O mundo por aqui | Europa: a necessidade da busca por projeto pós-católico

Ilustração: Helena Salomão

Por Gustavo Alvim de Góes Bezerra*

Zygmund Bauman começa seu livro Europa: uma aventura inacabada (Zahar, 2006) contando a história mitológica de Europa, filha do rei Agenor, de Tiro. Segundo a tradição grega, Europa foi raptada por Zeus disfarçado de touro. Agenor mandou seus filhos em busca da princesa raptada: cada um em uma direção diferente. Um desses era Cadmon, que navegou até Rhodes e daí foi em busca do Oráculo de Delfos. Lá, a resposta obtida foi desanimadora: não encontraria sua irmã, ao invés disso, deveria arrumar uma vaca, segui-la e forçá-la a ir em frente sem descanso. O lugar em que ela caísse exaurida de forças seria aquele para construir uma cidade. E assim Tebas foi construída. A Europa, portanto, desde os tempos mitológicos, não existe se não como projeto e busca. Quando a Europa muda seus projetos não é um problema exclusivo da Europa, mas para o mundo moldado a partir de projetos europeus que não parece caminhar para alternativas emancipadoras.

A primeira falácia que existe sobre a Europa é sua caracterização como continente: trata-se de uma continuação Ocidental da Ásia e setentrional da África – ao menos até a construção do Canal de Suez. Essa é a Europa que conhecemos. Mas cabe perguntar: a Rússia é parte da Europa? Se sim, toda ela? Então a Europa chega ao Pacífico?

E a Espanha? Ela é Europa? Sempre foi? Porque considerando que a Era Moderna começa com a Queda de Constantinopla em 1453 e o fim do Império Bizantino, e que a Espanha unifica-se com o final das Guerras de Reconquista em 1492, existe um período de 39 anos durante os quais parte da Península Ibérica não pertencia à cristandade. É possível ser europeu sem ser cristão no século XV? Faz sentido pensar essa possibilidade? É possível que não.

E o Brasil independente em 1822 através de um casamento dinástico de famílias europeias? Era ele uma parte da Europa para além dos constrangimentos espaciais impostos pelos Urais, pelo Mediterrâneo e pelo Atlântico? É possível que sim.

As fronteiras da Europa não são rígidas. São definidas de acordo com a conveniência de cada período e de acordo com a definição de civilização de cada tempo. Assim, a Rússia é europeia na sua porção ocidental, assim como a Turquia no seu Noroeste, a Trácia Oriental, da mesma forma que os reinos mulçumanos do sul ibérico até 1492 não eram Europa por serem mulçumanos. Nessa movimentação de fronteiras, Santo Agostinho, apesar de ter nascido e vivido a maior parte de sua vida cristã no que hoje é a Argélia, então parte do espaço cristão do Mediterrâneo, é considerado um pensador europeu, em muitas medidas, essencial para o pensamento europeu. A Europa, então, era definida como cristianismo, e suas fronteiras estendiam-se até onde ia a fé de Roma. Não é mero acaso que a primeira tentativa de unificação europeia após o Império Romano sob uma mesma bandeira política tenha sido um Império que estabelece uma só fé, mas duas referências geográficas, o Sacro Império Romano Germânico, estrutura política que sobreviveu até o século XIX.

Mesmo que vagas e pouco definidas, as fronteiras da Europa são importantes para se pensar a História como tradicionalmente a conhecemos: sucessivos conflitos que redundaram em avanços progressivos da civilização seja pela da Ordem – estabelecida pelo Direito – ou pela Justiça – baseada na religião. Os limites da Europa são os espaços de repulsa da civilização, com a barbárie daqueles que saqueiam Roma e daqueles que são mulçumanos. As fronteiras criadas a partir da Europa servem para segregar, motivo pelo qual o Estado surge antes da nação e usa seus esforços para homogeneizar a população que habita suas fronteiras. Dentre esses esforços está o desenvolvimento de grandes disciplinas no século XIX, como a História e a Geografia.

O projeto dos nacionalismos tornou mais complexo o quebra-cabeças europeu. A europeidade, em alguma medida, passou a conviver e interagir com os nacionalismos como aspectos hierarquizadores das relações internacionais: Primeiro o meu país, em seguida os demais países europeus e depois deles os espaços para serem colonizados. Esse processo de segmentação da Europa em países independentes completou um processo de ruptura cujo início pode ser identificado com a perda da hegemonia católica a partir dos movimentos de reforma da Igreja. Então, ainda com a política e a religião imiscuídas, o cristianismo tornou-se o pano de fundo para a interação entre católicos e protestantes. O progressivo fortalecimento das diferentes teologias foi concomitante ao das diferentes fronteiras estatais. A modernização, com a profissionalização e a burocratização dos regimes políticos marcou um processo que levou às duas Guerras Mundiais em 1914 e 1939. Se a paz de 1918 marcou o final definitivo dos regimes monárquicos europeus, a paz em 1945 retirou da Europa a proeminência política, ainda que a mantivesse como importante tabuleiro para as disputas das grandes potências.

O ano de 1945 é como se Cadmon tivesse estacionado na sua busca por Europa. Não havia busca, não havia projeto. Pela primeira vez, a Europa foi definida exclusivamente como um tabuleiro geopolítico à mercê das Grandes Potências, que pela primeira vez, nessa narrativa europeia, não eram europeus, mas expoentes do liberalismo e do socialismo: duas heranças intelectuais criadas e desenvolvidas no século XIX europeu. A Europa destruída de 1945 foi o primeiro espaço de disputa entre a União Soviética e os EUA.

A ocupação dos países contíguos à fronteira da URSS e os resultados das eleições italianas e francesas de 1946 com resultados expressivos para o campo progressista, mostrou para os EUA que seus aliados na guerra podiam alinhar-se à Moscou ao invés de Washington a partir de então. A reconstrução da Europa pelo Plano Marshal, a partir de 1947, foi a possibilidade do desenvolvimento de um novo projeto europeu: o Estado de bem-estar social. Quase que como uma superação dos nacionalismos que haviam levado aquela porção de terra à beira da autodestruição duas vezes na primeira metade do século XX, esse projeto apresentava o capitalismo apaziguado por um Estado interveniente e responsável por garantir o bem-estar dos seus cidadãos. Foi um projeto de ocasião, ainda que um bom projeto.

O projeto de reconstrução europeu foi longo. Dez anos depois, em 1957, a assinatura do Tratado de Roma, o primeiro passo no processo de integração da Europa, pode ser visto como uma etapa da reconstrução europeia da mesma forma que é um marco do processo de integração europeu. Assim, esse processo inovador é fruto do trauma da II Guerra, ainda que hoje sua estrutura seja bem diferente daquela originalmente pensada. Amadurecida aos poucos e gradativamente institucionalizada, a ideia de uma Europa unida, ainda que não unificada, marcou as últimas décadas da política internacional. As Comunidades Europeias, substitutas da Comunidade Econômica do Carvão e do Aço e antecessoras da União Europeia, atuaram na OMC representando seus afiliados. Posteriormente, com a sucessão de tratados e o desenvolvimento institucional, a EU tornou-se uma burocracia em alguma medida criticada pela sua eficiência e questionada sobre sua efetividade.

De quê serviria esse internacionalismo burocrático que a Europa tornara-se? Serve em grande medida para agir conjuntamente em uma disputa entre gigantes. EUA do outro lado do Atlântico, Rússia na fronteira mais próxima e a emergência de Índia e principalmente da China, estabelecem os limites de uma organização em Estados nacionais limitados na sua projeção de poder bélico ou na sua capacidade política e econômica de influenciar no mundo. Coletivamente, a Europa possui dois assentos no Conselho de Segurança da ONU, duas moedas de convertibilidade global, dois centros financeiros dos mais importantes do mundo, centros de pesquisa e de desenvolvimento de conhecimentos dos mais avançados do mundo em – possivelmente – todas as áreas do saber, um mercado consumidor criterioso e com alto poder aquisitivo e, a cima de tudo, a miragem da livre de circulação de pessoas.

Na verdade a Europa possuía tudo isso. Mas ao que parece, a vaca que Cadmon seguia optou por mudar de rumo e com isso mudou os projetos do continente. A saída do Reino Unido retirou da EU um dos assentos no Conselho de Segurança, uma das moedas de convertibilidade global, a City londrina, Oxford, Cambridge e Londres – para citar apenas três – como centros de desenvolvimento de conhecimento e, sobretudo, rachou o projeto político de universalismo pacífico capaz de articular as particularidades nacionais. A Europa, já em crise pelo distanciamento entre as burocracias supranacionais e as populações dos países, aprofunda sua crise ao perder força como um ator global em diferentes espaços de negociação em momento no qual a imprevisibilidade do novo governo dos EUA torna mais difícil antecipar os acontecimentos em política internacional.

A quebra do projeto de Europa que a saída do Reino Unido indica é um problema grave por afetar o projeto de Estado de bem-estar do pós-guerra. A ruptura com a Europa é um projeto dos partidos mais à direita dos expectros políticos, e sua visão de mundo, dado que segmentadora, passa a restringir direitos e garantias a minorias e a populações identificadas como não-nacionais. Essa ruptura do tecido social afeta o projeto que a Europa representava até então.

Seria importante nesse momento reconstruir a coesão social nos países de forma a garantir debates amplos sobre a aproximação da burocracia europeia com as diferentes populações e o realinhamento das expectativas e dos projetos representados. Mas ao contrário disso, vê-se a expansão do rentismo e de um individualismo liberal que ameaça qualquer senso de coletividade que ultrapasse countrys ou Iates clubs.

Parece que a Europa aprofunda o erro apontado por Rousseau no Discurso sobre a Origem da Desigualdade, em que afirmava: “O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: ‘Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém.” (p. 91, 2001 [1754]) As fronteiras, assim como os limites da propriedade privada, foram fundamentais para a Europa e seus projetos de melhor dos mundos na disputa entre Primeiro e Segundo Mundo durante a Guerra Fria. O equilíbrio que conseguiu manter no capitalismo tutelado pelo Estado e orientado para o desenvolvimento coletivo parece ter chegado ao fim, e é importante que um novo projeto emerja, que Cadmon continue a seguir buscando algo, caso contrário a Europa pode perder seu espaço na história.


A perda de espaço da Europa no cenário internacional poderia representar a emergência de alternativas emancipatórias na política internacional a partir de projetos políticos elaborados e atentos às cosmologias de outras origens da periferia do capitalismo global. Mas não é isso que surge no horizonte. O que aparenta se apresentar com a perda de protagonismo progressista da Europa é a emergência de um protagonismo europeu conservador e que restringe direitos.

Eticamente não se pode aceitar que o projeto desenvolvido pela Europa seja um de exclusão de populações mulçumanas – tal como no tempo da “Reconquista” espanhola, ou uma segmentação em unidades políticas competitivas sem objetivos comuns. Esses projetos contrariam todo o desenvolvimento humanista europeu. Esse é um projeto obtuso que não reconhece a riqueza na pluralidade, como a União Europeia tentou apresentar desde a sua consolidação. Em alguma medida, as dificuldades desse novo projeto universal europeísta consolidar-se como projeto faz com que seja o cristianismo a definir as fronteiras da Europa. E isso também contraria todo o desenvolvimento político e social da própria Europa.

A recente crise dos refugiados e o desafio de como lidar com crises humanitárias, criadas por intervenções em países no Oriente Médio e no Norte da África, deve ser vista como a possibilidade de reinvenção europeia. Um momento de escolha entre as tradições segregacionistas e aquelas universalistas. Ambas com lastros profundos na cultura e na política daquele continente em construção, e ambas com um forte potencial de impacto no resto do mundo.

Torçamos que Cadmon vá pelo melhor caminho.

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*Gustavo Alvim de Góes Bezerra é Doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio). Seus interesses de estudo estão mais direcionados para História Global e das Relações Internacionais e os debates sobre Teoria de Relações Internacionais.

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