Coluna de cinema

Por Bernardo Oliveira

Esta não será propriamente uma coluna de crítica cinematográfica, mas o bloco de notas, imperfeito e esporádico de um cinéfilo moderado. Não esperem atualidades, nem grandes furos jornalísticos. Não esperem por observações acerca do filme mais comentado do momento, nem sobre o último êxito de bilheteria. Anotações soltas, observações, percepções, conclusões parciais ao sabor da sequência desordenada de experiências cinematográficas, quase sempre, volta e meia, “de quando em vez”…

Por outro lado, pretendo seguir rigorosamente o método enunciado por Nietzsche em seu escrito mais polêmico, Crepúsculo dos Ídolos, e efetivado brilhantemente por grandes mestres da síntese, como Beckett, Bresson, Mario Faustino e, nos dias de hoje, o crítico cinematográfico Inácio Araújo:

“minha ambição é dizer em dez frases o que qualquer outro diz em um livro — o que qualquer outro não diz em um livro…” (Crepúsculo dos ídolos, IX, 51)

Excluindo-se o tom reconhecidamente passional (e bélico) do autor, trata-se, em outras palavras, de buscar a objetividade e a leveza sem abrir mão da profundidade. Escrever o mínimo possível buscando propor uma perspectiva concentrada sobre cada um dos filmes abordados. Ora, se a aparente pretensão da proposta causa alguma espécie de receio, devo lembrá-los que as metas não se destinam somente ao cumprimento, mas também fornecem um horizonte, uma agenda.

Uma última consideração: se a questão da imagem cinematográfica (a luz, o plano, a montagem) persiste a despeito das mutações estéticas e tecnológicas (o vídeo, o digital, o 3D…) — isto é, se o CINEMA persiste — pode-se presumir que sua história e seu presente ainda instigue algo para além da “maior diversão”. Estou atento a este “além”, ainda que, em última instância, devo assumir que é a diversão o alvo de uma cinefilia descompromissada, de uma militância às avessas, de um relaxamento que caracteriza o meu encontro com o cinema — e, ainda assim, aguardo ansiosamente o filme em 3D de Jean-Luc Godard! Em outras palavras, não faço nenhuma distinção entre pensamento e entretenimento, entre arte e diversão. Aos que toparem embarcar comigo, boa leitura.

Ps.: agradeço ao Sávio de Queiroz e a Witold Gombrowicz pelo nome da coluna.

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04 de Agosto, 2012

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L’Apollonide — Os Amores da Casa de Tolerância (L’Apollonide — Souvenirs de la maison close, Bertrand Bonello, França, 2011)

“Tudo no mundo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre o poder.” A célebre frase de Oscar Wilde me alerta para o fato de que L’Apollonide não é (não pode ser) de forma alguma um filme sobre a “prostituição”, muito menos um filme sobre “o sexo”. Sob esses dois pontos de vista, corre-se o risco de interpretá-lo moralmente, como se cada sentimento, cada gesto, cada reação das personagens remetessem a uma lacuna, a uma relação com a dimensão da (má) consciência, sublimando sentimentos de tristeza, culpa, desgraça.

Pois trata-se, antes, de um ensaio sobre o sequestro do corpo e do desejo feminino no contexto de um prostíbulo francês na virada do século XX: a violência estampada no sorriso trágico da “mulher que ri”, a violência científica encarnada pelo médico, os movimentos maquínicos da mulher-boneca, a ressaca do ópio, o ar dolorosamente teatral que pesa sobre o ambiente, a relação entre a craniometria e criminalidade, o contraste com a puerilidade brutal do desejo masculino e até mesmo as piadas (“Putain est un métier de putain…”), das quais elas se riem adoravelmente…

Toda a poesia do filme é extraída das mutações e apropriações deste corpo feminino, exposto à experiência coletiva, ao afeto desesperado, à sedimentação de uma interpessoalidade radical, ao tédio, à opressão e a uma certa “alegria”, que se confunde muitas vezes com a coragem para seguir adiante (a cafetina ri, diante das aspirações da jovem que chega: liberdade?)

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Essential Killing (Jerzy Skolimowski, Polônia, 2010)

Pode-se afirmar que o que há de essencial nos eventuais assassinatos cometidos por Mohammed, o personagem desempenhado por Vincent Gallo neste thriller dirigido por Jerzy Skolimowski, é o fato de que ele os cometeu sob pressão, para garantir sua própria sobrevivência. Mas o que chama a atenção em Essential Killing é que, para contar essa estória, o diretor polonês lançou mão de três filmes.

Primeiro, o polêmico filme de guerra, que se apresenta como crítica aos “campos de concentração” americanos. Após a fuga de Mohammed, inicia-se o filme de perseguição na floresta (como Rambo), porém com um toque cínico depositado sobre a sucessão de acontecimentos estapafúrdios, que parecem emprestados dos desenhos animados: o fugitivo despenca de um desfiladeiro, é preso por uma armadilha para lobos, mordido por um cão, alvejado por uma árvore que é derrubada por um lenhador (madeeeeeiraaa!). Finalizando o filme, o drama existencial, a incomunicabilidade, a acolhida mágica de uma mulher (a encenar o decantado simbolismo da “mãe-natureza), e, enfim, o apego à sobrevivência.

Contudo, entre o segundo e o terceiro filme, um momento sem precedentes: perdido em uma floresta gelada da Polônia, Mohammed percebe a passagem de uma mulher sobre sua bicicleta, carregando um recém-nascido no colo. Faminto, ele rende a mãe e bebe-lhe o leite, enquanto ela se debate, grita e resta desacordada na floresta. Seria este o crime primordial, bárbaro e “essencial”, a que alude o título?

06 de agosto, 2012

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13 Assassinos (Jûsan-nin no shikaku, Takashi Miike, Japão/Reino Unido, 2010)

13 Assassinos não é nem de longe comparável a filmes de samurai como Os Sete Samurais, ou até mesmo Zatoichi, dirigido por Takeshi Kitano em 2003. Mas tambem está anos-luz à frente de bobagens estereotipadas como O Tigre e o dragão e Herói. Porém, vale lembrar que há uma diferença evidente entre o filme de artes marciais e o filme de samurai. O segundo carece de maior densidade no que diz respeito à trama e aos personagens, retomando aquilo que de mais interessante o filme de samurai apreendeu dos faroestes: o drama de um indivíduo que vivencia a ética samurai.

Nos filmes de artes marciais sobra bordoada até mesmo para mulheres e crianças. Mas o que há de mais interessante em 13 Assassinos é o fato de que o diretor não abandona preguiçosamente a questão ética. O diretor reporta boa parte da carnificina que ocupa as mais de duas horas de projeção aos contrangimentos ocasionados pela fricção indesejada entre a satisfação dos desejos e sua correspondente expiação. Não há como deixar de reparar no sorriso orgulhoso do samurai diante da morte, sobretudo a morte em combate.

Em suma, em 13 Assassinos é o próprio samurai, sua força e vulnerabilidade, que se configura como tema. Ele padece por suas escolhas e forma de vida, característica que destaca o filme no panorama de filmes de luta e suas derivações anódinas — como na brutalidade vazia dos filmes de heróis ocidentais como Os Vingadores.

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