Cenário adverso ou rota para impossibilidades

Cenário adverso

por Luiz Dolino*

Se eu deixar você, jura que não me abandona?

Ontem, você partiu o queijo em fatias muito grossas. Normalmente, eu prefiro cortar uma por uma, à medida que vou comendo. O queijo de Minas fica logo amarelo. Por que você não comprou o Regina, que é naturalmente cor de gema de ovo? Tem tanta coisa que você sabe e por isso mesmo deveria conhecer bem os meus desejos. Claro. Demorei mas entendi – você não é mais a mesma.

Semana passada em Copacabana vi um assalto banal. Imagina que um menino, mal entrado na adolescência, tinha uma arma na mão. Do ônibus pude ver que era de brinquedo. Mesmo assim ele ameaçou e levou a melhor com a velha. Pudera. Sempre me pergunto, por que não sou eu a vítima. Queria ser sempre o objeto dessas violências. Tenho certeza de que, ao citar o seu nome para o meu algoz, eu conseguiria congelar a cena.

Não sei comer doce em calda sem me lambuzar. Você reclama sem razão, porque eu não tinha a intenção de manchar a toalha. Dona Magaly tem uma elegância tremenda para se comportar, sobretudo à mesa. Come as coisas mais esquisitas com a mesma sem cerimônia com que eu descasco uma banana. Você tem essa mania que é típica de mulher rica: sempre de escarpin. Outro dia, no consultório de Dr. Gastão, ouvi de um cliente para a moça da recepção: fulano (não entendi bem o nome) é muito arrogante, vive de salto alto.

Eu queria levar você para jantar numa churrascaria no Méier. Sei que você não aprecia esses ambientes suburbanos, mas é que a linguiça servida lá é única – faites à la maison. Comeríamos somente a entrada; depois, voltaríamos para o Leblon para terminar o jantar no Antiquarius, que é o restaurante mais caro da cidade e que você vive dizendo pra todo mundo que nunca foi. Assim, eu tiraria da lista mais um item de suas eternas insatisfações. Tudo tem um preço, minha cara. Saucisse no Méier, fígado de ganso no Leblon. Como vê, podemos sempre conviver com múltiplas realidades. Você é que finge não perceber.

Não vou mover uma palha para salvar nossa história. Amor, paixão, tudo isso é muito bom quando se acredita em fada. É igual time de futebol. A gente cresce torcendo pelo Vasco e nem sabe muito bem a razão de tal escolha que tem que valer para toda a vida. Em geral vem de herança. Depois de tanta dor, perdas e ganhos, taças e campeonatos, gastamos uma fortuna com o analista, que é a única pessoa que vive às custas do passado. Estou cansado. Vou dar uma volta, se demorar é porque fui ao cinema.

Olha, não mexe naquele embrulho ali não. Para conter a sua curiosidade doentia vou logo dizendo: é um skate. Contratei um professor, quer dizer, um garotão que é craque e que vai me dar aulas particulares três vezes por dia. Vai passar aqui toda terça e quarta. Vou trabalhar com ele de manhã, ao meio dia e no fim da tarde. Quinze minutos cada treino.

A vida começa a ficar muito desajeitada, você não acha? Espera aí. Não sai já não! Vamos descer juntos. Em quinze minutos tomo um banho. Hoje amanheci com um desejo: quero comer pastel. Você conhece algum lugar aqui por perto? Não, não é empada. Nessa padaria o que tem de bom são os salgadinhos. Eles não fritam nada lá não. Um pastelzinho tem o seu lugar. Nada consola mais uma alma carente. Será quem inventou o pastel? Pizza é coisa de italiano, quibe de árabe, sanduíche de inglês. E o pastel? Deve ser coisa de português. É verdade que nada supera a mulata, em matéria de invenção lusitana. Desculpe, não quis ofender. Estou falando de um ponto de vista antropológico.

Tem um artigo no jornal que fala da onda de calor que vem por aí, batendo todos os recordes no próximo verão. Acho que vou passar umas três semanas em Nova York. Pelo menos tem frio por lá. Não suporto esse negócio sebento, suado. Já viu como a pele das pessoas fica brilhando? Já estou me enxugando, não vou demorar. Porra! Mas essa toalha é nova? Logo vi. Não seca. A minha mãe, sempre atenta, quando comprava roupa de banho, mandava lavar umas cinco vezes antes de pô-las em uso. Mas esses cuidados hoje, quem vai ter? Falar nisso, aquela malandra da Janice telefonou que não virá aqui na sexta. Vamos passar o fim de semana com a casa sem arrumação.

Você pensou bem? Vamos ao Méier. Juro que eu vou me comportar como um lorde no restaurante mais tarde. Vou confessar uma coisa: meu sonho (antes de conhecer você, é claro, muito antes) era ter uma amante no subúrbio. Uma escurinha dessas que vão passando e arrasando. Eu tinha (?) uma fantasia – alugar uma quitinete em Olaria, Engenho Novo. Imaginava a Zona Norte como lugar ideal para veranear ou, como dizia o nosso porteiro, venerear. Eu chegaria no meio da tarde encontrando o meu amor à espera. Nuinha, se abanando com uma ventarola de papelão. O ventilador de teto estava sempre enguiçado…

Eu acho totalmente plausível o prazer se estabelecer quando dosado em partes generosas de carinho, calor, bom hálito e um certo torpor, sofrimento, quase dor. Acho que estou ficando romântico. Você sacou que tudo rimou na minha frase? Claro que você não escutou nada e se ouviu prefere fingir que não entende. O que eu preciso é encontrar um novo trabalho. A minha renda está ficando curta. Posso alugar esse apartamento, porque não preciso de 250m2 em Ipanema. Com a grana, mudo e vou morar muito bem no Flamengo, sobrando pelo menos uns dois mil por mês. Nem precisa fazer essa cara. O colega mais feliz e pra cima que tive morava em Vicente de Carvalho. Sabe onde fica? Nem eu, mas sei que é longe, no fim da Zona Norte. Enquanto eu saía para a escola 15 minutos antes de tocar o sinal de entrada, ele saía duas horas.

Você comprou o biquíni de que estava precisando? Vou deixar aqui 300 pratas. Eu vou dar de presente. Não compra aqueles mini, não. Morro de vergonha, todo mundo olhando pra você. Às vezes acho que estão é olhando pra mim. Só pode ser, porque o que mais tem na praia é mulher. Sujeito com cara de otário, o número é bem menor. Hoje, além de pastel, vou chupar um picolé de manga. A gente tem cada desejo, não é? Mas que importam para você os meus desejos? Nada. Claro. Também não sei a razão de ficar especulando sobre tudo. Dr. Trompowiski vinha sempre com um papo de insegurança básica. Pensar o tanto de dinheiro gastei para ouvir essas baboseiras. Ah, meu Deus, em quantos picolés eu poderia ter investido? Amanhã é dia de feira, você precisa de alguma coisa?

______________________________

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: