Sobre Carlos Drummond de Andrade

Por Luiz Dolino*

Meu Caro Mindlin.

Atendendo ao seu pedido, fiz um relato do que, sem esforço, me veio à memória sobre a minha relação com Carlos Drummond de Andrade. Certamente, essa história não é exatamente a que contei ao Cançado. No meu encontro com o biógrafo do Poeta, limitei-me às suas perguntas dele. Não adiantei nada sobre qualquer assunto que ele não tivesse manifestado preocupação.

P.S Não sei se você sabia que Carlos Drummond de Andrade tinha no seu registro civil e carteira de identidade o nome de Carlos Drummond Andrade (sem o “de”). Disse isso ao Cançado, que não se interessou pelo detalhe.

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Minha convivência com Carlos Drummond de Andrade se deu entre 1979 e a sua morte. Em janeiro daquele ano, fui à sua casa na rua Conselheiro Lafayete, em um final de tarde, para levar-lhe uma encomenda enviada por Maria Julieta que, como eu, vivia então em Buenos Aires.

Sobre o meu conhecimento e intenso convívio com a sua filha, deixo como depoimento o texto dela própria, escrito especialmente para o livro publicado em 1985 pela Universidade Federal Fluminense a propósito do meu trabalho como pintor.
A visita que fiz ao Poeta no verão de 79 transcorreu num clima de certa tensão. Mesmo eu havendo prevenido e marcado, como é do meu feitio, quando cheguei ao apartamento encontrei somente Dolores, que me recebeu calorosamente, dizendo que o Carlos estava por aparecer a qualquer momento. Assim foi.
Um tanto esbaforido e assustado, como se a minha presença o surpreendesse, Carlos envergava um blazer de veludo verde escuro, de corte antiquado, não por ser velho, mas consequência dessas roupas muito modernas no dia da compra e que, passada a moda, envelhecem rapidamente. Esse blazer chamou-me a atenção ainda mais pelo despropósito de portá-lo com o calor que fazia.

Procurou ser gentil comigo, até porque sabia muito bem da importância da amizade existente entre Maria Julieta e eu, cujas trocas efetuávamos sem reservas, escancarando, portanto, a intimidade de Carlos. Atribuí a isso o quase mal-estar que a minha visita aparentemente causava. Depois, com a convivência dos anos seguintes, pude ver que esse fenômeno pânico se desencadeava por muitos fatos, de maior ou menor relevância, segundo o mood do Poeta ou da natureza do assunto.

Como fã, deixei-lhe, na ocasião, a minha primeira edição de sua Obra Completa, onde transcreveu dias depois um poema, com generosa dedicatória.

Exerci essa atividade de correio entre Buenos Aires e Rio de Janeiro durante muito tempo ou sempre enquanto residíamos, Maria Ju e eu, na Argentina. Nas oportunidades subsequentes foi-me permitido um trânsito mais íntimo na casa, o que significava poder ficar onde desejasse, seja na sala ou no escritório, que me foi também franqueado.
Em 1980, as visitas ao Rio de Janeiro eram tão frequentes que, para maior conforto familiar, resolvi adquirir um pequeno, mas muito funcional e bem localizado, apartamento na rua Barão da Torre em Ipanema. O prédio estava em final de obras e, por isso, as facilidades para a sua compra eram consideráveis. Fiz o negócio e insisti com Maria Ju para que imitasse a minha iniciativa, quando menos pela operação comercial em si. E assim foi feito.
Viramos, Maria Ju e eu, vizinhos no Rio de Janeiro também, mais próximos ainda que em Buenos Aires. A partir disso, era mais comum encontrar o Poeta, sempre com Dolores, na Barão da Torre, seja no 704 de Maria Julieta ou no 1001, meu. Ainda nessa época, mais que nunca, sempre o correio, encomendas, embrulhinhos, malas, regalos “y otras cositas” vindas da Argentina.

Esse apartamento, comprado assim, um pouco na base do impulso, respondia de certa forma à atividade de conselheiro financeiro, e mesmo de agente, que fui assumindo gradativamente com relação às economias de Maria Ju. Essa função, mais tarde, foi estendida também ao Poeta, no que se referia às suas poupanças. Pai e filha confiavam plenamente nas indicações e ações que eu criteriosamente formulava, com base nas conexões que mantenho com o chamado mundo dos negócios. Foi assim até a morte de ambos.

A Barão da Torre veio a ser o endereço de Maria Ju no Brasil, após o seu regresso definitivo em 1983, ocasião em que eu também abandonava Buenos Aires, transferindo-me para a África.
Nos dois anos que se seguiram, nosso convívio foi reduzido por força da distância geográfica que agora nos separava. Convivíamos em breves períodos de férias e falávamos constantemente ao telefone, ora por saudade pura ora para decisões acerca do portfolio familiar que eu continuava a cuidar. Em 1984, Maria Ju fez uma visita ao casal Azeredo da Silveira, embaixadores em Washington. Encontramo-nos nessa oportunidade e percebi, então, claramente, que a minha frágil amiga brindava-se com um último grande souvenir.

Para Carlos, a viagem de Maria Julieta não poderia ser explicada sob esse prisma. Apesar da objetividade com que ele sempre tratou o tema da doença de sua filha comigo, ao abordá-lo com as minhas apreensões sobre aquela Primavera na América, o Poeta desviou imediatamente o curso da conversa. Nesse tempo, eu já sabia o que lhe agradava e quanto e quando. Desconversei mas não me iludi. Nem ele, por certo.

II

No Brasil, quem nesse tempo deu alguns sinais de fraqueza foi Dolores, habitualmente a figura rochosa do trio. Falamos, Carlos e Maria Ju, sobre o assunto. Sugeri a visita domiciliar de um médico e ofereci para trazer um primo e compadre, jovem e competente professor titular de Cardiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre nesses detalhes somente porque me parecem ilustrativos do caráter e do comportamento do Poeta.
O médico foi comigo à Conselheiro Lafayete, levando, inclusive, um equipamento relativamente pesado. Finda a consulta, o Poeta levou o doutor para o escritório e lá ficaram os dois um bom tempo. Na saída da conferência, diz Carlos sorridente: Dolares (era assim que ele brincava – DolAres) é quem vai me enterrar! Despedido o médico, demorei-me um pouco mais na visita e soube, aliás como eu esperava, que não houve cobrança de honorários. Relatei tudo depois à Maria Ju, que comentou: “pena seu primo não ter cobrado, papai jamais voltará a chamá-lo”.

Em 1985, voltei a viver no Brasil. Era perto do Natal, que acabamos por celebrar juntos, com direito à troca de presentes. De Carlos recebi uma edição do seu Don Quixote feita no México, onde fez constar uma derramada dedicatória. Comentei brincalhão o excesso do seu escrito. Ele, na hora, pediu o meu volume de sua Obra Completa, então já autografada, e levou-a com ele. Tempos depois devolvia o livro com o seguinte comentário: só esta é minha “verdadeira” obra completa, pois manuscrevi uns versos que só existirão no seu exemplar.

A partir dessa época, teve início um tempo em que as doenças começaram a apertar o cerco. Por outro lado, o cenário era de um Brasil caótico; morte de Tancredo; instabilidade no ar. A análise de Carlos era sombria. Temia por tudo, até por um confisco que veio sim, mas depois de sua morte.
Com muito tato, falei, pela primeira vez, em mandar alguns recursos para o exterior, protegendo assim parte do seu patrimônio, ou pelo menos seus ativos líquidos. O Poeta reagiu mal, alegando que tudo o que tinha devia ao Brasil e aqui deveria permanecer. Aos poucos, com muita argumentação, lentamente rendeu-se. Abri para ele uma conta em banco suíço.

E mais uma vez preciso justificar o meu relato. O detalhe sobre essa operação vale por ser revelador daquela personalidade. A conta foi aberta com um pseudônimo como contrassenha. A escolha de Carlos foi, então, consagradora de dois dos seus afetos: Mário Flag seria o titular fictício. Os dois poetas do seu coração foram assim invocados, como que apadrinhando a atitude que a princípio ele havia repudiado.
Ainda no capitulo das atividades comerciais e financeiras do Poeta, há um fato que também muito me ajudou a compreender aquela alma justa e atormentada.

Maria Julieta estava péssima. Passávamos as tardes lado a lado no hospital velando o sono profundo de nossa querida. Um dia, bruscamente, ele me fez um sinal para que saíssemos do quarto. No corredor, isolados, de uma forma muito sua, direta e sofregamente, comentou: acho que o fim está próximo. Meu silêncio concordava com a sua avaliação. Perguntou-me, então, pela primeira vez, como ficariam as reservas de Maria Ju, caso aquele estado comatoso se alongasse. Expliquei sumariamente e adiantei-lhe uma preocupação: minha procuração não permitiria movimentações expressivas ou totais. Sugeri que, imediatamente, transformássemos as contas individuais em conjuntas, atribuindo também a titularidade ao Pedro Augusto, seu neto. Carlos concordou com o alvitre. Teríamos, para tanto, que colher a assinatura de Maria Ju em um dos seus próximos e cada vez mais raros instantes de lucidez. Posso dizer que foi muito penoso conseguir contornar esse empecilho.

III

Salto o penoso capitulo da morte de Maria Julieta, que logo sobreveio.

Nos dias que se seguiram – foram doze no total – estive com Carlos muitas vezes. Acho que diariamente, para fazer companhia ou para tomar decisões como procurador que era de ambos.
No fim de semana, como de hábito, retirei-me para Petrópolis. No sábado pela manhã, Pedro me telefona e diz que Carlos estava internado desde aquela madrugada. Adiantou-me que tudo estava sob controle, segundo o parecer da médica Elizabeth Freitas. Manifestei, então, a minha intenção de descer. Pedro disse-me que não via essa necessidade, mas que o próprio Carlos havia pedido que me avisassem. Não hesitei. Naquela mesma tarde, estávamos todos reunidos no Pró-Cardíaco de Botafogo: Dolores, os três netos e eu, com Ismélia, minha mulher.

Estive alguns minutos no CTI. Carlos estava muito agitado e fazia um visível esforço para se comunicar e, nessa luta, parecia querer sentar-se, o que os aparelhos e soro impediam. Havia à sua disposição um pequeno bloco e caneta. Este material foi-lhe oferecido e ele tentou usá-lo sem sucesso. Sempre muito agitado, ouviu o neto Carlos Manoel dizer: calma Carlos, calma, logo estaremos de volta à Conselheiro Lafayete, ao que o Poeta respondeu com um gesto de uma nítida “banana”.

Momentos depois foi profundamente sedado. Nunca mais voltou à tona. Passou assim o domingo e na segunda-feira, por volta das três horas da tarde, o médico de plantão nos informou, ao Carlos Manoel e a mim (únicos naquele momento no hospital) que Carlos só respondia a 30% dos impulsos do respirador artificial. Foi mais explicito dizendo que um paciente em condições normais deveria aproveitar 100% da ajuda do aparelho. Ficou tudo claro. O fim estava próximo.

Por volta das cinco horas, Lygia Fernandes chegou acompanhada de outra senhora e logo se dirigiu ao CTI. Carlos Manoel e eu estávamos sentados no degrau de uma escada rente à porta, de guarda. O neto estranhou o que seria uma impertinência ou invasão. Lygia deixou a acompanhante e fez menção de entrar no pequeno quarto ao mesmo tempo em que o neto fez um movimento contrário para impedi-la. Segurei o seu braço e disse discretamente de quem se tratava. Tranquilamente, retornamos à nossa posição original. Eu pude identificar aquela visitante porque há tempos Maria Ju havia me apontado sua figura em Ipanema. Carlos Manoel sabia da sua existência, mas jamais poderia reconhecê-la.

Lygia ficou a sós com Carlos cerca de meia hora. Retirou-se como chegou, em silêncio, desconhecendo-nos solenemente. Afinal, poderia ter alguma curiosidade sobre quem seriam aqueles dois sentinelas e ainda mais o Carlos Manoel, cujos olhos azuis traiam logo o parentesco tão próximo.

Logo depois das nove da noite o Poeta estava morto, os aparelhos desligados. Telefonei imediatamente e avisei ao Pedro que estava com Dolores. Vieram em seguida, trazendo o terno escuro para a derradeira cerimônia. Telefonei também para o Embaixador Antônio Azeredo da Silveira, que chegou num passe de mágica, imediatamente.
Ficamos, Silveira e eu, junto ao corpo, que estava sendo preparado. Foi feita a barba pelo enfermeiro e dei o último nó de gravata, ajustando o laço no pescoço de Carlos. Silveira recomendou ainda que o enfermeiro colocasse as dentaduras no Poeta e acrescentou: “a gente precisa cuidar sempre a aparência. Carlos parece um Quixote na sua magreza”.

A partir desse momento, também por sugestão de Silveira, aguardamos o que poderia ser alguma reação oficial à morte do Poeta. A TV Globo, de plantão ali todo o dia, já havia divulgado. Chovia muito.

Apesar de o Carlos sempre ter se manifestado contrário a qualquer homenagem, foi Silveira quem alegou que, morto, sua vontade deveria submeter-se ao que poderia ser um desejo nacional e que o país tinha o direito de cultuar suas glórias… E Embaixador sonhava. Não houve qualquer movimento ou atitude que justificasse aquela vã expectativa. Coube ao Octávio Mello Alvarenga que, então, havia se juntado ao pequeno grupo, escolher a urna. Às onze horas da noite o corpo saiu para a capela da Real Grandeza no São João Batista. Ali, fui eu quem determinou a retirada de um crucifixo da cabeceira e que se suprimissem os castiçais em volta.
Estávamos presentes, Dolores, os netos, May e Antônio Azeredo da Silveira, com sua filha Cristina, Octávio Mello Alvarenga, Ziraldo, minha mulher e eu. No meio da noite, um ou outro. Lembro de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, que ficaram um longo tempo. Só pela manhã o movimento começou.

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos

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