Juventude e trauma: a experiência de desenraizamento

O texto que se segue é um recorte de “Juventude e trauma: a experiência de desenraizamento”, originalmente uma contribuição de Lucíola Freitas de Macêdo ao Colóquio de encerramento da Pesquisa Internacional “Adolescências em tempos de guerra: modos de pensar, modos de operar”. Nesse recorte nossa intenção foi destacar a questão do desenraizamento como uma tendência que atravessa e aproxima contextos que, para um olhar desavisado, podem parecer díspares: a dos meninos do tráfico no Brasil, e a dos os adolescentes aderidos ao jihadismo islâmico. A articulação de Lucíola nos permite vislumbrar de forma nítida a forte presença de mecanismos totalitários no meio do estado democrático.

Paula Legey
Editora do Blog da Subversos

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Juventude e trauma: a experiência de desenraizamento [1]

*Por Lucíola Freitas de Macêdo

 
Sempre fugindo, sem saber mais o que fazer, sempre
procurado por todos os lados, não estando mais seguro,
e se me demoro mais, me arrisco a ir parar numa cela [2].

 

1. Carta de adeus

A epígrafe acima é um trecho de escrito deixado por Ibrahim Bakraoui, apontado pelas autoridades belgas como o jovem que realizou o ataque terrorista no aeroporto de Zaventem. Seu irmão Khalid foi o responsável pelo ataque no metrô de Maelbeek. O procurador Frederik Van Leeuw afirmou em entrevista coletiva que o texto do fragmento em epígrafe foi encontrado em um laptop, durante buscas relacionadas aos atentados de Bruxelas. Esse escrito do jovem jihadista, que pôs fim à própria vida no dia 22 de março, não deixa de lembrar o beco sem saídas nos quais se enredam os “meninos do tráfico”[3], habitantes das numerosas favelas brasileiras.

É possível encontrar, entre diferentes situações aparentemente díspares, como por exemplo, a dos jovens jihadistas, aquela dos “meninos do tráfico”, e ainda, a situação do enorme contingente de jovens refugiados que decidem cruzar as fronteiras de seus países na condição da apátridas, rumo à Europa, algum ponto de convergência?
Mais especificamente, quanto ao jihadismo e ao tráfico de drogas, o que favorece, ou mesmo impulsiona, hoje, a entrada massiva de jovens nesse tipo de organização criminosa?

 

2. A experiência de desenraizamento

Minha hipótese é que a chamada experiência de “desenraizamento”, ou bodenlosigkeit, para retomar o termo em sua língua original (ARENDT, 1998; 2007) possa aportar um importante conjunto de reflexões a tais questões. Ainda que “desenraizamento” não seja um conceito psicanalítico, ele permite um fecundo debate com alguns temas cruciais da psicanálise, pois acerta em cheio em questões como a precariedade simbólica, a queda das identificações, as discussões em voga sobre o racismo, a segregação e os novos destinos da pulsão de morte.


Quem enfrentou de modo inequívoco a experiência do “desenraizamento” no âmbito da filosofia contemporânea, tendo inclusive dado a este conceito um lugar de peso no âmbito da filosofia política, foi Hannah Arendt. Em Origens do totalitarismo (1998) publicado em 1951, interrogou as experiências de isolamento e de desenraizamento, sem as quais – postula – não teria sido possível a instauração dos regimes totalitários da primeira metade do século XX (LAFER, 1998, p.347). A conjugação entre isolamento e desenraizamento, responsável por destituir a esfera da vida privada de suas frágeis ramificações sociais destituirá o cidadão, por fim e de um só golpe, de seus engajamentos políticos e de suas relações sociais, o que funcionará como pré-condição para a dominação totalitária.


A destruição dos laços identitários é recompensada pelo estado totalitário e pela ideologia que lhe é subjacente, com uma espécie de “super-identidade”[4], tal como foi notório na Alemanha dos anos vinte e trinta, a propósito da adesão em bloco ao nazismo. O Reich oferecia em troca da adesão irrestrita, uma garantia de laço social, e uma ideologia devolvia a seus adeptos o mundo que havia ruído sob seus pés na década anterior, recuperando o sentido do mundo, ao preço de uma perda simbólica, uma vez que a ideologia totalitária opera uma simplificação e empobrecimento dos recursos e dos usos da linguagem.


Tal cadeia associativa descreve com inusitada precisão, o que parece se reproduzir no contexto dos raros relatos de jovens que uma vez aderidos à jihad, sobreviveram ao terror, e encontram-se em processo de “desradicalização”; elas parecem também, em alguma medida, organizar o laço social dos “meninos do tráfico”, deixando entrever que já não estamos no terreno das referências simbólico-identificatórias.


Nota-se ainda, que em ambos os contextos, há uma propensão a que “super-identidades” encontrem consistência e ancoragem em “fratrias de gozo”. As mutações da ordem simbólica e a diluição do campo do Outro, favorecem a uma proliferação das irmandades (LAIA, 2016, p.49), nas quais grupo, célula ou facção poderão encarnar o corpo do Outro por meio de uma satisfação direta e mortífera das pulsões (MILLER, 2016, p.28): sociedade de massas – isolamento acompanhado de um sentimento de fracasso e/ou exclusão – desenraizamento – cooptação e adesão irrestrita – “super- identidades” – em lugar das ideologias, as “fratrias de gozo” – naturalização da violência. Ou seja, parece que estamos diante de uma cadeia formadas pelos mesmos elos constituintes de um estado totalitário, o que parece indicar que mesmo no seio de sociedades democráticas, diferentes formas de organização totalitária poderão subsistir, sob a forma de microcosmos totalitários.

 


3. Desenraizamento e jihadismo

Em “Le djihadisme, est une révolte générationale et nihiliste”, o estudioso do islã Oliver Roy (2015) aborda o que supõe se constituir como uma das causas do desenraizamento próprio aos jovens da jihad [5], a saber, uma ausência de transmissão. Em sua grande maioria nascidos em países europeus, os jovens jihadistas rompem com seus pais, e mais exatamente com aquilo que seus pais representam em termos de cultura e religião. Antes da conversão, são jovens ocidentalizados, que não se revoltam minimamente contra a ocidentalização, ou seja, compartilham a cultura de sua época e lugar. Quase todos cometeram pequenos delitos e tiveram uma passagem pela polícia. Mas eis que, nos diz Roy, um belo dia, convertem-se a uma facção radical do Islã que rejeita o conceito de cultura. Encontram na jihad um lugar e uma promessa de reconstrução de si, sem o apoio e a referência dos pais ou da cultura ocidental. Eles se radicalizam em torno de um grupo de ‘amigos’ encontrados no bairro, na prisão, ou em algum clube esportivo. Com eles recriam uma ‘família’, uma fraternidade de gozo, em torno da vontade de matar e do fascínio pela própria morte. Tudo isso bastante facilitado pelas redes sociais, amplamente utilizadas na exibição e propagação do terror.


Um relato contundente do processo de radicalização de um jovem belga foi publicado recentemente na revista Piauí (TAUB, 2015, p.48-55). Essa reportagem narra o périplo de Jejoen Bontinck, que aos 18 anos participou de um programa radical de formação de jihadistas, tendo sido, em seguida, cooptado pelo Estado Islâmico. Filho de pai belga e mãe nigeriana, nascido na Nigéria, mas criado em Antuérpia, estudou num prestigiado colégio jesuíta, até que aos 15 anos tropeçou em matemática, teve que mudar de colégio, foi abandonado pela namorada, e nas palavras do pai “caiu num buraco negro” (p.49). Foi uma garota marroquina da nova escola com quem estava saindo quem, aos 16 anos, apresentou-lhe ao islamismo.

 


4. O desenraizamento e o caso dos “meninos do tráfico”


Do lado de cá, o desenraizamento certamente se apresenta com diferentes contornos e nuances. Encontrei em recente texto de Gilson Iannini (2016), uma hipótese que conflui com recente relatório de pesquisa apresentado por ocasião do VIII ENAPOL [6], cujo tema é “A biopolítica e as novas segregações” (MACÊDO, 2015). Iannini aborda nesse artigo, entre outras coisas, o controverso tema da inclusão social pela via da universalização do mercado de consumo nas últimas décadas no Brasil, o que certamente trouxe uma série de benefícios para o país, entre eles, a erradicação da fome e a diminuição da desigualdade social. Entretanto, problematiza as consequências de se identificar o cidadão ao consumidor, e também o risco de se reduzir a cidadania ao acesso aos bens de consumo, apontando, como preço a pagar, o desenraizamento do sujeito em relação à sua classe social, em troca do pertencimento ao mercado global consumidor. Essa é uma questão bastante polêmica, que merece desdobramentos.


Ela nos interessa aqui, na medida em que nos ajuda a pensar um caminho de investigação em relação ao modo de desenraizamento próprio aos jovens brasileiros moradores de vilas e favelas, cooptados pelo tráfico de drogas, disseminadores de uma rede de violência em troca de uma “super- identidade”, funcional apenas no âmbito de determinada rede, célula ou facção criminosa, que parece ter como pilares, justamente, as cadeias de consumo encabeçadas pela adição. Indagamos, ainda, se o desenraizamento do jovem brasileiro, certamente proveniente da interação de uma ampla gama de fatores – incrementados pela precariedade simbólica, pela prevalência dos espaços virtuais de socialização e pelas “fratrias de gozo” – encontraria no fenômeno da homogeneização pela via do consumo (BIGNOTTO, 2012, p.72-74) um de seus pilares de sustentação.

 


5. Desenraizamento, um modo de vida?

Parece-me, ainda, que o fenômeno do desenraizamento seja suficientemente amplo na contemporaneidade, para objetarmos sua circunscrição e seus efeitos unicamente ao serviço da pulsão de morte. A errância do jovem contemporâneo, como uma das expressões de diferentes experiências de desenraizamento, parece não desencadear apenas consequências nefastas, mas também marcar um modo de vida, algo muito próprio da juventude ocidental, cuja imagem mais próxima seria aquela de alguém que almeja viver a vida como estivesse num eterno road movie. Se o clássico road movie, a la Wim Wenders em “Paris, Texas”, atravessado de cabo a rabo por uma narrativa minimalista, mas existente e central, já quase não se faz mais no cinema; vemos hoje, em seu lugar, uma proliferação sem fim de programas de viagens, em séries de todos os tipos e pra todos os gostos e idades, além dos milhares de blogs e vlogs de viajantes amadores e profissionais a viralizarem na web e no youtube. Esse é certamente e por excelência, o road movie contemporâneo: difuso, múltiplo, efêmero e viral, onde não há narrativa nem introspecção. Há apenas a descrição de um trajeto qualquer, movido pelo gosto de perambular de um a outro ponto do globo, com ou sem finalidade, de preferência sem ponto de chegada, o que parece indexar o movimento de toda uma geração, apontando algo que poderíamos nomear como um desenraizamento generalizado.

 

NOTAS

[1]  Contribuição ao Colóquio de encerramento da Pesquisa Internacional “Adolescências em tempos de guerra: modos de pensar, modos de operar” – FAFICH – Núcleo Psilacs (Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo),experiência clínica e investigativa com a adolescência em conflito com a lei, coordenado pela Profa. Andréa Guerra.

[2] Cf. http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2016/03/23/em-carta-suicida-terrorista-belga-reclamava-de-fuga-constante.htm.

[3] Expressão cunhada pelo rapper MVBill, que dá título ao documentário “ Falcão, meninos do tráfico”, realizado entre 1998 e 2006, em parceria com Celso Athayde e o centro de Audiovisual Central única das Favelas, retratando a vida de jovens das favelas brasileiras envolvidos com o tráfico de drogas. A expressão “Falcão” usado nas favelas, que designa aquele cuja tarefa é vigiar a comunidade e informar quando a polícia ou algum grupo inimigo se aproxima.

[4]  Notas de aula do curso “Pensar o totalitarismo: interpretações contemporâneas da barbárie”, proferido por Newton Bignotto no primeiro semestre de 2016, no âmbito do programa de Pós Graduação em Filosofia da UFMG.

[5]  Guerra santa dos mulçumanos. Luta armada contra os infiéis e inimigos do Islã.

[6]  VII Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana. XIX Encontro Internacional do Campo Freudiano. São Paulo, 4,5 e 6 de setembro de 2015.


Referências Bibliográficas:

ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

BIGNOTTO, N. “Homogeneidade e exceção”. In: Curinga. Belo Horizonte: EBP-MG, n.35, 2012, p. 63-74.

IANNINI, G. Vai ter golpe: “o rei está nu! matem a rainha!”. In: Revista Cult. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/03/vai-ter-golpe-o-rei-esta-nu-matem-a-rainha/ . Acesso em: 10/04/2016.

LAFER, C. A política e a condição humana. In: Arendt, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p.347.

LAIA, S. “Jovens daqui e do Estado Islâmico”, Revista Cullt. São Paulo, n.211, abril de 2016, p.48-51.

MACÊDO, L. . A biopolítica e as novas segregações. São Paulo: VII ENAPOL, set 2015. Disponível em: . http://oimperiodasimagens.com.br/pt/faq-items/a-biopolitica-e-as-novas-segregacoes-luciola-freitas-de-macedo/. Acesso em: 10/03/2016.

MILLER, J-A. “Em direção à adolescência”. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, março 2016, p.20-29.

ROY, O. “Le djihadisme, est une révolte générationale et nihiliste”. In: Le Monde, 20/11/2015. Disponível em: http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/11/24/le-djihadisme-une-revolte-generationnelle-et-nihiliste_4815992_3232.html. Acesso em: 10/03/2016.

TAUB, B. O caminho até a jihad.Piauí, dez 2015, p.48-55.

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*Lucíola Freitas de Macêdo é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise e autora de 

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