O artista por ele mesmo | Alberto Pucheu

Por Fátima Pinheiro*

Alberto Pucheu é poeta, ensaísta, professor de Teoria Literária do Departamento e do Programa de Pós-Graduação de Ciência da literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e pesquisador do CNPq. O seu livro de poemas A fronteira desguarnecida (1997) foi vencedor do Programa de Bolsas para Escritores Brasileiros da Fundação Biblioteca Nacional; e o de ensaios –Pelo colorido, para além do cinzento e seus entornos interventivos (2007),recebeu o Prêmio Mário de Andrade de Ensaio Literário, da Fundação Biblioteca Nacional. Entre seus inúmeros ensaios, textos e livros destacam-se alguns trabalhos de fotografia sob o título de Paisagens Urbanas apresentados na Mostra ArteFórum (2011), sob a curadoria de Beatriz Rezende; e o projeto Poesia Visual (2011), na Oi Futuro, sob a curadoria de Alberto Saraiva.

A entrevista que se abre aqui é a da vida de um livro – [o mais cotidiano que o cotidiano] de Alberto Pucheu. Este livro que foi construído em uma dobra do tempo, o mais cotidiano, foi para mim uma experiência de leitura única, cuja sensação experimentada foi a de ter mergulhado em uma arrebentação, de águas que não eram outras senão aquelas do mais puro cristal da língua.

As perguntas formuladas nesta entrevista mais do que definidoras de direções possíveis foram produzidas pelos efeitos dos resíduos deixados pela arrebentação poética de Alberto Pucheu. Experiência que deixou marcas, uma vez que fui afetada não pelo movimento da narrativa, mas por algo que escapole, que escorre, que foge de uma direção determinada. Foi isto que me levou a dizer antes da realização da entrevista que se alguma pergunta estivesse impregnada de sentido, a força das águas de sua poética poderia dilui-la para não se perder o fio – aquele fio tão caro aos poetas – o do sentido que não se fecha, que fica suspenso no ar. Essa belíssima entrevista que realizei com Albert Pucheu é um poema – testemunho do autor de um cotidiano que superpõe e dispersa o tempo, e que traz consigo o que há de mais humano- a sua letra

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Fátima Pinheiro: Ao ler o seu livro [mais cotidiano que o cotidiano] tomei-o ao pé da letra, escrevi ao fim de cada poema algo, depositei na página, uma frase, uma pergunta, enfim pequenos registros, efeito do que a sua poesia ressoou em mim. E é a partir desse efeito que pensei desenvolver a nossa entrevista. Farei, portanto, uma retomada de alguns momentos de minha leitura, que tentei precisar como sendo o salto único do leão, como localizou Freud, ao se referir àquilo que traz em si a marca da surpresa, da contingência… Quero também agradecer a você por ter aceitado o convite para esta entrevista, você que tem a grandeza de ser um poeta contemporâneo brasileiro, cujo projeto poético é tão cotidianamente humano, mais humano que o cotidiano, ao ponto de seu poema não acabar, mesmo que o poeta que há em você queira que ele acabe…

De gatos e poemas- um poema não acaba – claro – quando o poeta quer que ele acabe. Um poema não acaba nem mesmo quando ele dá o famoso clique. Um poema só acaba quando, lançado em algum lugar- em cima da cama, por exemplo-, um gato vai inesperadamente deitar-se em cima dele, passando-lhe seu calor. Um poema precisa desse calor, sem o quê não é um poema, ao menos, um poema dos que gosto.

Alberto Pucheu: Fatima, antes de tudo, obrigado pelas palavras amigas. Fico feliz que os poemas tenham ressoado, gerado efeitos. Parece ser isso o que os poemas geram, ressonâncias, efeitos, possibilidades impulsionadas por eles, mas, em algum grau, distintas deles, ou no campo de suas potencialidades, modos de lidar com os afetos, com os pensamentos, com a linguagem, com a vida, vinculados aos poemas e à escuta singular do leitor. Toda leitura é ativa, toda leitura singular é ativa e toda leitura ativa é singular, e é preciso que seja assim, bem como é preciso que esteja o poema ali, possibilitando esses efeitos e essas ressonâncias. Os poemas de fato não findam, eles se estendem, se desdobram nos tais efeitos e ressonâncias, quando (não) terminamos de os ler. Muitas vezes eles se tornam ainda mais vivos quando fechamos um livro, após sua leitura, e são esses os poemas que mais admiramos, esses que lemos quando já não os lemos. A brincadeira da fotografia do Thor (o gato que convive comigo) casualmente em cima de um poema enquanto eu o fazia e a página, recém-impressa, se encontrava em cima da cama quando ele foi se deitar sobre ela, deixando na página a marca de seu corpo, esse vínculo atávico e contemporâneo entre o poema e os animais, talvez mostre que o acabamento aparente do poema não é jamais seu fim, que, nesse vínculo com o animal presente desde o hino homérico a Hermes, em que está o surgimento da lira pela tartaruga (e por outros animais e vegetais), esteja uma das marcas de o poema não ter seu fim, de preservar sua aporia, que ele faz sobreviver, seus enigmas, que continuam abrindo possíveis.

1 – Fátima Pinheiro: Cotidiano é uma palavra que parece apresentar dois vetores em relação ao tempo. Ela presentifica o tempo que é habitual, do dia a dia, mas também atualiza algo que pode não ser homogêneo, em relação ao “habitual”, algo da ordem da surpresa, do contingente. O seu livro [mais cotidiano que o cotidiano] situa um “mais” no título. A palavra “mais” tem a ver com o que escapa ao que é habitual?

Alberto Pucheu: Essa é uma pergunta necessária e que eu deveria recorrer ao livro para respondê-la, mas não vou fazer isso. Esse “mais” cotidiano, esse “mais cotidiano que o cotidiano”, cria mesmo um paradoxo para mim necessário: a impossibilidade de separação entre o “habitual” e a “surpresa”, ainda que a surpresa não surja então como um fato extraordinário. Eu não poderia dizer que o “mais cotidiano” se reduza a um dos dois lados, abrindo mão do outro. Eu quis tentar colocar em palavras aquela experiência muito cotidiana de estarmos fazendo algo comum e repetitivo (algo que seria da ordem do “habitual”), como andar por uma rua quando vamos a um supermercado, por exemplo, e subitamente nos damos conta de que quem então caminha já não se lembra de si, nem do que vai fazer, nem de onde está vindo, mas simplesmente anda, esquecido. Tentar flagrar essa espécie de “tempo morto” (como o cinema denomina) da vida, esse cotidiano ainda mais cotidiano do que o cotidiano das repetições diárias, que se abre pelo meio do cotidiano mesmo, por intervalos, por brechas, por fissuras do e no cotidiano, foi uma das tentativas do “mais”. Nele, não há lugar para as oposições, pois sua experiência não escapa dos afazeres diários, muito pelo contrário, mas não se reduz a suas repetições mecânicas; ela não quer ser tampouco uma suposta aventura que escape da cotidianidade livrando-se dela, como uma surpresa que ecloda de uma situação excepcional. Essa é uma experiência de qualquer um, a qualquer momento.

2 – Fátima Pinheiro: Embora você trate do cotidiano em diversas vertentes, quer seja pela via do amor, pela via da experiência, pela via da violência, ou pela via do corpo, você subverte a crônica e nos prende em uma arrebentação poética, cujas águas são como cristais da língua. Fale-nos sobre o seu “fazer” poético?

Alberto Pucheu: Você viu bem que o fazer poético esteja inteiramente ligado à vida, ao amor, à experiência, à violência, ao corpo, ao cotidiano, a uma arrebentação. Para mim, o fazer poético está ligado não apenas, mas, sobretudo, à busca por uma intensidade que não sabemos qual é e que em alguns momentos escutamos seus chamados para que ela entre nessa concretude mínima que são os poemas. Como deixá-los vibrando? Como publicar essa intensidade? Que corpo (poético) abriga tal intensidade? O fazer poético está ligado a uma fratura qualquer da linguagem ou na linguagem, a alguma impossibilidade de dizer, de algum novo arranjo que surge disso, de alguma arrebentação em movimento que surge disso, desse volume denso que surge disso, como se uma vez ou outra nos deparássemos com uma frase na qual percebêssemos uma intensidade maior do que em outras e passássemos a trabalhar a seu favor, a favor de uma enxurrada que tenha força para nos arrastar.

Mas o poético também está naquilo que muitas vezes se apresenta como o que não é tido como poético, como o que pode vir de muitas direções, quase confundindo-se (com um deslocamento mínimo, com uma diferença mínima) com muito do que ocorre no cotidiano da vida de modo geral. Cabe, então, ao poeta, ter uma escuta a esse poético acolhedor do não poético ou a esse não poético que pode participar da experiência do poético. Essa indeterminação entre o poético e o não poético (quem tem alguma certeza hoje para determinar um e outro?) me parece ser um dos traços mais fortes da poesia contemporânea.

3 – Fátima Pinheiro: Em seus primeiros poemas do livro intitulados Tow-In você se apropria das falas de surfistas, retiradas de filmes e vídeos, e introduz o conceito polinésio de waterman, ou seja, aquele que, sob condições adversas, se entrega ao oceano e a terra. Contudo, você situa que “embora afeito às águas, meu ambiente é outro. É às palavras que, acordado ou dormindo, me submeto…” e apresenta, então, o que você chama de conceito de languageman. Esse é outro nome para poeta?

Alberto Pucheu: Poderia dizer que sim, mas com o cuidado de não reduzir uma multiplicidade de acontecimentos da vida a um só, com o cuidado de entender o poeta como essa abertura em que passam múltiplos acontecimentos da vida. Os surfistas passam pelo poeta, como suas frases, repletas de experiências limítrofes que as provocam, passam pelo poético. Enquanto os surfistas passam pelo poeta, o poético passa pelos surfistas. Esse belíssimo termo polinésio que lhe chamou atenção, esse termo de um hibridismo radical, waterman, me impressionou bastante. É curioso porque ele só funciona em inglês, em português ele não funciona de jeito nenhum, sendo um intraduzível. Como você disse, o surfe tem um lugar muito forte no livro, o da vida como arrebentação, o da poesia como arrebentação, o da vida poética como arrebentação. O tow-in tem uma força imensa pois nele o estilo não é nada mais do que, com um mínimo que é a prancha, evitar sucumbir à morte, manter-se vivo em suas imediações. Talvez a poesia seja isso também, um modo de manter-se vivo no limite no mínimo que é o preparo poético e o poema, o permanecer ali no treino e no poema-prancha, talvez o poema ou o estilo esteja mais do lado do informe do que, como muitas vezes pode parecer, do da forma, talvez o poema ou o estilo seja um efeito do informe que traz suas marcas, sua ressonância que traz seus sons. Voltando ao waterman, que arrasta consigo uma dimensão ética muito impressionante desses surfistas, dei-me conta de que em mim a água é a linguagem, meu meio é a linguagem, eu escrevo (poemas, ensaios etc.), eu leio, eu dou aulas, eu oriento trabalhos de alunos, eu dou palestras, eu escuto pessoas falarem, eu converso com pessoas, eu fiz análise um tempo, é pelas palavras que tento lidar com meus afetos e com os afetos das pessoas queridas e mesmo de outras, é pelas palavras que me perco e parcialmente me deparo com um encontro possível, é com elas que me ajeito e me desajeito, é com elas que lido com o outro, com o mundo… ou seja, “sob condições adversas”, me entrego à linguagem com sua precariedade e ao que ela não pode nem consegue dizer, como o surfista, você disse bem, se entrega ao oceano e à terra.

4 – Fátima Pinheiro: A questão amorosa é destacada em seu livro – ora você a trata de forma erótica e pulsátil, onde o corpo a celebra, como em “O livro de hoje do amor” (página 91)- de pistolas, crucifixos e jasmins, – ora o cotidiano do amor é preciso ser vivido como fuga como em “Não são só palavras”. O seu livro [mais cotidiano que o cotidiano] festeja a erótica dos mais variados tempos do amor. Você concorda com essa ideia?

Alberto Pucheu: Este é o meu primeiro livro em que aparece a dimensão erótica ou amorosa explicitada, tematizada mesmo. Pelo que me lembro, antes deste livro, apenas em um poema o amor havia aparecido de maneira explícita e, mesmo assim, de um modo sutil e discreto, ainda que muito terno. O amor passa a aparecer então por uma necessidade vital extrema, por uma imposição da vida, por não conseguir dar conta dela e pela obrigatoriedade de me colocar minimamente à sua altura. Entre outros acontecimentos, os poemas deste livro foram escritos após uma separação de uma vida a dois de 18 anos, da necessidade e da dor decorrentes desse fim, das enormes confusões do momento, das novas experimentações, do corte sofrido com o fim do casamento e também com o começo de uma relação amorosa nova, com a Gabriela Capper, que namoro até hoje, oito anos depois. Se eu dedicasse poemas, os poemas amorosos deste livro – e o livro inteiro – seriam todos dedicados à Gábi, mas, como acho importante manter uma dimensão qualquer de impessoalidade nos livros, eles não têm dedicatória e o livro como um todo foi sem a dedicatória, apesar do desejo de colocá-la. As poucas dedicatórias, amorosas ou não, que haviam em poemas e em livros anteriores, eu fiz questão de retirá-las quando publiquei A fronteira desguarnecida (poesia reunida: 1993-2007). Os poemas eróticos do novo livro surgiram então da abertura a novas experimentações trazidas pelo momento em que foram escritos. Há de ser dito que, com o fim do casamento, minha sensação íntima era a de um desacerto estranho, de uma desaprendizagem completa do que era o amor e de como amar e, consequentemente, da necessidade vital de reaprendê-lo, de experimentá-lo, de pensá-lo, mais uma vez, desde o zero. Ou seja, é um não saber que gera a necessidade de pensamento, é um não saber mais o que é o amor que gerou a necessidade de tematizá-lo, para poder lidar com a força do momento, muito maior do que eu conseguia dar conta. Talvez o que eu esteja querendo dizer é que a poesia está ligada à suspensão de toda e qualquer soberania de um saber, que a poesia se faz desde a ignorância, desde a aporia, desde o espanto, como já dizia o velho, tão jovem, Aristóteles. E isso é muito radical. A poesia, não importa se amorosa ou não, se erótica ou não, se faz, portanto, desde uma impotência, sendo essa sua força maior, singular, única, tornando-a um dos lugares mais decisivos do pensamento e da criação. Em um mundo em que tudo requisita o poder impositivo, a poesia o questiona pela impotência. Ainda hoje, talvez, sobretudo hoje, a impotência da poesia é sua força maior. Gosto de sua ideia de que, no livro, os poemas eróticos ou amorosos festejam uma erótica dos “mais variados tempos do amor”. Nesta festa trágica, à qual ficamos submetidos a sofrer experiências totalmente inesperadas decorrentes dela, talvez o momento do acontecimento traga mesmo múltiplos tempos amorosos, tempos dispersivos que nos rasgam fabricando em nós outros corpos, outros afetos, outros pensamentos.

5 – Fátima Pinheiro: Fiquei atenta a uma anotação poética sua que é a seguinte:

Desculpem-me os tradutores (a quem sempre agradeço) mas é mais difícil traduzir um poema para a língua que ele foi escrito do que para outra estrangeira.

Isto implica que cada poema traz em si uma língua estrangeira? Se sim, podemos pensar que um poema situa, algo do caráter de um nome – próprio? Algo que não tem tradução em nenhuma língua?

Alberto Pucheu: Cada poema traz em si uma língua estrangeira extrema, uma língua bárbara mesma, que tentamos, na medida do possível, traduzir, sem que jamais entendamos o que está ocorrendo. Há sempre um resto que resta intraduzível; talvez, muito mais do que um resto. O poema “Um boi vê os homens”, do Drummond, e os contos “Conversa de bois” e “Meu tio, o Iauretê”, de Guimarães Rosa, nos traz a dimensão dessa língua bárbara, dessas línguas bárbaras que, no extremo, podem chegar para nós pelas vozes animais, mas não apenas por elas, claro. Por saberem que lidam o tempo todo com línguas bárbaras, os poetas são os tradutores e intérpretes dos bárbaros, das alteridades em seus infinitos modos. Na poesia, o nome não tem um referente e, mesmo quando ele pode provir de um fato concreto, ele nunca se atrela a esse fato. Parece-me que, quando chamamos alguém por um nome próprio, também nunca sabemos ao certo, pelo nome, quem estamos chamando, ainda que, por convenção, se responda ao chamado. Sendo ela de grande envergadura, não saberia estender sua questão do nome próprio e haveria grandes caminhos para ela. Ocorre-me dizer que a língua da poesia, seus nomes, são nomes sempre impróprios, quando muito apelidos, que se sabem múltiplos, momentâneos, afetuosos, dados a cada momento por diversas inspirações que jamais se querem totalizantes.

6 – Fátima Pinheiro: Ainda sobre a questão do “nome”. Em alguns momentos no [mais cotidiano que o cotidiano] você se atém ao “nome”. Um momento se dá em “Poemas Escritos no Meio do Vale do Socavão” quando você escreve:

água que corre, não é mais do que um nome – ainda- necessário para nos manter aqui, juntos.

Outro momento, no poema “Arranjo para tornar o mundo cada dia menos violento” você relaciona os nomes de pessoas que foram vítimas da violência cotidiana e, de forma muito forte e bela, parece resgatar a dimensão do poema – grito, que você localiza em “K”, poema onde sublinhei o seguinte trecho:

…Como contraponto, não bastava para ele ser poeta, esse ser que, sem defesas para o mundo, sentindo o peso da existência terrena mais intensamente do que os outros e provando sua corrupção, sabe que, em busca de uma saída, seu poema não passa de um grito.

O que separa e o que une essas duas dimensões do “nome” em sua obra?

Alberto Pucheu: Honestamente, não sei. Vejo agora, com grande pertinência e grandeza, essa questão provir de sua pergunta, como leitura sua mesma, com uma das ressonâncias do livro em você. Eu jamais tinha pensado nessas diversas passagens juntas, como você agora, arranjando-as, as aproximou. A partir de sua colocação, eu poderia dizer algo, mas seria já como decorrência de sua colocação, ou seja, meu desejo no momento seria mais de ouvi-la do que de respondê-la.

Eu teria de pensar essa sua questão por outros lugares, como, no caso da primeira citação que você faz, relacionando-a a Crátilo. Sabe-se que ele, por querer dizer o devir, pela fidelidade extrema a essa tentativa, recusou-se a falar, apontando simplesmente com seu dedo indicador as coisas. Se seu mestre, Heráclito, havia dito que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, Crátilo descobriu uma brecha em tal frase, dizendo que não se pode entrar nem uma vez no mesmo rio, já que nem rio há, que rio é sempre outro, não cabendo o movimento incessante e a alteridade no dito. Eu passei um bom tempo de minha vida procurando a terceira frase, uma que descobrisse uma brecha na de Crátilo, mas não sou Heráclito nem Crátilo e não encontrei uma frase à altura das outras, apesar de ter encontrado outras que não a buscada. Pensando com Crátilo, parece-me que mesmo quando falamos do rio, da água que corre, não falamos o rio, não falamos o curso da água, não falamos o movimento que ali ocorre, falamos tão somente palavras. São palavras, não águas nem pedras nem terra, que saem pela nossa boca. Gesto extremo e radical, esse, de Crátilo, desde o qual me faz pensar que falar é uma maneira de podermos, com os nomes, pensar dentro de uma falta, dentro de uma ausência, dentro de uma não presença, que o nome é o possível de ser, de algum modo, ainda que talvez minimamente, compartilhado de uma falta, o que nos mantém, ainda, de alguma maneira, juntos, como o rastro de um indizível – da materialidade mesma das coisas fora da linguagem – que alimenta o que podemos e conseguimos falar. Talvez a passagem do poema possa ser lida nessa direção, que nomear um lugar que se deseja habitar, que nomear um lugar chamado Vale do Socavão seja nomear os ocos, os cavos, os vãos, que nomear também a água, que corre pelos ocos, pelos cavos e pelos vãos do socavão, é dizer ainda um nome, não o fora do nome do lugar que tanto me afeta, pois esse fora do nome, com toda sua materialidade impactante a nos transformar, é, na linguagem, esvaziado, escavado, esvanecido, recriado, transformado, deixando na linguagem alguns vestígios do que não cabe nem nunca coube em qualquer nome. Para tornar tudo bem complexo, é preciso que se diga que quem deu esse nome (eis de novo o nome próprio de suas colocações), Vale do Socavão, ao lugar tenha sido certamente um poeta, ao menos no momento da denominação do lugar. Nunca descobri quem denominou este lugar de Vale do Socavão, denominação como já não ocorre mais por aí. Se o poema é o lugar dos nomes, talvez ele seja o nomear – ainda – necessário para nos manter juntos, para possibilitar, por exemplo, esta conversa que estamos tendo pela generosidade de suas perguntas. Até o dia em que talvez até o poema silencie por completo, como em Rimbaud. Aliás, tal tensão entre o poema e o silêncio sem poema era uma das aporias existentes na relação de Bashô com seu mestre.

No “arranjo para tornar o mundo cada dia menos violento”, compartilhar os nomes das vítimas das duas chacinas foi um modo que encontrei, como uma lembrança do possível de se dizer do impossível de ser dito das mortes, como – ainda – a vida passível de ser dita e requisitada no extremo perverso dos atentados, como um modo – ainda – de estarmos juntos em um trabalho político de resistência à anulação do outro, um trabalho político a favor da alteridade, um trabalho político a garantir a inapropriabilidade da alteridade. Tenho que dizer que foi lendo o texto da Mariana Ianelli sobre meus livros e sobre o mais cotidiano que o cotidiano (publicado, o livro dela, pela coleção Ciranda de Poesia, da UERJ), que era então inédito mas que foi lido por ela, que tive a ideia para recolher todos os nomes dos mortos nas chacinas. Na ocasião, eu ia fazer uma outra parte dessa série de poemas, com o mesmo título da anteriormente mencionada, com os nomes dos que sobreviveram ao atentado da escola em Realengo e ao atentado na Dinamarca, dos que sobreviveram ao ato de Wellington Menezes, cujas gravações falam estranhamente desde a morte, já se sabendo morto ainda que estando ainda vivo antes do ato, e de Breivik, mas parece que não se faz listas dos sobreviventes, que os nomes dos sobreviventes não são divulgados como são os dos mortos, dos quais sobrevivem apenas seus nomes, suas histórias, os contados e os por se contar acerca de deles, que morreram. Pensar essa ausência de listas dos vivos seria também algo que mereceria ser pensado, como se os sobreviventes não merecessem memória por terem sobrevivido, como se, no caso, viver não fosse um em comum nosso ou uma força a lutar politicamente por um mundo menos violento.

Por fim, talvez esses momentos sejam, como você bem disse, de um grito, de gritos, de nomes próprios como gritos diante da morte e da aniquilação do outro, como uma demanda pelo outro que morreu, como um chamado de quem já não pode responder, de nomes próprios como gritos de combate pacífico em busca da dignidade de qualquer outro quem quer que seja esse outro, de algo entre o sentido e o não sentido, entre o extensivo e o intensivo. Talvez eles sejam gritos em nome da alteridade indizível. Se for isso, talvez se possa dizer que a poesia é um grito, ainda que de extrema delicadeza, como em Kafka.

7 – Fátima Pinheiro: Em seu último poema do livro [mais cotidiano que o cotidiano] “Autobiografia no Abismo de um Embamjement” você introduz a seguinte frase:

Escrevo para conviver com uma marca que desconheço.

Essa marca ao mesmo tempo desconhecida e íntima, é o que podemos chamar de letra do poeta? É isso que fez Paul Celan escrever que: A poesia é uma espécie de regresso a casa?

Alberto Pucheu: Como o poema traz o “enjambement” no título, vou reescrever a frase, que você transcreveu, pelo viés do livro, pelo modo como ela está no livro, ressaltando o corte do verso na frase que você citou em prosa, ressaltando a barra: “Escrevo para conviver com uma marca/ que desconheço”. Há uma marca, é importante frisar isto. No primeiro verso, há uma marca, faz-se a experiência de uma marca, da qual não se tem como fugir. Há uma marca a gerar perplexidades, exclamações, afonias, gagueiras… Há uma marca, que não se diz, ou que só se diz por seus efeitos e ressonâncias. Há esta marca que nos atinge, que nos toma, que nos constitui. Há uma sensação de não conseguirmos nos livrar desta marca, nem de conseguirmos da conta dela de maneira plenamente satisfatória. Mas, depois do abismo do enjambement, como se dissesse que esta marca é uma barra (aqui, precisamos das ressonâncias dos sentidos líquidos e deslizantes), é dito que a marca é desconhecida, que não temos acesso a ela. Nós nos colocamos exatamente nesse abismo do enjambement, o que é uma barra, no abismo entre a marca que trazemos e seu desconhecimento. Estamos suspensos neste intervalo, nesta tensão. Parece ser por este não acesso à marca, por esta barra que é o não acesso à marca, por estarmos suspensos no abismo da marca que nos afeta sem que a saibamos, que precisamos dizer sempre “em outras palavras”. É irresolvível, isto. Escrever é sempre “em outras palavras”, como diz o título de um poema do livro, não há as mesmas palavras, escrever é se preservar neste inacessível que nos impele a dizer mais uma vez, em outras palavras, sem que se conheça a marca. Escrever na barra. Escrever é barra, mas é também o possível para alguns conviverem de modo mais tranquilo com a barra. Para o poeta, não há o dizer de um modo só, o dizer com as mesmas palavras. Não, para o poema não há as mesmas palavras. Palavras, só outras, um poema só se diz em outras palavras, nunca com as mesmas. O poema é sempre em outras palavras, mesmo quando as palavras aparentemente se repetem, mesmo quando lemos de novo um poema, mesmo quando lemos de novo supostamente o mesmo poema, ele é sempre em outras palavras. Diz-se, mas em outras palavras, diz-se de novo, em outras palavras, diz-se, mas de modo equivocado, insuficiente, precário, em outras palavras. Diz-se de novo, em outras palavras. Gosto desse poema, “Em outras palavras”, é um desses poemas em que algo de que não posso abrir mão em minha experiência foi tentado, que fala da sensação de um “esquisito”. O livro é, sim, claro, muito autobiográfico (ainda que em poesia o autobiográfico seja também alterbiográfico) e não deixa de ser curioso que tanto nesse poema quanto no em que está os versos que você citou a mãe esteja presente. São os únicos poemas que escrevi durante toda a minha vida em que a mãe comparece. Qual o lugar da mãe nestes poemas, eu deixo para você, psicanalista que é. Em todo caso, ao lado da mãe, a presença de um esquisito, de uma marca desconhecida, de marcas diferentes, mas das marcas presentes, ainda que de modos distintos, em um e em outro, em um e em outra, em uma e em outro. O “fazer poético” perguntado mais acima parece-me estar íntima e estranhamente ligado à tentativa de aprender a conviver com essa esquisitice e com essa marca desconhecida. Se “a poesia é uma espécie de regresso à casa”, talvez ela seja uma espécie de, em outras palavras, regresso a uma casa que não está lá, ainda que…, se “a poesia é uma espécie de regresso à casa” talvez seja por ser também uma espécie de um regresso a um exílio, a uma dimensão de moradores sem teto que também somos. Talvez escrevamos para nos habituarmos minimamente a isso, para convivermos melhor com isso.

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, membro da EBP/AMP, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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