Clippings | A linguagem do trauma

Nesse mês, a Revista CULT traz o dossiê A linguagem no trauma, organizado por Gilson Ianini. Escrevem no dossiê, dentre outros, Lucíola Freitas de Macêdo, autora de Primo Levi: a escrita do trauma (Subversos, 2015) e colunista do Blog da Subversos, assim como Antônio Teixeira, também colunista do Blog. Reproduzimos aqui, o texto de abertura do dossiê, originalmente publicado na Revista CULT e em seu site.

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A linguagem do trauma

Perguntei a psicanalistas como entender o ressurgimento da nostalgia da ditadura nas manifestações

 
Juca-Martinsdivulgação

Pelas mãos de Juca Martins, fotógrafo português radicado entre nós, as indagações de um certo desterro humano que pontuou o cotidiano da geração que estava a viver o “período de chumbo”

 

Por Gilson Iannini*

Não é de bom tom começar um texto com uma citaç ão longa. Mas há certas coisas que precisam ser ditas, mesmo fora do tom. O parágrafo que se segue é uma citação. Mas não vou usar aspas, nem recuar o texto. Vou me apropriar dele, como se fosse meu, mesmo não sendo.

Diz-se que os sobreviventes que voltavam – e voltam – dos campos não tinham nada para contar, que quanto mais seu testemunho era autêntico, tantos menos conseguiam comunicar o que haviam vivido. Como se eles mesmos fossem os primeiros a serem assaltados por uma dúvida sobre a realidade do que lhes tinha acontecido – se não teriam, por acaso, trocado um pesadelo por um acontecimento real. Eles sabiam – e sabem – que em Auschwitz ou em Omarska não tinham se tornado mais sábios ou mais profundos, nem melhores, mais humanos ou mais benévolos diante dos confrontos do homem, saíram deles, ao contrário, despidos, esvaziados, desorientados. E não tinham vontade de falar sobre isso. Tomadas as devidas distâncias, essa sensação de suspeita nos confrontos com o próprio testemunho vale, de algum modo, também para nós. Parece que nada, no que vivemos nesses anos, nos autoriza a falar. A suspeita nos confrontos com as suas próprias palavras se produz todas as vezes que a distinção entre o público e o privado perde seu sentido.

Parece que o texto fala da realidade brasileira recente, onde as certezas acerca do que estamos vivendo parecem se dissolver no ar. Mas o trecho acima, extraído do texto “Neste exílio – Diário italiano 1992-94”, foi publicado por Giorgio Agamben como uma espécie de epílogo ao seu livro Meios sem fim e descrevia seu próprio estupor diante da crise italiana, ainda no rescaldo da operação “mãos limpas”. O que nos autoriza a falar, a escrever, a tomar publicamente a palavra?

Atônito com o ressurgimento meio difuso, meio artificial e também meio anacrônico de um sentimento de nostalgia em relação à ditadura civil-militar nos cartazes e nas palavras de ordem de algumas manifestações ocorridas recentemente no Brasil e disseminadas nas redes sociais, decidi perguntar a colegas psicanalistas (em um dos casos, um intelectual marcado pela psicanálise) como entender esse quadro. Minha sensação era de espanto. Quando menino e depois, em minha juventude, sempre me intrigava a seguinte questão: quem eram os apoiadores da brutal ditadura militar brasileira? Naquele tempo, a tese, quase banal, de que uma parcela expressiva da classe média teria apoiado fervorosamente o golpe me parecia meio metafísica. Eu, que nasci em 1969, sempre suspeitei que essa tese fosse verdadeira, mas nunca consegui individualizar, dotar de imagem ou de nome esse ou aquele indivíduo. Para mim, os entusiastas do regime nunca tiveram rosto. Confesso que essa questão era para mim um enigma. O vizinho do primeiro andar, que usa óculos escuros estilo coronel? Aquele tio durão? Os pais daquele colega de turma? A beata da primeira fila na missa de domingo? Tudo me parecia distante e improvável. Como se o meu bairro, o meu círculo de amizades ou a minha família estivessem protegidos desse tipo, que, no entanto, estatisticamente deveria estar mais próximo do que gostaria. Mas eles continuavam, para mim, sem rosto. Como lembra Agamben, “o rosto é o ser irreparavelmente exposto do homem, e, ao mesmo tempo, o seu permanecer oculto nessa abertura”. E continua: “o rosto é o único lugar da comunidade, a única cidade possível. Pois aquilo que, em cada indivíduo singular, abre para o político é a tragicomédia da verdade na qual ele há sempre cai e para a qual deve encontrar uma solução”.

Nas conturbadas eleições do ano passado, esse enigma se desfez por completo para mim. Como se caísse o último véu de ilusão que convenientemente me protegia de uma verdade mais insuportável e mais próxima de mim. De uma hora para outra, os nostálgicos da ditadura mostraram o rosto, fizeram cartazes e gritaram nas ruas, em alto e bom som. Queriam a volta da “ordem”, queriam o verde-e-amarelo contra o vermelho. Não estou discutindo se as razões de uma certa insatisfação com a política atual eram legítimas ou não. Havia e continua havendo muitos motivos de insatisfação, sempre a depender, claro, do lugar de onde se olha. O que me intrigava era o ódio. Era o quantum afetivo que acompanhava as declarações, os proferimentos. Não parecia possível analisar apenas o discurso, os argumentos. Trata-se de outra coisa, de posições afetivas extremamente enraizadas em nossa forma de vida.

Os saudosos da ditadura surgiam com rosto, endereço e voz. E eles estavam muito mais próximos do que gostaríamos de acreditar. Talvez fosse um vizinho, um parente, um colega. É evidente que uma análise desse fato social merece um estudo amplo, que requer o olhar do cientista político, do antropólogo, do teórico da comunicação, entre outros. Mas o que me interessava era outra coisa. Tudo aquilo me parecia um grande retorno do recalcado. Como se o verniz cultural que nos encobre em nosso contato cotidiano de repente se desprendesse, como aquela casquinha de tinta podre que arrancamos com as unhas na parede úmida. Num célebre artigo sobre a guerra, Freud afirma que o conflito desnuda as camadas de cultura que se depositaram nos homens pelo processo civilizatório e “faz vir à tona o homem primitivo em nós”. Algo desse tipo me interessava. A virulência e o ódio que se manifestaram nos discursos e nos gritos eram absolutamente aterradores. E ainda estamos escutando os ecos dessa gritaria, agora sob as vestes pseudojurídicas do “impeachment”, sentença que antecede o crime. Não por acaso, busca-se o crime depois de decidida a sentença, como num conto de Kafka.

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Clínica de tratamento de menores da FEBEM, SP, 1978. Livro Juca Martins, Editora WMF Martins Fontes

Clínica de tratamento de menores da FEBEM, SP, 1978. Livro Juca Martins, Editora WMF Martins Fontes

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Alguma coisa parece ter irrompido no frágil tecido social brasileiro. Como se esse tecido nunca tivesse realmente costurado, apenas alinhavado. Nossas fraturas históricas vieram de repente à tona, sem pudor, de uma forma escancarada, obscena. Aquilo que é traumático na história brasileira – o extermínio dos índios, a escravidão e a ditadura militar – não cessa de produzir efeitos sintomáticos. Foi nesse contexto que me deparei com o testemunho de um psicanalista que havia sido submetido a tortura e que, tantos anos depois, resolveu trazer a lume um fragmento desse testemunho. Foi nesse contexto que decidi organizar um dossiê sobre a clínica do testemunho, ou seja, sobre o que psicanalistas podem dizer desse importante gênero literário que é o testemunho. O primeiro convite foi ao psicanalista mineiro Jorge Pimenta, que consentiu em relatar algo dessa experiência atroz que viveu e que permaneceu privada por tantos anos. Pedi a ele que dissesse algo sobre como a psicanálise o ajudou a encontrar modos de falar sobre isso.

Aos demais colegas, não pedi para escreverem análise de conjuntura e nem que se fizessem de dublês de sociólogos ou de historiadores. O que queria compreender era outra coisa: como falar de um trauma? Qual a linguagem do trauma, isso que, por definição, excede a capacidade que um sujeito tem de simbolizar um acontecimento sem sentido. Outra pergunta se seguiu imediatamente a essa: por que diabos uma sociedade repete a violência traumática que parecia relegada ao passado? Como acontecimentos traumáticos sobrevivem nas hiâncias do tecido social e produzem efeitos tanto tempo depois?

Cinco artigos compõem o dossiê. Quatro foram escritos por psicanalistas com prática clínica, o quinto artigo foi escrito por um filósofo que teve sua trajetória marcada pela psicanálise, tanto teoricamente quanto como analisante.

Antonio Teixeira examina o sem-porquê do trauma no contexto dos campos de extermínio nazistas, a partir de uma leitura de Primo Levi. Como testemunhar a ruptura imotivada do trauma, se o que está em jogo é a própria distância entre o acontecimento real e sua representação discursiva? Em seguida, Lucíola Freitas aborda o romance K., de Bernardo Kucinski. K é testemunha de dois traumas. Num primeiro tempo, ele próprio é um sobrevivente do Holocausto, que emigrou para o Brasil e que, num segundo momento, aqui teve sua filha morta pelo regime militar. O terceiro artigo, do filósofo lacaniano Claudio Oliveira, aborda o caso de Simonal em relação a dois dos maiores traumas sociais brasileiros, a escravidão e a ditadura militar, cujos efeitos, distorcidos, deslocados, ainda se fazem presentes. Simonal aparece ali na situação paradoxal de vítima de um e algoz de outro. O quarto artigo, de Claudia Moreira, aborda a transmissão cultural do trauma, a partir de uma leitura inovadora do livro O homem Moisés e a religião monoteísta, de Sigmund Freud. Finalmente, o testemunho de Jorge Pimenta encerra o dossiê.

 

*Gilson Iannini é psicanalista, doutor em filosofia, professor da UFOP e editor da coleção “Obras incompletas”, de Sigmund Freud (Ed. Autêntica)

 

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 Primo Levi: a escrita do trauma, de Lucíola Freitas de Macêdo está disponível para venda na  Livraria da Travessa e na Blooks.

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