INCERTEZA VIVA

Por Fatima Pinheiro*

 

A 32ª Bienal de São Paulo Incerteza viva, encerrada no dia 11 de dezembro, com curadoria de Jochen Volz, Gabi Ngcobo (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca) e Sofía Olascoaga (México), reuniu 81 artistas e coletivos de 33 países com um público estimado em mais de 900 mil pessoas. A arte situada como potência de resistência à vida, ao social, e ao político pretendeu dar conta das questões referentes ao vivo do corpo enlaçado com o que o circunda. Ali, a partir das experiências advindas do contato com a produção dos artistas, tive a oportunidade de verificar a resposta singular que cada um dos artistas deu às imposturas e ao mal- estar de sua época, especialmente quando a ciência parece ter encontrado no organismo o seu lugar hoje. Portanto, foi para mim, uma ocasião fecunda onde pude ler, também, algo dos efeitos do enlace do corpo e linguagem, esses dois fios do nó crucial [1], tão fundamentais para a psicanálise.

O título da mostra Incerteza viva conjuga um substantivo e um adjetivo que enlaça significante e corpo. Os curadores, ao articularem “Incerteza” e “viva”, positivam a “incerteza”, retirando-a de um lugar comum, tomada como transtorno, por vir contaminada pela angústia ou medo, afetos tão presentes nos dias atuais. A “Incerteza”, assim positivada, marca aquilo que é estrutural ao sujeito, o que o constitui como ser de linguagem. Lacan [2] abordou o termo “incerteza” qualificando-a de “feliz”, porque é justamente a incerteza que torna a nossa existência possível de ser prolongada e vivida. Em contrapartida, a certeza, como ele assinalou, é algo mais raro para um sujeito, uma vez que um significante necessita dos demais significantes para produzir sentido, evidenciando assim a sua falta de referenciais fixos. Por outro lado, o adjetivo “viva” associado à incerteza, ratifica a existência e a qualidade de um corpo afetado pela linguagem, aproximando a incerteza da dimensão do sintoma como é tratado pela psicanálise, como algo que localiza o que é mais singular ao sujeito, tanto por sua dimensão de mensagem, como a dimensão de trauma sexual, ponto impossível de significar. A incerteza, fora da perspectiva de um transtorno, ou seja, a partir da perspectiva sintomática, revela que a arte hoje não pode dar conta de todas as suas manifestações pela vertente da sublimação, uma vez que esta última está circunscrita pelo belo e os trabalhos de arte contemporâneos estão bem distantes dessa perspectiva das “belas artes”. O elemento “belo” faz com que o analista nada tenha a dizer sobre a criação, como apontou Lacan ao referir-se à prudência de Freud ao tratar da sublimação.

É pela via do sintoma que a arte contemporânea marca sua presença no mundo contemporâneo, e especialmente nesta 32a Bienal de São Paulo, podendo ser situada como o fez Gérard Wajcman como epifania do real: “as obras dos grandes artistas não são sublimes, são síntomas. […] Intranquilizam. A arte tende a abrir brechas no real, discretas, mas eficazes” [3]. Essa direção apontada por Wacjman, estabelece um laço com a arte pela via da corporização [4], como a tenho tomado [5] a partir das elaborações de J. Alain Miller, ao ler Lacan, leitura resultante dos efeitos traumáticos da incidência do significante no corpo. É desse encontro do significante com o corpo que “se concentra o germe da singularidade de cada um. Ali se enraíza o sintoma único que Lacan qualificou como acontecimento de corpo” [6]. E é a partir daí que os artistas, cada um à sua maneira, extraídos da dimensão do Outro, hors norme, podem escrever, com suas obras, algo desse singular.

Destacamos cinco trabalhos da mostra, dentre vários, que traduzem potencialmente a arte como acontecimento de corpo, isto é, na sua vertente sintomática.

 

O Peixe de Jonathan Andrade

Em seu vídeo O Peixe, situado entre documentário e ficção, Jonathan Andrade (Maceió, Alagoas, Brasil, 1982. Vive e trabalha em Recife, Pernambuco, Brasil) faz explodir aos olhos do expectador o embate entre a vida e a morte de um peixe que após ser capturado nos manguezais de Alagoas, é abraçado pelo pescador, em uma espécie de ritual.

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Rachel Rose 

Rachel Rose (Nova York, EUA, 1986. Vive e trabalha em Nova York, EUA) apresenta dois vídeos onde dá tratamento aos arquivos digitais como se fossem pinturas, fazendo uso da superposição de várias camadas de imagens dos arquivos. O vídeo A Minute Ago [Um minuto atrás] (2014) revela uma experiência catastrófica que mistura imagens de uma tempestade de granizo em uma praia com imagens da reprodução da pintura O funeral de Phocion (1648), de Nicolas Poussin, alternando, também, outros elementos. E o vídeo Everything and More [Tudo e mais um pouco] (2015) em que o relato de um astronauta explora a sensação de descolamento de seu corpo em relação ao planeta Terra.

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Hydragramas de Sonia Andrade

A obra Hydragramas, neologismo criado a partir de Hydra, monstro híbrido, e escrita (1978-1993) de Sonia Andrade (Rio de Janeiro, 1935) reúne cerca de cem objetos, em uma instalação, construídos com materiais coletados no cotidiano, organizados de tal forma que esses “objetos- letras” formam uma espécie de escrita d´agua.

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De- Extinction de Pierre Huyshe

O impactante vídeo de Pierre Huyshe De-Extinction ( França- 1962. Vive em Santiago, e Nova York) dá conta de uma navegação dentro de uma pedra fóssil de âmbar. As imagens microscópicas e sons dessa navegação criam tempos “congelados” cujo percurso culmina na cópula de um casal de insetos.

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Lourdes Castro

Lourdes Castro (Funchal, Portugal, 1930. Vive na Ilha da Madeira) apresenta dois trabalhos produtos de sua extensa obra que se iniciou na década de 50. Un Autre livre rouge [Um outro livro vermelho], iniciado em 1973, realizado em parceria com Manuel Zimbro, reúne e cataloga objetos extraídos de diferentes contextos, criando uma espécie de inventário, com a particularidade de serem todos vermelhos.

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Da experiência de Lourdes Castro e de seu interesse na desmaterialização dos objetos surge a série Sombras à volta de um centro (1980-1987), segundo trabalho apresentado, no qual, em seu processo criativo, a artista localiza uma jarra com flores sobre o papel, debaixo de um foco de luz; e contorna as sombras do objeto com lápis ou nanquim, criando um vazio, ou seja, o corpo do objeto comparece esvaziado de sua imagem, deixando rastros.

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[1] Bassols, M. “Scilicet, o corpo falante da AMP”. In: Scilicet: O corpo falante- sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016.

[2] Lacan, J. O seminário, livro 3: As psicoses. Zahar Ed. 1985. Pág. 90

[3] G. Wajcman, All that falls, Exposição no Palais de Tokyo, de maio a setembro de 2014,

[4] Miller, J. A. La biologia lacaniana y acontecimento del cuerpo. Buenos Aires: Colección Diva, 2002.

[5] Pinheiro, M F. O saber do artista e a prática da letra. Tese de Doutorado – UERJ, 2014.

[6] Salman, S. “O que faz família e a excomunhão”- Boletim do VIII Enapol.

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*Fátima Pinheiro é psicanalista, membro da EBP/AMP, artista plástica e colunista do Blog da Subversos

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