Infinito instante | Uma fotografia paradoxal

Campos de flores, 1996

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Por Ioana Mello*

Esqueça tudo que você já pensou sobre fotografia e venha descobrir as imagens do fotógrafo cego Evgen Bavcar. Sim, um fotógrafo cego! Mas, como fotografar sem ver? Para pessoas que enxergam como nós, a ideia de um fotógrafo cego é uma contradição em si, sendo a mídia fotográfica tão estreitamente ligada ao visual.

Cego desde os 11 anos de idade por causa de dois acidentes, o esloveno Evgen, hoje com 70 anos, fez sua primeira foto em 1962, aos 16 anos, de uma namoradinha da época. O próprio fotógrafo se lembra da ocasião com espanto e fascínio. Porém, ele nunca acreditou que poderia viver de fotografia, e seguiu outros caminhos. Foi apenas nos anos 80 que começou a fotografar rotineiramente, depois de terminar a faculdade de filosofia, e na mesma época que iniciou sua pesquisa em estética.

Para Evgen, a fotografia não é apenas um recorte do real, mas uma linguagem. Ele não tira nada do mundo ao redor, pois ele nada vê para retirar. O real para Evgen não é o externo, mas seu interior. O que ele faz é transformar a sua imaginação em imagens. Isso é uma linguagem: a sua linguagem. O seu processo de criação de uma imagem envolve sentimento, história, percepção, memória, olfato, audição e tato. Não é uma imagem da visão, e sim da mente, mas que continua sendo visual. A imagem abaixo, por exemplo, foi feita de sua sobrinha enquanto ela corria com um sino nas mãos.

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Veronika, 1990

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Hoje em dia, para fotografar, Evgen usa um fotômetro, instrumento que mede a intensidade da luz, outro aparelho que diz a cor dos objetos e muita conversa com outras pessoas. Para ter uma ideia mais clara da paisagem diante de si, ele muitas vezes pede descrições da cena para pessoas que enxergam. Além disso, depois, com as imagens reveladas, é a conversa com o outro que o ajuda a “enxergar” o resultado final. Mas descrições da visão são parciais e subjetivas. Segundo o próprio Evgen, a cegueira não está restrita aos cegos, ela é uma condição de todos nós.

Nós que enxergamos somos extremamente cegos em relação a nossa cegueira visual. Olhamos sem perceber detalhes, focados em nós mesmos e não necessariamente no mundo externo. A interação com um fotógrafo cego e suas imagens, pode, por mais paradoxal que pareça, enriquecer nossa visão. Pois lidar com nossa cegueira é a condição necessária para qualquer disposição fotográfica. O fotógrafo precisa esquecer que tudo sabe, se libertar de seus pre-conceitos e suas visões limitadoras, se abrir à totalidade invisível do mundo.

“O perigo (da invasão voyeurística da comunicação) é que ela seja a única capaz de mostrar a realidade, que a técnica substitua os sentimentos. O ato fotográfico pode virar rapidamente uma espécie de loucura, de cegueira, de anulação da existência.” – Hervé Guibert em “Imagens Fantasmas”.

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Portão com Andorinhas, 1990

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Auto Retrato, sombra, 1996

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Trabalhando na sombra, sendo uma câmera obscura em si, Egven é a essência da fotografia, tornando visível o invisível. As imagens de Egven são literalmente a fotografia enquanto conceito, antes mesmo da invenção da fotografia moderna: a fotografia como “escrita da luz”. Como não recorta nenhuma imagem do mundo real, ele trabalha entre o ato de fotografar e de escrever, como um escritor da luz. “Eu tento fazer surgir objetos, imagens, a partir de um berço de trevas”, diz ele. No senso geral, a fotografia é tida como a mumificação do tempo: “de um tempo evolutivo a um tempo petrificado, do movimento à imobilidade, do mundo dos vivos ao reino dos mortos, da luz às trevas, da carne à pedra”.Mas nosso fotógrafo cego inverte essa lógica e das trevas vem para a luz, da escuridão visualiza imagens, da imobilidade encontra o movimento do olhar.

Enquanto fotógrafo nas trevas, Egven é um olhar absoluto diante do objeto. Ele não é um olhar clichê, um contra-olhar, um olhar voyeur ou um olhar imposição. Ele é um olhar libertador para seu objeto. Como não há um olhar com perspectiva definida através do mundo, Evgen vai além das coisas, em um olhar imprevisível e dirigido ao infinito.

Escritor, pesquisador, filósofo e fotógrafo cego, Evgen participou de inúmeras exposições, sendo inclusive o fotógrafo homenageado do festival “Mois de la Photo”, em 1988, escreveu diversos livros, apareceu em filmes e documentários. Num mundo onde a cegueira é excluída do mundo visual (apesar de fazer parte dela), Evgen transforma o lugar dos cegos, que deixam de ser meros expectadores passivos para ganhar uma voz ativa e enriquecedora. E, com certa angústia, diante do olhar do cego, somos obrigados a lidar com a nossa própria cegueira, e nossa própria escuridão.

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Ludwigsburg, 2014

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*Ioana Mello é carioca, formada em Publicidade e Cinema, com mestrado em História da Arte e Estética e Arte Contemporânea e pós graduação em Arte e Filosofia e Mercado de Arte. É sobretudo uma apaixonada por fotografia, trabalhando sempre em torno da imagem, seja em festivais e galerias de fotofrafia, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com

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