Infinito Instante | Uma nova visão, entre ciência e fotografia

 

Fotograma, Laszló Moholy-Nagy, 1922

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Por Ioana Mello*

A fotografia, desde o tempo das lanternas mágicas passando pela câmera obscura, estaria mais vinculada à ciência do que outras artes: na engrenagem dos aparelhos de fotografia, no filme colorido, nos jogos óticos das lentes. É uma mídia muito diferente da pintura ou escultura, ela só existe por causa da ciência.

Lente, foco, distância, fonte de luz, papel de revelação, retoque: a fotografia é uma mídia derivada da técnica, e assim, uma foto não é somente a consequência de uma impressão do objeto na imagem, é também uma interpretação das propriedades técnicas da câmera e de seus aparatos. Um filme Kodak vai ter características técnicas diferentes dos filmes Fuji, limitando uma certa leitura sobre as cores, por exemplo. O verde da fotografia de paisagem vai ser um símbolo do verde das florestas, uma leitura técnica inserida no espectro possível de verdes do filme padronizado.

A relação da fotografia com a ciência também vai passar por seu valor documental: a suposta veracidade da imagem como uma ferramenta de pesquisa. Na antropologia, na botânica, na medicina, na psiquiatria, na biologia, na física, na geologia, entre tantas áreas cientificas, a fotografia foi muito tempo percebida como uma espécie de prova à teoria. Charles Darwin, por exemplo, fotografou para desenvolver suas concepções evolutivas e estudar a expressão das emoções do homem e dos animais. Foi com o inglês Eadward Muybridge, em 1878, e suas imagens do galope dos cavalos, que descobrimos os detalhes físicos dos movimentos dos animais. E assim por diante.

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Galope do cavalo, 16 frames, Eadward Muybridge, 1878

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Como documento, a fotografia cumpriu as funções de descobrir, catalogar, guardar e organizar o real, de atualizar os saberes científicos, registrando sem esquecimento. Mas deve haver um enorme cuidado com essa confiança cega que temos na mídia fotográfica. A fotografia é, sem dúvida nenhuma, caracterizada por essa relação com o referente, com o objeto exterior, mas ela não é apenas um registro. A linguagem fotográfica não faz apenas referências externas sem ter a capacidade, por exemplo, de comunicar algum conteúdo fora das imagens. A imagem fotográfica pode adquirir vários outros significados, pois ela é uma interpretação artística do mundo.

“A invenção da fotografia baseia-se num equívoco estranho que tem a ver com sua dupla natureza de arte mecânica: o de ser um instrumento preciso e infalível, como uma ciência, e ao mesmo tempo, inexato e falso como a arte.”
Francesca Alinov

Várias técnicas foram desenvolvidas ao longo dos anos para suprir a fotografia, meios pelos quais ela poderia ilustrar e comprovar a ciência: as fotografias de alta velocidade, a termo – fotografia, a fotografia infravermelha, a subaquática e a ultravioleta, por exemplo. E muitas dessas técnicas se expandiram, para além do estudo cientifico, em expressões artísticas.

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Fotografia infravermelha, California, Kathy Hornsby, 2015

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Lá atrás, em 1727, o alemão Johan Heinrich Schulze descobriu por acaso uma nova técnica fotográfica: a sensibilidade dos sais de prata à luz. Ou seja, ele descobriu o fotograma ou a fotografia sem necessidade de uma câmera. Nesse tipo de prática, uma fonte de luz incide sobre o papel emulsionado, contornando e registrando a silhueta do objeto que estiver sobre o papel fotográfico. Foi muito usado para registros de botânica, por exemplo, como as imagens de alga de Anna Atkins.

Enquanto na ciência a produção deste tipo de imagem tinha uma função pragmática de estudo e análise, nas artes, a mesma técnica tinha outra intenção: de produzir imagens estéticas explorando artisticamente todas as possibilidades do fotograma. Vários artistas se atreveram por estes caminhos, como Man Ray, por exemplo, mas gostaria de seguir os passos de Laszló Moholy-Nagy.

“O inimigo da fotografia é a convenção. A sua salvação vem do experimentador que se atreve a chamar “fotografia” qualquer resultado com meios fotográficos, com uma câmera ou sem ela.”
Laszló Moholy-Nagy

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Fotografias de algas britânicas, Anna Atkins, 1843

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Laszló Moholy-Nagy nasceu em 1895, em uma família judaica de uma região húngara do Império Austro-Húngaro. Estudou direito, serviu no exército, e depois da queda do império, se envolveu em círculos revolucionários e de vanguarda austríacos e alemães, onde absorveu a estética do construtivismo. Em 1923 se juntou à Bauhaus original, em Weimar, ensinando o curso básico e trabalhando em sua oficina de metalurgia.

Pintor, escultor, fotógrafo, designer, cineasta, escritor, teórico, professor e visionário, Laszló tinha uma inclinação cientifica e pedagógica. Entre as duas guerras seus interesses se expandiram da pintura para a fotografia, e consequentemente para os fotogramas ou imagens da “nova visão”, como ele dizia. Essa nova visão, desenvolvida sobretudo no seio da Bauhaus, estava enraizada na cultura tecnológica do século XX, que concebia que as técnicas artísticas não deveriam ser hierarquizadas, nem entre elas, nem em relação à ciência. Era uma tentativa de defender as especificidades do meio fotográfico enquanto linguagem e expressão artística, dialogando mais com as possibilidades e os recursos do próprio meio. Ele defendia a experimentação e o uso de procedimentos técnicos como canais possíveis para aumentar a capacidade de vermos o mundo e aproximando ciência e fotografia em um movimento estético.

Em suas imagens, com ou sem câmera, Laszló brincou muito com a vista aérea, a microfotografia, o raio X, a fotografia astronômica e as múltiplas exposições. Trabalhar com a fotografia, para ele, era uma nova possibilidade de observar o mundo, uma renovação da percepção do real e uma forma de transformar a sociedade. O fotograma era a possibilidade de escrever com a luz – matéria prima da fotografia. E assim, ele experimentava esteticamente as nuances do branco ao preto, os jogos de transparência, os efeitos de composição, forma, espaço, geometrização… Brincando com os objetos, suas superposições e intersecções, Laszló suaviza, quebra, expande, força, afunila a luz, e suas direções e incidências. Com isso ele cria novos questionamentos estéticos que se aproximam da colagem, outra técnica artística bastante usada na ocasião.

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Torre de radio de Berlim, Laszló Moholy-Nagy, 1928

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Laszló usa o fotograma para quebrar a unidade pictórica, desenvolver o estudo de textura, massa, escala e ritmo. A imagem vive uma existência própria, com um espaço heterogêneo e indefinido que apreendemos aos poucos.

“As construções estão entre as primeiras tentativas direcionadas para uma arte que esteja além da representação, e decorrem de uma reviravolta da situação perspéctica normal, do paradoxo de uma perspectiva “para fora” em vez de “para dentro.”
Giulio Argan

Brincando com a técnica, Laszló sai do sentido pragmático usado na ciência para entrar no sentido estético gerado pela arte. E de quebra, a partir da essência mesmo da fotografia – a luz – ele subverte essa mídia tão arraigada à técnica e ao registro, apresentando toda sua carga estética.

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As irmãs Olly e Dolly, fotomontagem, Laszló Moholy-Nagy, 1925

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Fotograma, Laszló Moholy-Nagy, 1925

 

 

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*Ioana Mello é carioca, formada em Publicidade e Cinema, com mestrado em História da Arte e Estética e Arte Contemporânea e pós graduação em Arte e Filosofia e Mercado de Arte. É sobretudo uma apaixonada por fotografia, trabalhando sempre em torno da imagem, seja em festivais e galerias de fotofrafia, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com

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