Régua sem fim

por Luiz Dolino*
para Mme. LLL

Conheci um tipo considerado por todos os seus contemporâneos como celebridade.
Celebridade, qualquer um sabe, é uma figura famosa, notável, de renome.
Tudo isso, realmente, ele foi.
Sua notoriedade vem do fato de ele ter sido inventor da régua sem fim.
Acho, naturalmente, que ele é, portanto, merecedor de todas as loas.
Nem por isso, entretanto, ele poderia ser comparado à Mme. Wiborowa.
Esta sim, para mim, a grande merecedora de notoriedade.
A ilustre dama mereceu sempre todos os tapetes vermelhos que, aliás, sempre estiveram postos à sua disposição.
Claro que ela nunca fez uso deles. Nunca deu um passo sobre essas passadeiras que seriam fatais para os seus costumes.
Natasha Wiborowa somente andava de patins.
Acordava e, já para os seus primeiros passos endereçados ao toalete, fazia o percurso calçada.
Isto quer dizer que já portava os patins bem encaixados nos seus pés.
Tinha uma coleção desses bizarros artefatos. Muita gente amiga, sabedora do costume dessa veneranda senhora, só fazia contribuir para o aumento da coleção.
Natasha W chegou ao Brasil em 1937. Claro, esperta, se mandou antes de Hitler invadir a sua Polônia natal. Na verdade, não escolheu o nosso país como destino. Tomou um navio no porto de Antuérpia. Como não falava nada além de polonês e o barco ostentava no costado o indicativo SS New York, não hesitou e pensou: é com esse que eu vou.
Mal sabia que tempos depois iria conhecer o samba de Pedro Caetano – é com esse que eu vou sambar até cair no chão. Não somente seria apresentada à canção como aprenderia a letra e se requebraria muitas vezes embalada naqueles compassos. Mas isso, certamente, antes de tomar gosto pelos sapatos de rodinhas.
Natasha, como milhares de imigrantes clandestinos, aportou onde jamais sonhara. No caso dela, na Praça Mauá em pleno Carnaval. Imaginou que estava chegando num país primitivo desses dos quais só tinha tido notícias em documentários igualmente primitivos sobre a Malásia, Pacífico Sul e outras plagas exóticas. Mas depois ficou sabendo de tudo e inclusive se tornou sócia-contribuinte do Cacique de Ramos, cordão carnavalesco que sempre a transportava para a cena inaugural de sua abordagem no Rio de Janeiro.
A primeira coisa que Mme. W aprendeu a dizer foi: não sei.
Entendeu logo que essa expressão curta e incisiva era de grande utilidade.
Sendo o brasileiro de natureza gentil e serviçal – mais ainda quando o personagem é importado – logo se ofereciam para esclarecer tudo que a Madame dizia ignorar, com a alegação do proverbial não sei.
Muito tempo se passou até que Natasha tomasse conhecimento da existência de Mário de Andrade, com quem inclusive tentou se relacionar, mas o grande poeta não estava para essas extravagâncias. Polaca naquele tempo tinha outro significado.
De qualquer sorte, chegou a ler Macunaíma e ficou feliz ao sacar a esperteza do nosso herói que custou, mas aprendeu aos cinco anos a dizer: ai que preguiça. Imediatamente, Mme. W fez a ligação de não sei com ai que preguiça.
Mme. W é uma figura tão, digamos, excitante (no bom sentido, porque com os seus 83 quilos não poderia mesmo aguçar o interesse de ninguém ou de poucos) e tanto é assim que eu já ia me perdendo no relato que tem como foco de interesse a personalidade luxuriante do nosso grande inventor, Artêmio Podo Beiral, PhD e membro da seita Rosa Cruz.
Não estou longe da realidade ao associar Mme. W e o Dr. Beiral.
Ele também não era brasileiro.
De pais galegos, nasceu mal o barco que os trazia zarpou de La Coruña. E esses sim, optaram e viajavam com suas economias para o novo mundo; para Niterói, lugar que já tinha recebido e dado fortuna aos seus primos que trabalhavam de sol a sol no negócio de padaria – hoje a famosa Beira(L) Mar. O nome primitivo do estabelecimento era Beiral Mar. Beiral da família e Mar porque estava numa cidade do litoral. Mas isso ficou muito complicado para a compreensão dos brasileiros que foram logo simplificando para Beira-Mar.
Os pais do futuro gênio, glória da Galícia ancestral e orgulho do povo da Praia Grande, antigo nominativo da velha capital fluminense, fizeram seu pé de meia se dedicando a vender e dar manutenção a bicicletas, triciclos e outras variantes do estilo, muito comuns como meio de transporte, sobretudo dos jovens naquele bucólico Icaraí.
Estabeleceram-se no Campo de São Bento, na Rua Lopes Trovão (José Lopes da Silva Trovão, médico, jornalista e político que deu nome ao logradouro). Ali fizeram dinheiro suficiente para devolver o jovem Beiralzinho para a metrópole, de modo a se converter em simples bacharel. Que nada. O guapo Teminho (de Artêmio) não queria saber das Ciências Jurídicas.
Partiu para as Ciências Exatas, Matemática. Grande matemático. E assim retornou à Icaraí.
Nessas alturas, seus pais já eram proprietários de três lojas/oficinas – duas no mesmo bairro e outra que não prosperou no Gragoatá.
Têmio já não seria mais chamado com essa intimidade. Nunca mais. Dai em diante Doutor Artêmio. Beiral ele não adotou porque podiam fazer uma associação imediata com o negócio de guloseimas ou de selim e guidom, onde família tinha prosperado.
Dr. Artêmio Beiral integrou grêmios recreativos e culturais. Brilhou como docente. Publicou. Fez o diabo. Bom partido, sempre driblava as moças esperando pela melhor, que acabou não chegando nunca. Solteirão, cometia poesias, sonhava com as Musas.
Um dia, teve que se defrontar com uma questão urgente e básica. Seu pai, seu Pepe, perdia muito dinheiro com o aluguel de bicicletas. Não tinha como avaliar, e por isso cobrar com segurança, o uso e o desgaste do equipamento. Confessou essa dificuldade ao filho ilustre e, humildemente, perguntou: você, que tanto sabe de Matemática, por que não cria uma fórmula para que eu a aplique ao negócio?
Teminho – o pai era o único que ainda insistia nesse tratamento – levou poucos dias para trazer a solução: a régua sem fim.
O invento poderia acompanhar todos os deslocamentos da bicicleta pela cidade e seu Pepe cobrar por quilômetros efetivamente circulados. Perfeito.
A glória de Doutor Artêmio só fazia aumentar.
Como uma estátua, ele caminhava de colete e tudo mais pela Rua Gavião Peixoto (Bernardo José Pinto Gavião Peixoto, militar e político – presidiu por duas vezes a Província de São Paulo).
Pois foi essa rua o palco do duplo infortúnio que uniu para sempre as figuras do inventor e Mme. Natasha Wiborowa.
Ele caminhando distraído, saudando os transeuntes sem lhes prestar a mais mínima atenção.
Ela esvoaçante em seus patins, apesar dos 78 anos recém-cumpridos, deslizando pelo calçamento daquela artéria movimentadíssima já em 1956.
Chocaram-se. Fraturam-se. Ele a bacia – imobilizado por muitos meses e condenado a uma cadeira de rodas. Ela a base do crâneo – morta quatro dias depois, apesar de socorrida no ambulatório da Beneficência Portuguesa, na Rua da Conceição. Dizem que a demora no socorro foi fatal. Naquele tempo o Hospital Santa Cruz (mesma coisa que Beneficência, depende da idade de quem lhe chama, porque hospital é coisa dos mais jovens) era então o melhor centro médico da cidade.
Doutor Artêmio paralítico jamais voltou a circular.
Mme. W virou lenda. Sobretudo depois que acharam nos seus guardados os papéis que revelavam sofisticados conhecimentos das artes marciais, sendo, pelo visto na documentação, que ela foi ao seu tempo uma referência mundial.
Dois gênios consagrados e que se mutilaram definitivamente, unindo seus desgraçados destinos numa sonolenta cidade nos anos 50.
Não fosse o meu esforço – tenho que confessar imodestamente – ninguém mais saberia dessa dupla que deu o que falar no seu tempo. Tanto assim que estão imortalizados em bronze, mas bem longe um do outro. Chega de colisões. Um pode ser visitado em busto altaneiro no Jardim São João. Outra, só a cabeça altiva fundida e implantada em plinto de granito de frente para o mar que tanto amava na Praça Getúlio Vargas.

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos

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