Crônicas | In-comum

Era alguém comum. Magro, reto, possuindo a habilidade (essa sim, talvez incomum) de nunca esquecer o guarda-chuva por onde passava. As gotas lhe apraziam secretamente, mas a roupa e os cabelos exigiam certo alinho.

A agenda dizia aonde e com quem devia estar: era um metódico quase manso, sem mochila para não amassar ombros, não fazer pender as costas erguidas há tanto tempo.

Pele nem branca nem preta, leves olheiras e um perfume sutil que se asseverava ao longo do dia.

A cabeça ia e vinha feito pêndulo: eu, dinheiro, ligeiramente atrasado, meus filhos, ela, suas pernas, eu, contas, ela, elas, ela, eu e ela, chão, suas pernas, seus pedaços, amanhã, suco, sem açúcar, fecha os olhos. Por hoje é só.

Acordava sempre no susto. De novo é hoje. Ligeira dor no estômago e, de rompante, decidia pelo café acetinado na xícara preferida. Amanhã seria outra coisa, vislumbrava, seria um pote grande de iogurte para espantar a acidez matinal. Mas seu pensamento gastro-brutal lhe arrancava sempre um riso que as crianças não entendiam: a acidez lhe convinha.

Convinha-lhe também, tão bem, um piano enquanto amarrava suas mãos nas dela, enquanto segurava braços e pernas e lhe dava beijos que exigiam um mergulho num fundo que não existia, sem borda pra não se afogar. Enfiava-lhe a mão entre os dentes, era preciso reconstruir rostos, desatar pernas, cada um pro seu lado. Um traço amassado, mas sem roupa, não havia roupa para amassar.

Guarda-chuva em riste, a acidez lhe pediu outro café.

Alice C.

Chuva

©Josef

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