In Situ | O artista por ele mesmo: Alex Hamburger – Para além da palavra

Por Fátima Pinheiro

Desde o início das suas atividades, nos anos 80, Alex Hamburger teve seus interesses e preocupações voltados para as possibilidades interativas, de fusão e entrecruzamento entre várias áreas. A sua experiência poética foi desenvolvida ao longo dos anos 80, 90 e 2000, e teve como ponto de partida trabalhos de Poesia Visual e Sonora, Poemas Objeto, Livros-de-artista, Performances, Instalações, etc., contribuíndo de forma decisiva para o entendimento e aceitação dessas novas técnicas de expressão ainda incipientes no circuito carioca dos anos 80. Realizou diversas exposições coletivas e individuais ao longo desse período, destacando-se: “Brasil: segni d’arte”, no contexto da Bienal de Veneza, 1993; “Livrobjeto”, Galeria Saramenha, RJ,1991; “Poemobjeto”, EAV – Parque Lage, RJ, 1990; “Eletropoesia”, Galeria Candido Mendes, RJ 1988; além de ter criado em torno de 30 trabalhos em arte-performance, alguns em parceria com a artista plástica Márcia X. com quem desenvolveu uma profícua parceria por 7 anos. Publicou 5 livros de ‘poesia verbal’ e 2 CDs de ‘poesia sonora’, que figuraram em destacados acervos de instituições de arte contemporânea, como a Printed Matter Bookstore – New York, Compendium of Contemporary Fine Prints – Hamburgo, Alemanha, etc.

Alex Hamburger é o nosso convidado desse número do “O artista por ele mesmo” e nos brinda com o ensaio “Para além da palavra” que escreveu especialmente para esta coluna, uma importante abordagem sobre a poesia experimental, e que tenho o prazer de apresentar, uma vez que trata-se de um texto que abre espaço para o debate no campo da arte contemporânea, trazendo a marca singular do autor não só no que tange ao seu estilo de escrita, mas por vir, também, acompanhado da riqueza de sua poesia visual. Boa leitura a todos!

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Para além da palavra

Dos meios de expressão, a Poesia tem sido, na atualidade, a menos exigida em termos de experimentação, uma vez que mesmo os trabalhos chamados ‘novos’ raramente vão além das convenções estabelecidas no século dezenove.

A revolução na arte moderna, também chamada de contemporânea, que irrompeu logo após a 1ª Guerra Mundial, pouco afetou a literatura publicada e divulgada hoje, embora possamos encontrar exemplos magníficos de sua realização.
A Poesia, e mesmo o Romance, enfim, a ficção que passa diante de nossos olhos são invariavelmente tão familiares em linguagem e estrutura, tão improblemáticos enquanto experiências lidas, tão próximos dos best-sellers de uma burguesia acomodada , que uma verdade pode ser percebida clara e límpida: quase nenhuma forma literária, hoje, parece ter necessidade real de questionamento estético, e sem ruptura estilística, é preciso que se diga, esse estado de coisas irá se perpetuar, não permitindo nenhum tipo de frescor e renovação.

Uma das razões pela qual a arte ficcional não sentiu nenhuma obrigação em mudar, se deve ao fato de a maioria dos critérios correntemente utilizados pelos “agentes literários” (escritores, críticos, editores, professores, resenhistas, etc.) estabelecidos, serem perfeitamente aplicáveis a cerca de um século atrás. Tais agentes, é claro, colocam a culpa no público e no mercado, ao dizerem que estes, eventualmente, não exigem, ou não absorvem, os trabalhos mais inventivos por falta de conhecimento ou acesso a essas obras (experimentais), criando dessa maneira um círculo vicioso que deveria tentar ser quebrado, segundo me parece, por esses próprios agentes, que possuem os elementos para tal, mas que se omitem em favor de aspectos mais imediatistas.

O fato desses agentes serem tão apegados à fórmulas familiares, e tão retrógrados em seus princípios de seleção para divulgação pública é quase inaceitável, mas a não anunciada verdade é que nenhum agente com alguma pré-disposição para a escrita experimental contribui regularmente para qualquer veículo literário no país.

Considerem, somente por analogia, o quão inquestionavelmente ridículo iria parecer um crítico de artes plásticas que somente elogiasse a arte representacional (figurativa), e rejeitasse todo trabalho abstrato por este trair a realidade; e se uma crítica de arte tão anacrônica fosse levada a sério considerem quão limitada seria a arte recente!

Como todo praticante um pouco mais exigente sabe, as obras literárias que venceram prêmios, e que encabeçam as resenhas, listas de mais vendidos, ou que são discutidos nos cursos, não são quase nunca aquelas que dão uma real contribuição ao avanço da criação. A profunda negligência em relação a um completo corpo da arte (no caso, a de característica experimental), pode contribuir insensatamente para a sua morte prematura, para não falar da completa exclusão da arte literária do convívio realimentador com as outras expressões.

Se o ‘Finnegan’s wake’, de Joyce, para dar um exemplo, fosse parar, hoje, numa editora sem ser solicitado, não há dúvida de que seria recusado logo após uma perícia de curso, e essa obra-prima multilíngue do século XX seria devolvida, com certeza, sem nenhuma avaliação ou exame como totalmente impublicável (se não ilegível), não somente devido ao seu estilo fragmentado e túrgido, mas porque o seu formato excêntrico faria com que os custos de produção e tipografia fossem proibitivos, embora recentemente, com o avanço dos recursos tipográficos e após décadas de estupefação esta obra ‘conseguiu’ ser publicada, inclusive em nosso idioma!

Por outro lado, boa parte dos trabalhos de inovação poética, hoje produzidos, podem ser considerados “intermídia”, termo criado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge, e redescoberto pelo poeta e editor americano Dick Higgins, na década de 70, para descrever aquelas manifestações estéticas interativas, ou seja, que se encontram conceitualmente entre duas ou mais disciplinas artísticas tradicionais. Isto não se deu por mero acidente! O conceito de separação entre os meios surgiu na Renascença. A ideia que uma pintura é feita somente de tinta sobre tela, ou que uma escultura não deve ser pintada, parece característico de um pensamento social despótico, dividindo a sociedade em categorias de nobreza e suas várias subdivisões: gentio, artesãos, servos, etc., e que poderia muito bem ser denominado de concepção feudal “prisioneiros do ser”.

Essa abordagem, essencialmente mecanicista, continuou relevante durante as duas primeiras revoluções industriais, chegando até a presente era da automação. Entretanto, os problemas sociais que caracterizam o nosso tempo, não permitem mais a abordagem compartimentalizada. Estamos nos aproximando do início de uma sociedade sem classes, na qual a separação por categorias rígidas é absolutamente irrelevante.

Tudo leva a crer que a prática da ‘intermídia’ foi introduzida pelas vanguardas históricas do início do século XX, com a sua atuação simultânea em todos os domínios da criação e do pensamento, ou quiçá, com os ready-mades de Duchamp, neste sentido um “intermeio”, uma vez que não foram concebidos para se amoldar ao meio puro; portanto, sugerem situar-se no terreno entre a área geral da “mídia arte” e aquela que poderíamos denominar de “mídia vida”. Contudo, locações do tipo desta última, apesar do fascínio que oferecem em princípio, são relativamente inexploradas se compararmos com os meios que se situam entre as artes, que de certa forma começam a despertar um maior interesse entre os produtores culturais.

Sim, porque ainda não dá para nomear um trabalho que se coloca conscientemente interagindo entre as artes plásticas e um par de sapatos! Ou entre um poema e a vistoria alfandegária de um fiscal de aeroporto! Como se pode perceber, existe muita coisa ainda a ser feita nesta direção, no caminho de uma abertura estética de respostas compensadoras.

Tem-se notado a utilização da ‘intermídia’ em todos os campos de atuação cultural, dá música às artes visuais, da literatura à arte do vídeo, e em certas variedades de construções plásticas. Deve-se salientar que seu uso é bastante difundido no mundo todo, uma vez que continuidade no lugar de categorização é a principal marca de uma nova mentalidade.

O objetivo principal dessa comunicação é nada menos do que uma ampliação drástica do nosso senso de possibilidades ficcionais, tendo sempre em mente sua distância do que normalmente temos visto e lido, ou pelo menos procura-se aqui, jogar uma luz sobre questões cruciais de há muito soterradas. Como as diversas alternativas estilísticas podem sugerir, existe um leque bastante amplo de variações presentes para a ficção, e o texto linear não é necessariamente um pré-requisito.

A inevitável degradação de todas as formas conhecidas e bem sucedidas (e, portanto, recorrentes em excesso), exige a produção de novos projetos, mais necessários e apropriados. Há nessa minha proposta, diga-se a bem da verdade, uma espinha dorsal polêmica, tudo no sentido de sustentar uma batalha travada por anos em nome da arte, e que precisa desesperadamente ser reiterada: a revolução fundamental do modernismo artístico é, e deve ser permanente! Esse material ficcional pode ser humano ou estilístico, o que quer dizer que pode relacionar-se com pessoas ou coisas, ou ser ainda um estilo linguístico ou invenção formal, porém, dentro da arte ficcional há usualmente um tipo de movimentação que vai de um polo a outro.

Nesse sentido, o da diversidade e troca dentro de um quadro amplo, agora reconhecido, difere a poesia ‘intermídia’, como aqui proposto, da poesia ‘versográfica’ pura e simples, aquela que enfatiza o estático, o ato geralmente formalizado. Enquanto a primeira tende na direção da totalidade, expandindo o que de mais rico foi inventado, ampliando-o, reatualizando-o, rediscutindo-o, a poesia de versos é limitada; enquanto a poesia ampla é abrangente, a poesia meramente retórica é concentradora, enquanto uma se move a outra fica parada, se repetindo…

O que é novo em arte contemporânea costuma tratar quase sempre de maneira inventiva com as essências do meio; no caso da experimentação, os potenciais da linguagem e seu significado, mais ainda, o seu significante, assim como o alcance tanto da página impressa e retangular quanto do processo rítmico de virar a página; e a liberdade, em qualquer modalidade artística, significa a oportunidade intransigente em utilizar-se desses materiais básicos sem restrição – sem deferência, para ser mais específico, tanto com as convenções literárias quanto com as exigências mundanas, e é por isso que algumas das melhores proposições poéticas partem de signos linguísticos não-familiares , e outras até, evitam completamente a linguagem (o texto)!

Muito da nova poesia evita a linha e o tipo horizontal – a convenção fundamental da literatura desde Gutemberg – para enveredar por outras formas de explorar e habitar a arena disponível de uma página ou espaço físico dado; e muitos exemplos misturam palavras e imagens para obter efeitos impossíveis de serem alcançados isoladamente por um ou por outro.

O romance e a novela, podem estar bastante desgastados, junto com outras formas historicamente em vias de extinção (?), mas experimentar, como impulso criativo, não!
Guardando estas oportunidades em mente, o artista da nova poesia pode, por exemplo, ver figuras sendo tão válidas quanto palavras, ou ‘mixar’ um elemento com outro, e o vocabulário do meio, ou ‘intermeio’, obviamente inclui tanto a página em branco quanto a totalmente escurecida.

Alguns desses trabalhos irão provavelmente parecer obscuros, senão inescrutáveis a princípio, não tanto porque suas concepções básicas são complexas, mas porque suas formas são inusitadas o bastante para atordoar antes de poderem seduzir e encantar. A questão para isso, é: como pode alguém, reconhecendo (caso reconheça) a continua metamorfose que se processa na arte de nosso século (e do anterior), não aceitar, ou pelo menos não procurar discutir qualquer trabalho que contenha uma grande dose de evolução?

Uma vez que o arcaico e desnecessário critério restritivo for abandonado, tornar-se-á claro, de imediato, que muitas alternativas são possíveis, o que significa que os componentes da mídia ficcional ainda podem ser estendidos a inumeráveis formas até o momento impensáveis!

Quase nada da nova poesia se qualifica como poesia normativa (de caráter lógico-simbolista), apesar de vários autores que a desenvolvem ainda serem reconhecidos como poetas! Na verdade, uma verdade operacional, é que artistas mais ousados tendem a encontrar suas mais produtivas inspirações em fontes fora dos seus meios de atuação, e certas propostas refletem o percurso progressivo da Ciência, a predileção espacial da coreografia recente, o avanço dos meios tecnológicos de comunicação, as formas permutacionais da Música, etc., ampliando, assim, o seu raio de ação e o seu campo de atuação, para obter resultados sensoriais mais condizentes diante dos profundos desafios do nosso tempo.

Como declara Nani Balestrini, poeta experimental italiano: “Uma poesia de oposição aos dogmas e ao conformismo que ameaça nosso caminho, que nos ata os pés, tentando imobilizar-nos os passos”.

Hoje, mais do que nunca, esta é a razão de fazer Poesia.

Alex Hamburger

Rio, 2012

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