Dias misteriosos

Inauguramos hoje, aqui no Blog da Subversos, mais uma categoria: ‘ficções’! ‘Ficções’ será, simplesmente, o que anuncia ser: um espaço onde autores convidados, escritores ou não, publicarão pequenas vinhetas narrativas, que poderão – mas não obrigatoriamente – ter continuidade aqui mesmo no blog ou alhures.

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DIAS MISTERIOSOS

Por Luiz Dolino*

Era uma vez um dia mais que ensolarado, um dia de ouro.
A natureza engalanada – plantas, animais, pedras.
Tudo rebrilhava, polido, ácido.
O granito das montanhas vibrava.
As lagartixas procuravam loucamente o parceiro para fazer amor – conseguiam 400 vezes por dia, pelas estatísticas mais conservadoras.
Nisto não faziam muita vantagem porque, ao que se apurou, o intercurso sexual do réptil dura menos de 5 segundos… e isso com aqueles machos mais exuberantes e galantes.
Mas como dizia do dia radioso, as plantas, estas também exibiam cores as mais fulgurantes.
Naturalmente que esse estado de resplandecência afetou toda a população de São Gonçalo.
Claro que em outras localidades a luz intensa também atinge seres vivos e inanimados.
Mas foi de São Gonçalo que tive notícias as mais instigantes.
São Gonçalo – especificamente o bairro da Covanca – tem umas peculiaridades curiosas, para dizer o mínimo.
Lá, as mulheres só dançam com outras do mesmo credo sexual, excluindo curiosamente as lésbicas, declaradas ou não.
Lá, as crianças são contratadas pela prefeitura para ensinarem regularmente aos adultos bons modos, educação no trânsito e artes cênicas.
Eu mesmo conheço duas atrizes que se formaram nessa escola para adultos conduzida por pequenos professores.
Há uma página www.sangoncovancatheater.uk onde podem ser encontradas informações detalhadas sobre a experiência realizada nessa cidade fluminense mundialmente considerada como de vanguarda.
Na internet, no mesmo endereço indicado, há testes que podem ser autoaplicáveis, de modo a permitir que o interessado tenha uma noção das suas chances para conseguir matricula nesses cursos.
Melhor ainda é visitar o próprio site da prefeitura de São Gonçalo www.saogonçalovanguarda.gov.br.
Ali está tudo muito bem explicado.
E por que estou falando disso? Porque ali fica muito claro o por quê desse mundo inovador – a incidência solar sobre o bairro já citado.
Atribui-se às propriedades de solarização constante nessa área, digamos, a sua indiscutível vocação para o moderno.
Trata-se de uma sociedade voltada para o experimentalismo, para o ineditismo.
Tanto é assim que a Covanca é hoje o maior empório para a exportação de jovens para os grandes centros mundiais, todos com larga experiência no mundo do prazer, também traduzido como da prostituição.
Mas isso é um assunto escabroso que não interferirá nesta história.
Aqui, o que de melhor se poderá desfrutar será a informação fresca de como se pode chegar a ser ainda mais feliz nos tempos calorosos e suarentos de hoje.
O casal de prefeitos – sim porque lá existem dois governantes, um homem que atua de 8 até 20 horas e a sua mulher, a partir dai até às 7 horas da manhã.
Entre 7 e 8 horas, a cidade vive o caos, em total desgoverno pela ausência das autoridades, que, nesse horário, se dedicam a fazer pilates.
É, portanto, o horário mais favorável à azaração, e nesse caso, e somente nesse, admiti-se a atuação de homosexuais de ambos os sexos.
Mas o mais interessante desta história –  e é sobre isso exclusivamente que vamos falar daqui para diante –  é o efeito estufa que a permanente solarização impõe.
Parece que as pessoas que ali vivem, entre 2 e 5 da tarde, portanto durante a administração masculina, inflam.
Algumas chegam a pesar na média 130 kg.
Outra coisa bizarra: entre 3 e 4 da manhã, na administração feminina, as pessoas assumem um colorido estravagante.
Umas ficam literalmente verdes, outras furta-cor (essas as mais comuns, sobretudo entre a população mestiça).
Mas entre inflações gordurosas e oscilações cromáticas, a população procria.
O bairro da Convanca ostenta um dos maiores índices de fertilidade do planeta.
Há o caso de uma senhora – dona Maria das Dores Paz Altavista – que, em 15 anos de casada, jamais mestruou.
Teve 16 filhos no período: 2 homens e 14 meninas, todos furta-cor porque nasceram de madrugada.
O fenômeno hoje é muito conhecido e objeto de muita especulação nos grandes centros de pesquisa, sobretudo os mais afamados com sede na Patagônia.
Pela singularidade dessa região tão atrativa para ordas de curiosos, as famosas embarcações aéreas que partem da Praça XV de Novembro no Rio de Janeiro têm feito uma rota específica somente para deixar o passageiro no bairro do Barreto, na vizinha Niterói, muito próximo do local dessas ocorrências.
A frequência, preços e horários desse transporte público poderão ser checados no endereço www.transsaogoncoreshumanasindefinidas.gov.com.br
Vou logo adiantando que a frequência – isto eu já confirmei e posso informar – é de uma embarcação por trimestre.
Mas a narrativa vai seguindo o seu curso e o narrador saindo daquele que é o seu propósito fundamental: contar o romance de funestas consequências, ambientado no bairro e cidade dos quais nos ocupamos e vivido por Darlene Paz Altavista, sétima filha de dona Maria das Dores.
A menina, flor de formosura –  sobretudo se contemplada fora daqueles horários em que se infla e se colore – aos 14 anos incompletos deu de dar.
Enfeitava-se toda e a garotada vibrava. Garotada de ambos os sexos, naturalmente.
O plano da menina era ficar bem escolada e virar produto de exportação.
Queria porque queria viver em Lisboa; era o seu grande sonho.
Não precisava nem conhecer línguas (falo naturalmente dos idiomas) e estaria confortavelmente instalada na Europa, situação geográfica até hoje discutível, mas isso é outro assunto de viés político, sócio-cultural, fora do nosso objetivo primordial.
A única coisa certa na sua cabeça irredutível: o seu projeto de ser puta na União Européia; disso Darlene não abriria mão.
Até que topou com Antero.
Mulato sarado, bem dotado, com larga experiência, figurando até nos classificados de O Globo, na parte destinada ao anúncio de acompanhantes.
Antero, talvez sofrendo do mesmo efeito que atingia as lagartixas, das que dei notícia anteriormente, tinha um enorme potencial, digamos que, reprodutivo.
Com isso, é claro, sempre foi muito requisitado (desde os 16 anos) para grandes produções.
Era tamanha a sua capacidade de repetência que se qualificou no mercado varejista como reprodutivo Triple A – designação atribuída aos que ejaculam sem maiores dificuldades duas ou mais vezes no curto espaço de uma hora.
Pois bem, os dias de sol começaram a ficar cobertos de sombras.
Nuvens, aguaceiros torrenciais.
Darlene foi covardemente assassinada.
Teve a garganta cortada com faca de cozinha da marca Tramontina, daquelas com cabo de madeira e serrinha até a ponta, segundo o laudo pericial.
Covardemente, porque foi encontrada nuínha, com um ar de extremo prazer na contração final.
A autopsia registrou que havia abundantes sinais e evidências cabais de coito recente.
Antero nunca pode ser condenado pelo crime passional que cometera.
Várias testemunhas asseguram que ele foi visto andando desperado na chuva.
Acabou se afogando numa poça, em plena Praça Hilário de Brito, logradouro bem conhecido de uma comunidade periférica na Covanca.
Os jornais foram cruéis na descrição do romance de final tão aflito, inundado e imponderável.
Os dias de chuva são muito misteriosos.
Ao que tudo indica, parece que esses dias aziagos, se combinados com temperaturas escaldantes, contribuem decisivamente para cozinhar os miolos e corações apaixonados.

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*Luiz Dolino é artista plástico [ http://www.dolino.net/ ]

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