicanálise se aproximando bastante do que é o real da ciência, ou seja, o real em seu conjunto de átomos, células e substâncias químicas. O que faz furo, o que é mistério para esse real, é a própria vida, a vida que se forma e que se esvai com o encontro dessas substâncias. A vida fura o real, como na frase que poderia propor desse modo: do pó do real viemos, para o pó do real retornaremos.

Temos, em seguida, o simbólico, terreno em que encontramos as histórias escritas que nos precederam, que anteciparam a emergência nesse pó do real daquilo que chamamos vida, histórias que também escrevemos e que serão lidas por outros. O que faz furo no simbólico, em todas as épocas, em todas as culturas? A morte, sem dúvidas. Por mais que falemos que todos os homens são mortais, por mais que atravessemos milhares de anos de religião, a morte é um furo em nossas palavras. Como dizia Bobbio, a morte é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.

E, por fim, o que faz furo no imaginário? O mistério que escapa ao imaginário é o modo como saímos da fase em que catamos as diversas peças avulsas das imagens que encontramos ao nascer para, daí, formarmos um “eu”, uma unidade, um corpo. Nosso corpo, a percepção de unidade de nosso corpo, aquilo que nos faz singulares, é o mistério do imaginário.

Mas, percebam que há zonas de interseção entre esses três círculos. E o que o envelhecimento tem a ver com isso? Enquanto o sujeito se diz “eu”, ele tenta dar consistência à sua vida. Com a velhice, o corpo nos escapa cada vez mais, ou seja, o imaginário, a todo o momento, aponta à ruidosa separação entre nosso desejo e nosso corpo. Por isso, gosto de dizer que envelhecer é se afastar cada vez mais dos pés.

Por outro lado, com a velhice, aquilo que fazia furo no simbólico, aos poucos vai tomando aspectos de precipício. Um encontro inevitável, cada vez mais próximo. Sem dúvidas, essa proximidade não deixa impactar nas ações de nosso desejo. Trata-se do “duro desejo de durar”, do poeta Paul Éluard.

E o que vai por último? Sem dúvidas é a vida, que, em algum momento, retorna ao pó do real. Com a senilidade, percebemos que o nó da existência ganha novos contornos. O interesse pelo mundo das trocas simbólicas cede lugar para as memórias antigas. Os protagonistas empalidecem, um a um vão perdendo seus nomes e se tornando apenas alguém que sustenta a relação imaginária. Aos poucos, desaparecem os nomes dos netos, das noras, depois dos filhos, toda a tensão entre o corpo e o simbólico parece se atenuar. Por fim, o corpo não se reconhece mais no espelho, mas a vida insiste, ou resiste. Devemos todos estar preparados para essa clínica que é um misto de psicanálise, resgatando o desejo, e terapias cognitivas, resgatando a funcionalidade imaginária. Caso contrário, a medicina prolongará enormemente o real da vida, mas onde estará o sujeito?

 [1] Das Trauma der Geburt und seine Bedeutung für die Psychoanalyse (1924)

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

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