Privilégio da circunstância

por Luiz Dolino

Durante a minha larga estância em Buenos Aires, entre 1979 e 1984, pude estar com Jorge Luís Borges duas vezes. Não é pouco, considerando que o bruxo da calle Maipú já estava com mais de 80 anos, circulando, portanto, num ritmo menos acelerado. A primeira vez, na livraria Ateneu. Estava autografando o primeiro volume de suas obras completas, editado pela Emecé. Dia 25 de junho de 1980. Nesta data, eu mesmo estava celebrando 35 anos. Foi Borges quem, de próprio punho, assinalou a efeméride como se vê logo abaixo de sua firma no meu livro.

Em outra ocasião, a convite de Maria Julieta Drummond de Andrade – afeto muito particular – fiquei diante do grande escritor, que se dispôs a comemorar conosco o 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, ainda que numa celebração tardia, já que o poema apareceu em 1572.

Em muitos momentos, venho sendo agraciado com privilégios. Não me lembro de outra situação em que pude desfrutar de uma cabeça tão brilhante, como nesse encontro com Jorge Luís Borges. Cego, com olhos muito abertos, desviava a minha atenção com seu estrabismo divergente. Com uma das mãos, ia tateando a mesa em busca do copo d’água; com a outra, segurava firme o bastão de madeira, seu guia no escuro.

O discurso, a conversa do escritor vagava pelos territórios mais variados de uma suposta literatura contemporânea de Camões. Falou longamente sobre poetas persas, o que depois fiquei sabendo ser uma recorrência. Citou, recitou, divagou por muito tempo. Em dado momento, acompanhava aquela excursão tão absurda para os meus sentidos e ia pensando: talvez ele esteja caducando. De onde está, como voltar ao tema? Pois, para meu espanto, retornava.

Tempos depois, lendo, tomei conhecimento de que essa circum-navegação mental era uma das características de sua abordagem. Digressões as mais estapafúrdias eram, por assim dizer, um prato frequente no cardápio daquele gênio. Foi assim, numa dessas derrapagens, que ouvi pela primeira vez o nome de Gadda. Borges foi enfático ao mencionar o fato de ser ele apenas um aprendiz diante da capacidade especulativa desse escritor seu contemporâneo.

Carlos Emilio Gadda (1893-1973), como muito depois cheguei a me inteirar, além de romancista e poeta, é considerado dos ensaístas mais brilhantes do seu tempo. São consideradas suas obras capitais: O castelo de Udine (1934), O conhecimento da dor (1963) e Eros e Priapo (1967). A propalada técnica especulativa do italiano justificava a menção de Borges. Segundo o argentino, Gadda desenvolveu como ninguém a capacidade de analisar o texto, forçando o leitor a vivenciar a experiência (anotei essa passagem). A questão surgiu no momento em que Borges reclamava de si a insuficiente condição de, como Gadda, poder aprofundar-se no contexto e, simultaneamente, seduzir o espectador. Tudo mentira. Borges praticou ali, praticou sempre, exatamente esse figurino.

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net

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