(sem) roteiro para um legado

Por Natasha Corbelino*

Tarefa;
Cumpre impedir que a existência tombe
Roberto Côrrea dos Santos

 

EM CASA:

(Noite. Apenas ela fala. Nua.)

O teto é o chão.

Resistência.

Ocupar e resistir.

Ocupar é resistir.

Nem creio que dormi com Portinari me olhando. Ocupa MinC, prédio tombado. Revolução, eu fui.

O mal- estar destes tempos como motor para ocupar.

Isso, é, pensa assim… vai…

Marca reunião, marca reunião. Na rua? Na rua, vai, fora. Tô temendo, poxa… Não, pára com isso. Isso, vai.

Me ocupar da cidade. Ocupar a cidade em mim.

Mas. Chega de mas. Porém, então. Porém.

Não bastaria para dar conta da angústia que.

Pára, tem que se mover. Pára, sai dessa pasmaceira. É janeiro, já. Olha a volta. Virou o ano. Resoluções.

Ultrapassar a experiência íntima e criar uma memória coletiva, um empreendimento. OK.

Mas desmonte geral? Mas 2016 não ficou pra trás? Ficou, ué. 2017 saiu na frente do que ainda dá pra piorar.

Risos. Só dói quando. UERJ resiste a Cabral. Adriana. Pezão? Ainda não. Não? Pois é.

Piorar só morrendo. Isso. Nada disso, chegou fevereiro pra me lembrar que pode piorar aqui ainda, tudo vivinha da silva. É. Mas. Chega de mas. Porém, então? Não, agora é mais +

Então, a rede e o outro. Tantos outros que estavam ali, ainda agorinha… bem aqui… (Nota mental: É preciso nomear os afetos e parcerias tensionando o fazer)

A instauração de um lugar no tempo para tentar dar nome, com arte,

ao que precisa ser nomeado, sem, apesar de.

Isso.

Recolocação entre Arte e Política. Cultura e Cidade. Invenção de nomes. Escrever a letra.

Propriedade. Autoridade. Corta. Autoria. Atravessa. A palavra “provisório” grita. Fomenta.

Vai, segue o fluxo.

Trabalhadores em movimento pelo encontro com o real da pólis, para um novo modo de produção. A produção como procedimento de funcionamento da obra criativa. Tudo

entranhado. Fomento. KD O FOMENTO, Prefeito? Grito. Parado no ar. No mar, que aqui é Rio. E água sempre fala mais alto.

Tá, depois explica melhor. Depois.

Onde corpo? Onde linguagem? Minha geração se encontra quando? Uma geração que está no que falta, no entre o que legar, o que se revela, o que se apaga, ou deve se apagar…

dever, direito, esquerda… a experimentação de tantas descontinuidades. Herança está? Quem veio? Quem trouxe? Quem foi?

O singular do artista. O plural da sociedade e do poder público. Trauma social.

Acontecimento de corpo & obra LTDA.

Brecha. Brecha. Fora, sufocar. Fora, norma. Fora tudo, o mergulho.

Repetir. Perdemos aquele-instante-para-sempre da elaboração? Cortaram. Estão cortando tudo pelos próximos 20 anos. Temer? Repetir.

Repetir. Repetir é o que tem ficado. Todos atravessam o artista. A arte atravessa todos. Todes. Hoje.

Um mapa sem tradução possível é o que está na arte. Negócio de possível é na arte.

Fogo no mapa. Ateia na cultura. Fogo na boca. Bora falar. Borandá. Ano tá começando. Vai pra rua, vai.

Traduzir o estrangeiro de cada um. Traduzir o estrangeiro de cada um?

Me traduz no Rio de Janeiro. Hoje?

metraduzrio

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NA RUA:

(Dia e noite. Falam ela e mais 253 trabalhadores da cultura. Nua e crua.)

Rio de Janeiro, 2017. Estamos aqui.

Estamos aqui atravessados pela palavra legado.

QUE LEGADO acontece como um grande convite à ação coletiva, em movimento por múltiplas obras: Cinema, Artes Visuais, Dança, Teatro, Performance, Música, Ciclo de Arte, Literatura e Psicanálise, Curso sobre a história das favelas do RJ, Debates sobre micropolítica, orçamento público, mídias e resistência, roda de conversa para uma lei da cultura no RJ. Trabalhadores da zona oeste, da zona norte do centro e da zona sul. Mais de 250 profissionais juntos, em 03 semanas, com entrada franca, estimamos um público total de 4.000 pessoas. Todos acolhidos pelo Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, Castelinho do Flamengo, pelo Oi Futuro Flamengo, pelo Tempo Glauber e pelo Aterro do Flamengo. Na última semana desta 1ª edição, a expansão para fora, para além do prédio do Castelinho já indica que nosso mapa é uma escrita em processo de eternidade, que seria a mesma, não fosse outra a cada vez que nos escutamos. Um desenho de linguagem do corpo coletivo que se dá no instante próprio da sua realização. Ambulantes pelas geografias da cidade e do estado, para que elas nos transbordem.

A partir de experiências de resistência como instrumento coletivo para darmos conta de respirar no horror diário das notícias aterradoras, idealizamos QUE LEGADO. O que nos dizem que herdamos, o que construímos como herança, o que produzimos a partir do sensível para a geografia política desta cidade, neste estado. É preciso estar na rua, circular o RJ (por ele e entre nós), ter e dar visibilidade, lugar de fala e escuta, diálogo, troca com o outro, tantos outros de nós que estamos em prontidão para lidar com o (e resistir ao) panorama do RJ (Brasil, mundo).

Realizar uma ocupação cultural transdisciplinar para diálogos no mapa do Rio de Janeiro é nossa manifestação firme, potente e representativa do que desejamos chamar de luta continuada. A reunião de quase três centenas de profissionais de atuações e mapas diversos em um único projeto traz à tona o lugar essencial da cultura para a cidade. Mobilizador e plural, é o programa cultural organizado que nos abre caminhos para o diálogo com mais setores da população. Aqui temos corpos produzindo uma experiência multiplicadora para além do discurso, como um gesto cúmplice de criação, articulação e ética.

É desejo nosso que o expressivo número de trabalhadores da cultura aqui reunidos apareça como a afirmação de um legado permanente e essencial para nossa construção cidadã. Que as obras artísticas, as ideias e os ideais – que organizamos para o tempo compartilhado com a população do RJ nesta iniciativa – fiquem ainda maiores, ampliando seus alcances, e evidenciando este setor produtivo como referência de força na economia e prioridade no planejamento público, independentemente das diretrizes partidárias de nossos governantes.

Somos uma brecha para instauração de mais possíveis na vida e no trânsito entre as regiões que habitamos_e que nos habitam, colocando em conversa muitos segmentos produtivos do RJ, sempre com foco no público, a quem destinamos nosso ato: eis QUE LEGADO. Avante!

 

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Natasha Corbelino é atriz, autora e produtora cultural, atuante na cidade do Rio de Janeiro desde 1996.

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