O artista por ele mesmo: Luiz Dolino

Chão de estrelas

Por Fátima Pinheiro*

Este número de “O artista por ele mesmo” traz a entrevista que realizei com Luiz Dolino (Macaé-1945) que vive e trabalha no Rio de Janeiro e em Petrópolis. Artista que se utiliza da geometria para criar novas realidades a partir de seu cotidiano, Luiz Dolino expôs individualmente em vários países desde 1968, além de participar de diversas exposições coletivas neste período. Sua obra faz parte de acervos de importantes instituições do mundo. Para além da pintura realizou também trabalhos de capa e ilustrações em livros de Carlos Drumond de Andrade, e atualmente é colunista do blog da Editora Subversos.

O seu trabalho provém da influência do discurso concretista que o artista Max Bill no início dos anos 50 produziu a partir de sua chegada ao Brasil, e que teve como um dos grandes expoentes o artista Ivan Serpa, com quem Luiz Dolino estudou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. As relações que o artista evidencia em seus trabalhos partem da matemática, mas revelam que o seu trabalho não está focado unicamente em uma pesquisa formal, uma vez que não trata de entender os sistemas de forma ordenada ou funcional. Ao contrário, os sistemas com que o artista trabalha não estão regidos pela complementariedade e equilíbrio. Este aspecto torna a sua obra voltada para uma poética que, como ele mesmo diz, não está remetida a “uma fórmula mágica”, e acrescenta: “o que se pode de fato chamar de mágico é o espaço branco, vazio que nos desafia, atrai, e por vezes rejeita”. Nessa entrevista, através do depoimento e de imagens de alguns dos trabalhos do artista, pretendemos transmitir algo de sua poética e da sua trajetória, permitindo assim não dissociá-la da linguagem que a constitui.

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Paisano 130x150 cm

Paisano

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1- Fátima Pinheiro: Você estudou com Ivan Serpa que foi um artista concretista até os anos 60 e que a partir daí voltou-se para o expressionismo, sendo considerado um dos primeiros artistas do abstracionismo geométrico no Brasil. Qual foi a influência que ele exerceu no seu trabalho?

Luiz Dolino: Serpa era, como professor, uma figura muito singular. Ele atuava julgando o tempo todo. Levávamos um ou mais trabalhos ao MAM, ele passava os olhos. Criticava. Em geral, comentava desconstruindo a obra. Quando terminava o discurso, a gente sentia que não tinha sobrado nada… Mas isso não era tão mal como pode parecer; muito ao contrário, ele nos ensinava a perseguir a excelência, descartar o óbvio, conquistar a linguagem.

2- F. P.: Para você o que significa a pintura?

L. D.: A pintura é uma forma de expressão não verbal. É uma possibilidade de organizar nossas emoções por meio de uma gramatica própria que contempla basicamente a forma e a cor

3- F. P.: Certa ocasião você revelou que se inclui entre aqueles artistas que ao iniciarem um trabalho não teriam outro objetivo senão o de livrar-se dele o mais rápido possível. Por que você quer se livrar de forma rápida do seu trabalho?

L. D.: Eu sinto que a necessidade de expressar alguma coisa nasce de um incômodo primordial que não machuca e nem ofende muito num primeiro momento, mas que, com o passar do tempo, vai criando volume; vai se tornando algo de impossível convivência. Chega então um momento em que a necessidade de dizer se torna insuportável, então o que fazer? Botar pra fora correndo, caso contrário a gente morre.

4- F. P.:Como você percebe que um trabalho seu finalizou?

L. D.: O trabalho está pronto, acabado, fechado, quando eu sinto claramente que qualquer acréscimo será supérfluo e que insistir seria uma forma de corrupção da ideia original. No caso da pintura geométrica, no meu caso, planista, com superfícies muito determinadas, penso que esse primado fica ainda mais ostensivo.

5- F. P.: Muitos de seus trabalhos, entre eles Sabará (2004), Tapera (2004) e Altair (2011) apresentam uma geometria em desequilíbrio, revelando uma não complementariedade entre as partes que o compõem. O que você pode nos dizer sobre este aspecto do seu trabalho?

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OLYMPUS DIGITAL CAMERASabará

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Altair_130x150cmAltair

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L. D.: Como forma tentativa de elucidar a questão, acho que posso dizer muito pouco sobre o aspecto posto em destaque na pergunta. O que posso acrescentar é que, nas três obras citadas, forço ou enfatizo uma necessidade de deixar um rastro de algo que sobrevive a custa de um equilíbrio muito precário, ao contrário de outros trabalhos, talvez a maioria, onde não deixo margem a dúvidas sobre o que concerne à divisão áurea do espaço.

6- F. P.: Você realizou várias exposições fora do Brasil. Como foi a experiência de apresentar o seu trabalho em lugares tão diferentes do Brasil como a Tunísia, San José e Suiça, por exemplo?

L. D.: A experiência foi muito plural, naturalmente. Quando você menciona esses três países, passamos a tratar de culturas diversas como a do mundo árabe; a da nossa vizinhança latino-americana e a da racionalidade da matriz europeia, generalizando um pouco. No ambiente islâmico, onde a figura humana, por exemplo, é algo fora de cogitação, exibir, como no meu caso, uma arte ancorada fortemente na matemática, estamos nos aproximando com uma linguagem muito apreciada por esse público, o que assegura desde a primeira hora uma sensação de conforto. Por outro lado, a vizinhança hispânica nos faz sentir em casa em um primeiro momento, mas em seguida, em termos de expressão, se instala uma estranheza, fruto de um mundo mágico que permeia a percepção dos povos ameríndios. A Suíça me fez sentir como um invasor bárbaro. É que lá me pareceu que o visitante se acerca do trabalho de um artista brasileiro esperando encontrar algo que se identifique com a ideia de um ambiente surreal, no mínimo. No entanto, no meu caso, ao se verem diante de obras que são primas-irmãs das criações de Max Bill, Mondrian ou de Rothko, apenas como citação, o olhar do espectador confessa uma expressão de desconforto, como se eu fosse um fraudador que se apropriou sem qualquer cerimônia daquilo que lhes pertence de maneira inalienável. Claro está que tudo isso é passageiro, mas é a primeira impressão que costuma ficar.

7- F. P.: Você trabalhou, também, como curador em algumas exposições. Uma delas foi realizada em San José, com trabalhos de Ana Bella Geiger, Ana Letícia e outras. Como foi para você esta experiência de curadoria?

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Lulu's back in townLulu’s back in town

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L. D.: A experiência de curadoria é das mais enriquecedoras. Isto porque todas as vezes que me submeto a essa tarefa ficou a mercê de uma disciplina que me obriga mergulhar em profundidade em temas muitas vezes fora do meu universo mais cotidiano. Foi assim para realizar O Tempo sob medida, que celebrou os 200 anos do Banco do Brasil; uma exposição que abarcou um acervo milionário de máquinas, equipamentos, símbolos, pinturas, um pouco de tudo aquilo que ajudou o Homem a avaliar e medir as horas. Eu encarei o desafio de forma precária, mas tive a chance de estudar, falar com quem sabia e ficar um pouco mais esperto no tema. Tudo isso se repetiu, em grande estilo, ao fazer a curadoria da mostra Rabin Ajaw. Com a proximidade do fim do mundo, fui instado a me aproximar da Cultura Maya, que apregoava o fim dos tempos para dezembro de 2012. Para mim, foi mais uma aventura deslumbrante e mais espetacular ainda foi o resultado do trabalho, ao mostrar um pouco da cosmogonia maya. No caso da exposição em San José da Costa Rica – Confrontaciones – atendi a um projeto do Ministério das Relações Exteriores, celebrando o Ano Internacional da Mulher. Para esse evento, convoquei a fina flor da arte brasileira no campo da gravura, onde as damas assumem uma posição de grande destaque. Assim, tive ocasião de formar um acervo múltiplo como linguagem e técnica, reunindo nomes de primeira linha como Maria Bonomi, Renina Katz, Fayga Ostrower, Anna Letycia, Ana Carolina, Anna Bella Geiger, Tereza Miranda, receita infalível de sucesso.

8- F. P.: Dentre os seus trabalhos existe algum, em especial, que expresse com maior intensidade a sua relação com a arte?

L. D.: Não, nem me parece justo indicar. Seria uma indelicadeza com os fiéis parceiros de minha solidão. A cada momento, a cada obra que realizo tenho, na sua epifania, um relacionamento particular, íntimo e singular com aquele trabalho que acaba de surgir e que, a partir daquele momento, vai estar ao meu lado na hora que eu precisar enfrentar o mundo.

9- F. P.: Você é conhecido como um excelente contador de histórias, e eu tive a oportunidade de constatar este seu talento ao introduzir esta entrevista, quando você se referiu ao tempo de convivência com o escritor Pedro Nava. Vc tem uma forma pictórica de contar histórias. Você poderia eleger uma breve história para nos contar, e assim podermos ter o prazer de nos deliciar com ela, para além de suas pinturas?

L. D.: Olha, eu deveria fugir dessa provocação. Realmente, tenho alguns amigos que me estimulam a contar… Pedro Nava era um deles; George Vidor, outro. Fernando Barbosa Lima chegava ao cúmulo de pedir que eu repetisse essa ou aquela; tinha as suas preferidas. Eu, na verdade, gosto é de brincar com a minha memória. Não busco na palavra, jamais, uma forma adicional de expressão, é só o que os franceses chamam de divertissement. Mas, como sou audacioso, vou me arriscar: no início dos anos 70, eu vivia no México. Um dia perdi uma aposta que consistia em pagar um jantar no mais famoso e caro restaurante da cidade. Não tive remédio. O escolhido foi o luxuoso Rivoli, então centro da badalação local. Como não me concentro no noticiário esportivo – e não esquecer de que estamos no início dos anos 70, Brasil campeão – não tinha tomado conhecimento de que Pelé tinha chegado ao México naquela manhã e pela primeira vez desde a conquista da Copa do Mundo, na qual ele foi o maior astro.
Marquei o restaurante para aquela mesma noite em nome do sr. Nascimento, que é o meu último sobrenome. Ao chegar ao Rivoli, nem sequer me causou estranheza a grande movimentação no local, dado que ali era o point da noite mexicana. Apresentei-me com a reserva feita em meu nome. O maître, entre gentil e perplexo, perguntou: e o sr. Nascimento onde está? Disse-lhe: aqui, sou eu mesmo. Só então, diante de uma avalanche de repórteres e câmaras de tv, me dei conta de que o Rivoli esperava pelo Rei. Aliás, diga-se, o local era digno daquela majestade. Foi um anticlímax geral, mas apesar disso conseguimos comer muito bem…

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Dama de Copas 130x150cmDama de Copas

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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