Infinito instante | Hiroshi Sugimoto e uma fotografia das ideias

Fico muito feliz em iniciar minha coluna mensal Infinito Instante no blog da Subversos, pois nada mais inspirador que o diálogo entre disciplinas. Nesse espaço proponho pensarmos a imagem, e seus desdobramentos, através dos olhares de diferentes fotógrafos. Cada mês um novo fotógrafo, novas imagens e novas percepções. A partir da visão pessoal de cada artista diante do mundo, acredito que poderemos nos abrir para inúmeras análises enriquecedoras entre a fotografia e nossa sociedade.

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Hiroshi Sugimoto e uma fotografia das ideias

Por Ioana Mello*

Deixe-me começar logo apresentando nosso primeiro fotógrafo, que também homenageio no nome dessa coluna: o japonês Hiroshi Sugimoto.

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Auto retrato, 2003.

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Quando nos deparamos com textos teóricos sobre a fotografia encontramos o clássico esquema foto/referente, ou seja, pensamos a fotografia como o congelamento “eterno” de um momento que existiu mas não existe mais no mundo real: o referente tem a sua existência congelada na foto. São inúmeros os textos que lidam com essa problemática, como A Câmara Clara de Roland Barthes, por exemplo. A fotografia é tida como imóvel: ela fixa o tempo, congela o instante e a memória.

Diferentemente do que costumamos pensar quando falamos de fotografia, para mim a fotografia é um infinito instante, e não um instante fixado. Toda fotografia lida com seu referente, ela não tem como fugir dele, porém ela também resulta de um processo de criação, onde é elaborada, pensada e refletida técnica, cultural e esteticamente.

Hiroshi Sugimoto nasceu em Tóquio em 1948, se formou em economia e filosofia alemã pela Universidade de Tóquio, nos anos 60, e em arte conceitual e Minimal pela Universidade de Pasadena, nos anos 70, e hoje vive entre o Japão e os EUA. Com essa base teórica, ele tende para uma abordagem mais conceitual da natureza da imagem fotográfica. Suas obras problematizam de uma maneira sutil com noções de História, perda, fixação, luz e sombra, real e ilusão, percepção, tempo e memória, ou seja, com a própria linguagem da fotografia.

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Movie Theater Akron Civic, Ohio, 1980. Foto: Hiroshi Sugimoto.

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Em uma de suas séries, Theaters, ele deixa o obturador ligado durante toda a projeção de um filme. Temos na foto alguns detalhes das salas de cinema e uma tela branca estouradíssima sempre no meio da composição. Nesse caso, lidamos claramente com a questão do tempo na foto, mas de uma forma abstrata. Em uma imagem são captadas 2 horas de filme. O tempo passa, a vida passa, mas nós vemos apenas uma tela branca, ou seja, nada.

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Tri City Drive-In, 1993. Foto: Hiroshi Sugimoto.

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North Atlantic Ocean, Cape Breton Island, 1996. Foto: Hiroshi Sugimoto.

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Em outra série, Seascapes – tirada com o obturador aberto por mais de 20 minutos dos diversos mares do mundo – o que vemos é quase uma pintura minimalista, um quadrado dividido por uma linha – o horizonte – com a parte de baixo branca – a água – e a parte de cima preta – o ar. De imediato não identificamos o referente da foto e assim ficamos perdidos nessa composição simples, intrigante e perfeita. A montagem da exposição aumenta a abstração, com as linhas dos horizontes posicionadas uma ao lado da outra, saindo para além dos limites da moldura e unindo as fotos através da repetição incansável da composição geométrica yin-yang.

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Museu Hirshhorn, 2006.

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Essa falta de referente concreto nos afasta do tempo supostamente cronológico e objetivo e entramos no tempo da fotografia: liberamos nossos sonhos e nossas memórias em um livre ir e vir. Mesmo quando identificamos a água e o ar nesta série, ou a tela branca do cinema na série anterior, não ficamos presos a um referente pesado que acaba por dominar a foto e fazer nossa imaginação se imobilizar naquele instante definido. Pois não há instante definido, há tempo, livre.

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Lingurian Sea, Saviore, 1982. Foto: Hiroshi Sugimoto.

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Sugimoto mostra as marcas do tempo; é o tempo deixando seu rastro na própria foto. O tempo é pensado antes de fazer a foto, entre o olhar e o apertar do botão, ao fazer a foto, e mais ainda, ao nos depararmos com a foto pronta.

Sugimoto não fotografa o palpável, o objetivo ou o referencial, ele fotografa ideias. Seja água e ar, telas brancas ou 1001 budas, seu objeto é etéreo, com um certo ar abstracionista, que possibilita à foto uma infinitude, um tempo próprio que mistura passado, presente e futuro. Hiroshi Sugimoto não nos enclausura em um tempo petrificado. Ao olhar o infinito, ele nos libera e nos faz ver o tempo real, um emaranhado de sucessão, continuidade, transformação e criação.

Somos obrigados a contemplar suas imagens, mas não de uma maneira romântica ou idealizada, pois suas fotos são desprovidas de uma tragicidade romântica. Contemplamos uma nova maneira de encararmos o tempo que há tempos não sabemos mais olhar. O tempo aqui não é mais o tempo virtual, mas o próprio tempo, e somos obrigados a lidar com ele.

Nas fotos de Sugimoto, acredito que o instante não seja fixado. O que ele propõe para suas imagens, e de uma certa maneira para a fotografia em si, não é um mundo para ser duplicado, mas para ser construído.

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Gorilla, 2004. Foto: Hiroshi Sugimoto.

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*Ioana mello é carioca, formada em Publicidade e Cinema, com mestrado em História da Arte e Estética e Arte Contemporânea e pós graduação em Arte e Filosofia e Mercado de Arte. É sobretudo uma apaixonada por fotografia, trabalhando sempre em torno da imagem, seja em festivais e galerias de fotofrafia, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com ou em sua coluna, Infinito instante, no blog da Subversos

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