Crônica | Uma fome

A expectativa era uma espécie de fome também. Ouvir o som indiscernível de uma boca rosada e diferente. A menina que sempre fazia isso, sempre era aquilo, mal-vinda e coitada. Por anos que ela não sabia que corriam nas quase mesmas esquinas de seu corpo estranhado. E o corpo também pedia, como ela, pedia o óbvio e o absurdo.

Naquela esquina, num além que ela não desconhecia pelo espaço, mas por cabelos quase brancos que refletiam o sol como nenhum, ela ouviu o que nada dizia. Era como se o nada fizesse, então, barulho. Ela, que só sabia coisas muito pequenas da voz, queria mais. Nem comida, nem dinheiro, nem a cantoria da mãe dispersa, ela queria aquele caldo como a sopa do que não cabe no prato.

Segundos depois da agitação de pedir, de repetir as suas palavras de sempre pra provar mais daquilo, o homem foi embora com uns passos muito largos, pernas compridonas que ela não sabia como cabiam nas calças. Pegou o irmão pelos ombros, se apegou àquela sua tábua pra desdobrar o mistério. “João, e aquele?” Apontava pros cabelos que guardavam luz de sol, pras pernas compridonas e pra voz que não dizia coisa depois de outra, mas montes que nada diziam.

João entendeu a pressa. “Turista, Natinha, se chama turista.” A palavra inaudita mordeu um pedaço daquele caldo. Fome não teve durante duas horas inteiras.

Alice C.

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