Primeira noite

PRIMEIRA NOITE

Por Luiz Dolino

A primeira noite de Antero em Niterói deixou a marca opressiva da
angústia. Nas outras noites também, sentia um terrível e inexplicável
desconforto. Antes, ele nunca teria cogitado em sair do Acre. Nas
margens da Amazônia, seu projeto se resumia em viver da caça ao
jacaré e da perseguição a pintassilgos. Antero foi quem primeiro se
expressou sobre o perigo. Foi direto ao ponto: para seguir nessa vida
é preciso autorização do IBAMA e contar com a Lei Rouanet.

Do IBAMA ele sabia tudo, afinal Cróvis, seu vizinho, não trabalhava
lá? Sobre a outra lei, ainda pretendia se informar. Qualquer hora
iria procurar o amigo. Com essa intenção, a paz voltou a reinar. Por
pouco tempo, é verdade, porque dessa lei de Rouanet continuou
sem ouvir falar. Para ele era suficiente poder pensar que o Cróvis,
funcionário de gravata, seria a qualquer momento a pessoa indicada
para esclarecer tudo. Ficou tranquilo e continuou a comprar alpiste.

Na verdade, esquecera completamente da ameaça que lhe rondava,
até que um dia, sem que nada lhe indicasse o perigo que o indiciava
de forma tão contundente, chega um pequeno batalhão na porta
de sua casa na remota Assis Brasil. Tudo tem um lado bom: junto
com a tropa, vinha o Cróvis. A autoridade deu voz de prisão. Cróvis
interrompeu a truculência que se anunciava e garantiu não ser
necessário, afinal o acusado foi até ali um homem de bem, tão
pacífico que nunca fez nada, além de caçar e prender dois bichinhos
pelos quais nutria até certo amor.

Atordoado, Antero foi aos poucos se inteirando de que algo muito
longe de sua imaginação se armava contra sua pacata rotina. Clóvis
Arruda, auxiliar administrativo, lotado no posto de fiscalização do
IBAMA, que funcionava no mesmo prédio anexo à prefeitura, onde
também trabalhava o pessoal da FUNAI, foi sua salvação. Com toda
paciência, pediu ao sargento Tenório que deixasse a questão por
conta dele e que aguardasse 15 minutos, antes de consumar a prisão
de Antero.

Foi então que puxou Antero pelo braço e foi logo dizendo, com
ares de patrono: meu amigo, você vai escapar dessa vez, mas, por
favor, amanhã mesmo você vai sair dessa cidade, pois do contrário
a sua vida vai virar um inferno. Antero parecia estar no miolo de
um pesadelo. Queria acordar, não entendia nada. Mal balbuciou: ô
Crovis, que que é isso? Eu tava aqui dando de cumê pros bichinhos.
Não tenho trabalho, nunca estudei, então o que que eu fiz de torto?

Bota atenção, Antero: ocê é meu amigo di criança, por isso que eu
vim com a tropa. Ocê vai ter que ir embora. Se não tem pra onde,
por enquanto, vou arranjar pro meu irmão fica com ocê em Niterói.
É longe, mas lá é bão, e Clementino trabaia lá de pedreiro. Ocê fica
cum ele e depois ocê vê o que é mió.

Foi só por isso que Antero chegou ao Largo da Batalha e já se
passaram seis anos. Nunca mais voltou para Assis Brasil, e nem quer.
Notícia de lá, tem nunca. Estudou um pouquinho no seletivo noturno.
Dona Isabel, professora muito boa, ensinou a ler e melhorou muito a
vida dele. Trabalha agora de caixa no supermercado e vai muito bem.
Mora ainda com Clementino e hoje tem uma vaga alugada no prédio
do lado do super.

Só pode ter sido pelo seu jeito de falar que a professora teve tanto
carinho com o aluno matuto. Ele fazia de tudo para aprender os
ensinamentos, mas não cresceu muito. Cabeça dura. De verdade, foi
o pastor Josias quem o fez aprumar. Pela primeira vez, usou gravata.
Ficou muito contente e sua alegria só não era completa porque –
além da Lei de Deus – ele padecia de temor pânico pela tal Lei de
Rouanet, que nunca entendeu por que tanto queria prejudicá-lo.

A sua esperança – e vive orando por isso sempre – é que um dia
algum irmão de mais luzes possa fazer a caridade de dizer o que é
isso e pra que serve e quanto ele terá que pagar pra se livrar desse
pecado. Jura – garantindo que pode vir soldado, delegado, autoridade

– que nunca fez mal nem a jacaré nem a pintassilgo. Estes então
tinham a maior das boas vidas nas suas gaiolas. Dava-lhes mamão,
alpiste e água sempre fresquinha. Eles cantavam que era uma
beleza. Até hoje, tudo isso se resume num grande sofrimento pra sua
alma. Desde a sua primeira noite em Niterói, não consegue dormir
sem pensar até quando estará por ser punido por essa tal Lei de
Rouanet.

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*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos.

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