Crônica | Um

A certeza que se abriu para mim naquela hora, e que me atingiu como uma tempestade sem refúgio, é que a vida só me era possível pela força do detalhe. Desde o copo de café na mesa, com umas formiguinhas trepidantes a roubar-me o açúcar caído do copo, até a miudeza da mão que diz vem e abre cama, lençóis e pernas tentando me esconder no olhar um segredo que eu sabia sem conteúdo.

A tempestade de uma certeza sem refúgio – dessa, precisamente dessa – me fez recuar. Não sabia mais como viver, tendo vivido assim em todos os meus anos, que eram séculos de pó, séculos de açúcar de formiguinhas trepidantes.

Peguei seu lençol, afastei, queria uma extensão de pele que fizesse a realidade possível de novo, e vi que a moça dormia. Não um sono profundo, que não seria abalado por pouco, mas um que ainda adormece, que ainda luta para tomar o corpo todo.

Me engajando nessa luta que não era minha, avancei em seus pedaços. Peguei cabelos, pelos, rocei nas pernas, mordi os seios, e ela se mexia sem saber que ali estavam três, eu, seu sono e ela. Se acordasse, eu seria novamente seu cavalheiro galante da vez, um que espera, que lhe oferece assuntos como cartas, um que se dispõe a jogar nos baralhos de um encontro qualquer, e gentil, quase sempre tão gentil. Mas, nos olhos fechados dela, eu empunha minha dança-luta, me arriscando a velocidade de um piscar de olhos que me revelaria um estranho qualquer a querer invadir seu corpo sem a cordial gentileza do dia a dia ou a bruteza reservada ao sexo.

Eu queria tomá-la na vertigem do meu desespero de homem agora lúcido sem que fosse para nada. Apertei seus dedos, amassei as bochechas, não ligava mais para sua nudez, eu queria arrancar seu sono desalmado e tão alheio a minha recente lucidez, que lhe era ainda mais alheia. Não podia mais estar sozinho, a cabeça comprimida, a certeza apertando os pensamentos, que eram ainda os mesmos de antes, mas agora sofriam de uma difícil iluminação. A luz era de uma violência de bala, mostrava tudo, focava o que tinha que ficar no escuro. E eu não sabia o nome dela, meu deus, eu não sabia. Arriscaria o preço de um nome qualquer, não havia mais tanta vergonha no cavalheiro gentil. Lúcia! O nome ecoou nos espelhos da casa, e de repente mil Lúcias me olhavam.

Quem é tantas vezes Lúcia?

Alice C.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: