Archive

Outros

Ilustração: Helena Salomão

Por Gustavo Alvim de Góes Bezerra*

O Príncipe, de Maquiavel começa com uma dedicatória do autor para Lourenço de Medici, então mandatário de Florença, uma cidade-estado presa entre disputas que opunham os Estados Pontifícios, o Sagrado Império Romano Germânico e o Reino Francês.

Dessa carta, merecem destaque duas passagens do segundo parágrafo:

 

E, conquanto julgue esta obra indigna de sua presença, ainda assim muito confio em que, por sua humanidade, ela deva ser acolhida, considerando que de minha parte não lhe poderia ser ofertado maior dom que proporcionar-lhe a faculdade de poder, em brevíssimo tempo, entender tudo o que eu, em tantos anos e por tantas aflições e perigos, conheci e entendi. (…) Tampouco pretendo que se considere presunção o fato de que um homem de baixo e ínfimo estado ouse discorrer e ditar regras sobre o governo dos príncipes; isto porque, assim como os desenhistas de paisagem se põem num nível baixo a fim de discernir a natureza dos montes e dos lugares altos, e no topo dos montes para observar as zonas baixas, do mesmo modo, para bem conhecer a natureza dos povos, é preciso ser príncipe, e, para conhecer bem a dos príncipes, é necessário pertencer ao povo. (MAQUIAVEL, 2010: pp. 45-46)

 

Essa passagem diz muito sobre o Renascimento, durante o qual Maquiavel escrevia. Suas referências a técnicas de pintura e sua percepção sobre perspectiva sugerem conhecimento sobre o desenvolvimento de outros campos de conhecimento que estavam encarando profundas transformações.

Ainda que esse conhecimento esteja dado no texto, o que mais chama a atenção é a forma familiar com a qual se dirige ao governante de tão importante cidade. A despeito de dizer que não quer parecer presunçoso, ele, que se reconhece de “ínfimo estado”, dirige-se ao príncipe de forma a ensina-lo em temas de política dizendo que ele – situado abaixo na hierarquia da cidade – tinha muito que ensinar por causa da posição que ocupava na sociedade e pela extensão dos seus estudos. Como reconhece que o presente é “indigna” do destinatário, ele solicita que Lourenço, o Magnífico, encontre na “sua humanidade” o que é preciso para recebê-la.

É surpreendente o quão direto é o contato que estabelece com Lourenço. Em um período no qual a transição entre os estamentos, ou estados, era tão difícil, um burocrata dirigir-se ao governante para dedicar-lhe um livro nos termos de que “a melhor forma de conhecer um príncipe é estar entre o povo” é uma afirmativa forte, que não parece corresponder à percepção tradicional de Maquiavel como um autor que escreve para manter a estrutura política dominante.

Jean-Jacques Chevalier em As Grandes Obras Políticas de Maquiavel aos Nossos Dias, classifica Maquiavel como um dos autores “a serviço do absolutismo” e apresenta a leitura de Jean-Jacques Rousseau de Maquiavel “tão brilhante quanto falsa” (1973, p. 47). Sua crítica refere-se ao Capítulo 6, do Livro 3,  “Da Monarquia”, de O Contrato Social: “Tratando de dar lições aos reis, ele deu grandes aos povos. O “Príncipe”, de Machiavello, é o livro dos republicanos.”1 (2002, p. 86). Afirmação completada com uma nota de rodapé que afirma:

Machiavello era um homem honesto e um excelente cidadão. Aliado porém à casa dos Medicis, era constrangido, na opressão de sua pátria, a disfarçar seu amor à liberdade. Só a escolha de seu execrável herói (César Borgia), manifesta francamente suas intenções secretas. O confronto das máximas do seu livro “O Príncipe” às do seu “Discurso sobre Tito-Lívio” e às de sua “História de Florença”, demonstra que esse profundo político não teve até aqui senão leitores superficiais e corrompidos. A corte de Roma proibiu severamente a leitura desse livro. Acredito-o, pois é a ela que ele pinta com mais clareza.”[2]

 

Com a leitura do capítulo “Da Monarquia”, a carta de Maquiavel para Lourenço assume outra tonalidade, pois ao passo que diz que afirma que busca ensinar como ser um bom príncipe, ele buscava apresentar às populações dos principados as estratégias utilizadas por seus governantes. Com esse conhecimento, eles poderiam rebelar-se contra os governos monárquicos e estabelecer Repúblicas, pois, como o próprio Maquiavel afirma na primeira frase do primeiro capítulo, “Quais os gêneros de principados e por que meios são conquistados”: “Todos os Estados, todos os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens foram e são repúblicas ou principados”. (MAQUIAVEL, 2010, p. 47).

Ler Maquiavel por essa lente crítica é poder desenvolver em cima do suposto conhecimento de Maquiavel sobre pintura renascentista. A tradução do livro d’O Contrato Social aponta nessa mesma direção, ao afirmar que “ele pinta com mais clareza.”[3]. Por meio da técnica emergente, era possível que pintores destacassem as figuras mais importantes nos seus quadros, conferindo-lhes posição de destaque ante as demais. A diferenciação da pintura também ocorria por não ser acessível para todos contratar alguém para pintar um quadro e ser imortalizado.

Esse movimento de diferenciação não é o único no texto. Quando o autor apela à humanidade de Lourenço, ele apela ao Príncipe que a encontre naquilo de mais ordinário, corriqueiro, que possui. Esse apelo é importante quando comparado com o princípio da carta, pois no primeiro parágrafo ele fala sobre a natureza dos presentes que geralmente se oferecem aos príncipes, assim, o apelo à humanidade de Lourenço é o primeiro pedido que faz. Num livro de recomendações, no qual se supõe que haverá recomendações de ordem normativa, a primeira interlocução é um pedido direto para o destinatário.

Apelar à humanidade de Lourenço é interessante também por se tratar de um livro escrito para defender a impossibilidade da moralidade católica enquanto mandatário de um principado. O livro é fundado na tensão entre universalidade da religião e a particularidade da política na cidade, portanto, a tensão entre humanidade e cidadania. Como se trata de um livro de política, não de religião, seu argumento é sobre a prevalência da cidadania sobre a humanidade. Nesse sentido, o pedido de Maquiavel iguala o mandatário aos seus súditos: preso entre o que é particular e o que é universal. Mas, diferente dos seus súditos, enquanto político, não lhe resta muita escolha se não a cidadania, ainda que constrangido pela humanidade. Colocar o Príncipe como cidadão é desmistificar suas decisões: elas podem estar certas ou erradas, podem ser julgadas.

Para ir além da questão sobre a cidadania ou a humanidade de Lourenço, o sentido da frase inteira. Maquiavel afirma que a obra é “indigna de sua presença (…) por sua humanidade, ela deva ser acolhida (…)”. Essa estrutura reforça a leitura de Rousseau sobre o livro como sendo um manifesto, não um manual de política, porque indigna de príncipes, ela pode ser aceita pelos povos, sujeitos a outras regras e parâmetros.

Há uma tensão curiosa entre universalismo e particularidade, as frases resgatadas da carta e o princípio do primeiro capítulo do livro. Isso se dá por causa da sua apresentação de verdades universais – o Príncipe como aquele que melhor conhece o povo; o povo como aquele que melhor conhece o Príncipe; existem apenas duas formas de governo: repúblicas e principados – mas, mesmo nas verdades universais, há espaço para particularidades, pois o príncipe conhece seu povo, o povo conhece seu príncipe, e cada república e principado possui um rol de características próprias.

É nesse emaranhado de movimentos contraditórios que se pode ver o anticatolicismo do livro, pois a universalidade da humanidade não é absoluta. O catolicismo perde o sentido de universalismo que trazia da etimologia da palavra, oriunda do grego. Há muitas fissuras nesse catolicismo, no mínimo tantos quantos são os Estados independentes, e os Estados pontifícios não são mais do que um entre eles. Só de ser um livro sobre política, não sobre teologia, já fica apresentada a falha do universalismo religioso. Ainda que não de outras formas de universalismo.

A universalidade da política – presente tanto no reconhecimento mútuo entre príncipe e povo, quanto nos principados e repúblicas como as únicas formas de governo conhecidas na História – é posta em termos que não favorecem a moralidade católica. Portanto, não é apenas uma declaração a favor de particularidades nos Estados, mas uma que afirma que a universalidade apresentada pela Igreja está errada.

Dessa forma, pedir a Lourenço nos termos da sua humanidade é um movimento duplo: coloca-o como um entre tantos indivíduos da Humanidade, ao mesmo tempo, o reconhece como um líder político: contido pelas mesmas limitações e compelido a agir pelos mesmos estímulos que qualquer outro em posição de governante.

No livro, Maquiavel dialoga com a cosmologia medieval. Hanna Pitkin, quando apresenta a doutrina com a qual ele está engajado afirma: “Mas a lei que os homens deveriam procurar aplicar – que os bons homens procuram aplicar – é eterna, universal, absoluta e em última instância de origem divina. As leis não são feitas, mas encontradas pelos homens.”4 (1999, p.9). De alguma forma, Maquiavel está apresentando a mesma ideia: a lei universal é encontrada pelos homens, mas são as leis da política, não a possibilidade de redenção. A diferença entre ambos universalismos reside no fato de que, se para o catolicismo a observação dos Mandamentos é a resposta para questionamentos existenciais, o universalismo político apresentado por Maquiavel aponta para a necessidade de um esforço contínuo para fazer as escolhas corretas nos momentos corretos com vistas a não ser aniquilado pela fortuna. Nesse sentido, a lei não é feita pelos homens, mas as respostas – sempre contingentes – são sua responsabilidade. Essa é a sabedoria com a qual Maquiavel diz querer presentear Lourenço: a contingência. Esse é o seu argumento ao longo do livro.

Ainda há algo sobre o paralelismo do último parágrafo com aquele da carta de apresentação. A escolha do verbo “saber” para determinar a relação entre soberano e súditos indo nos dois sentidos é uma maneira de estabelecer a lógica de dependência mútua que questiona a hierarquia do período medieval, ao mesmo tempo em que reconhece no povo um poder no sentido da leitura rousseauniana do livro, vendo sua ênfase republicana. Todavia, para conhecer o príncipe deve-se pertencer ao povo, não basta estar entre o povo.

Esse é um movimento curioso porque é contraditório à percepção contingente de política que é caracterizada pela disputa entre fortuna e virtu, pois “pertencer” é um processo duradouro no tempo, sem a particularidade do momento. Mas esse não é um aspecto temporal, é um aspecto político do argumento de Maquiavel. Portanto, um movimento que deve ser visto através da tensão entre cidadania e humanidade. Assim, apenas os cidadãos deveriam estar aptos a conhecer seu príncipe. Nessa diferenciação, Maquiavel identifica o tempo da política como aspecto contingente da política, e o diferencia do tempo eterno do catolicismo medieval.

Tem-se um parágrafo que começa com um apelo à condição humana do príncipe e termina afirmando que o cidadão é o único capaz de conhecer o príncipe ao longo do qual insere a questão temporal moderna. A tensão entre universalismo e particularismo é reduzida à percepção de que o príncipe define suas ações de forma universal, pois submetido às leis universais da política, e que os cidadãos, conhecem-no pelas percepções particulares da realidade contingente do principado.

É um movimento ousado, mas para sintetizar essa análise, a substituição do verbo “conhecer” por “julgar” teria como resultado: o Príncipe age submetido às leis universais da política e é julgado pelo povo à luz do contexto particular da cidadania. Uma verdade universal para todos os principados é a constante leitura contingente da política.

Mas e o que seria das repúblicas que eram a única alternativa política aos principados? Numa leitura rousseaniana, as repúblicas seriam alternativas para os falhos principados. É por isso que não tem nada dito sobre como as repúblicas são mais fortes ou mais fracas, porque elas são o outro constitutivo dos principados, elas são o projeto, e o projeto não pode ser apresentado nem nos seus pontos mais fortes, pois através deles se vê suas fraquezas.

No final das contas, como na perspectiva do pintor, a distinção entre o príncipe e o cidadão não é mais que uma ilusão: ambos são atores políticos constrangidos por escolhas a todo momento e tendo que se conformar com a impossibilidade dos Mandamentos religiosos na vida política enquanto lutam contra a fortuna.

[1] Grafia como no original.

[2] Grafia como no original.

[3] Na versão em francês consultada para deambiguação, o verbo utilizado é depeint.

 

 

Referências bibliográficas

CHEVALIER, Jean-Jacques. As Grandes Obras Políticas: de Maquiavel a nossos dias. (CHRISTINA, Lydia – tradução; SIEGFRIED, André – Prefácio). Rio de Janeiro: Agir, 1973

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. (DIAS, Maurício Santana – tradução; CARDOSO, Fernando Henrique – Prefácio). São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.

PITKIN, Hanna Fenichel. Fortuna is a Woman: gender & politics in the thought of Niccolò Machiavelli. London: University of Chicago Press, 1999.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social: princípios de direito político (MACHADO, Antônio de P. – tradução; BERTAGNOLI, Afonso – estudo crítico). 20ª edição. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

_________________

*Gustavo Alvim de Góes Bezerra é Doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio). Seus interesses de estudo estão mais direcionados para História Global e das Relações Internacionais e os debates sobre Teoria de Relações Internacionais.

por Paula Cesari*

Breve Sinopse

O longa de Eliane Caffé narra a vida de sem tetos e refugiados que ocupam um edifício, o antigo Hotel Cambridge, abandonado no centro de São Paulo.

Caffé acompanha o cotidiano dos moradores nas dificuldades diárias que vão desde a manutenção do imenso edifício, feita pelos próprios ocupantes; elaboração coletiva das regras de convivência e ocupação, até os encontros e desencontros culturais, entre dramas e risadas, hábitos não compartilhados e línguas não faladas.
Neste encontro com o estrangeiro, os personagens irrigam o prédio com manifestações de arte, que não só inauguram espaços de fala possíveis, como permitem que eles estejam juntos, apesar das origens e caminhos diversos.

Sem deixar de pautar o entorno político das ocupações no cotidiano dos personagens, inclusive no modo como as ocupações são vistas pelos outros, o filme apresenta de maneira vibrante o diálogo entre corpos afetados por um comum, em dois atos: a radical diferença e o desamparo.

Na afirmação do desamparo…

É interessante pensar como o título aponta para a errância das coisas. “Era o Hotel…”, o pretérito aqui anuncia antes a possibilidade de desapropriação presente em todas as coisas que “são”, que se instituem vivas, ou ainda, que se apresentam numa dimensão temporal. O que era um Hotel onde rotinas e afetos específicos de passagem circulavam, agora é outra coisa, a saber, a morada de pessoas que, diferente dos turistas, são na passagem, se afirmam a partir de um não lugar e da transitoriedade.

Caffé apresenta a ocupação não apenas como a tomada de um espaço físico por aqueles que não o possuem. No filme, a ocupação é, especialmente, no espaço e no tempo, a territorialização subjetiva dos personagens.

O resgate do termo proletariado em Marx distinguia sujeitos que, a partir de um lugar de negatividade, encarnaram uma causa política com seus corpos impróprios. Os refugiados do Cambridge também afirmam o lugar de indiscernibilidade na construção de vínculos políticos.

Nos pequenos dramas íntimos de cada personagem, acompanhamos a derivação da falta da propriedade – aquilo que nos pertence, nos predica perante a cultura – para a afirmação do desamparo, ao qual todos estamos, desde sempre, destinados. Numa das falas mais potentes do filme, daquelas que atravessa a tela e o espectador: “Somos todos refugiados”.

As invenções coletivas de enfrentamento e resistência, a partir do desamparo, instituem um lugar comum, do amor comum. Ser refugiado é um predicativo que afirma na desapropriação. Ou seja, neste ser há um sujeito que se emancipa pela dialética do sujeito despossuído. Por isso, ele ocupa e luta. Fora da propriedade de si, há “terra” para todos.

…resta o caminho político da arte.

A arte pode ser um importante dispositivo político para a inauguração dos diálogos inacessíveis. No Hotel, os personagens criam ações de teatro, poesia, concepção e manutenção de um vlog, na tentativa de lidar com o excesso do que lhes falta.

Ainda, em uma cena, acompanhamos uma conversa via skype entre um refugiado e sua amiga. Ela interrompe a conversa e canta uma canção belíssima, num dos pontos altos do filme. Outros personagens vão se aproximando da tela do computador, ouvindo a canção e se emocionando. Embora não “entendam” aquela língua, compartilham com exatidão o afeto que ali passa a circular. Neste momento, e aqui me permito escrever em nome (im)próprio, eu experimentei um instante de pausa, uma pausa cantada que suspendeu a ficção e levantou a tela do cinema. Os espectadores, fora da língua cantada, éramos eu e eles, nós. Ah….a magia do cinema!!
A arte como dispositivo nas entranhas do hotel, e como filme, nos lembra que é preciso praticar uma outra fala política, não aquela do argumento coesivo, do entendimento persuasivo, não aquela da razão acima de tudo, do bom juízo, etc. Nos dois lados da tela o movimento político se faz com e nos corpos afetados.
Ao final daqueles minutos não contados, mas experimentados, as luzes se acenderam e eu saí acompanhada no meu refúgio.

 

Referências

CAFFÉ, E. Era o Hotel Cambridge. Aurora Filmes. Brasil, 2016. Vitrine Filmes, 2017. Digital. 93´.
BERGSON, H. Duração e Simultaneidade. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
SAFATLE, V. A paixão do negativo: Lacan e a dialética. São Paulo: UNESP, 2006.
SAFATLE, V. O circuito dos afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

_________________

*Paula Cesari é psicóloga, mestre em Psicologia Clínica e Cultura pela PUC-Rio e pesquisadora. Integra o Núcleo Trabalho e Contemporaneidade (UFRJ) e o Grupo Trabalho Vivo -Pesquisas em Arte, Trabalho, Ações Coletivas e Políticas, desde 2014, pesquisando os processos de criação no trabalho, na arte e no interstício entre ambos.

Fico muito feliz em iniciar minha coluna mensal Infinito Instante no blog da Subversos, pois nada mais inspirador que o diálogo entre disciplinas. Nesse espaço proponho pensarmos a imagem, e seus desdobramentos, através dos olhares de diferentes fotógrafos. Cada mês um novo fotógrafo, novas imagens e novas percepções. A partir da visão pessoal de cada artista diante do mundo, acredito que poderemos nos abrir para inúmeras análises enriquecedoras entre a fotografia e nossa sociedade.

_________________

Hiroshi Sugimoto e uma fotografia das ideias

Por Ioana Mello*

Deixe-me começar logo apresentando nosso primeiro fotógrafo, que também homenageio no nome dessa coluna: o japonês Hiroshi Sugimoto.

|

Auto retrato, 2003.

|

Quando nos deparamos com textos teóricos sobre a fotografia encontramos o clássico esquema foto/referente, ou seja, pensamos a fotografia como o congelamento “eterno” de um momento que existiu mas não existe mais no mundo real: o referente tem a sua existência congelada na foto. São inúmeros os textos que lidam com essa problemática, como A Câmara Clara de Roland Barthes, por exemplo. A fotografia é tida como imóvel: ela fixa o tempo, congela o instante e a memória.

Diferentemente do que costumamos pensar quando falamos de fotografia, para mim a fotografia é um infinito instante, e não um instante fixado. Toda fotografia lida com seu referente, ela não tem como fugir dele, porém ela também resulta de um processo de criação, onde é elaborada, pensada e refletida técnica, cultural e esteticamente.

Hiroshi Sugimoto nasceu em Tóquio em 1948, se formou em economia e filosofia alemã pela Universidade de Tóquio, nos anos 60, e em arte conceitual e Minimal pela Universidade de Pasadena, nos anos 70, e hoje vive entre o Japão e os EUA. Com essa base teórica, ele tende para uma abordagem mais conceitual da natureza da imagem fotográfica. Suas obras problematizam de uma maneira sutil com noções de História, perda, fixação, luz e sombra, real e ilusão, percepção, tempo e memória, ou seja, com a própria linguagem da fotografia.

|

Movie Theater Akron Civic, Ohio, 1980. Foto: Hiroshi Sugimoto.

|

Em uma de suas séries, Theaters, ele deixa o obturador ligado durante toda a projeção de um filme. Temos na foto alguns detalhes das salas de cinema e uma tela branca estouradíssima sempre no meio da composição. Nesse caso, lidamos claramente com a questão do tempo na foto, mas de uma forma abstrata. Em uma imagem são captadas 2 horas de filme. O tempo passa, a vida passa, mas nós vemos apenas uma tela branca, ou seja, nada.

|

Tri City Drive-In, 1993. Foto: Hiroshi Sugimoto.

|

North Atlantic Ocean, Cape Breton Island, 1996. Foto: Hiroshi Sugimoto.

|

Em outra série, Seascapes – tirada com o obturador aberto por mais de 20 minutos dos diversos mares do mundo – o que vemos é quase uma pintura minimalista, um quadrado dividido por uma linha – o horizonte – com a parte de baixo branca – a água – e a parte de cima preta – o ar. De imediato não identificamos o referente da foto e assim ficamos perdidos nessa composição simples, intrigante e perfeita. A montagem da exposição aumenta a abstração, com as linhas dos horizontes posicionadas uma ao lado da outra, saindo para além dos limites da moldura e unindo as fotos através da repetição incansável da composição geométrica yin-yang.

|

Museu Hirshhorn, 2006.

|

Essa falta de referente concreto nos afasta do tempo supostamente cronológico e objetivo e entramos no tempo da fotografia: liberamos nossos sonhos e nossas memórias em um livre ir e vir. Mesmo quando identificamos a água e o ar nesta série, ou a tela branca do cinema na série anterior, não ficamos presos a um referente pesado que acaba por dominar a foto e fazer nossa imaginação se imobilizar naquele instante definido. Pois não há instante definido, há tempo, livre.

|

Lingurian Sea, Saviore, 1982. Foto: Hiroshi Sugimoto.

|

Sugimoto mostra as marcas do tempo; é o tempo deixando seu rastro na própria foto. O tempo é pensado antes de fazer a foto, entre o olhar e o apertar do botão, ao fazer a foto, e mais ainda, ao nos depararmos com a foto pronta.

Sugimoto não fotografa o palpável, o objetivo ou o referencial, ele fotografa ideias. Seja água e ar, telas brancas ou 1001 budas, seu objeto é etéreo, com um certo ar abstracionista, que possibilita à foto uma infinitude, um tempo próprio que mistura passado, presente e futuro. Hiroshi Sugimoto não nos enclausura em um tempo petrificado. Ao olhar o infinito, ele nos libera e nos faz ver o tempo real, um emaranhado de sucessão, continuidade, transformação e criação.

Somos obrigados a contemplar suas imagens, mas não de uma maneira romântica ou idealizada, pois suas fotos são desprovidas de uma tragicidade romântica. Contemplamos uma nova maneira de encararmos o tempo que há tempos não sabemos mais olhar. O tempo aqui não é mais o tempo virtual, mas o próprio tempo, e somos obrigados a lidar com ele.

Nas fotos de Sugimoto, acredito que o instante não seja fixado. O que ele propõe para suas imagens, e de uma certa maneira para a fotografia em si, não é um mundo para ser duplicado, mas para ser construído.

|

Gorilla, 2004. Foto: Hiroshi Sugimoto.

|

 

_________________

*Ioana mello é carioca, formada em Publicidade e Cinema, com mestrado em História da Arte e Estética e Arte Contemporânea e pós graduação em Arte e Filosofia e Mercado de Arte. É sobretudo uma apaixonada por fotografia, trabalhando sempre em torno da imagem, seja em festivais e galerias de fotofrafia, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com ou em sua coluna, Infinito instante, no blog da Subversos

A publicação que se segue surgiu a partir de um pequeno texto de anúncio do curso Arte e Psicanálise, que será ministrado por Flavia Corpas, no MAM de São Paulo. O texto inicial levantava algumas questões interessantes que instigaram nosso convite à Flavia para que desenvolvesse alguns pontos. O que o campo da arte pode ensinar à psicanálise? Como o conceito de sintoma pode nos ajudar nesta interlocução? Este texto não deixa de ser um breve aperitivo do que será trabalhado no curso, no qual as questões aqui expostas serão articuladas.

O curso começa no próximo dia 21/03.
Para mais informações, acesse: http://mam.org.br/curso/arte-e-psicanalise/

_________________

Didi-Huberman com Lacan ou
Sobre possibilidades entre arte e psicanálise hoje

George and Betty Woodman
Francesca Woodman: From Angel series, Rome, 1977

 

Por Flavia Corpas*

Didi-Huberman, leitor de Freud e Lacan, mais também de tantos outros importantes nomes para o campo da arte, publica seu primeiro livro, Invenção da histeria, em 1982. Nele o filósofo e historiador da arte francês aborda, de maneira original, Charcot e sua iconografia fotográfica da Salpêtrière.

Depois que Hubert Damisch, outro filósofo da arte também atravessado pela psicanálise, recusou orientar suas pesquisas sobre Goya, Didi-Huberman passou um tempo desocupado até que se deparou com “algumas fotografias enigmáticas de mulheres de gestos estranhos” (Didi-Huberman, 2015, p. 397). Ainda que, em determinadas imagens, fosse até possível encontrar alguma beleza, tratava-se de uma beleza que não trazia alento, nenhuma elevação, “eram imagens perturbadoras e até dolorosas de olhar” (loc. cit.). Ali estava Didi-Huberman diante das imagens “das” histéricas “de” Charcot.

No instigante posfácio que compõe a versão brasileira deste livro, publicado trinta e poucos anos depois de sua primeira edição, é possível sentir ainda os efeitos que produziram no autor as imagens inventadas, e também por isso furadas, da histeria. Nenhum alento, nenhuma elevação.

Ainda que Didi-Huberman se utilize e se aproxime mais explicitamente dos textos de Freud, é notória sua leitura de Lacan, da qual gostaríamos de tirar algumas consequências: Didi-Huberman, com Lacan, em seu encontro com Freud. E por que não dizer, até mesmo, em um retorno a Freud? É que parece que neste diálogo Didi-Huberman/Lacan podemos ler Freud novamente, de outra forma. Tudo isso pode nos remeter, esta é nossa proposta, ao que Lacan trabalhou no final de seu ensino a respeito da arte, da sublimação e da noção de sinthome.

No Seminário 20, Lacan afirma que “sublime quer dizer o ponto mais elevado do que está embaixo” (1972-1973/1985, p. 23). A partir disso, podemos ler o referido posfácio, trabalho crítico a respeito da sublimação na psicanálise. “Será que a sublimação eleva excessivamente, ou nos reduz ao que há de mais raso nas coisas, ou até a seu subsolo pulsional?” (Didi-Huberman, 2015, p. 400).

Didi-Huberman propõe que a crítica da sublimação implica em não buscar nela a síntese, mas sim trabalhar a partir dos paradoxos, aporias e estranhezas, o que pode reconstruir o próprio objeto da crítica.

Nos parece impossível não propor aqui uma articulação com os desdobramentos que a questão da arte, e também da sublimação, foram assumindo no ensino de Lacan até chegarmos em sua leitura de James Joyce, sobre a qual Jacques-Alain Miller propõe a associação entre o conceito de sublimação e a ideia de escabelo (Miller, 2007, p. 208). Um escabelo é um pequeno banco ou uma escadinha doméstica. Mas Lacan (1975/2003) recorre a ele para abordar a singularidade da obra de Joyce, em sua íntima relação com o uso que o escritor faz do próprio sintoma, aquilo que há de mais singular no sujeito, produzindo assim uma literatura sem precedentes. É importante destacar que a palavra escabelo traz consigo o belo, sob a forma de junção das letras que finalizam a palavra, e a ideia de uma elevação, só que pequena, o que nos remete novamente ao sublime como “o ponto mais elevado do que está embaixo”.

Haveria um corte abrupto entre aquilo que trabalha Lacan no Seminário 7 sobre a sublimação e o Seminário 23, em que ele não usa tal termo, mas no qual introduz o escabelo? Mais do que ver continuidades ou rompimentos absolutos entre os diferentes momentos do ensino de Lacan, é preciso alguma dialética (Miller, 2011, p. 10). Nos parece que o que trabalha Lacan a respeito da arte em seu último ensino propõe uma dobra que nos permite retornar aos textos anteriores para tirar novas consequências.

Outro ponto de encontro entre Didi-Huberman e Lacan pode ser descortinado através da afirmativa do primeiro: sua “via real” para pensar as imagens da arte nunca foi a da sublimação, mas sim a do sintoma (2015, p. 397). Como não ouvir aqui os ecos do que nos diz Lacan em 1975, em uma das conferências que deu nos Estados Unidos. “Explicar a arte pelo inconsciente parece-me o que há de mais suspeito. No entanto é isto que os analistas fazem. Explicar a arte pelo sintoma me parece mais sério” (Lacan, 1975, p. 38).

Se para Didi-Huberman e seu campo, o da arte, problematizar a sublimação cria formas potentes de pensar as imagens, enquanto imagem-furo (Rivera, 2013, p. 151), o que dizer da importância de pensar a sublimação hoje para os psicanalistas? Se a convergência entre sinthoma e escabelo, ou nas palavras de Miller (2014, p. 05), o escabelo-sintoma, diz respeito não somente à arte, mas também ao passe – dispositivo criado por Lacan no qual o analista transmite algo de sua passagem de analisando a analista –, não teremos aqui reformuladas as colocações, tanto de Freud quanto de Lacan, a respeito do que nos ensinam os artistas aos analistas?

Freud que, segundo Lacan (1965/2003, p. 203), ficou de bico calado sobre a sublimação, deixando assim aturdidos os analistas, por outro lado os advertiu quanto ao fato de que a satisfação que a sublimação traz não é ilusória. Como sabemos, trata-se de uma elaboração de Lacan sobre a obra de Marguerite Duras. É nesse mesmo texto que o psicanalista francês afirma que a prática da letra converge com o uso do inconsciente (Lacan, 1965/2003, p.200).

Não poderíamos ler, já nessa frase, algo que nos ajude a abordar a convergência entre sinthoma e escabelo? E assim, acompanhados por Lacan, nos aproximar daquela que foi a sua interrogação sobre a arte no Seminário 23 (1975-1976/2007, p. 23), interrogação que, nos parece, sempre poderá ser relançada: “em que o artifício pode visar expressamente o que se apresenta de início como sintoma? Em que a arte, o artesanato, pode desfazer, se assim posso dizer, o que impõe do sintoma? A saber, a verdade” (loc. cit.).

_________________

Referências bibliográficas

Didi-Huberman, G. (1982). Invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica de Salpêtrière. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.

Lacan, J. (1959-1960). O Seminário 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991. 396 p.

_________. (1965). “Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 198-206.

_________. (1972-73). O Seminário 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 201p.

_________. (1975). Conferencias y charlas en universidades norte-americanas. Inédito.

_________. (1975). “Joyce, o sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 560-566.

_________. (1975-76). O Seminário 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 249p.

Miller, J-A. “Nota passo a passo”. In: LACAN, J. O Seminário 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

_________. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

__________. “O inconsciente e o corpo falante”. Disponível em http://www.congressoamp2016.com/pagina.php?area=8&pagina=44. Acesso em 19 de julho de 2014.

Rivera, T. O avesso do imaginário. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 432p.

*Flavia Corpas é psicanalista e curadora de artes visuais, pesquisadora de Pós doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ e doutora em Psicologia Clínica pela PUC/RJ. É professora no Museu de Arte Moderna de São Paulo, onde leciona no curso Arte e Psicanálise.

 

Compre aqui

“Nas últimas décadas, em face de um mundo conectado em excesso e de uma Saúde Mental reconfigurada por um infindo avaliar, quantificar e medicar, sob o qual se excluem os movimentos subjetivos, os sujeitos se têm recorrentemente atormentado em busca de sua “normalidade”. A eles, dos quais diversos se encontram psiquiatricamente hospitalizados, serve este livro como uma rica contribuição do que a psicanálise, sobretudo após Jacques Lacan, pode fazer para lhes aliviar o sofrimento e favorecer sua inserção no mundo.

Motivado pela experiência de sete anos de Marcelo Veras na direção do secular Hospital Juliano Moreira, em Salvador, A loucura entre nós se forja tanto de sua própria experiência de análise, sua clínica e pesquisa teórica quanto de restos recolhidos entre a regulação burocrática e a urgência subjetiva. Escrito numa linguagem cuja feição cotidiana, no sentido freudiano do termo, empresta dignidade às paixões envolvidas em seu tema, realiza, primeiro, um breve comentário afetivo da Reforma psiquiátrica no Brasil e um cuidadoso estudo da teoria lacaniana das psicoses, em que destaca, sobretudo, suas continuidades e insistências. Em seguida, apresenta casos de pacientes seus acompanhados durante muitos anos, dos quais dois, com longo histórico de internações psiquiátricas, puderam inventar novas formas de lidar com sua condição e transitar livremente pela cidade, sem que fosse preciso retornar a um hospital.

Apesar da porta de entrada do livro, em que somos advertidos de que viver é etcétera…, concluímos sua leitura com a chance de sermos tocados por isto a que uma psicanálise pode levar: um antes e um depois.”

Adquira seu exemplar aqui

_____________________________________________

Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP) e colunista do blog da Subversos

 

 

Por Luiz Guilherme Barbosa e Oficina Literária Ato Zero*

 

Falar é trabalhar para a destruição do dicionário. As palavras, como se existissem, são listadas num dicionário, e ali dormem em estado de dicionário. Quando se deparou com a tortura, durante da ditadura civil-militar, Armando Freitas Filho precisou reescrever os significados do verbete pele, no poema A flor da pele (1975): 12. Fig. sua própria pessoa violentada; seu próprio corpo escancarado: sentir sua pele rasgada pela minha mão de gancho [q.v.]; ofender a pele, foder você. Roland Barthes, em 1980, pensou o dicionário como uma máquina de sonhar que, se usada à revelia de sua função catalográfica, transforma-se numa coleção de navios: cada palavra, a princípio precisamente descrita, convida ao passeio da imaginação pelos sentidos não escritos. Foi Drummond quem, por exemplo, esculpiu um poema passeando pelos sentidos de um verbete: áporo. Cada palavra, um inseto sem saída. Cada uma: aporia. Então o jogo foi responder à convocação do Instituto Antônio Houaiss, através do projeto Todas as Famílias, para redefinir o verbete família. O estranho familiar inscrito no verbete: porque agora o lexicólogo foi convocado, em coro de vozes, público e virtual, a reescrever e dar termo ao termo. No caso da Oficina Ato Zero, o procedimento seguiu a lição barthesiana: para descrever a coisa, para passar da palavra à coisa, ainda são necessárias outras palavras, e isso ao infinito. Por isso cada escritor em oficina escolheu, para definir família, o significado de outro verbete já descrito no dicionário Houaiss, procedimento que batizei de adicionário: no jogo do adicionário, o lance é adicionar verbetes desorganizando os significados do dicionário, trabalhando, assim, contra o dicionário. E para os escritores em oficina, família é, por ora, apesar, conjunto, inquestionável, retorno, vida.

|

Apesar – Mariana Freitas

|

Conjunto – Júlia Moura

|

Inquestionável Alexandre Magalhães

|

Retorno – Luiz Guilherme Barbosa

|

Vida – Gabriela Almeida

 

___________________________________

* A Oficina Literária Ato Zero reúne escritores adolescentes que são alunos do Colégio Pedro II, em seu campus no bairro de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro. Saiba mais aqui: http://subversos.com.br/textos-curvos/

O texto que se segue é um recorte de “Juventude e trauma: a experiência de desenraizamento”, originalmente uma contribuição de Lucíola Freitas de Macêdo ao Colóquio de encerramento da Pesquisa Internacional “Adolescências em tempos de guerra: modos de pensar, modos de operar”. Nesse recorte nossa intenção foi destacar a questão do desenraizamento como uma tendência que atravessa e aproxima contextos que, para um olhar desavisado, podem parecer díspares: a dos meninos do tráfico no Brasil, e a dos os adolescentes aderidos ao jihadismo islâmico. A articulação de Lucíola nos permite vislumbrar de forma nítida a forte presença de mecanismos totalitários no meio do estado democrático.

Paula Legey
Editora do Blog da Subversos

|

refugiados-796x448 copy

 

 

Juventude e trauma: a experiência de desenraizamento [1]

*Por Lucíola Freitas de Macêdo

 
Sempre fugindo, sem saber mais o que fazer, sempre
procurado por todos os lados, não estando mais seguro,
e se me demoro mais, me arrisco a ir parar numa cela [2].

 

1. Carta de adeus

A epígrafe acima é um trecho de escrito deixado por Ibrahim Bakraoui, apontado pelas autoridades belgas como o jovem que realizou o ataque terrorista no aeroporto de Zaventem. Seu irmão Khalid foi o responsável pelo ataque no metrô de Maelbeek. O procurador Frederik Van Leeuw afirmou em entrevista coletiva que o texto do fragmento em epígrafe foi encontrado em um laptop, durante buscas relacionadas aos atentados de Bruxelas. Esse escrito do jovem jihadista, que pôs fim à própria vida no dia 22 de março, não deixa de lembrar o beco sem saídas nos quais se enredam os “meninos do tráfico”[3], habitantes das numerosas favelas brasileiras.

É possível encontrar, entre diferentes situações aparentemente díspares, como por exemplo, a dos jovens jihadistas, aquela dos “meninos do tráfico”, e ainda, a situação do enorme contingente de jovens refugiados que decidem cruzar as fronteiras de seus países na condição da apátridas, rumo à Europa, algum ponto de convergência?
Mais especificamente, quanto ao jihadismo e ao tráfico de drogas, o que favorece, ou mesmo impulsiona, hoje, a entrada massiva de jovens nesse tipo de organização criminosa?

 

2. A experiência de desenraizamento

Minha hipótese é que a chamada experiência de “desenraizamento”, ou bodenlosigkeit, para retomar o termo em sua língua original (ARENDT, 1998; 2007) possa aportar um importante conjunto de reflexões a tais questões. Ainda que “desenraizamento” não seja um conceito psicanalítico, ele permite um fecundo debate com alguns temas cruciais da psicanálise, pois acerta em cheio em questões como a precariedade simbólica, a queda das identificações, as discussões em voga sobre o racismo, a segregação e os novos destinos da pulsão de morte.


Quem enfrentou de modo inequívoco a experiência do “desenraizamento” no âmbito da filosofia contemporânea, tendo inclusive dado a este conceito um lugar de peso no âmbito da filosofia política, foi Hannah Arendt. Em Origens do totalitarismo (1998) publicado em 1951, interrogou as experiências de isolamento e de desenraizamento, sem as quais – postula – não teria sido possível a instauração dos regimes totalitários da primeira metade do século XX (LAFER, 1998, p.347). A conjugação entre isolamento e desenraizamento, responsável por destituir a esfera da vida privada de suas frágeis ramificações sociais destituirá o cidadão, por fim e de um só golpe, de seus engajamentos políticos e de suas relações sociais, o que funcionará como pré-condição para a dominação totalitária.


A destruição dos laços identitários é recompensada pelo estado totalitário e pela ideologia que lhe é subjacente, com uma espécie de “super-identidade”[4], tal como foi notório na Alemanha dos anos vinte e trinta, a propósito da adesão em bloco ao nazismo. O Reich oferecia em troca da adesão irrestrita, uma garantia de laço social, e uma ideologia devolvia a seus adeptos o mundo que havia ruído sob seus pés na década anterior, recuperando o sentido do mundo, ao preço de uma perda simbólica, uma vez que a ideologia totalitária opera uma simplificação e empobrecimento dos recursos e dos usos da linguagem.


Tal cadeia associativa descreve com inusitada precisão, o que parece se reproduzir no contexto dos raros relatos de jovens que uma vez aderidos à jihad, sobreviveram ao terror, e encontram-se em processo de “desradicalização”; elas parecem também, em alguma medida, organizar o laço social dos “meninos do tráfico”, deixando entrever que já não estamos no terreno das referências simbólico-identificatórias.


Nota-se ainda, que em ambos os contextos, há uma propensão a que “super-identidades” encontrem consistência e ancoragem em “fratrias de gozo”. As mutações da ordem simbólica e a diluição do campo do Outro, favorecem a uma proliferação das irmandades (LAIA, 2016, p.49), nas quais grupo, célula ou facção poderão encarnar o corpo do Outro por meio de uma satisfação direta e mortífera das pulsões (MILLER, 2016, p.28): sociedade de massas – isolamento acompanhado de um sentimento de fracasso e/ou exclusão – desenraizamento – cooptação e adesão irrestrita – “super- identidades” – em lugar das ideologias, as “fratrias de gozo” – naturalização da violência. Ou seja, parece que estamos diante de uma cadeia formadas pelos mesmos elos constituintes de um estado totalitário, o que parece indicar que mesmo no seio de sociedades democráticas, diferentes formas de organização totalitária poderão subsistir, sob a forma de microcosmos totalitários.

 


3. Desenraizamento e jihadismo

Em “Le djihadisme, est une révolte générationale et nihiliste”, o estudioso do islã Oliver Roy (2015) aborda o que supõe se constituir como uma das causas do desenraizamento próprio aos jovens da jihad [5], a saber, uma ausência de transmissão. Em sua grande maioria nascidos em países europeus, os jovens jihadistas rompem com seus pais, e mais exatamente com aquilo que seus pais representam em termos de cultura e religião. Antes da conversão, são jovens ocidentalizados, que não se revoltam minimamente contra a ocidentalização, ou seja, compartilham a cultura de sua época e lugar. Quase todos cometeram pequenos delitos e tiveram uma passagem pela polícia. Mas eis que, nos diz Roy, um belo dia, convertem-se a uma facção radical do Islã que rejeita o conceito de cultura. Encontram na jihad um lugar e uma promessa de reconstrução de si, sem o apoio e a referência dos pais ou da cultura ocidental. Eles se radicalizam em torno de um grupo de ‘amigos’ encontrados no bairro, na prisão, ou em algum clube esportivo. Com eles recriam uma ‘família’, uma fraternidade de gozo, em torno da vontade de matar e do fascínio pela própria morte. Tudo isso bastante facilitado pelas redes sociais, amplamente utilizadas na exibição e propagação do terror.


Um relato contundente do processo de radicalização de um jovem belga foi publicado recentemente na revista Piauí (TAUB, 2015, p.48-55). Essa reportagem narra o périplo de Jejoen Bontinck, que aos 18 anos participou de um programa radical de formação de jihadistas, tendo sido, em seguida, cooptado pelo Estado Islâmico. Filho de pai belga e mãe nigeriana, nascido na Nigéria, mas criado em Antuérpia, estudou num prestigiado colégio jesuíta, até que aos 15 anos tropeçou em matemática, teve que mudar de colégio, foi abandonado pela namorada, e nas palavras do pai “caiu num buraco negro” (p.49). Foi uma garota marroquina da nova escola com quem estava saindo quem, aos 16 anos, apresentou-lhe ao islamismo.

 


4. O desenraizamento e o caso dos “meninos do tráfico”


Do lado de cá, o desenraizamento certamente se apresenta com diferentes contornos e nuances. Encontrei em recente texto de Gilson Iannini (2016), uma hipótese que conflui com recente relatório de pesquisa apresentado por ocasião do VIII ENAPOL [6], cujo tema é “A biopolítica e as novas segregações” (MACÊDO, 2015). Iannini aborda nesse artigo, entre outras coisas, o controverso tema da inclusão social pela via da universalização do mercado de consumo nas últimas décadas no Brasil, o que certamente trouxe uma série de benefícios para o país, entre eles, a erradicação da fome e a diminuição da desigualdade social. Entretanto, problematiza as consequências de se identificar o cidadão ao consumidor, e também o risco de se reduzir a cidadania ao acesso aos bens de consumo, apontando, como preço a pagar, o desenraizamento do sujeito em relação à sua classe social, em troca do pertencimento ao mercado global consumidor. Essa é uma questão bastante polêmica, que merece desdobramentos.


Ela nos interessa aqui, na medida em que nos ajuda a pensar um caminho de investigação em relação ao modo de desenraizamento próprio aos jovens brasileiros moradores de vilas e favelas, cooptados pelo tráfico de drogas, disseminadores de uma rede de violência em troca de uma “super- identidade”, funcional apenas no âmbito de determinada rede, célula ou facção criminosa, que parece ter como pilares, justamente, as cadeias de consumo encabeçadas pela adição. Indagamos, ainda, se o desenraizamento do jovem brasileiro, certamente proveniente da interação de uma ampla gama de fatores – incrementados pela precariedade simbólica, pela prevalência dos espaços virtuais de socialização e pelas “fratrias de gozo” – encontraria no fenômeno da homogeneização pela via do consumo (BIGNOTTO, 2012, p.72-74) um de seus pilares de sustentação.

 


5. Desenraizamento, um modo de vida?

Parece-me, ainda, que o fenômeno do desenraizamento seja suficientemente amplo na contemporaneidade, para objetarmos sua circunscrição e seus efeitos unicamente ao serviço da pulsão de morte. A errância do jovem contemporâneo, como uma das expressões de diferentes experiências de desenraizamento, parece não desencadear apenas consequências nefastas, mas também marcar um modo de vida, algo muito próprio da juventude ocidental, cuja imagem mais próxima seria aquela de alguém que almeja viver a vida como estivesse num eterno road movie. Se o clássico road movie, a la Wim Wenders em “Paris, Texas”, atravessado de cabo a rabo por uma narrativa minimalista, mas existente e central, já quase não se faz mais no cinema; vemos hoje, em seu lugar, uma proliferação sem fim de programas de viagens, em séries de todos os tipos e pra todos os gostos e idades, além dos milhares de blogs e vlogs de viajantes amadores e profissionais a viralizarem na web e no youtube. Esse é certamente e por excelência, o road movie contemporâneo: difuso, múltiplo, efêmero e viral, onde não há narrativa nem introspecção. Há apenas a descrição de um trajeto qualquer, movido pelo gosto de perambular de um a outro ponto do globo, com ou sem finalidade, de preferência sem ponto de chegada, o que parece indexar o movimento de toda uma geração, apontando algo que poderíamos nomear como um desenraizamento generalizado.

 

NOTAS

[1]  Contribuição ao Colóquio de encerramento da Pesquisa Internacional “Adolescências em tempos de guerra: modos de pensar, modos de operar” – FAFICH – Núcleo Psilacs (Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo),experiência clínica e investigativa com a adolescência em conflito com a lei, coordenado pela Profa. Andréa Guerra.

[2] Cf. http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2016/03/23/em-carta-suicida-terrorista-belga-reclamava-de-fuga-constante.htm.

[3] Expressão cunhada pelo rapper MVBill, que dá título ao documentário “ Falcão, meninos do tráfico”, realizado entre 1998 e 2006, em parceria com Celso Athayde e o centro de Audiovisual Central única das Favelas, retratando a vida de jovens das favelas brasileiras envolvidos com o tráfico de drogas. A expressão “Falcão” usado nas favelas, que designa aquele cuja tarefa é vigiar a comunidade e informar quando a polícia ou algum grupo inimigo se aproxima.

[4]  Notas de aula do curso “Pensar o totalitarismo: interpretações contemporâneas da barbárie”, proferido por Newton Bignotto no primeiro semestre de 2016, no âmbito do programa de Pós Graduação em Filosofia da UFMG.

[5]  Guerra santa dos mulçumanos. Luta armada contra os infiéis e inimigos do Islã.

[6]  VII Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana. XIX Encontro Internacional do Campo Freudiano. São Paulo, 4,5 e 6 de setembro de 2015.


Referências Bibliográficas:

ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

BIGNOTTO, N. “Homogeneidade e exceção”. In: Curinga. Belo Horizonte: EBP-MG, n.35, 2012, p. 63-74.

IANNINI, G. Vai ter golpe: “o rei está nu! matem a rainha!”. In: Revista Cult. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/03/vai-ter-golpe-o-rei-esta-nu-matem-a-rainha/ . Acesso em: 10/04/2016.

LAFER, C. A política e a condição humana. In: Arendt, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p.347.

LAIA, S. “Jovens daqui e do Estado Islâmico”, Revista Cullt. São Paulo, n.211, abril de 2016, p.48-51.

MACÊDO, L. . A biopolítica e as novas segregações. São Paulo: VII ENAPOL, set 2015. Disponível em: . http://oimperiodasimagens.com.br/pt/faq-items/a-biopolitica-e-as-novas-segregacoes-luciola-freitas-de-macedo/. Acesso em: 10/03/2016.

MILLER, J-A. “Em direção à adolescência”. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, março 2016, p.20-29.

ROY, O. “Le djihadisme, est une révolte générationale et nihiliste”. In: Le Monde, 20/11/2015. Disponível em: http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/11/24/le-djihadisme-une-revolte-generationnelle-et-nihiliste_4815992_3232.html. Acesso em: 10/03/2016.

TAUB, B. O caminho até a jihad.Piauí, dez 2015, p.48-55.

_________________________________

*Lucíola Freitas de Macêdo é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise e autora de 

 

 

Por Marcelo Veras*

 

Uma das maiores formas de violência é negar ao outro o direito ao nome próprio. Trata-se de negar a existência de alguém que passou muitas vezes por anos, décadas, em busca de uma nomeação. Nos campos de concentração, e Primo Levi nos deixou esse legado, a maior opressão era justamente eliminar o nome próprio e reduzir os corpos à números tatuados em seus braços. Faz anos que suporto a violência das ruas. Muito dessa violência vem da abissal distância entre ricos e pobres. Por mais que ela me incomodasse esse fator nunca foi decisivo para que eu deixasse minha terra. A Bahia, como aprendi de um mestre do direito, professor Sobral Pinto, sempre foi dividida entre os que não dormem porque tem fome, e os que não dormem porque tem medo dos que tem fome. Porém, o que me preocupa é a violência de Estado. Quando o Estado deixa de zelar por Todos seus cidadãos e estabelece cidadãos de primeira e de segunda categoria não mais estamos em uma democracia. Suprimir o nome que os Trans, não sem uma luta interna e externa desigual, chegaram a encontrar para justificar sua existência, para mim é uma violência similar à praticada nos campos de concentração. Negar o direito ao nome, sobretudo quando a proposição atende à princípios religiosos, é para mim um assassinato cometido em nome de Deus. O que se busca é a exposição e a vergonha pública, tal como se fazia ao exigir que judeus fossem identificados nas ruas após a promulgação das leis raciais de Nuremberg em 1935. Com Hanna Arendt aprendemos que os maiores crimes podem ser cometidos de um modo absolutamente banal, simples assim. Basta convencer um grupo de pares e simpatizantes que podemos votar uma lei. Aquele que não é capaz de alcançar o sofrimento do outro e trata uma necessidade de nomeação como um simples capricho é, a meu ver, o verdadeiro monstro.

 

*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise

Logo

 

 

Para dar início a essa nova coluna do Blog da Subversos, algumas palavras para situar seu objeto:

Em 2015, a Subversos se articulou à diretoria nacional da Escola Brasileira de Psicanálise para pensar a possibilidade de darmos início a rodas de conversas em torno de alguns temas que vêm ressoando cultural e politicamente (no sentido mais vasto da palavra) em nosso país. Ana Lucia Lutterbach Holck, atual diretora geral da EBP, não apenas acolheu a ideia com entusiasmo, como também a pensou em uma amplitude muito maior do que a que inicialmente havíamos desenhado e logo nos deu lugar no projeto “Ação Dobradiça”, coordenado por Fernanda Otoni-Brisset, do qual eu tenho o enorme prazer de também fazer parte. A ideia inicial tomou a forma de “Conversações”, a serem realizadas nos diferentes estados brasileiros que contam com sedes da EBP.

O Rio de Janeiro foi o primeiro lugar a dar início ao trabalho, ainda no ano passado, organizando três encontros marcantes, com o apoio da Blooks Livraria, que nos ofereceu não apenas o espaço na capital fluminense, como também muita energia. Essa parceria deu tão certo que nos estendemos para a Blooks de São Paulo, onde também aconteceu uma Conversação em 2015. Esses 4 encontros desenharam o início decidido desta invenção em andamento.

Com eles, notamos que, apesar de mudarmos de tema e de convidados a cada vez, uma questão comum atravessou os encontros: a segregação em seus diferentes desenhos contemporâneos. Foram discutidos temas como “maioridade penal e a lógica do encarceramento”, “violência e vergonha”, “novas organizações sociais” e “sexo e gênero”, todos com suas peculiaridades, mas, ao mesmo tempo, cravados nos dilemas segregacionistas de nosso século. Luiz Eduardo Soares, Pablo Capilé, Cid Merlino e Larte, convidados mais do que especiais, apresentaram falas francas e cheia de aberturas, sem se deixar seduzir pelo que não importa. Fernanda Otoni, Romildo do Rêgo Barros, Isabel do R. B. Duarte e Marcus André Vieira foram os colegas psicanalistas membros da EBP/AMP que toparam sustentar e avançar a partir do que ali apareceu.

A partir daí, a ideia está ganhando força entre psicanalistas ligados à EBP/AMP em outros cantos do Brasil: Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina também se lançaram a este trabalho. “Maioridade penal”, “saúde mental”, “medicalização”, “sexo e gênero”… foram discussões que também esquentaram por lá.

Se tudo correr conforme desejamos, essas Conversações vão pipocar em tantos cantos do país, e sobre tantos temas, que não iremos sequer conseguir acompanhar.

No página da “Ação Dobradiça em revista”, cuidadosamente construído por uma dedicada equipe, é possível ter mais notícias sobre o que está rolando. E, a partir de agora, o blog da Subversos também ajudará na divulgação e disseminação deste trabalho, que consideramos tão difícil e valioso. Nos próximos posts será possível acessar por aqui alguns vídeos e comentários sobre como foram os primeiros encontros, já disponíveis no link da “Ação Dobradiça em Revista”.

A próxima “Conversação”, em São Paulo, articulada pela “Diretoria de carteis de intercâmbio da EBP-SP”, já está marcado para o dia 02 de junho. O tema escolhido exige, ao mesmo tempo, muita coragem e muita delicadeza: “O golpe na carne: experiências de jovens na ditadura.”

|

conversações 02-06-2016 (3)

|

Que sigamos assim, com passos decididos, entre a coragem e a delicadeza.

 

Maricia Ciscato,
 na dobradiça – entre a psicanálise e a cidade, entre a edição e a conversação.

 

____________________________________________________________________________

Maricia Ciscato é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e sócia fundadora e editora da Subversos Livraria e Editora

 

csm_presidiarios_muro_impeachment_folhapress_10042016_d04ad7a8bc

Foto originalmente publicada em: http://goo.gl/fjwQB4

 

|

 

Por Gustavo Neves Bezerra*

 

A linha divisória que interessa hoje em política não se estabelece em relação à corrupção, mas à democracia. A linha que divide íntegros de não-íntegros é fictícia e presunçosa, mas a que divide democratas e não-democratas é concreta e se realiza na vida cotidiana.


Ninguém levanta bandeira favorável à corrupção. O que existe é um tratamento tático do tema por ambos os lados da polarização que divide o Brasil, cada qual acreditando estar aliado à parte menos corrupta. Foi por motivos táticos que Aécio e Alckmin foram vaiados na Avenida Paulista: não foi por causa de escândalos novos, mas por conta da temporada de caça ao Lula, que o judiciário e o Ministério Público haviam deixado explícita na semana anterior.

A condução coercitiva decidida por Moro e o estapafúrdio pedido de prisão de Lula pelo MP paulista (em nome da “ordem social”) diminuíram para as massas verde-amarelas os custos políticos da denúncia aos políticos tucanos. A vaia se deu por motivos tão táticos quanto antes havia aplausos àquelas figuras manchadas por dezenas de escândalos. As vaias não foram necessariamente insinceras (podiam ser um tardio alívio de consciência), mas pertenceram ao cálculo das chances de se “acabar com o PT”. É o completo aniquilamento desse partido que, em geral, está em jogo nessas manifestações. A “punição a todos os corruptos” é uma bandeira colateral, que só emergiu depois que o PT pareceu aniquilado.

Alckmin e Aécio se tornaram desnecessários à luta anti-Lula 2018 desde que foi consolidada a instrumentalização política antipetista do poder judiciário. Agora, a denúncia aos tucanos dá uma roupagem isonômica a uma “causa maior” praticamente ganha. Ou seja: se o golpe de Estado já foi executado pelo judiciário e pelo Ministério Público, setores antipetistas não precisam mais lutar na arena eleitoral, como haviam sido “obrigados” até 2014.

Até aquela ocasião, os custos políticos de associação com o tucanato em torno da bandeira da ética eram mantidos artificialmente baixos pelo sistema judiciário. Esse, por dolo ou incompetência, havia tratado dois “mensalões” de formas absolutamente distintas (apenas para citar casos facilmente comparáveis). O problema é que “a era das redes sociais” já diminuía a margem para tal tratamento discricionário.

Foi então que a Lava Jato, atuando como modo camuflado de golpe de Estado, veio resolver o problema político do antipetismo, ao deixar os tucanos para o final da operação e não usar contra eles os grampos e vazamentos seletivos. Ainda que a vontade política (golpista) não defina a Lava e seus efeitos, o gesto extremo de um juiz promovendo vazamentos deliberados de escutas ilegais (obtidas fora de prazo) expõem que a razão política esteve onipresente na operação. Estrago consumado (remediado com um pedido de “desculpas” ao Supremo), a Lava Jato e a Polícia Federal ficaram livres para expor o PSDB, pois praticamente garantiram o impeachment, mesmo tendo falhado até aqui em obter provas que tornem Lula e Dilma réus em quaisquer processos criminais.

A corrupção, como se vê, será minorada pelo fato de que 13 anos de PT na presidência, um partido outsider até então, provocou uma luta fratricida entre os grupos dominantes do Brasil. Ao menos por ora, qualquer um pode cair em desgraça, mesmo próceres da oposição tradicional, essa mesma que foi pioneira no uso dos serviços de Marcos Valério e Alberto Youssef.

O que não se sabe é se a democracia se salvará, até porque a luta contra a corrupção tem sido pretexto para golpeá-la. O que mais preocupa não é o impeachment em si. O próprio golpe judiciário, mais perigoso que o jogo sujo parlamentar, foi conjunturalmente refreado pelo ministro Teori. O problema de fundo é outro.

O que preocupa é a guinada à extrema-direita de pessoas historicamente alheias às questões públicas. Há alguns anos começava a acontecer um fenômeno estranho nas redes sociais: pessoas com formação universitária pregando a cassação do voto de beneficiários do bolsa-família, esse dispositivo nada subversivo e apoiado pelo Banco Mundial. Falar abertamente na cassação de direitos políticos das classes populares era uma prévia apavorante do que temos agora: uma cena pública marcada por um neoconservadorismo raivoso, que ama o Estado, mas odeia os direitos.

Esse neoconservadorismo ama o Estado naquilo que ele tem de mais velho, persecutório e alheio às Constituições: a violência seletiva (daí o desembaraço com que as passeatas em verde-amarelo desfilam repletas de cartazes que pedem intervenção militar). Por outro lado, um neoconservadorismo que odeia a mão esquerda do Estado, que garante as condições mínimas de integração social e convívio cotidiano. Um neoconservadorismo que ataca, por exemplo, o Sistema Único de Saúde não para aprimorá-lo, mas para descapitalizá-lo.

Os governos do PT, ressalte-se, são corresponsáveis pela emergência desse neoconservadorismo. Não só pelo erro de ter participado do condomínio brasileiro das relações espúrias entre o Capital e o Estado, mas também por julgar que as virtudes do governo se dariam no terreno adversário, isto é, da retração da democracia frente aos poderes policias e empresariais. Apostou-se numa crescente mercantilização do campo e das cidades, alicerçada no uso do poder repressivo estatal. Também foi dada prioridade ao consumo individual, em detrimento do consumo de bens coletivos como o saneamento e a saúde pública. Negligenciou-se o fortalecimento dos dispositivos de autogoverno (os conselhos) vinculados a esses bens coletivos. Lastreou-se parte das políticas sociais à financeirização, como nos programas habitacionais e no fomento a matrículas em universidades privadas.

Enfim, o PT, com o seu neoliberalismo de resultados sociais, foi corresponsável pela destruição das esferas participativas (que constituem uma classe trabalhadora orgânica) e pela concomitante ascensão das massas consumistas, endividadas e enfurecidas. O fascismo saiu de casa, do queixume solitário nas filas dos bancos e mercados, para se apresentar em altos brados nos espaços públicos, presenciais e virtuais.

O impeachment não tem a importância de uma “batalha final”, mas pode constituir o atalho para um longo inverno no mundo dos direitos, na medida em que vai reconfigurar definitivamente a correlação de forças em favor desse projeto.

Ulisses Guimarães, um social-democrata genuíno, articulou uma Constituição que tinha “ódio e nojo à ditadura”. Hoje, vemos massas revoltadas se aglutinando em torno do ódio e nojo à Constituição Cidadã. A linha divisória que teremos que escolher não é a da falsa polêmica em torno da corrupção, tampouco das disputas partidárias que cercam o tema. A divisão que importa se dará entre duas visões de mundo. De um lado, a que louva o Estado (policial-judicial) por destruir uma corrupção supostamente pertencente à democracia; de outro, a visão que valoriza a democracia como modo de combater uma corrupção pertencente ao Estado (empresarial-policial-judicial).

 

* Gustavo Neves Bezerra é professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) – UFRJ