Crônica | Sonhos dois

Não guerreava, apenas fechava os olhos, aceitando o sono. E estava em uma sala cheia, e falavam. Olhava para a mesa a frente, depois de algumas filas, e encontrava voz e olhos conhecidos. Calado, um olhar encontrou o outro e ela lembrou do que o havia feito íntimo. Era de uma convivência agora pacífica aquilo tudo, meio esquecido, meio apagado. Havia sido jogada terra em cima do fogo que aquilo consumia. Mas não sabia se antes ou depois daquele dia tinha feito uma visita ao que levara tempo para ser enterrado – pá a pá de terra, e era suor, esforço, o alívio de uma estranha tranquilidade. Em sonho, cavar não era tarefa braçal que consumisse tempo. Então, ali se deu uma escavação de segundos e ali estava o corpo de um pequeno animal. Era como se tivesse concentrado vida e morte algum dia, mas não era rígido, nem era cadáver o bichinho. Alguma coisa de mole e muito frágil, encostado em uma caixinha branca não ousava se mexer e lhe era quase insuportável olhar, como se ali seu coração parasse, e parava. Sabia que algo daquilo a constituía e, para viver, também usava aquela matéria. Mas expô-la assim, abrir a caixa exigia um esforço de vida apenas para perder-se. Ser tocada no ponto que a fazia parente daquela brancura (não só a caixa era branca) era de uma felicidade escondida, de vida pura, e pulsava. E vê-la assim, tão crua e separada e sua, a jogava na beira do insuportável. Não sabia como, fechara a caixa, abrira os olhos e estava na sala, com mais vozes, com um monte de gente chamando, comendo, falando em tons diferentes seu nome e ela atendia, estava ali. Abrira de novo os olhos e eram só cobertas. No quarto, mais nenhum retrato 3×4. Onde mais ela caberia?

Alice C.

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