Infinito Instante | Rosangêla Rennó, uma fotógrafa sem câmera

Série Vermelha, 2000

Por Ioana Mello*

A artista Rosângela Rennó trabalha dentro do universo fotográfico desenvolvendo reflexões artísticas que perpassam realidade e ficção, público e privado, sujeito e memória, individual e coletivo. Nascida em Belo Horizonte, Rosângela começou a expor em meados dos anos 80 e rapidamente atingiu o reconhecimento no mercado de arte nacional e internacional. Ela ganhou vários prêmios, participou de inúmeras bienais – incluindo a bienal de Veneza e do Mercosul – e tem trabalhos em coleções importantes como o Museu Rainha Sofia (Madri), Tate Modern (Londres), Casa Daros (Zurich), Stedelijk Museum (Amsterdã), Inhotim (Brumadinho), Georges Pompidou (Paris), MOMA (NY), entre muitos outros.

Apesar de ser classificada como fotógrafa, Rosângela raramente fotografa. Ela trabalha com imagens abandonadas que ela recupera e re-significa. Antigos álbuns de família, imagens de arquivos históricos, imagens encontradas em sebos, todo esse material serve de base para as obras e questionamentos da artista. É na apropriação dessas imagens rejeitadas que ela constrói uma narrativa. Narrativa essa que indaga constantemente sobre a mídia fotográfica e nossa relação com a representação imagética.

“Entramos em contato com um trabalho que habita, justamente, o limiar entre o visível e o invisível”.
Luisa Duarte

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Experiência de cinema, 2004

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A apropriação na arte não é algo novo, o movimento dadaísta, no início do século XX, com seus ready-mades, já exemplificou bem as conotações de se apropriar de um objeto cotidiano na arte. Quando retirados objetivamente do mundo material, esses objetos acabam por entrar em um mundo particular, ganhando subjetividade, símbolos e novos significados.

Rosângela Rennó se apropria de antigas imagens espalhadas pelo mundo, dando um sentido original àquela fotografia e contando uma história diferente, através de outro ponto de vista. Ela “mexe” com a foto, tira de seu contexto, retira suas evidências e contradiz sua função inicial: um retrato escurecido que não deixa perceber claramente o retratado, uma foto de família que não se reconhece ninguém. São fotografias descartadas, que não possuem mais valor de uso, em que ela subverte a lógica tradicional de registro da fotografia. Sua postura é de quebra com a verossimilhança atribuída à imagem e à sua posição institucional e seu aporte hegemônico. Ela cria, assim, uma foto não funcional, que rompe com a “objetividade” da mídia fotográfica, e seu imediatismo. O resultado é que somos obrigados a indagar sobre nossa relação às imagens e à representação da realidade a nossa volta.

Não seria a representação o determinante da realidade? Na mídia de massa é a imagem da realidade que a determina. Por exemplo, como imaginamos um longínquo país africano? Ou os confrontos na favela? Como os vemos retratados nos grandes jornais do país. Se apropriando de imagens feitas, Rennó discute justamente esses códigos e convenções da representação. A foto da foto não é uma transcrição da realidade mas uma representação de uma imagem existente.

“A realidade fotografada permanece no reino do ordinário. Já a representação fotográfica permanece fora do tempo e espaço – sendo extraordinária.”
André Bazin

A apropriação das fotografias causa uma desconstrução temporal em que o passado é reinventado e reinserido no presente com uma narrativa para o futuro. Tirando-as do isolamento de um evento esquecido no espaço e tempo e trazendo-as para o momento atual de criação, Rosângela subverte a prática fotográfica e coloca em questão a representação. Sai da estreita relação com o visual, mergulhando o espectador numa nova realidade.

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Corpos Estranhos, 2009

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Os objetos fotografados e esquecidos, os rostos antigos e apagados ganham vida nas suas obras e ressurgem em um movimento de ressureição. A artista sai do momento inicial do clique, e do conceito indicial da fotografia, e articula uma multiplicidade de outros fatores, transbordando para além do tempo, do real e da representação.

Sua obra multimídia “Espelhos Diários”, de 2001, exemplifica bem alguns dos pontos que estamos discutindo. Durante oito anos (de 1992 a 2000), a artista colecionou notícias de jornais brasileiros (normalmente pequenas tragédias cotidianas) que envolviam alguém cujo nome era Rosângela. Depois convidou a escritora Alicia Duarte Penna para criar uma história para cada um dos 133 recortes. Inspirada no tabloide sensacionalista inglês Daily Mirror (Espelho Diário), a obra final tem a artista Rosangela Rennó encarnando em vídeo cada uma das histórias dessas tantas Rosângelas que procuram colocar ordem onde não há.

O nome próprio designa mas não significa. Nessa obra, Rosângela tenta construir uma identificação pelo nome. Mas pode-se afirmar que o sujeito é feito por seu nome, Rennó argumenta que esse sujeito hoje é constituído pela representação das imagens e pelo sistema de comunicação de massa. Nossa identidade se mistura às mídias sociais e aos selfies embriagantes. A fotografia captura o sujeito, que aqui é ora significante, ora significado. Entre a Rosângela artista, Rosângela objeto, Rosângela ficção, a obra alarga os caminhos do sujeito e da representação fotográfica.

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Espelhos Diários, 2001

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Só existe memória por conta de nossa capacidade de esquecimento.

Em seu trabalho “Imemorial”, de1994, Rosângela juntou 50 fotografias 3×4, dentre mais de 1500 malas de imagens do Arquivo Público do Distrito Federal, de crianças e trabalhadores que ajudaram a construir Brasília e que morreram no processo. Enterrados em suas fundações, esses rostos foram esquecidos e as histórias retiradas da memória coletiva e do discurso oficial dos vitoriosos. A artista dá cara a tantos anônimos que foram silenciados e apagados.

Como vemos, a artista também investiga as relações entre memória e esquecimento no universo coletivo e no universo subjetivo individual. O que potencialmente deve ser lembrado, guardado, arquivado? E o que foi esquecido, jogado fora? Por que? Há sempre uma escolha, seria ela consciente ou inconsciente? Nesse mundo dinâmico, em constante movimento e com uma certa ânsia pelo novo,  onde qualquer tempo “vazio” deve ser preenchido, Rosângela nos faz refletir sobre o que escolhemos lembrar, sem nostalgia. Ansiosos, vemos milhares de imagens nos celulares e computadores diariamente que serão, poucos segundos depois, esquecidas e apagadas.

Em seu projeto “A última foto”, de 2006, Rosângela distribui câmeras fotográficas analógicas diferentes a 43 fotógrafos que retrataram o Cristo Redentor. A imagem do ícone carioca foi a última foto de cada câmera, sendo exibida em par – com sua respectiva câmera – ambas emolduradas e lacradas. Esse trabalho exemplifica claramente o salto tecnológico para a fotografia digital, e todas as implicações. Nesse projeto, e em toda sua obra, Rennó encaminha o espectador para a economia da acumulação. A nossa fotógrafa sem câmera quer lembrar que a memória e o esquecimento também são pautados pela sociedade e pela cultura. Ela problematiza os modos de circulação e representação do objeto fotográfico como objeto do desejo, e escancara o perigo da submissão da fotografia à ilusão da realidade perfeita.

 

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*Ioana Mello é carioca, formada em Publicidade e Cinema, com mestrado em História da Arte e Estética e Arte Contemporânea e pós graduação em Arte e Filosofia e Mercado de Arte. É sobretudo uma apaixonada por fotografia, trabalhando sempre em torno da imagem, seja em festivais e galerias de fotofrafia, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com

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