‘Era o Hotel Cambridge’: Os refugiados, corpos políticos.

por Paula Cesari*

Breve Sinopse

O longa de Eliane Caffé narra a vida de sem tetos e refugiados que ocupam um edifício, o antigo Hotel Cambridge, abandonado no centro de São Paulo.

Caffé acompanha o cotidiano dos moradores nas dificuldades diárias que vão desde a manutenção do imenso edifício, feita pelos próprios ocupantes; elaboração coletiva das regras de convivência e ocupação, até os encontros e desencontros culturais, entre dramas e risadas, hábitos não compartilhados e línguas não faladas.
Neste encontro com o estrangeiro, os personagens irrigam o prédio com manifestações de arte, que não só inauguram espaços de fala possíveis, como permitem que eles estejam juntos, apesar das origens e caminhos diversos.

Sem deixar de pautar o entorno político das ocupações no cotidiano dos personagens, inclusive no modo como as ocupações são vistas pelos outros, o filme apresenta de maneira vibrante o diálogo entre corpos afetados por um comum, em dois atos: a radical diferença e o desamparo.

Na afirmação do desamparo…

É interessante pensar como o título aponta para a errância das coisas. “Era o Hotel…”, o pretérito aqui anuncia antes a possibilidade de desapropriação presente em todas as coisas que “são”, que se instituem vivas, ou ainda, que se apresentam numa dimensão temporal. O que era um Hotel onde rotinas e afetos específicos de passagem circulavam, agora é outra coisa, a saber, a morada de pessoas que, diferente dos turistas, são na passagem, se afirmam a partir de um não lugar e da transitoriedade.

Caffé apresenta a ocupação não apenas como a tomada de um espaço físico por aqueles que não o possuem. No filme, a ocupação é, especialmente, no espaço e no tempo, a territorialização subjetiva dos personagens.

O resgate do termo proletariado em Marx distinguia sujeitos que, a partir de um lugar de negatividade, encarnaram uma causa política com seus corpos impróprios. Os refugiados do Cambridge também afirmam o lugar de indiscernibilidade na construção de vínculos políticos.

Nos pequenos dramas íntimos de cada personagem, acompanhamos a derivação da falta da propriedade – aquilo que nos pertence, nos predica perante a cultura – para a afirmação do desamparo, ao qual todos estamos, desde sempre, destinados. Numa das falas mais potentes do filme, daquelas que atravessa a tela e o espectador: “Somos todos refugiados”.

As invenções coletivas de enfrentamento e resistência, a partir do desamparo, instituem um lugar comum, do amor comum. Ser refugiado é um predicativo que afirma na desapropriação. Ou seja, neste ser há um sujeito que se emancipa pela dialética do sujeito despossuído. Por isso, ele ocupa e luta. Fora da propriedade de si, há “terra” para todos.

…resta o caminho político da arte.

A arte pode ser um importante dispositivo político para a inauguração dos diálogos inacessíveis. No Hotel, os personagens criam ações de teatro, poesia, concepção e manutenção de um vlog, na tentativa de lidar com o excesso do que lhes falta.

Ainda, em uma cena, acompanhamos uma conversa via skype entre um refugiado e sua amiga. Ela interrompe a conversa e canta uma canção belíssima, num dos pontos altos do filme. Outros personagens vão se aproximando da tela do computador, ouvindo a canção e se emocionando. Embora não “entendam” aquela língua, compartilham com exatidão o afeto que ali passa a circular. Neste momento, e aqui me permito escrever em nome (im)próprio, eu experimentei um instante de pausa, uma pausa cantada que suspendeu a ficção e levantou a tela do cinema. Os espectadores, fora da língua cantada, éramos eu e eles, nós. Ah….a magia do cinema!!
A arte como dispositivo nas entranhas do hotel, e como filme, nos lembra que é preciso praticar uma outra fala política, não aquela do argumento coesivo, do entendimento persuasivo, não aquela da razão acima de tudo, do bom juízo, etc. Nos dois lados da tela o movimento político se faz com e nos corpos afetados.
Ao final daqueles minutos não contados, mas experimentados, as luzes se acenderam e eu saí acompanhada no meu refúgio.

 

Referências

CAFFÉ, E. Era o Hotel Cambridge. Aurora Filmes. Brasil, 2016. Vitrine Filmes, 2017. Digital. 93´.
BERGSON, H. Duração e Simultaneidade. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
SAFATLE, V. A paixão do negativo: Lacan e a dialética. São Paulo: UNESP, 2006.
SAFATLE, V. O circuito dos afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

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*Paula Cesari é psicóloga, mestre em Psicologia Clínica e Cultura pela PUC-Rio e pesquisadora. Integra o Núcleo Trabalho e Contemporaneidade (UFRJ) e o Grupo Trabalho Vivo -Pesquisas em Arte, Trabalho, Ações Coletivas e Políticas, desde 2014, pesquisando os processos de criação no trabalho, na arte e no interstício entre ambos.

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