Destaque da semana | ‘O avesso da biopolítica: uma escrita para o gozo’ de Éric Laurent*

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Inusitadamente, começaria apresentando o livro pelo seu final, quando o autor explicita que o percurso de leitura de O Seminário 23, livro 23, de Lacan, e da conferência de Jacques-Alain Miller, “O inconsciente e o corpo falante”, ensina algo essencial para a formação do analista que “supõe poder escrever o mergulho do corpo nas três dimensões do real, do simbólico e do imaginário; o nó permite isso” (p.221).

Não incorrer no erro de fazer uma resenha do livro é meu propósito, quando se trata, ao contrário, de chamar a atenção do leitor com uma leitura possível, que dê lugar a outras leituras, pois em psicanálise cada leitor adentrará através de seu ponto de vista ou visão.

Mostrar o estatuto do corpo em nossa civilização do gozo serve de orientação para a psicanálise que vamos ilustrar a partir do capítulo “O que faz sintoma para um corpo”, em que Éric Laurent enfatiza “o deslocamento do sintoma freudiano rumo à nova perspectiva do sintoma, aquela do sinthoma {…}” (p.46).

Esse deslocamento permite entender o sintagma criado por Lacan ‘ser sintoma de outro corpo’ contraposto ao sintoma freudiano como metáfora. Vemos, aí, o autor ensinar que, para Lacan, não se trata de tomar o fio da história da psicanálise e, sim, muita vez, de inverter a perspectiva. Freud pôde começar a experiência por essa via, mas na via de Lacan é preciso dar um passo a mais e passar do sintoma que fala ao sintoma que se escreve em silêncio.

Na perspectiva do sinthoma, Laurent aborda três modos de gozo: o sinthoma do falasser, do parlêtre, como acontecimento de corpo, uma emergência de gozo; o sintoma de outro corpo que a mulher encarna, distinguindo o ‘sintoma histérico de mulher’ de uma mulher ‘sintoma de outro corpo’ (p.46).

Esse exemplo é um entre inúmeros outros que encontramos no livro, cuja leitura feita com preciosismo fornece muitas aberturas que cada leitor saberá como se apropriar. Além do que, trata-se de uma edição brasileira à altura do livro original e lançada quase que simultaneamente, mostrando que nem sempre tempo é igual a eficiência, pois a qualidade da tradução e da edição comprovam o resultado que se tem quando somos movidos pela causa analítica que emana de uma boa transmissão, contagiando a todos.

Angelina Harari**
SP, 14 de março de 2017

 

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* Éric Laurent é psicanalista, analista membro da École de la Cause Freudienne  (ECF) e ex-presidente da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), ensina na Seção Clínica do Departamento de psicanálise da Université de Paris VIII.

** Angelina Harari é psicanalista, analista membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), da Associação Mundial de Psicanálise (AMP) e editora da revista Opção Lacaniana

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