O mundo por aqui | Mãe de todas as bombas, pai de todos os debates

Ilustração: Helena Salomão

Por Gustavo Alvim de Góes Bezerra*

 

Em 14 de abril, os Estados Unidos anunciaram ter detonado no Afeganistão o dispositivo explosivo GBU-43/B, que tem por sigla MOAB, abreviatura para massive ordnance air blast bomb. A mesma sigla também pode ser lida como mother of all bombs, e foi assim que a notícia foi extensivamente divulgada: “Os Estados Unidos lançaram no Afeganistão a ‘mãe de todas as bombas”.

A arma em questão é a bomba não nuclear com maior poder de destruição desenvolvida pela aeronáutica dos EUA. Das suas dez toneladas, 8.164 quilos são de explosivos. Esse artefato diz mais sobre o mundo que construímos do que sua capacidade de sabotar a existência humana: ela mostra que passamos a desenvolver afeto pela capacidade de destruição. O jogo de palavras com a sigla da bomba a coloca como mãe de todas as bombas, mas a partir do momento que se chama de “mãe” a bomba, pode-se inferir um afeto por ela. Assim, é possível dizer que a bomba é uma metáfora para a construção do afeto pela violência, aspecto marcante da contemporaneidade. Seria assim, mãe de todos nós. E é no mínimo inquietante imaginar que tipo de afeto é gerado por mais de oito toneladas de explosivos.
Existem questões que emergem a partir da veiculação dessa explosão. Um tal ataque precisa de autorização presidencial? Qual é o papel dos EUA no Afeganistão atualmente, depois de repetidas iniciativas do ex-presidente Obama de retirar tropas do país? O ataque, destinado a militantes do Estado Islâmico, indica sua expansão desde o Iraque, pelo Irã, até o Afeganistão, a despeito das diferenças entre mulçumanos xiitas e sunitas? São todas questões da ordem do dia e suas respostas são capazes de explicar as dinâmicas de ocupação no Oriente Médio. Contudo, discutir aquilo que nos leva a chamar de mãe um artefato de destruição dessa magnitude é tentar lançar luz sobre o espaço da violência em nossas vidas.

A bomba que nos gerou a todos remete ao filme de 1964 de Stanley Kubrick: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, filme cuja ironia pacifista remete a The Great Dictator, de Charles Chaplin, 24 anos mais velho. Ambos são marcados por discursos finais poderosos que identificam em Hitler o mal que afligiria a humanidade. O cientista alemão com sua fala abertamente machista e racista na sala de Guerra do Pentágono e o pacifista confundido com Hitler, que discursa em um evento militar, têm em comum a referência ao ódio no ditador alemão, mas são diferentes as avaliações que guardam sobre a esperança de futuro. O otimismo de Chaplin que repousa na emergência da razão e da democracia como capazes de utilizar as tecnologias como instrumento de um progresso pacífico antecedem o fim da Segunda Guerra Mundial, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e os conflitos posteriores nos quais os EUA envolveram-se. O pessimismo de Kubrick viu isso tudo e acaba mostrando como a própria existência de armas nucleares torna ultrapassada a discussão sobre razão. A bomba é o ponto mais alto do cientificismo iluminista. A partir daí, o iluminismo está ultrapassado e teríamos que pensar uma nova lógica, pois se a racionalidade iluminista falha quando já existe a bomba, o mundo acaba. O máximo que se pode esperar de consequência é a vitória da intolerância extrema que, no filme é apresentado pelo Dr. Strangelove, personagem que age de forma completamente insólita sem que ninguém estranhe. De alguma forma, até hoje convivemos com os fascismos sem que eles nos espantem mais.

A crítica à política como forma de conter o conflito está na inversão da frase de Georges Clemenceau que em determinado momento é utilizado pelo general responsável por iniciar o conflito que move o filme: “A guerra é muito importante para ser deixada a cargo de políticos: não têm tempo, treino, nem inclinação”. A frase original, “A guerra é muito importante para ser deixada a cargo de generais”, via o conflito como um fenômeno político, a política por outros meios, como diria Clausewitz, um estrategista militar. A guerra naturalizada, vista como um conjunto de tecnicalidades, deveria ser conduzida de forma independente, por aqueles que entendem das suas técnicas e procedimentos. A partir do momento que se naturalizou o fenômeno, ele passa a estar além da agência humana, inalcançável para a política. São processos racionais que criam duas respostas automáticas para ataques nucleares – pelo lado dos EUA os aviões em prontidão cujas comunicações ficam suspensas até o fim da missão, por parte da URSS, um sistema automático, ativado a partir do impacto da primeira explosão nuclear; em ambos os casos a reação é automática, isolada das paixões humanas. Esse sistema estabelece a prevalência da bomba sobre a política, não por acaso o sistema soviético de resposta automática chama-se Máquina do Juízo Final, pois ele é inexorável.

Com tudo isso que o filme diz sobre a Guerra Fria, mas também sobre a nossa contemporaneidade, a frase “Senhores, vocês não podem brigar aqui, esta é a sala de guerra!” é surpreendente. Por meio dela, o presidente cobra deferência à sala de guerra. Por que essa deferência? Porque a sala pertence a essa entidade que orienta nossas vidas – principalmente durante a Guerra Fria – a Guerra. E, se a mãe é a bomba, a Guerra só pode ser a entidade que legitima a mãe: a vida? Deus?

A “mãe de todas as bombas” consegue ser ainda mais cruel que a bomba de Kubrick, porque ela não conta a história de uma disputa de poder entre duas potências militares, mas marca a leviandade com que se trata um conflito nas periferias do Sistema Internacional contemporâneo. De que forma ela impactou a vida na região? Quem são os 90 mortos por ela? Sua utilização afetou o avanço do Estado Islâmico? Essas questões são mais importantes que aquelas apresentadas no princípio do texto sobre o impacto da bomba no Sistema Internacional. Mostra um lado opressor da violência, uma violência que desvia a atenção do real problema, que é a dificuldade de fortalecer comunidades políticas autônomas que consigam estruturar respostas às necessidades não atendidas da população.

Atribuir a um explosivo a alcunha de “mãe” é muito significativo porque isso transcende o ato de nomear, pois legitima, naturaliza e se solidariza com a violência das explosões.

Perceber a violência como uma constante política que se manifesta de diversas formas, seja nos países ou no Sistema Internacional, resultou em debates tanto pelas suas causas quanto pelas suas consequências. Os mais interessantes, todavia, têm a ver com a sua legitimidade, ou com a possibilidade de se discutir a legitimidade da violência. Esses debates são longos e passam pelo desafio da naturalização da violência como um dado social. Tanto no debate sobre a legitimidade da violência quanto naquele sobre sua naturalização, está implícita a questão identitária de definir quem são os sujeitos analisados, sobre quem é legítimo o exercício da violência, quais são aqueles que pertencem à coletividade e merecem um tratamento não-violento e quais são aqueles sobre os quais não se aplicam as leis, apenas a violência. E, onde for o espaço da violência, não haverá o confronto entre homens, mas entre homens e figuras estranhas: comunistas, radicais mulçumanos e os demais “inimigos da vez”.

Esses debates retomam séculos de pensamento político, mas não necessariamente apontam para o desenvolvimento de afeto com a violência. Nomear uma “mãe de todas as bombas” e não esperar mais que destruição, passa não apenas pela naturalização do ato violento, mas por desenvolver uma espécie de carinho para com ele. Esse “carinho” está além da sua banalização, pois na banalização, perpetrador e vítima, ainda que hierarquicamente diferentes, são possíveis agentes nesse processo com estratégias para lidar com as rotinas e adaptar-se às condições adversas. Nesse sentido, a sobrevivência de pessoas afetadas pela violência do confronto entre policiais e criminosos especialmente nas favelas e periferias urbanas brasileiras, os homossexuais na Chechênia ou migrantes na Europa são exemplos contemporâneos de situações desafiadoras e tristemente banalizadas.

A vida em comunidade tem a capacidade de gerar constrangimentos para as ações individuais. No mais das vezes, esse constrangimento está dado por regulações legais cujo intuito é reduzir ao mínimo possível os conflitos. Essas regulações já são violências quando categorizam e estabelecem diferenciações. A tentativa de reverter ou tentar minimizar ao máximo essas violências é o pleito das iniciativas de grupos de interesse envolvidos com as causas afetadas pelas respectivas classificações. Mas o que esperar da capacidade de reduzir o número de violências físicas quando violências epistemológicas são disseminadas em construções que começam com “bandido bom”?

A violência “afetivizada” da “mãe de todas as bombas” denuncia a distância abissal para reconhecer direitos universais. Para esquematizar esse processo de reconhecimento de direitos seria preciso desempatizar da violência, desnaturaliza-la do convívio e deslegitimizar seu uso disseminado. Mas como iniciar esse processo se a interlocução é a impossibilidade de ser simpático a quem sofre a violência? Essa questão é central porque mostra a encruzilhada de repensar a razão dentro da chave iluminista, esse é o desafio contemporâneo que aceita como mãe mais de oito toneladas de explosivos.

Não vivemos o pessimismo de Kubrick no seu potencial extremo, mas sua antecipação do afeto com a violência como limite para a convivência da racionalidade iluminista aliado ao grande potencial destrutivo de armas, aponta para o sentido da sua crítica da década de 1960: vencemos Hitler, mas não superamos o ódio que possibilitou Hitler. Ainda hoje vivemos com essa imanente violência que possibilita as maiores barbáries silenciosas que vão da vasta gama de violação de direitos até acreditar que “mãe” pode se referir a mais de oito toneladas de explosivos.

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*Gustavo Alvim de Góes Bezerra é Doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio). Seus interesses de estudo estão mais direcionados para História Global e das Relações Internacionais e os debates sobre Teoria de Relações Internacionais.

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