Submundos | O retorno pulsional da segregação




Por Marcelo Veras*

Quando pensávamos ter feito grandes avanços na Saúde Mental, as sucessivas mudanças políticas recentes pesaram fortemente fazendo o relógio rodar no sentido anti-horário. Sempre insisto nessa tecla: a Saúde Mental é barrada. Ela é barrada, pois a soma de seus discursos não aponta para a promessa do Um holístico do ser biopsicossocial. Isolados, cada um em seu canto, esses discursos chegam a fazer semblante de promover o enlace do louco em sofrimento com o mundo que o rodeia. Contudo, o real que agora se descortina faz caírem todos os semblantes. Ele emerge quando a cacofonia dos discursos, sobretudo nos hospitais psiquiátricos, faz reverberar o objeto a que lhes escapa. Dizer que a Saúde Mental é barrada é dizer que o espaço do mental não deve ser obturado por nenhum discurso do mestre.

Tenho acompanhado algumas reuniões que foram conclamadas para discutir o retrocesso nas políticas públicas de Saúde Mental, a última se referiu ao fechamento abrupto de hospitais públicos por todo o Brasil. Não, isso não é uma boa notícia, nenhum espírito progressista pesou nessa decisão. Mais uma vez assistimos simplesmente a um espetáculo de desassistência dos pacientes das redes públicas. Nenhum plano concreto aponta para o fortalecimento dos serviços substitutivos. O mais provável é que, novamente, a falta de leitos públicos seja simplesmente substituída pelo aumento da oferta em leitos privados. É preciso notar que, com o avanço da utilização de novos procedimentos tecnológicos, a rentabilidade desses processos durante a hospitalização pode acabar forçando o aumento de indicações desses procedimentos.

Por que não gosto de hospitais psiquiátricos? Porque dirigi um, e é fácil notar que para o conjunto da ópera eles fazem muito mais mal do que bem. Minha passagem pela direção do Hospital Juliano Moreira, em Salvador, há quase duas décadas, ocorreu no momento em que todos lutavam por mudanças fundamentais no modelo de atenção. A degradação das condições humanas me fazia ver que não mais estávamos nos tempos do paciente reduzido ao objeto de algum discurso prevalente, tal como havia aprendido em minhas leituras de Foucault. Outra palavra me veio à mente, a expressão lacaniana “objetalidade”, conceito que Lacan evocou no seminário A angústia para tratar o objeto a caído de qualquer discurso.

A objetivação da loucura está na base discursiva da maioria dos movimentos de inspiração basagliana que impulsionaram a reforma psiquiátrica no Brasil e em todo o mundo. A seu modo, Lacan também tocou na questão, apenas mudando um pouco a perspectiva. Qual a diferença entre objetividade e objetalidade [1]. Não se trata aqui de buscar o objeto como “o último termo do pensamento científico ocidental”, ou seja, o objeto que pode ser alcançado e manipulado pela ciência. Ao contrário, a objetalidade coloca em evidência o “pathos do corte”, a pura perda e desconexão com o vivente. Enquanto o objeto compõe a cena de uma fantasia, ou seja, uma situação em que a alienação está presente, o “pathos do corte” é puro retorno pulsional da segregação. O que vem por aí é o retorno maciço de uma separação. A passar da objetivação à objetalidade, o que fracassa é a possibilidade de uma reconciliação erótica através da fantasia de um discurso qualquer. Uma Saúde Mental que não é blábláblá, sem dialética, puro corte. E, ponto.

 

[1] LACAN, J. “As pálpebras de Buda’. Em: O Seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 236.

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

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