Didi-Huberman com Lacan ou Sobre possibilidades entre arte e psicanálise hoje

A publicação que se segue surgiu a partir de um pequeno texto de anúncio do curso Arte e Psicanálise, que será ministrado por Flavia Corpas, no MAM de São Paulo. O texto inicial levantava algumas questões interessantes que instigaram nosso convite à Flavia para que desenvolvesse alguns pontos. O que o campo da arte pode ensinar à psicanálise? Como o conceito de sintoma pode nos ajudar nesta interlocução? Este texto não deixa de ser um breve aperitivo do que será trabalhado no curso, no qual as questões aqui expostas serão articuladas.

O curso começa no próximo dia 21/03.
Para mais informações, acesse: http://mam.org.br/curso/arte-e-psicanalise/

_________________

Didi-Huberman com Lacan ou
Sobre possibilidades entre arte e psicanálise hoje

George and Betty Woodman
Francesca Woodman: From Angel series, Rome, 1977

 

Por Flavia Corpas*

Didi-Huberman, leitor de Freud e Lacan, mais também de tantos outros importantes nomes para o campo da arte, publica seu primeiro livro, Invenção da histeria, em 1982. Nele o filósofo e historiador da arte francês aborda, de maneira original, Charcot e sua iconografia fotográfica da Salpêtrière.

Depois que Hubert Damisch, outro filósofo da arte também atravessado pela psicanálise, recusou orientar suas pesquisas sobre Goya, Didi-Huberman passou um tempo desocupado até que se deparou com “algumas fotografias enigmáticas de mulheres de gestos estranhos” (Didi-Huberman, 2015, p. 397). Ainda que, em determinadas imagens, fosse até possível encontrar alguma beleza, tratava-se de uma beleza que não trazia alento, nenhuma elevação, “eram imagens perturbadoras e até dolorosas de olhar” (loc. cit.). Ali estava Didi-Huberman diante das imagens “das” histéricas “de” Charcot.

No instigante posfácio que compõe a versão brasileira deste livro, publicado trinta e poucos anos depois de sua primeira edição, é possível sentir ainda os efeitos que produziram no autor as imagens inventadas, e também por isso furadas, da histeria. Nenhum alento, nenhuma elevação.

Ainda que Didi-Huberman se utilize e se aproxime mais explicitamente dos textos de Freud, é notória sua leitura de Lacan, da qual gostaríamos de tirar algumas consequências: Didi-Huberman, com Lacan, em seu encontro com Freud. E por que não dizer, até mesmo, em um retorno a Freud? É que parece que neste diálogo Didi-Huberman/Lacan podemos ler Freud novamente, de outra forma. Tudo isso pode nos remeter, esta é nossa proposta, ao que Lacan trabalhou no final de seu ensino a respeito da arte, da sublimação e da noção de sinthome.

No Seminário 20, Lacan afirma que “sublime quer dizer o ponto mais elevado do que está embaixo” (1972-1973/1985, p. 23). A partir disso, podemos ler o referido posfácio, trabalho crítico a respeito da sublimação na psicanálise. “Será que a sublimação eleva excessivamente, ou nos reduz ao que há de mais raso nas coisas, ou até a seu subsolo pulsional?” (Didi-Huberman, 2015, p. 400).

Didi-Huberman propõe que a crítica da sublimação implica em não buscar nela a síntese, mas sim trabalhar a partir dos paradoxos, aporias e estranhezas, o que pode reconstruir o próprio objeto da crítica.

Nos parece impossível não propor aqui uma articulação com os desdobramentos que a questão da arte, e também da sublimação, foram assumindo no ensino de Lacan até chegarmos em sua leitura de James Joyce, sobre a qual Jacques-Alain Miller propõe a associação entre o conceito de sublimação e a ideia de escabelo (Miller, 2007, p. 208). Um escabelo é um pequeno banco ou uma escadinha doméstica. Mas Lacan (1975/2003) recorre a ele para abordar a singularidade da obra de Joyce, em sua íntima relação com o uso que o escritor faz do próprio sintoma, aquilo que há de mais singular no sujeito, produzindo assim uma literatura sem precedentes. É importante destacar que a palavra escabelo traz consigo o belo, sob a forma de junção das letras que finalizam a palavra, e a ideia de uma elevação, só que pequena, o que nos remete novamente ao sublime como “o ponto mais elevado do que está embaixo”.

Haveria um corte abrupto entre aquilo que trabalha Lacan no Seminário 7 sobre a sublimação e o Seminário 23, em que ele não usa tal termo, mas no qual introduz o escabelo? Mais do que ver continuidades ou rompimentos absolutos entre os diferentes momentos do ensino de Lacan, é preciso alguma dialética (Miller, 2011, p. 10). Nos parece que o que trabalha Lacan a respeito da arte em seu último ensino propõe uma dobra que nos permite retornar aos textos anteriores para tirar novas consequências.

Outro ponto de encontro entre Didi-Huberman e Lacan pode ser descortinado através da afirmativa do primeiro: sua “via real” para pensar as imagens da arte nunca foi a da sublimação, mas sim a do sintoma (2015, p. 397). Como não ouvir aqui os ecos do que nos diz Lacan em 1975, em uma das conferências que deu nos Estados Unidos. “Explicar a arte pelo inconsciente parece-me o que há de mais suspeito. No entanto é isto que os analistas fazem. Explicar a arte pelo sintoma me parece mais sério” (Lacan, 1975, p. 38).

Se para Didi-Huberman e seu campo, o da arte, problematizar a sublimação cria formas potentes de pensar as imagens, enquanto imagem-furo (Rivera, 2013, p. 151), o que dizer da importância de pensar a sublimação hoje para os psicanalistas? Se a convergência entre sinthoma e escabelo, ou nas palavras de Miller (2014, p. 05), o escabelo-sintoma, diz respeito não somente à arte, mas também ao passe – dispositivo criado por Lacan no qual o analista transmite algo de sua passagem de analisando a analista –, não teremos aqui reformuladas as colocações, tanto de Freud quanto de Lacan, a respeito do que nos ensinam os artistas aos analistas?

Freud que, segundo Lacan (1965/2003, p. 203), ficou de bico calado sobre a sublimação, deixando assim aturdidos os analistas, por outro lado os advertiu quanto ao fato de que a satisfação que a sublimação traz não é ilusória. Como sabemos, trata-se de uma elaboração de Lacan sobre a obra de Marguerite Duras. É nesse mesmo texto que o psicanalista francês afirma que a prática da letra converge com o uso do inconsciente (Lacan, 1965/2003, p.200).

Não poderíamos ler, já nessa frase, algo que nos ajude a abordar a convergência entre sinthoma e escabelo? E assim, acompanhados por Lacan, nos aproximar daquela que foi a sua interrogação sobre a arte no Seminário 23 (1975-1976/2007, p. 23), interrogação que, nos parece, sempre poderá ser relançada: “em que o artifício pode visar expressamente o que se apresenta de início como sintoma? Em que a arte, o artesanato, pode desfazer, se assim posso dizer, o que impõe do sintoma? A saber, a verdade” (loc. cit.).

_________________

Referências bibliográficas

Didi-Huberman, G. (1982). Invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica de Salpêtrière. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.

Lacan, J. (1959-1960). O Seminário 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991. 396 p.

_________. (1965). “Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 198-206.

_________. (1972-73). O Seminário 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 201p.

_________. (1975). Conferencias y charlas en universidades norte-americanas. Inédito.

_________. (1975). “Joyce, o sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 560-566.

_________. (1975-76). O Seminário 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 249p.

Miller, J-A. “Nota passo a passo”. In: LACAN, J. O Seminário 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

_________. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

__________. “O inconsciente e o corpo falante”. Disponível em http://www.congressoamp2016.com/pagina.php?area=8&pagina=44. Acesso em 19 de julho de 2014.

Rivera, T. O avesso do imaginário. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 432p.

*Flavia Corpas é psicanalista e curadora de artes visuais, pesquisadora de Pós doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ e doutora em Psicologia Clínica pela PUC/RJ. É professora no Museu de Arte Moderna de São Paulo, onde leciona no curso Arte e Psicanálise.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: