O artista por ele mesmo | Xico Chaves

Por Fátima Pinheiro*

A entrevista que realizei com Xico Chaves artista visual, poeta, produtor cultural, compositor, e também meu parceiro de repentes poéticos, além de grande amigo, vem sendo tecida ao longo de alguns anos. Hoje ela toma esta forma única, e nela vocês poderão perceber o quão vasto é o mundo poético desse mineiro de Tiros, Minas Gerais radicado no Rio de Janeiro. Este mundo poético mostrado aqui, ninguém o viu, não dessa forma, porque ele foi inventado pelo poeta, porque na poesia, assim como na vida, o existir é existir, sob uma determinada forma, e não de outra. Aqui vocês ouvirão o rumor da língua em estado bruto, às vezes como minério, às vezes como detrito, outras vezes, como água. Há cadências, ritmos, estados de matéria diferentes nos poemas de Xico Chaves, há vida na pedra, há vida na inércia, na exaltação e na incineração do poema. Há, sobretudo, na arte de Xico Chaves, uma variação infinita, um rio caudaloso, que faz atritar a palavra com o corpo, fazendo-o falante. Esta entrevista, portanto, tem algo do que pude recolher da ferramenta de Xico Chaves, àquilo que os gregos chamavam de poïen, que é o fazer do poeta, onde ele desenha, em si, o seu material. Boa leitura!

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1- Fátima Pinheiro: Qual foi o seu primeiro trabalho nas artes visuais e como surgiu?

Xico Chaves: A origem e a gênese formam a mesma poética quando se trata da primeira manifestação espontânea, quando os primeiros traços de sua história pessoal são transpostos para o mundo exterior. Por isso talvez não me recorde com exatidão, mas houve muitas. A atitude de me expressar com consciência de que estava traduzindo um sentimento, uma reflexão, um acontecimento artístico, deve ter sido aos 7/8 anos de idade. Cortei o dedo durante a construção de uma habitação de acasalamento de pombos e pintei em uma parede branca, com sangue, um índio com um arco atirando uma flecha para o alto com a subscrição “feito com sangue pelo francisco”. Nesta época fazia umas experiências genéticas acasalando pombos de raças diferentes para obter espécimes híbridas. O resultado me seduzia. Dava sempre certo a construção e desconstrução que continuava se reproduzindo naturalmente depois. O que acontece em torno disto e deste momento forma um conglomerado de muitas histórias marcantes em minha infância. Certamente a vida se apresentava como uma grande poética escrita a cada observação e ação direta sobre o mundo fantástico que me circunscrevia. Poderia falar horas sobre isto, aproveitando esta oportunidade. Posso até arriscar, neste improviso de memórias que me veio à tona, já que me permite:

nos riachos de águas cristalinas e monumentais pedras cinzas , cerrado tortuoso poeira ao vento chuvas torrenciais no barro vermelho tingindo as ruas/ relâmpagos e raios em noites de carvão a contar histórias pelas portas do casario de cal e telhas zumbindo ao vento/ valsas e dobrados de clarinetes, trombones, bandolins e violões nos quintais de frutas fartas de apodrecer nas folhas, de morféticos apocalípticos montados em cavalos secos, loucos de rua e assombrações à beira dos fogões de lenha/ procissões de madalenas e incensos, flechas e bastões de pó de guaraná sob montanhas de chumbo a transmitir vozes misturadas aos diamantes brotados do cascalho/o primeiro filme preto e branco e a sonoplastia das lâminas de aço simulando tempestades/ sonetos parnasianos afiando facas, a morte dramática de mariinha , gravatás, pequis, bacoparis, lobeiras, espelhos e caleidoscópio de muitas lendas reais que a memória guarda e ressuscita/nos confins das terras sem saída, onde judas perdeu as botas/tantas quantos  contos  e contas tanto quanto rezas no colar de conceição vendo a virgem pousada no bambuzal, fotografias em chapas de vidro estilhaçadas no muro de adobe e lagartixas.

precoce itinerância pelo mundo sem raiz, de estradas de óxido e montanhas de ferro bruto/ o asfalto chegando e seus motores, vidros fumê, out-doors, rocck’n roll  e bossa-nova, karman-chia e biclicletas  azuis mergulhadas nos córregos de peixes de prata e serpentes venenosas/vânia, lisa, sonia, fábio,tebinha, neuza, zé e berenice,  primeiro improviso público/ a primeira paixão/ o primeiro poema escrito em papel de pão/  matinês de filmes de tarzan e bang-bang,  anões moedores de raízes, jogo de finca de escritas sobre a lama, o sabão preto fabricado em tachos de cobre de ciganos, procissões profanas de capuzes e matracas, carnaval do sangue-de-diabo/ anotações sigilosas num cato do caderno/ o padre tarado e o roubo das hóstias/ punhetas sob a árvore de eva, folias de reis e congadas no coro dos contentes, o vampiro da meia noite/ mulher de sete metros/ joão cambão e muriçoca, o código morse e o primeiro poema elétrico/desenhos geométricos e palavras riscadas com cacos de telha no asfalto cinza-escuro, os sírio-libaneses  com suas malas de couro/lojas cheias de penetráveis  panos coloridos/ quibes, esfirras e escritas arabescas/ o duelo sob o anúncio luminoso onde a tradição ruiu e deu lugar aos aviões de pesticidas, aos caminhos que levavam a outros poros/ onde respiraria em muitas casas e aventuras que a adolescência depurou entre conflitos/ a terceira ruptura antes mesmo que se criasse um vínculo.

ficaram para trás  os retirantes miseráveis cobertos de poeira, pintura viva de portinari nos sertões vermelhos,  o bar 2000 com suas putas modernistas e sorvete de groselha, as ruínas coloniais se desmanchando à beira das estradas, as quiromantes nos baralhos prevendo a própria sorte/ para entrar em cena um comboio de automóveis, de motores ligados em direção ao Planalto Central, onde 50 anos se passariam em cinco, mas haveria de desembarcar em outro estágio, para assumir a autonomia, na cidade centenária dos bovinos/ onde a decadência deixara intactos resquícios do Brasil-colônia, entre a arquitetura nouveaux , déco  e palacetes marroquinos com a modernidade já erguida nas praças e esquinas/paralelepípedos, ladeiras íngremes, colégios, igrejas, faculdades, emissoras de rádio, centros espíritas/ a poesia se anunciava já prescrita/na erudição clássica marista, o existencialismo de Sartre, Françoise Sagan, escritores poloneses, russos, Kafka, Cassiano Ricardo, Drumond, Cassandra Rios, Joyce e Zéfiro pornô escondido sob o travesseiro e tantos mais escritos que nem cabiam nas estantes de tijolos e tábuas vergadiças/sonetos nasceram já antigos domados à disciplina e ritmo, para serem logo desconstruídos/ em alfabetos de signos  camuflados de desejos/ para desfazer  a métrica, o romantismo, o lirismo piegas de rimas pobres, enriquecidas pelo dicionário aberto sobre a mesa/o golpe militar bateu à porta e queimou tudo virou  cinza e fumaça, revolta e um panfleto/ nos portais das  escolas e igrejas, nos cinemas da nouvelle vague.

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poema-a-fenda

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a estrofe seria trincada em mil pedaços, a métrica quebrada nas palavras revoadas no espaço do papel, para nascer a antipoesia de frases curtas, em forma de garrafas, mapas, espirais de letras, de fendas/rizomas e blocos de concreto, aleatórias,  rasuradas com números e fórmulas, situações imaginárias em um monte de detritos, fragmentos de memórias desta rebeldia se estilhaçaram na cidade e nas músicas/ de festivais e reuniões em cozinhas e varandas das meninas/ rompidas com a família de tradição nefasta e reprimida/não sofreria mais pra descobrir a pólvora que cada vez mais explodiria, embora já existisse e não sabia/ mas havia a glória de descobri-la sozinho na liberdade de criar história e fantasia, nas máquinas remington, noites em claro solitário, de versos invertidos e trincados, apaixonado por marias e terezas, nas bebedeiras de festas e carnavais de muitas folias/  desenhos e pinturas figurativas e abstratas, organizações clandestinas nos subúrbios e nas livrarias / fluxos exaustivos de escritas e colagens sobre blocos de notas fiscais antigas, cadernos de espirais infinitas, poucas fotografias, fatos impossíveis de condensar nesta entrevista/ porque viria rápido nova estrada e o horizonte ficcionista de Brasília/ desvelada sob um céu azul de combates e utopias.

na cúpula de vidro o cerrado se exauria entre geométricas estruturas de concreto e largas avenidas/superquadras, números, símbolos, signos, telepatia, mas permanecia nos descampados tortuosa vegetação , cascuda e generosa em cortiças e flores raras e frutificas/ uma ilha de surpresas onde a consciência de país e mundo se abriria/ para muitas páginas escritas e que voariam sobre raízes queimadas, batalhas urbanas e caminhadas proféticas na geografia áspera e bruta, na política da arte experimental e suas trilhas, manifestações de transvanguardas já puídas, necessárias ao romper a tênue membrana que não separava, mas unia/a palavra, a imagem, a sonoridade e o que restava do híbrido poema para construir uma outra algaravia, o poema visual, processo, o cordel quebrado em caudalosos labirintos de livre-associações semânticas, intercalados por concretas estruturas, composições gráficas e sons compostos nas persianas flexíveis das janelas do instituto/ onde uma flauta era um cano de pvc, o surdo uma vaca anarquista/o piano uma boca cheia de dentes movediços/ a fotografia sem foco outra leitura/ de horizontes diluídos nas vidraças/ as pedras tinham olhos para sinalizar as fugas/ das invasões militares e as ocupações ativistas do congresso/ se havia pedaços e estilhaços de poemas, formavam grandes nuvens a sobrevoar a cidade e suas asas/ espirrar tinta vermelha nos outdoors das propagandas e pichar de tinta de cal e spray os muros dos quartéis construídos sobre as alvoradas radiantes do futuro./ A contracultura vinga e migra no autoexílio para o Chile.

Um ano no Chile corresponde simbolicamente a 10 anos em minha vida. Foi um rodamoinho de muitas histórias onde pratiquei tudo o que tinha direito e mais alguma coisa que ainda não me lembro.  Em minha entrevista para Zalinda Cartaxo, para o livro-síntese retrospectivo de minha trajetória, realizado pela Oi Futuro, editado pela Fase 10-ação contemporânea, me estendi mais sobre o que significou este exílio. Viver em um país em transição, em plena juventude, onde as liberdades de expressão existiam , praticando linguagens contemporâneas na arte e poesia foi uma experiência enriquecedora, inenarrável. A cada memória reativada me recordo de um fato novo e recorro às anotações, poemas e fotos para tentar compreender o que vivi lá, os cenários políticos, as intervenções coletivas e públicas não panfletárias, as performances junto a poetas de todo o planeta, de todos os idiomas e formas de expressão…onde as utopias anunciavam uma possibilidade de coexistirem em um futuro possível. O desfecho foi dramático e mais uma vez pude sobreviver e dar continuidade, no Rio de Janeiro, em um momento de alto risco, com uma ditadura militar que havia desfeito todos os nossos  sonhos e destinos.

No início dos anos 1970 o Rio era um território aparentemente lento e conformado, onde nos reuníamos nos aparelhos alucinados da contracultura, em meio a uma clandestinidade dissimulada. Percorríamos os ambientes da cidade à procura de nosso espaço roubado e o encontrávamos na marginalidade, nos points inusitados, nas casas e apartamentos vigiados onde não tínhamos mais o que esconder. A repressão havia desistido, talvez, de considerar que éramos um perigo maior. Estava tudo aparentemente dominado. Os militares planejaram com certeza uma estratégia a médio e longo prazos. Falo sobre isto em uma longa entrevista para a jornalista Bianca Tinoco, em sua tese de mestrado e em publicações e gravações realizadas ao longo deste tempo. O Rio se apresentou como um país imaginário onde teria que reiniciar um programa de preenchimento de vazios, e toda minha energia e dedicação se voltou para isto. As experimentações anteriores se tornariam realidade durante 43 longos anos de diversificada atividade na cidade e pelo Brasil afora. Optei pela sobrevivência na iniciativa privada (no Jornal O Globo), como colunista de tecnologias , em agências de publicidade e posteriormente meu ingresso no serviço público, a convite, seguindo uma tradição destinada aos poetas e artistas brasileiros que nunca viveram de suas produções artísticas. Paralelamente já iniciara, em 1973, junto a outros artistas-produtores a ocupação de espaços ociosos com eventos alternativos e sem finalidades lucrativas. O primeiro foi o Circuito Aberto de Música Brasileira, com Sidney Mattos e Marlui Miranda, e logo em seguida, com Jards Macalé, Os Direitos Humanos No Banquete dos Mendigos, com apoio da ONU, a primeira reação intelectual e artística daquele período, de longa história e consequências.

Minha presença e participação poética e artística durante todos estes anos foi sempre demarcada por este paralelismo onde ocasionalmente confluíam para um mesmo objetivo e em outros se colidiam, por questões de linguagem, comportamento, conflitos ideológicos e estéticos, incompatibilidade de metodologias, e uma série de contradições próprias de quem tem como objetivo o desdobramento da arte contemporânea. Há uma densidade concentrada potencialmente nesta trajetória que aos poucos tenho decupado, até mesmo para compreender o impulso permanente que exaure o tempo disponível e se estabelece em um campo de simultaneidades. No entanto, o acúmulo de ações e reflexões já vai fazendo parte de minha forma de expressão, onde a simultaneidade se converte em instantaneidade ou na própria vida mesmo.

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pipaPipa – poema-imagem – 100 poemas s/ papel jornal/impressão offset – 1976

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2- F.P.:
Sua obra é marcada pela multiplicidade de suportes cujas produções são desenhos, pinturas, objetos, poemas, fotografia e escritos. Há também no processo de criação de seus trabalhos uma simultaneidade no uso de suportes. Como se dá a articulação entre o múltiplo e o simultâneo na sua obra?

X.C.: Esta multiplicidade e simultaneidade no processo de criação sempre existiu. Me parece que já trazemos conosco estas formas de expressão, e com o tempo alguns poetas vão selecionando linguagens de maior domínio pessoal, outros não. Acredito que, para mim, fazem parte de um mesmo sistema de articulações, e à medida que são praticadas, vão se consolidando, se diluindo, se reconstruindo, se projetando de forma multifacetada e tridimensional, se concentrando em alguns momentos e se expandindo em outros, de forma a se apresentarem como um só processo onde as experiências da escrita literária e da escrita por imagens e objetos passam a formar o mesmo universo em contínua mutação, deixando de ser experiências. A experiência talvez ocorra no momento da concepção, da origem da ideia, da reflexão… quando é realizada não existe mais experiência, a gênese já aconteceu. Pode até ser desfeita para a criação de uma outra versão e se transformar em outro objeto-poema. O múltiplo e o simultâneo não dialogam mais em campos diferentes, apenas são construídos na diversidade de suportes, com todo o seu conteúdo temporário que sustenta a existência. Efêmera ou permanente. O importante é o processo. Se há um resultado concreto ele se sustenta, até quando, não sei, nem saberia.

 

3- F.P.: Há uma estreita relação entre a imagem e o poema nos seus trabalhos? Caso exista, como você a estabelece em sua obra?

X.C.: Talvez não haja relação entre imagem e poema. São parte do mesmo corpo e assim a relação é uníssona se vista como um sistema diversificado de construções e leituras simultâneas. No poema escrito crio imagens e na imagem crio escritas. Em uma sequência de imagens conforma-se um alfabeto que tende ao infinito, o mesmo ocorre com a palavra escrita, seja ela em forma de poemas parnasianos (como os sonatos/ sonetos imperfeitos), construtivistas ou modernistas, signográficos, gráficos, poema-processo ou poema visual , poema-objeto, cordel ,radiopoema, ou uma palavra só, ou fotopoema, videopoema, pintura com minerais sobre qualquer suporte, poemafóssil, improvisos, poemainvisível, performances, intervenções, instalações, transpoemas, poema sonoro ou sistema de signos associados, uns riscados no chão, outros que desaparecem na água, no ar ou no fogo. Formam uma galáxia em movimento, sem centro, às vezes narrativa, umas óbvias e outras incompreensíveis antipoemas. Uma coisa é certa: são registros de memórias que correspondem ao que vivencio ou imagino em meu percurso. Vou transcrever aqui um trecho de texto que venho costurando e desfibrando desde 2004, que fala sobre isto e que também não se completa por não haver um ponto final. “
“Toda palavra inclui a imagem. Mas a imagem não é tudo. Nem em tudo há palavra. O que será do mudo? O que será do mundo humano sem palavra e sem imagem? Toda palavra tem um som? O que será o som ao surdo? A palavra é tato ou som ao cego e ao mudo. Do olfato da palavra não duvido. A palavra tem ouvido. A imagem na palavra tem multíplice vertigem. Como a voz ressoa retida e solta  no signo. A retina lê outros sentidos que a palavra-imagem anima. A poética não está só na palavra. O poema processo dela é livre. Mas o concreto nela se ramifica. O poema-imagem está na vida que o olhar decifra. O olhar que a sensibilidade ativa. No barulho e no silêncio o poema vinga como a erva medra na pedra e o poro respira na epiderme. Não tem fim o desenlace deste ciclo. Origem e gênese simultâneas.
Entre a palavra e a imagem não há uma linha limítrofe que a semiótica decodifique. Uma imagem não fala por mil palavras e o inverso também é verossímil. Nada disso se define com palavras ou imagens. O poema imágico não tem limites. O poema-objeto é mais que inter-signo. É também o que se associa, o que para o poeta é um vício (vasculhar o infinito de uma galáxia de detritos para desconstruir sentidos ao prosseguir em seu ofício). 

Constrói-se a obra que se faz com o título. Configura-se o título quando a imagem o torna explícito. Resgata-se o código oculto no eclipse onde se exprime a imagem que a palavra excita. No poema onde a estrutura se exercita, articula-se a forma construtiva. No poema espontâneo do improviso psicografa-se o imprevisto. Inventa-se o mito. Desconstrói-se o óbvio quando a ruptura se livra do delito. Nasce a rima onde a fonética é ritmo. Soneto-concreto-processo-objeto-repente, a palavra-imagem é apenas um veículo do poema (texto, fragmento, figura, gesto, pó ou cor volátil).

Nas linguagens limítrofes coexistem quase-cinema, quase-foto, quase-pintura, quase-teatro. Não existe quase-poema. O poema afina e desafina a melodia. Se alia à poesia onde a imagem se anistia. Em sua órbita imponderável não se alinha a um destino que se amplia. Surge de um ponto da paisagem vazia e se aninha na própria forma que lhe deu origem. Nele, em toda sua absoluta liberdade, fica o não dito pelo dito, onde o ponto final não significa limite, nem existe ”

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meteoro cúbico poético/cxa. preta – 1000 poemas incinerados – 1987

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4- F.P.: É interessante observar que a escrita comparece em seus trabalhos em forma de poema, nos foto- poemas, na música, nos seus esquemas enigmáticos (escritas no chão, nas árvores, nas instalações , nos objetos). Ela tem uma presença fundamental. Vale apontar que no livro “Pipa”, considerado por alguns críticos como poesia marginal, que reúne 100 poemas criados entre 1969 e 1976, são estes que formam o autorretrato. A partir disso você acha possível pensar que seja a escrita que sustenta ou antecipa o que vem a ser imagem na sua obra?

X.C.: Há obras cujo ponto de partida é a escrita, mas não é necessariamente suporte para a imagem final. Pode ser o inverso, o contrário, o contraponto também. Pipa foi produzida a partir de uma foto em alto-contraste de meu rosto feita pelo fotógrafo Alain Baki quando morávamos em Brasília e participávamos do coletivo Tribo, em plena contracultura dos anos 70. Aproveitei as sombras da foto ampliada para preencher com os poemas que havia selecionado para um livro. Simulava uma imagem produzida por um computador, mas foi feito a mão, ao corte de estilete. Fui distribuindo os poemas na superfície das sombras do rosto e à medida que faltavam textos para preencher lugares mais difíceis, fui criando outros poemas com os fragmentos que garimpava da composição gráfica original, bruta. Um trabalho de precisão, artesanal, quase que uma pintura com pequenos e médios textos em formato de página dupla de jornal, em papel-jornal, offset. Foi meu primeiro livro lançado no Rio, na escola de Artes Visuais, no Parque Lage e que resultou nos modelos de ocupação artística extracurriculares lá durante muitos anos, O Verão a 1000. Mas foi apenas uma forma de utilizar a palavra para formar uma imagem. Já havia trabalhado desta maneira muito antes, com poemas datilografados ou impressos formando uma imagem, uma trama, um sistema de conexões imagéticas e mesmo aleatórias ainda na adolescência quando achei que havia inventado a antipoesia.

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manifesto tudista – 01/1982

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Tem uma publicação em suplemento literário desta época, quando experimentei ainda o poema radiofônico em uma emissora PRE5-ZYV 37 Rádio-Sociedade Triangulo Mineiro. Realizava ainda poemas desenhados e abstrações simbólicas para camuflar pensamentos ideológicos durante a ditadura militar. Comecei também a escrever letras de música e participar de festivais, vencendo alguns, gravados em vinil. Esta história é um capítulo à parte onde pratiquei muitas experimentações com a imagem gráfica, pintada a óleo, gravada em fitas de rolo e k7, papéis de diferentes formatos e gramaturas, xilogravura e outros materiais pictóricos e impressoras mimeográficas, chegando até à impressão em papéis de computador sanfonados, já em Brasília quando editei um livro programado em um computador tecnodonte, clandestinamente, nas madrugadas, no Senado Federal. Escrevi “consumo 44”, a partir de um poema de uma lauda, utilizando um programa primitivo que ia misturando e imprimindo as mesmas palavras em ordens diferentes infinitamente. Cada livro tinha as mesmas palavras, mas cada um deles, fechado com um grampo central, apresentava uma combinação ao longo das páginas.

Antes que me estenda sobre essas experimentações vale lembrar que em Brasíla, já na UnB, compunha poemas gráficos, e comecei a incorporar o poema-processo que já era conhecido lá, Rio, São Paulo, Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Goânia, Minas, Rio Grande do Sul e outros lugares. A palavra passava a ser um elemento a mais na composição do poema. Me senti em casa. A imagem e a sonoridade faziam parte de meu cotidiano, junto com as intervenções artístico-políticas na universidade, nas passeatas, em lugares públicos, nos laboratórios. Não eram mais experimentações, portanto. Estavam presentes em ações coletivas. A pintura, a tridimensionalidade escultórica, a fotografia e outras linguagens visuais caminhavam juntas. Não havia uma linha limítrofe entre elas, existiam uma para a outra. Não foi preciso nenhuma ruptura para que a imagem fosse assimilada à palavra e vice-versa. Poesia e imagem são parte do mesmo corpo, se estiverem na mesma amplitude, onde não há uma corporeidade submetida a uma direção única, tampouco definição e coerência, onde a palavra torna-se imagem para transitar no mesmo universo de associações aleatórias ou pré-articuladas. A poesia pode ser um encadeamento de signos onde a palavra escrita e falada torna-se suporte, material, superfície. O poema liberta a poesia da palavra, incorpora outros alfabetos imprevistos, é a caixa preta onde qualquer matéria e material se articulam de forma semântica ou narrativa. Expande em todos os sentidos, de forma insubmissa.

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processo – fotopoema – 09/2015

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No final dos anos 1960 houve um debate público sobre a diferença entre poesia e poema. A poesia visual, o poema-processo e outras linguagens já definitivas, consideradas experimentações ainda, utilizaram  símbolos, desenhos, números, códigos, fotogramas, objetos, palavras e tudo o mais que estivesse disponível na escrita, na visualidade e nas sensorialidades…foram criados outros alfabetos portanto e quaisquer matérias disponíveis que se pudesse incorporar. A narrativa da poesia tornou-se mais simbólica, transgredindo radicalmente o exercício da literatura convencional da palavra escrita e falada. A imagem em movimento, a sonoridade, a tridimensionalidade, a cor, o corpo performático e a intervenção no ambiente real encontraram seu espaço dentro do po ema, no infinito espaçoporto da palavra e da imagem. A escritasigno se apresentou como forma de encadeamento de múltiplas expressões. A poesia salta fora das molduras e passa a ser a vida em um campo desterritorializado, livre das vanguardas autoafirmativas. Não há mais vanguardas na arte agora, as experimentações tornaram-se a própria obra, mesmo se desconstruindo e em processo. O corpo material e a imaginação se encontraram no mesmo campo de expressão, espírito e osso, matéria e antimatéria real e virtual ao mesmo tempo. As fronteiras se desfazem diluídas pela tecnologia ainda primitiva e por sua própria impermanência. Não há mais exclusão das linguagens anteriores na literatura e na arte. Na escrita tudo se inscreve. A imagem, o olfato, o tato, a palavra, as ideias.

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escripta – fotopoema – 07/2014

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Houve o rompimento da linha do tempo concebida retilineamente. Tornou-se ou foi percebida como esférica, em expansão, com raio infinito, sem centro. Agora sim, podemos viajar livremente no tempo, ler e escrever sonetos, cordéis, poemas concretos, futuristas, modernistas, dadaístas, virtuais, contemporâneos…em objetos, imagens e tudo sempre nada nunca. Tudo se transforma em matéria do poemapoesia. A arte contemporânea deixa de excluir o passado e exaltar a apologia do futuro, a poética torna-se síntese e análise ao mesmo tempo. À liberdade de expressão e representação não cabe mais definição. Mas estabelece-se a liberdade de falar sobre ela como bem entender, corre-se o risco do equívoco, do salto abismal e livre no escuro, a desmistificação da academia de boas referências e citações aparentemente unânimes, mas necessárias para quem precisa. Vale tudo sim e é isso mesmo, a poética torna-se o único espaço de liberdade absoluta. Há ainda uma contração e expansão no mesmo campo potencial e exponencial da criação. Voltou a ser o que sempre foi? Se ainda há resistência em compreender isto é uma questão de tempo. É irreversível. Tudo é matéria para o poema (o espaço escuro ou sólido entre uma constelação e outra, entre duas ou mais substâncias, onde o plausível, o desconhecido, o improvável, encontra-se o lugar da poesia). Onde parece nada existir há o poema, o preenchimento do vazio, o cheio do ôco (obra de Amélia Toledo/anos 70).

infinitos 08/09/minerais e res. acrílica s/tela/1992 [pinturas]

5- F.P.: Seus trabalhos estão igualmente imantados de memória e tempo, os seus trabalhos com os pigmentos são exemplares. Contudo, quem de você se aproxima pode observar o quanto você tem prazer em transmitir oralmente o seu processo de trabalho ao longo de sua trajetória de vida. A transmissão de sua linguagem nas artes visuais também é passada de forma oral e tem um caráter testemunhal?

X.C.: O barulho da fala e o silêncio da criação são parte de minha trajetória e circulação, em tempo integral de dedicação à poética da arte. O exercício da memória é fundamental para que possa viver em estado de criação, sem submissão a mim mesmo e obsessão em relação ao trabalho. Tanto as escritas e anotações que vou acumulando são registros de momentos que vivenciei e mesmo que não sejam explícitos nos textos e imagens lembram exatamente o instante em que foram realizados. Qualquer vestígio encontrado nos arquivos desta memória se desdobra em narrativas e interpretações, associações, cenários e personagens que estão presentes. A escrita torna-se uma síntese de fatos e significados contidos em uma palavra ou anotação simbólica. Eventualmente procuro sintetizar em um registro, imagem ou objeto, este acúmulo eliminando parte deste volume, que vai para o lixo ou é queimado, como na obra “meteoro cúbico poético/caixa preta 01 e 02” com mil poemas inéditos incinerados. O mesmo acontece com os “livros de pedra”, “diálogos” e inúmeros outros objetos e poemas inéditos. Quanto à pintura com minerais, é uma herança de família em um percurso histórico de inúmeras histórias e cargas de significado, porque há uma reflexão e uma fixação de acontecimentos em seu processo de materialização. Tenho certa dificuldade de explicitar com clareza isto, pois tem uma potencialidade impregnada de muitos fatores simultâneos e desdobráveis em muitas leituras e interpretações.

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queimadearquivo – fotopoema – 02/2015

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Tenho tido uma vida de muitos acontecimentos concentrados em pouco espaço de tempo, devido a certa inquietude e desejo de me expressar permanentemente, mesmo no silêncio, que ocupa 80% do meu tempo. Sou testemunho de muitas transmutações e transformações ao longo da história contemporânea por participar ativamente de quase todos os fatos determinantes deste processo. Talvez por estar voluntária e involuntariamente nos lugares onde ocorrem as transições mais significativas e fazer parte delas. A oralidade talvez seja excessiva em certos momentos porque tenho a sensação de que uma vida só não seria suficiente para o relato. Mas é. Vou codificando o percurso, constituindo uma memória ou me lembrando do que já sabia. Há ainda a percepção de que o tempo é uma síntese infinita e que é possível percorrê-lo com a máxima liberdade e transitar por espaços que aparentemente não conheço e que certamente fazem parte de uma memória universal. Mas aí são outros quinhentos. No poema esta viagem é possível, há um de passe-livre.

6- F.P.: A conexão entre o coletivo e o individual também parece ter levado você pelos caminhos da experimentação e a participação social. Além de sua participação político- institucional na Unb, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e Funarte, os blocos de carnaval Suvaco do Cristo, o Vade Retro, e o Cordão do Bola Preta, deram a você régua e compasso para a conexão entre o coletivo e o individual?

X.C.: Nascer coletivo e crescer autônomo é uma parada difícil de entender e encarar. Se não fossem os acontecimentos sucessivos que fui encontrando durante a vida tumultuada, dramática e divertida, talvez não tivesse me confrontado tanto com as formalidades caretas, reacionárias, repressivas, hipócritas, enrustidas, convencionais, restritivas, panfletárias, acadêmicas, discriminatórias, anacrônicas, patrulhescas, autoritárias, e vai por aí afora. Também não faria sentido bater continência e não corresponderia à poética livre que já havia incorporado. Na adolescência e na Universidade de Brasília, parti para a reformulação e reconstituição de metodologias educacionais revolucionárias e luta pelos direitos humanos, movimentos políticos contra a ditadura e censura. Fui preso, expulso ilegalmente, vivi na clandestinidade e mais tarde fui exilado. Reconquistei a formação acadêmica necessária para abstraí-la e ingressar na contracultura. No Rio de Janeiro consolidei de forma independente a sobrevivência profissional na inciativa privada dos jornais, televisões, rádio e agências de publicidade. Nas radiações paralelas construí e participei de inúmeras tramas contraculturais à margem do sistema, com a arte e a poesia como estandarte, na abertura de espaços enclausurados. Entrei para o serviço público pelas mãos do maestro tropicalista Julio Medaglia, por acreditar que era possível mudar o sistema de dentro para fora. Acertei na mosca e por diversas vezes errei o alvo outras tendo consciência de que raramente se vive puramente de arte neste país. Desdobrar esta trajetória não caberia aqui, pois as vidas paralelas se tornaram uma história só ao ter que agir simultaneamente em vários territórios e assumir apenas uma coerência: a poética permanente e indissolúvel. Quanto ao carnaval, aí sim, acredito que minha participação nele corresponde ao que mais explica esta aparente tumultuada consciência social transpolítica, onde tenho encontrado a maior quantidade de expressões contemporâneas e populares, trazendo permanentemente a pergunta: arte popular contemporânea ou arte contemporânea popular?

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 vermelho -fotopoema – 01/2015

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até porque a nossa língua, considerada mal falada, e por isso mesmo rica em novas artimanhas de pronúncia e vocabulário, diz que tudo aqui termina em samba, tem toda razão e propriedade. Diríamos em samba e marcha e outros remelexos. Porque o samba, a marcha e todas nossas batucadas deram ritmo à multiplicidade de suas formas de interpretação ao espelhar os muitos roteiros que contêm a nossa história e dela extrai leitura crítica e ainda dá a volta por cima das ciladas articuladas para desmerecer sua lógica e razão. O que foi contado até agora nem cabe no caldeirão que está no fogo a mesclar expressão plástica e pensamento e formar liga não identificada que a cada momento muda de feição. É cinema de ficção e também realidade, não é só representação. É manifestação de uma cultura que caminha para a construção da antimatéria versátil capaz de ligar alhos com bugalhos sem nenhuma culpa na interpretação. São muitas origens e imagens para formar um desfile de temáticas, controversas e indefinidas, que o carnaval tenta contar e ilustrar em suas passeatas épicas, com ironia e sátira, denúncias e alegorias onde tudo cabe e vira história e a história vira lenda, vira-lata com toda a sua imunidade para resistir à extorsão. Os valores desta sociedade ainda podem estar na transitoriedade e isso é sua identidade que talvez um dia nos faça assumir a liberdade total de expressão. Não nos assustaria se um advogado, pedreiro, secretária, ministra ou empregada, no futuro fossem para o trabalho sem terno e sem gravata, uniforme ou vestimenta padrão, mas com sua fantasia de pirata, pantera- lantejoulada , colibri da mata atlântica, capeta com asa de anjinho ou colombina apaixonada. Não desmereceria seu profissionalismo essa sua indumentária e talvez a vida se tornasse mais feliz e o trabalho rendesse bem mais resultado.

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mulungu-baru – fotopoema – 01/2014

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em um fragmento do labirinto popular contemporâneo o que acontece com a arte do povão que tudo isso presenciou e mais ajudou a construir, à margem das elites, nas periferias e nos confins de Matusalém? É uma história longa. Já havia mais se misturado e integrado fragmentos de arte erudita e moderna recolhidos aqui e ali constituindo uma expressão própria, rica em todos os detalhes que a pudesse colorir. Autodidata por talento, instintiva por origem, generosa por tradição, inventiva por natureza, a arte popular traz outra real grandeza.  Aqui adquiriu mais e mais inúmeras fisionomias. Nascera por todos os cantos e povoara os lugares na expressão do imaginário, alegrias e tristezas nas cenas de seu mundo cheio de eventos, histórias e fantásticas invenções. Este povo misturado já havia recriado os conceitos mais refinados de arte e vida, de sobrevivência, em meio a uma sociedade elitizada que os tinha como seres invisíveis, mas que estava em todos os detalhes de qualquer edificação. Mas deste seu mundo afastado, entrelinhas aflorou com dignidade seu poder de criação, no sincretismo já talhado em ritos, mitos e mistos de expressão. João Câncio, Nhozim, Genésio, Nilson Soldado, Dona Ciça, Maria Lira, Zulmira, Maria Cândido e Zezé do Juazeiro. Santos de barro e de madeira, rústicos, orgânicos, orgátiscos. Antonio Poteiro, Deildo, Ruin da Beca e Madalena. Volumes resolutos, bordados floreados, capitéis matutos, cortes firmes e catiretês. Vitalino, Berenice, Hernestina, Zé Caboclo, Severina Batista e Zezinho de Tracunhaém. Ilusionistas, cenográficos e repentistas do improviso nas violas, formões, pincéis. Mudinho, Chico Tabibuia, Jonjoca, Idalina, Padeiro Oliveira, Kátia e Tina. O pife e a rabeca, a zabumba e o triango, o calango molambo no baião do Véio. Maracás, maracatus, pau de sebo, boi pintado, gaioleiros, profanos santos de terreiro, unha de cutia e casco de tatu, cuias raspadas com escamas de pirarucu. Pirogravuras, xilos, tambores, caixa-prego, surdos e pandeiros, sanfonas pé-de-bode, potes e carrancas, dentes de macaco, raízes curandeiras e ramas benzedeiras. Mestre Didi, Louco, Adão de Lurdes, GTO e Ana do Baú. Chama na chincha zebedeu do pajeú, Zeca na peroba, pau rosa e pau-caixa de viola-de-coxo paranaguaçu. Margarida Rendeira, Zé da Onça, da pamonha e do angu. Farinha branca e amarela, gabiroba, gravatá, araticum. Marmelada de cachorro, bacupari, cajuí e cajuína, fogo aceso em lamparina, couro de jaguatirica e castanha de caju. Daí pra frente não tem fim e não se sabe como começou. Isso tudo foi também entrar na veia das cidades, pelo anel disforme das fronteiras mais urbanas, pelas estações de trens, nas ruelas das favelas, nos mocambos, palafitas, vão pra Lapa e pro Bexiga, pelas vilas e botecos e nos casarões das tias. Autodidatas de nascença e sem dinheiro para frequentar escolas, aprendendo observando e improvisando cores, formas, objetos, melodias, povoam os canteiros com mais flores e espinheiro numa  história de sofridos, saudosistas, românticos, redimidos, conformados e aguerridos combatentes. São os sambas, batuques, pontos, maxixes, valsas, choros e chorinhos, tocados em violões caseiros, cavacos, flautas e pandeiros, tamborins e clarinetes, frigideiras, caçarolas, trombones de vara, peças de arte pura artilharia. Já que assim começa o samba, o frevo, a marcha e a folia, vieram os ranchos, os cordões, os blocos, as escolas e a nossa fantasia tomou de assalto as ruas, praças e avenidas num encontro de nascentes, de plurais vertentes e imensa poesia.

no carnaval a cidade inteira se inflama, dos subúrbios para as praias, das ruas dos centros para os bairros, nos clubes, play-grounds, ônibus, metrôs, automóveis e a multidão nos blocos vai a pé. Cada um inventa a sua fantasia, representação do infinito inconsciente ou simplesmente sátira e ironia com a vida e com a história, cada qual quer ter enfim o seu momento de glória, entre sambas românticos e anarquistas, marchinhas, frevos, afoxés e também trazem as famílias reunidas como em um ato de fé a profanar o dia a dia das gravatas, escritórios e uniformes, fábricas e burocracias. Dá de tudo que se planta, ou que nasce espontâneo do coração e da razão, o que foi pensado o ano inteiro e em rompantes de improvisos e conhecimento técnico. Centurião com cabeça de cabrito, ET coelho com antena de TV, múmia enrolada em serpentina, fada com tridente de capeta, gata púrpura reluzente esguicha seu perfume sobre um grupo de bombeiros futuristas. Mais adiante entre chuviscos de confetes uma zebra de poliestireno caminha sobre pernas finas de pele de serpente e um bola- preta de chupeta quer mamar a canjibrina que um gaiato chacoalha num penico. Surge o verde Hulk numa esquina, agarrado a uma antiga colombina tendo atrás dois gaiatos carregando um arco-íris,  e uma medusa mostra as cobras da cabeça para assustar as criancinhas. Um Charlie Chaplin sai de um filme preto e branco com o chapéu coco rescendendo naftalina, se apresenta performático e reverencia uma morena de cabelos azulados com antenas tremendo ao som da bateria. Um pinguim de fraque e de cueca lê um jornal pingando sangue enquanto passa um grupo de enfermeiras de shortinhos brancos e dentes de vampiro. Os camelôs fazem a farra com seus tabuleiros de bijuterias e adereços para colorir os que chegaram sem ter endereço para entrar nessa folia. Cortinas de fumaça aqui e ali, onde as brasas sob as grelhas assam salsichões, linguiças e churrasquinho de gato para alimentar e toda a galera atravessa sobre carrinhos de isopor a transbordar água, refresco e muita cerveja. Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor, Lira do Delírio, Banda de Ipanema, Bloco de Segunda, Barbas, Escravos da Mauá, Que Merda é Essa, Bangalafumenga, Vade Retro e Cordão do Boitatá homenageiam Bafo da Onça, Cacique de Ramos  e Chave de Ouro, que noutros tempos foram gigantes pioneiros arrepiando o carnaval de Bonsucesso a Rio Branco. Na porta do Museu de Belas Artes um grupo de panteras treme o chão da arquibancada quando passa uma rapaziada quase pelada misturada de índios, escravos e louras eslavas carregando num andor uma deusa dourada e cacheada como os anjinhos barrocos dos altares.

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xico-carnaval

adereço turbante trama laranja – 2014

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7- F.P.: Você escreveu um poema caudaloso, como o Rio Amazonas, intitulado “Amazonas Pai Gê”, em homenagem ao seu pai. Quando li esse poema, assim como “Chuva”, o que ficou marcado para mim foi o ressoar do barulho das águas através das palavras.  Onomatopéia poética? Essa é uma maneira de traduzir a natureza no poema assim como você o faz com os pigmentos na pintura?

X.C.: Amazonas Pai Gê foi escrito em 2012 e Chuva em 1976, inéditos. Ambos são torrenciais, sendo um largo e extenso, de geografia transbordante e o outro longo e estreito, quase concretista. Mas os dois incorporam a onomatopeia como forma de sonoridade para dar ênfase a duas tempestades distintas, uma horizontal, cheia de acidentes e surpresas, e a outra vertical, rítmica e monocórdica. Creio que o exercício da sonoridade, adquirida em parte no cordel, tenha sido incorporado nestes poemas, como em Purpurina, Alfa-Versus Gang, Urucum Fumaça e Anja Raia e Diabão, “cordelírios” (segundo o poeta e editor TT Catalão). Em alguns recitais e performances tenho ainda reinterpretado estes poemas de fonéticas percussivas e que permitem diversas leituras e sonoridades onde a língua brasileira vai se desdobrando em sincretismos afro-brasileiros e indígenas que junto ao idioma português traduzem parte de nossa forma mestiça de pronunciar. O contemporâneo popular e o popular contemporâneo se encontram aí. Na pintura com minerais e mídias industriais ocorre realmente algo similar, pois ocorrem fenômenos de assimilação de matérias e materiais que se harmonizam de forma geográfica e conceitual. A sequência da trajetória de pinturas e objetos formam séries e conjuntos temáticos similares ao poema-processo quando estabelece narrativas simbólicas para explicitar tema abordado em determinado momento. As pinturas e objetos vão se desdobrando em uma narrativa ao longo do tempo (Pintura Invisível, Luzz, Nova Matéria, Infinitos, Limites, Arqueoplanos…), representando diversos períodos, de forma a constituir uma história que começa no vazio, abre para a gênese do espaço cósmico, a materialização dos corpos sólidos na visão ortogonal, horizontal, múltipla, arqueológica e assim por diante, até reunir novamente a cosmogonia da luz à geografia sólida em diversas versões. Tem muito a ver com as transformações geológicas, geográficas e energéticas onde a água, o vento, o fogo e o ser humano, como agente geográfico, intervêm na natureza e suas origens. O diferencial é que o poema escrito não intervém de forma tão decisiva na geografia mas na natureza humana e suas mutações. O poema escrito e falado é, para mim, um registro diário de uma trajetória, lança mão de ferramentas muito simples e disponíveis como a caneta (ou outro material que retém a escrita) e uma superfície (papel ou qualquer outro suporte) e a voz. Devido a isto, pode ser praticado permanente e instantaneamente, em fluxos intermináveis. Vão se acumulando, formam uma caixa-preta distribuída em múltiplos arquivos. Para mim não precisam de sustos para ser escritos e podem ser disponibilizados de diversas formas ou formarem um acervo que pode ser reescrito e reinterpretado. O poema escrito e falado tem uma função revitalizadora do processo criativo.

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pois então vou procurar meu pai grande

pajé anarquista

beberrão, mulherengo, carnavalesco,

no meio das índias

deusas da floresta

mães da nação

no meio dos índios

que pegavam onças pelos focinhos

e curimatã pelas guelras cor-de-sangue

um bicho da cidade

metido no mato

aventureiro falastrão

no meio da selvarada

cheia de piraracuras pintadas,

amarelas, prateadas,

cor de chumbo

cambaleante nas noites

cintilantes ribeirinhas

no xadrez da praça

camaleão preto-e-branco

terrestre navegante

gigante que dominei

no jogo de dominó

monstro que amassei

como se fosse papel

boto que encarei

e depois botei pra fora

sem mágoa sem rancor

sem choro nem vela

sem fita amarela

navega o sol no impossível

no próprio reflexo d’água

que a chuva lava

no resto da mágoa

que ficou

no prato raso de jambu

aqui é cuia

oco da voz

da vida que vem da morte

o som que ressoa

debaixo de tanta água

coitéquaraçuana

                   sussuarana

na beira  

              boiando

de olheira

               amazoníadaespreitando

uma cara redonda

                       noutra bem ovalada

olhos de oriente

               pele de burro fugido

olhosvivosdecaça

onde

         cabem

                   as lendas

da noite

         de onde brotou o dia

caras

                       caras pálidas

redondas

               caras pintadas

   sem

         urucum

caras

         herdadas

                       de índios-ovni

cara         peba

cara     piau

cará

           caraopeba

Icaraí

         Caraíba

carandaípitubaru-aguaranaéta

Itaperuna

             essas caras redondas

de

   lua

       de

           genipapo

lá embaixo a noite

esconde a mataria

e as cidades nascendo

em volta de postos de gasolina

estradagrande

                     deluminosos?

circuitos iluminados

                     chips satélites

                         carrosvagalumestradas

piscam

           vagueiam nas veias

                                         margeando

tribos destroçadas

                         de cerâmicas

                                         esfaceladas

na beira

             dos rios

                         nas estradas

mendigando descabeladas

                             crianças esbugalhadas

mães prostituídas

   embaixo

                 da

floresta:

               o ouro de tolo

o falso

           brilhante

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Trecho de Amazonas Pai – Gê – 2010

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8- F.P.: Alberto Saraiva, curador, no livro “Xico Chaves”, que abrange grande parte de sua obra no ensaio “Xico Chaves/ vida- arte- política: encadeamentos”, situou o trinômio vida- arte- política como o centro de suas atividades, e cita uma frase de Jacques Rancière que me parece muito interessante: “A política tem a sua estética e a estética tem a sua política”. Como você se arranja aí?

X.C.: Embora a política não seja o centro de minhas atividades( que não têm centro), Alberto Saraiva tem razão ao perceber isto em instantes marcantes no conjunto da obra. Talvez porque haja frequentemente esta evidência, que adquire maior repercussão em determinadas questões coletivas da nossa história. Há momentos que temos atitudes críticas de maior potência midiática e as exercemos com ênfase e elas adquirem maior propagação. Vejo a política como uma atividade natural de cada um de nós por expressar o momento em que podemos exercer este pensamento crítico com liberdade, às vezes até mesmo de forma panfletária. Mas procuro sempre expressar conteúdos interpretativos diversos numa mesma poética. A política convencional tem se deteriorado tanto que chegou à sua quase auto- extinção, apresentando uma deplorável estética voltada para interesses corporativos e pessoais. Por outro lado, a política da estética também se diversificou tanto que se diluiu entre as múltiplas formas de expressão simbólica. Tenho repensado estas questões e deixado em aberto o espaço para reinterpretar os significados da poética da arte contemporânea e não vinculá-la intencionalmente à política. Se por uma condição ou outra este vínculo ocorrer é devido a este campo em extensão que tangencia naturalmente as questões ideológicas. Outros trabalhos considerados políticos e atemporais foram criados desde os tempos de estudante na UnB. Talvez por transitarem neste limite entre o fato real e simbólico, agregadores de múltiplas interpretações, onde a poética torna-se uma síntese.

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xico-forcasocultas

forças ocultas 01 – poema-objeto – 2008

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9- F.P.: Tem trabalhos seus que se situam entre a performance e a ação política, e que não podemos dizer que sejam datados, como por exemplo, aquele que você realizou nos anos da repressão, em que você coloca “olhos” na escultura que representa A Justiça na Praça dos Três Poderes em Brasília. Esse trabalho se atualiza hoje e influencia outros trabalhos como a performance realizada esses dias em Brasília, contra o impeachment de Dilma. Como você vê a atemporalidade no seu trabalho?

X.C.: “Olhos na Justiça” foi uma intervenção performática realizada em 1992 por ocasião do impeachment do ex-presidente Collor. No entanto não foi direcionada especificamente a este fato. Reúne uma série de ingredientes e fatores históricos (um deles tem a ver com os “anos da repressão”, como você citou), mas naquele momento, havia um cenário cumulativo de questões referentes ao papel dúbio e de múltipla interpretação da lei no Brasil. Uma cultura que apresenta recursos para todos os lados e que foi sedimentada de forma a favorecer sempre os mais privilegiados e os interesses de uma classe dominante que não larga o osso do poder. Por outro lado, a imagem da Justiça cega é questionável, pois está em trânsito do plano real para seu lugar entre os arquétipos, onde se consolidaria e poderia não ser mais questionada, pensei. Colocar dois grandes olhos esquemáticos vesgos nela (um olhando para o Palácio do Planalto, e outro para o Congresso Nacional, onde tramitava o julgamento), significava, naquele momento, interromper este trânsito. Por coincidência os cara-pintadas saíram à rua em grandes manifestações na tarde daquele mesmo dia. Havia uma sincronicidade, isto não havia sido articulado. Foi uma coincidência. Havia um pensamento coletivo que eclodiu espontânea e repentinamente em um país que estava em silêncio diante de tantas denúncias de corrupção. A intervenção teve um efeito midiático nacional e internacional espetacular. Fui preso em plena democracia e solto algumas horas depois. O Brasil inteiro se coalhou de luto e de olhos arregalados. A justiça cega passou a enxergar? Creio que não, mas a escultura de Cesquiatti, de costas para o STF, na Praça dos três Poderes, passou a assumir um protagonismo que até hoje perdura. O Quarto Poder se tornara evidente, a Mídia, talvez representada pelo Pombal, obra de Oscar Niemayer, pouco conhecida, na mesma praça.

Tenho um enorme dossiê em uma pasta azul sobre esta intervenção. Lá estão todos os passos de sua articulação e desfecho, pensada em absoluto silêncio durante 4 meses, iniciada na ECO 92, quando realizei a performance “O Mal de Volta à Origem”, no aterro do Flamengo, atirando uma flecha envenenada com nomes de tribos extintas em direção ao primeiro mundo. Aconteceu que a coletividade, por meio de seus instrumentos de mobilização, começou naquele momento a questionar com mais frequência a justiça de forma mais ampla, mas sua dubiedade e subserviência ao poder financeiro e econômico prevalece. Outros trabalhos atemporais e de representação simbólica foram sempre realizados, desde os tempos de estudante da UnB até os dias de hoje, quando encontram sua oportunidade em performances e intervenções… poemas escritos, pintura, fotopoemas e objetos, como em Forças Ocultas (quatro garrafas de Coca-Cola, pintadas de negro, com terra de Brasília) muitos deles veiculados na internet e que são compartilhados quando alguém encontra uma oportunidade, uma associação com um determinado fato político, estético ou comportamental.

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Olhos na Justiça – performance-intervenção – 1992

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10- F.P.: Quais foram os seus últimos trabalhos realizados e quais são os seus projetos futuros?
Tenho estado em atividade permanente em múltiplos projetos pessoais, coletivos e institucionais. Alguns em estado de finalização, outros já concluídos em exposições e eventos em diverso locais, outros mais em processo de criação em atelier e estúdio, digitalizados e disponibilizados temporariamente , em trânsito e concepção.

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sem fim/órbita poética ox2001 – macroprojeção digital interativa – 2011

chuva

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*Fátima Pinheiro é psicanalista membro da EBP/AMP, artista plástica e colunista do Blog da Subversos.

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