O mundo por aqui | Trump e o desafio para a esquerda

A proposta d’O Mundo por aqui é publicar, mensalmente, um texto ensaístico sobre temas conjunturais de Política Internacional. Essas análises são fruto de uma visão mais progressista de mundo e pontuadas por uma perspectiva histórica que busca valorizar os processos mais do que propriamente os eventos. A proposta dessa coluna não é pontificar verdades, mas fomentar o debate através da visão de como, por aqui, pode-se ver o mundo.

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TRUMP E O DESAFIO PARA A ESQUERDA [1]

Ilustração: Helena Salomão

 

Por Gustavo Alvim de Góes Bezerra*

 

O fim da Guerra Fria colocou dilemas sérios para a esquerda no mundo. A ruptura da União Soviética em diversos países independentes que romperam com o modelo de economia centralizada impôs a necessidade para as esquerdas de repensarem suas pautas e objetivos políticos: a construção de sociedades sem distinção de classes parecia ter se tornado uma meta não realizável. Essa demanda abriu espaço para a pulverização das pautas progressistas em demandas por igualdade de direitos, em uma chave semelhante ao modelo que os direitos sociais foram conseguidos nos próprios Estados Unidos: com as lutas pelos direitos civis não estando vinculadas às questões classistas, mas às características pessoais e sua identificação em grupos de interesse que compartilhassem os motivos de exclusão.

A globalização que se segue a essa ruptura é um período de euforia. Novas oportunidades de investimentos e novas fronteiras para o avanço do Mercado Livre, com sua pujança de capital e busca por lucros, moldaram esse período, que viu na pluralidade do mundo sem barreiras as possibilidades de uma globalização sem limites. Nesse contexto de globalização neoliberal, os direitos, conquistas coletivas, tornaram-se cada vez mais instrumentos individuais.

É interessante ver que esse processo de globalização intensificado a partir do princípio dos anos 1990 marca uma alteração histórica importante sobre o discurso internacional. No século XIX, a ideia de Estado Nacional foi importante criação para marcar a consolidação de um pensamento de ordem e coesão interna; o internacional surge como aspecto de disruptura e Anarquia. Trata-se do “espaço” – que não é espaço porque só existe a partir da negação de alguém que se encontra na sua nação – do desgoverno e do conflito. Esse não-espaço é aquele ao qual Karl Marx apela quando expõe que o Comunismo é um projeto que não respeita fronteiras, e quando conclama: “Proletários do Mundo, uni-vos!”. A artificialidade dos vínculos nacionais ficaria evidente com a tomada de consciência sobre as similaridades que existem entre a classe operária.

Dessa forma, temos o espaço nacional como aquele da ordem dos governos nacionais e o projeto internacionalista como a contestação do projeto liberal em implementação.

No século XX, o discurso do internacional muda. Ele passa a ser apreendido pela expansão do capital que passa a ser acompanhado das pessoas. Em alguma medida, o internacional cede espaço ao cosmopolita, aquele que não pertence a nenhuma nação. Não é o apátrida, que perdeu a nacionalidade, mas aquele que se percebe preso pelos constrangimentos que um país impõe e que opta por viver entre as grandes cidades do mundo. No final do século XX, não é mais “no internacional” que reside a Anarquia, ela está limitada a alguns espaços determinados: são os Estados falidos e os Estados em Guerra Civil. O internacional tornara-se o espaço de circulação turística e de negócios. O internacional fora domesticado, e alguns espaços periféricos à circulação cosmopolita assumiram o papel de contraponto dos fluxos de pessoas e de capital quase livre. Tornaram-se os espaços indesejáveis, aqueles para os quais não se quer ir. Esse é o caráter hierarquizador dessa globalização que se divulga pela criação de um “mundo plano”. Nessa globalização, os espaços menos dinâmicos mantêm-se periféricos e tornam-se espaços de contraposição necessária para o discurso do medo justificar a ordem nos diferentes Estados do mundo.

Essa globalização é eivada de contradições, como a relação ordem/anarquia indica. O potencial de avanço dos direitos individuais em um contexto neoliberal propenso a um avanço substancial na desigualdade social é outra contradição presente no discurso globalizante. Nesse sentido, o avanço da concentração de renda aponta para a velocidade com que esse discurso tende a se desarticular. Estudos anuais da ONG inglesa, OXFAM, dão conta desse avanço da concentração de renda. No ano passado o estudo apontava que metade da riqueza do mundo estava concentrada na mão de aproximadamente 60 pessoas. O estudo de 2017 aponta que atualmente são 6 pessoas que detém riqueza equivalente à de metade da população do mundo.

Como manter avanço nos direitos se a desigualdade aumenta? Como manter nível de renda se o mercado de trabalho está sendo reduzido em decorrência do avanço da mecanização e da automatização de trabalhos no setor industrial e no setor de serviços? Como conciliar a indiferença com a desorganização interna de Estados periféricos com o avanço contínuo por busca de refúgio em países centrais?

No meio de tantas contradições, a eleição de Donald Trump e seu primeiro mês no poder sintetizam os desafios desse tempo para a forma de atuação da esquerda mundial na definição de suas prioridades e no repensar seu discurso.

A construção da globalização que foi assistida nos últimos 30 anos e do discurso preponderante que conseguia organizar as contradições está sendo desmontada sem que haja clareza sobre o discurso dominante que se seguirá, ou mesmo se o liberalismo tal como se manifestou até recentemente haverá de se reestruturar em um neo-neoliberalismo.

A despeito das hipóteses, as ações falam com muita força. A retirada unilateral dos EUA do Acordo Transpacífico e as ameaças interpostas à manutenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) são exemplos de ações que enfraquecem o liberalismo econômico e a desregulamentação do mercado, e sugerem a possibilidade de redução nas intervenções militares. São dois gestos que repercutem sobre as bases do sistema internacional: de um lado o acordo que em alguma medida equipara países a grandes empresas internacionais é sabotado pela nova administração estadunidense; de outro, a mão militar utilizada pelos EUA na legitimação das suas intervenções em outros países tem o interesse da sua manutenção questionado por Washington.

Por outro lado, as pressões exercidas para que empresas transnacionais não construam fábricas fora dos EUA e ameaças de sobretaxar importações, são exemplos que mostram o potencial de desarticulação do atual contexto internacional que Trump, na liderança de um dos principais mercados importadores do mundo, pode causar, além de expor os limites do liberalismo clássico que, eventualmente, poder-se-ia ver nessa presidência. Como consequência da figura do US Trade Representative (USTR) – Representante para o Comércio dos Estados Unidos, em tradução livre – o impacto do Executivo nas negociações comerciais tende a ser reduzido em decorrência de ser um cargo indicado pelo Congresso dos EUA. Ainda assim, ameaças de renegociação do NAFTA – acordo de livre comércio da América do Norte – podem impactar os fluxos comerciais na região e repercutir negativamente, principalmente na fronteira sul, em decorrência do impacto na economia mexicana e na interdependência econômica que acabou por se formar entre os dois lados da fronteira.

Na parte mais agressiva do espectro de ações propostas e implementadas pela nova administração, está a de barrar a circulação de pessoas vindas de 6 países, de maioria mulçumana, para não falar na construção do famigerado muro na fronteira com o México. Essas propostas, que já se tornaram ações concretas, não são passíveis de serem analisadas sob a ótica liberal de nenhuma cepa. Somadas ao apoio que teve na campanha de movimentos, para dizer o mínimo, conservadores, às falas misóginas e ao discurso de violência – como quando sugeriu que os detentores de armas atirassem em Hillary caso ela fosse eleita –, essas ações são exemplos da violência do discurso político gerado ao longo do entusiasmo neoliberal sobre a possibilidade de conciliar direitos e liberdade de mercado. Seu impacto sobre a circulação de pessoas já é tangível: a busca por passagens aéreas para os EUA, ao redor do mundo, teve uma queda de 17% desde janeiro.

As limitações do discurso neoliberal estavam postas na sua gênese. Trata-se de um discurso de liberalismo econômico ao qual se adicionava forçadamente características de liberalismo político. Todavia, a despeito de serem liberalismos, são propostas diametralmente opostas, pois se o liberalismo no campo da Economia está preocupado com um Estado que não intervenha na atuação dos agentes individuais, na política ele se preocupa com a construção das estruturas que garantam a liberdade dos indivíduos. A ênfase na agência individual, pressuposto comum das duas, não é suficiente para indicar uma eventual complementariedade. Trata-se, na verdade, de um antagonismo de projetos e os 30 anos durante os quais se tentou articular ambos numa mesma narrativa resultaram numa crise econômica profunda (iniciada em 2007) que contribuiu fortemente para a crise política que o mundo vive atualmente, e criou as condições necessárias para o fortalecimento do discurso de ódio no mundo.

Esse discurso, apropriado por Trump nos EUA, apresenta o que talvez seja o choque mais perverso da falência do modelo de Globalização neoliberal: a denúncia da limitação do diálogo e da capacidade de entendimento entre as pessoas.

O discurso da Globalização é o da conectividade capaz de integrar espaços cada vez mais distantes pela comunicação, abrindo infinitas possibilidades para as pessoas que vivem e circulam por esses espaços. Vemos hoje que esse discurso naufragou em parte por causa de uma sutil contradição que esse projeto tem embutido em si: o aumento da possibilidade de comunicação ocorre por um aprofundamento da desigualdade. O desenvolvimento tecnológico necessário para sua realização ocorre com a automatização de linhas de produção e a criação de desemprego estrutural. Assim, os espaços se conectam, mas oportunidades são abertas para certos indivíduos que pertencem a esses espaços.

As lights-out manufactory, linhas de produção que não precisam de luz por funcionam sem empregados, mostram as transformações no mercado de trabalho dessa globalização neoliberal. O impacto é difícil de dimensionar, mas a sua disseminação faz emergir em alguns países (principalmente no norte da Europa) o debate sobre renda mínima universal para reduzir a pressão que essas transformações exercerão sobre o mercado de trabalho. A ideia é de que, com acesso a uma renda mínima necessária para a sobrevivência, o desemprego estrutural não deixará nenhum cidadão em condição de vulnerabilidade social.

Esse não é o caso dos Estados Unidos. Os fatos de o Estado de bem-estar social não ter sido plenamente constituído nos EUA e o mito fundador do país ser o do self-made man, ajudam a alimentar uma sensação de frustração daqueles que perderam seus empregos, supostamente para imigrantes ou para a decisão de construção de novas fábricas em lugares nos quais a mão de obra é mais barata, quando, na verdade, muitos dos empregos deixaram de existir. A suscetibilidade dessas pessoas a um discurso anti-imigração é grande, tanto quanto a rejeição a uma candidata como Hillary Clinton, representante do stablishment político desse modelo de globalização. Clinton não representava uma opção à candidatura de Trump, porque disputavam votos diferentes.

Hillary foi uma candidata à esquerda para os EUA dentro de uma matriz de globalização neoliberal, mas as preocupações das pessoas desempregadas nos rust belts das cidades fantasmas desindustrializadas não são atingidas pelo discurso de igualdade de direitos propugnado pela candidata democrata derrotada. Essa eleição mostrou como a esquerda tem que se esforçar mais para ouvir as demandas da população e tentar entender com mais clareza. A dificuldade é fazer isso dentro de partidos políticos tão consolidados na estrutura política institucional. Trump conseguiu fazer por ser uma figura conhecida e pela sua capacidade de autofinanciamento, mas, como, à esquerda, consegue-se entrar nesses sistemas eleitorais consolidados por meio de uma drástica mudança de paradigma como se viu nessas eleições? Uma pergunta de difícil resposta.

Quando Trump consegue falar e alcançar as periferias com um discurso de compreensão das frustrações com a política institucional, o que faz é retornar a disputa para questões típicas do conflito distributivo que há 30 anos eram tidas como anacrônicas.

Assim, de uma forma indireta e muito provavelmente não proposital, Donald Trump apresenta para a esquerda a possibilidade de reorganizarem-se em torno da pauta distributiva, a partir da qual os demais temas de igualdade e de direitos constroem-se. Esse era o programa de Bernie Sanders, por exemplo, uma pré-candidatura do partido Democrata que mostrou fôlego por conseguir dialogar com parcelas excluídas da euforia neoliberal recente.

Trump pode oferecer os motivos à esquerda e à direita para oporem-se a ele, mas o discurso adotado por ele pode indicar que a oposição da esquerda deve ocorrer por meio da volta às pautas tradicionais de combate à desigualdade e de uma solidariedade internacional.

O discurso de Trump é um antigo discurso de ódio e violência, mas ele não representa que tenhamos voltado no tempo; o projeto da globalização sempre foi desigual. A diferença é que a desigualdade passou a ameaçar os direitos que o próprio neoliberalismo tinha garantido aos menos iguais. E o primeiro a capitalizar isso foi o empresário e apresentador conhecido por demitir pessoas.

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Nota

[1] Agradeço a Paulo Ferracioli pelas conversas que despertaram as inquietações expressas no texto, ainda que sejam minhas as responsabilidades sobre as opiniões aqui colocadas.

 

*Gustavo Alvim de Góes Bezerra é Doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio). Seus interesses de estudo estão mais direcionados para História Global e das Relações Internacionais e os debates sobre Teoria de Relações Internacionais.

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