Infinito Instante | O sublime fotográfico e Andreas Gursky

Andreas Gursky, Shangai, 2000

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Por Ioana Mello*

O conceito de sublime foi muito estudado por dois grandes filósofos do século dezoito, o alemão Immanuel Kant, em seu livro “Crítica da faculdade do Juízo” (1790) e o irlândes Edmund Burke, no tratado “Investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do Sublime e do Belo” (1757).

Apesar de nenhum dos dois filósofos ter discutido o sublime na fotografia, proponho alargarmos o conceito e traçarmos alguns paralelos entre séculos passados e a contemporaneidade. O conceito do sublime foi discutido por Kant e Burke em relação à estética – reflexão filosófica sobre o belo natural ou artístico – que aparece em 1750 e vem do grego aisthesis ,que significa a sensação, ou ainda a apreensão do sensível.

A ideia do sublime, como pensada por esses autores, tem uma estreita relação com a ideia do belo. O conceito de beleza é extremamente fluido e elástico; portanto, é preciso que nós tenhamos uma certa ideia do que é chamado de belo para podermos identificar o que seriam os objetos belos.

Segundo Kant, o juízo de gosto não é um juízo lógico, mesmo que ele englobe nossa faculdade intelectual – o entendimento – mas sim, um juízo da ordem do subjetivo. O homem de gosto deverá, dizia Kant, sentir imediatamente um prazer com o objeto belo, sem precisar de argumentos ou provas. Mas de que jeito um objeto é julgado belo? O belo, sem dúvida, é medido pelo prazer de um indivíduo em contemplar um objeto, uma obra de arte, por exemplo. Mas este prazer é sempre puro e desinteressado, e resulta da reflexão livre entre imaginação e entendimento.

 

“Não há uma ciência do belo, mas somente uma crítica; nem uma ciência bela, mas somente arte bela”
Immanuel Kant

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Andreas Gursky, 99 cent, 1999

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“O belo é o começo do terrível”
Rainer Maria Rilke

 

E o sublime? Para Burke, o sublime é um prazer que se transforma em dor. É um forma de espanto ligada ao terror. Kant define o sublime enquanto algo ilimitado, o que a forma não pode conter. Porém, para ambos os pensadores, o sublime não é apenas o belo elevado ao seu mais alto grau. A experiência do belo é uma experiência de conformação de mundo, que lida com a forma dentro dos seus limites. Diferentemente do belo, a experiência do sublime é o momento onde a imaginação, atordoada por um excesso de grandeza ou poder, falha em “compreender” e exalta. São experiências que fazem a imaginação confrontar-se com seu limite, já que excedem sua capacidade de esquematização. É como se algo provocasse reflexivamente, no sujeito, a experiência de si mesmo em algo de outra ordem. 

 

“É sublime o que, do simples fato que podemos pensá-lo, demonstra um poder do espírito que ultrapassa toda medida de sentido”
Immanuel Kant

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Andreas Gursky, F1 Boxenstopp I, 2007

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Andreas Gursky é um fotógrafo alemão da escola de Dusseldorf. Aluno direto do casal Bernd e Hilla Becher, grandes fotógrafos alemãs que criaram uma tipografia de instalações industriais (caixas d’água, silos, máquinas…), Gursky se formou numa turma de fotógrafos documentaristas, com um olhar distanciado, um certo ascetismo, rigorosidade técnica e organização formal. Suas imagens de grandes espaços, são monumentais para o campo da fotografia (podendo chegar a 7 metros quadrados) e hiper-realistas. Panorâmicas enormes, perfeitamente iluminadas, coreografadas, limpas, com cenários pensados milimetricamente e uma incrível ordem em meio ao caos. Não há espontaneidade, adornos, ou extras, seus objetos são simples, direto ao ponto, reconhecendo o caráter mecânico de nossa sociedade, sem falsidade ou futilidade. Os poucos humanos que aparecem são desprovidos de subjetividade ou humanidade, assumindo o papel de escala diante de seus amplos ambientes.

Seus temas de preferência são os serviços da sociedade de produção e consumo: hotéis, supermercados, lojas de luxo, produção de massa, conglomerados de apartamentos… Ele escolhe os pontos fracos da nossa sociedade atual, mas sem julgamentos, ele apenas os aponta. Ou cutuca. Ele trabalha com uma imagem de alta definição, modificada no photoshop em toda a sua extensão. Sua estética lembra a mídia publicitaria, tão popular nos tempos de hoje. O resultado é friamente real e imponente.

 

“A imagem fotográfica é sempre mais que uma imagem: é o lugar de um descarte, de uma laceração sublime entre o sensível e o inteligível, entre a cópia e a realidade, entre a memória e a esperança”
Giorgio Agamben

 

Como falamos, tanto Kant quanto Burke, evidentemente não entram no mérito do sublime na arte fotográfica. Gursky também não está pensando sobre a filosofia do século dezoito para montar suas imagens. Mas analisando melhor, o sublime pode ser uma reposta em como experimentamos a arte. E nosso exercício é traçar um paralelo entre a fotografia contemporânea de Gursky e o conceito estético do sublime.

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Andreas Gursky, Rhein II, 1999. Uma das fotografias mais bem vendidas no mercado de arte.

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O sentimento do sublime é uma forma de transcendência diante do infinito. Uma elevação de sentimento e pensamento na tomada de consciência de nossa finitude face ao ilimitado. O sublime é o além, enquanto o belo pode ser pequeno; o sublime é simples, enquanto o belo é ornamentado. Na simplicidade de suas imagens monstruosas, nosso fotógrafo alemão nos mostra como todo o resto é grande e como somos pequenos. Na violência da realidade pós-moderna, somos apenas pequenas partículas, formigas, detalhes de uma espécie em relação a tantas outras e a esse mundo desmedido. O sublime de suas imagens aparece justamente quando ele evoca o artificial: metáfora de um vazio e uma ausência.

De uma certa maneira o fotógrafo nos abate com sua escala gigantesca de detalhes, “realidade”, cores e perfeição. Além do mais, o sublime, na fotografia, parece coexistir confortavelmente com a imagem porque essa tem o status de documentação. A fotografia está ligada ao mundo real, e com isso, tem uma reflexão diferente de outras formas de arte. A fotografia não apenas relembra o passado, ela trás uma suposta comprovação do passado, atesta que o que vejo agora na foto, de fato existiu. Esse efeito é bastante perturbador, tem relação com uma ressurreição. É mais que uma memória ou uma imaginação, é em um só tempo o passado e o real, e dependendo da foto, o vivo e o morto.

Cada foto vem nos abalar, nos lembrar da nossa própria existência e assim, da nossa própria morte, fazendo com que tudo mais se torne pequeno, sem sentido e sem importância. No caso de Gursky, cada foto ainda nos faz lembrar da nossa sociedade, e de um certo sentido da nossa decadência. A fotografia cria um abalo interno, uma angustia, um prazer e um desprazer diante da foto, uma experiência do sublime.

As imagens de Gursky, em suas composições reais demais, inspiram e incomodam ao mesmo tempo. Relacionamos as cenas que vemos com a predisposição documental da fotografia, mas o olhar não deixa de se abalar com a perfeição extra de um real que beira o falso. Gursky deixa claro que não existe mais nenhum tipo de natureza desconhecida ao homem. Ao contrário, no lugar da natureza, o que encontramos são paisagens invasivas. E mesmo a natureza humana desaparece. E isso também incomoda.

Essa reflexão sobre esse possível diálogo, entre a fotografia e o sublime, é um estímulo e permanece aberta. Por outro lado, a beleza e a manifestação artística, por detrás da fotografia enquanto arte, permanece inegável. Muitas vezes a experiência do belo nessas condições é tão latente que basta apenas contemplar e se perder no fluxo das sensações que a fotografia, enquanto manifestação legítima, pode nos possibilitar.

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Andreas Gursky, Amazon, 2016

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Andreas Gursky, Pyongyang IV, 2007

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*Ioana Mello é carioca, formada em Publicidade e Cinema, com mestrado em História da Arte e Estética e Arte Contemporânea e pós graduação em Arte e Filosofia e Mercado de Arte. É sobretudo uma apaixonada por fotografia, trabalhando sempre em torno da imagem, seja em festivais e galerias de fotofrafia, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com

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