Sobre uma menina só

 

 

Por Marcelo Veras*

Sou pai de 3 filhas e, como muitos, experimentei a compaixão por essas mulheres vítimas do estupro tendo como espelho meu próprio círculo de mulheres que amo. Minha referência de paixão sempre foi Baruch Spinoza, ou seja, a compaixão é mais do que o intelecto, é sentir um fato como se este ferisse a própria carne. Feridas na carne, as mulheres deixam de ser alvo de uma misoginia no plano das ideias, elas passam a ser o limite último entre as palavras e as coisas. Ali onde as palavras não bastam, resta o ato supremo de destruição da própria carne alheia. Pergunto-me sobre a origem de tal ato de destruição.

Recentemente comentei sobre atos, no caso falando da negação do nome aos transgêneros, como algo monstruoso. No caso dessas pobres meninas reduzidas à objeto de destruição, não me sinto confortável em chamá-los, os estupradores, de monstros. Dito isso, não tiro deles a responsabilidade que lhes cabe. Mas a responsabilidade em jogo é muito maior do que reduzir o mal aos trinta estupradores e pensar que a sociedade precisa simplesmente eliminá-los. Esse pensamento é redentor, teríamos a vingança encarnada, carne por carne. Esses trinta também virarão carne nos presídios e todos passarão pela experiência de ter a alma lavada. O mais inquietante, contudo, é que os verdadeiros fatores que permitem que o aumento dos estupros, crimes homofóbicos, crimes raciais ou contra os loucos ocorra fica esquecido por trás dessa redenção.

Aqui tocamos no ponto mais doloroso da questão. Não se trata de 30 malditos, mas de uma cultura que abriu a porta para que qualquer objeto de segregação seja descartado, submetido, estuprado e eliminado. Pensar a cultura da segregação como uma sucessão de crimes insensatos é a melhor maneira de ocultar os verdadeiros responsáveis. O que ocorre no Brasil é muito sério, passou-se a tolerar que os discursos do ódio e da eliminação pudessem circular sem vergonha. O declínio da vergonha, consequentemente do sentimento de culpabilidade, liberou o que de pior toda sociedade tem na base mesma de sua constituição. O homem não é bom, como pensava Rousseau.

O mal, e esse é uma das condenações freudianas, sempre esteve entre nós. Basta abrirmos a porta da maldade e da obscenidade e crimes em escala cada vez maior ocorrerão. Em suma, o discurso homofóbico não é uma ataque aos gays apenas, ele também induz o estupro sem culpa. A cultura psiquiátrica manicomialista afeta também os negros. O desprezo pelos artistas afeta também os cientistas. A separação dos discursos do ódio, que tenta fazer do ódio um ódio específico de um único objeto, é uma falácia.

Quem tem ódio e o deixa correr solto, terá ódio por toda a humanidade. Quando alguém diz que tem ódio à X, X é apenas a porta de entrada que o leva ao pior. De uma lado temos o ódio e a sede de segregação e submissão, do outro, alguém reduzido a simples objeto, carne a ser usada e eliminada. A compaixão ocorre quando despertamos do ódio coletivo e redescobrimos a verdade de nossa existência condenada à morte. Para além dos 30 estupradores, culpo os fomentadores do discurso do ódio e desprezo pela diversidade humana como os verdadeiros autores do crime. O pior é que eles não terão culpa alguma, para eles sempre a culpa estará nas provocações de uma menina só.

 

*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise

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