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Colunas | ‘Shamisen’ por Lucíola Freitas de Macêdo

O texto que se segue é um recorte de “Juventude e trauma: a experiência de desenraizamento”, originalmente uma contribuição de Lucíola Freitas de Macêdo ao Colóquio de encerramento da Pesquisa Internacional “Adolescências em tempos de guerra: modos de pensar, modos de operar”. Nesse recorte nossa intenção foi destacar a questão do desenraizamento como uma tendência que atravessa e aproxima contextos que, para um olhar desavisado, podem parecer díspares: a dos meninos do tráfico no Brasil, e a dos os adolescentes aderidos ao jihadismo islâmico. A articulação de Lucíola nos permite vislumbrar de forma nítida a forte presença de mecanismos totalitários no meio do estado democrático.

Paula Legey
Editora do Blog da Subversos

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Juventude e trauma: a experiência de desenraizamento [1]

*Por Lucíola Freitas de Macêdo

 
Sempre fugindo, sem saber mais o que fazer, sempre
procurado por todos os lados, não estando mais seguro,
e se me demoro mais, me arrisco a ir parar numa cela [2].

 

1. Carta de adeus

A epígrafe acima é um trecho de escrito deixado por Ibrahim Bakraoui, apontado pelas autoridades belgas como o jovem que realizou o ataque terrorista no aeroporto de Zaventem. Seu irmão Khalid foi o responsável pelo ataque no metrô de Maelbeek. O procurador Frederik Van Leeuw afirmou em entrevista coletiva que o texto do fragmento em epígrafe foi encontrado em um laptop, durante buscas relacionadas aos atentados de Bruxelas. Esse escrito do jovem jihadista, que pôs fim à própria vida no dia 22 de março, não deixa de lembrar o beco sem saídas nos quais se enredam os “meninos do tráfico”[3], habitantes das numerosas favelas brasileiras.

É possível encontrar, entre diferentes situações aparentemente díspares, como por exemplo, a dos jovens jihadistas, aquela dos “meninos do tráfico”, e ainda, a situação do enorme contingente de jovens refugiados que decidem cruzar as fronteiras de seus países na condição da apátridas, rumo à Europa, algum ponto de convergência?
Mais especificamente, quanto ao jihadismo e ao tráfico de drogas, o que favorece, ou mesmo impulsiona, hoje, a entrada massiva de jovens nesse tipo de organização criminosa?

 

2. A experiência de desenraizamento

Minha hipótese é que a chamada experiência de “desenraizamento”, ou bodenlosigkeit, para retomar o termo em sua língua original (ARENDT, 1998; 2007) possa aportar um importante conjunto de reflexões a tais questões. Ainda que “desenraizamento” não seja um conceito psicanalítico, ele permite um fecundo debate com alguns temas cruciais da psicanálise, pois acerta em cheio em questões como a precariedade simbólica, a queda das identificações, as discussões em voga sobre o racismo, a segregação e os novos destinos da pulsão de morte.


Quem enfrentou de modo inequívoco a experiência do “desenraizamento” no âmbito da filosofia contemporânea, tendo inclusive dado a este conceito um lugar de peso no âmbito da filosofia política, foi Hannah Arendt. Em Origens do totalitarismo (1998) publicado em 1951, interrogou as experiências de isolamento e de desenraizamento, sem as quais – postula – não teria sido possível a instauração dos regimes totalitários da primeira metade do século XX (LAFER, 1998, p.347). A conjugação entre isolamento e desenraizamento, responsável por destituir a esfera da vida privada de suas frágeis ramificações sociais destituirá o cidadão, por fim e de um só golpe, de seus engajamentos políticos e de suas relações sociais, o que funcionará como pré-condição para a dominação totalitária.


A destruição dos laços identitários é recompensada pelo estado totalitário e pela ideologia que lhe é subjacente, com uma espécie de “super-identidade”[4], tal como foi notório na Alemanha dos anos vinte e trinta, a propósito da adesão em bloco ao nazismo. O Reich oferecia em troca da adesão irrestrita, uma garantia de laço social, e uma ideologia devolvia a seus adeptos o mundo que havia ruído sob seus pés na década anterior, recuperando o sentido do mundo, ao preço de uma perda simbólica, uma vez que a ideologia totalitária opera uma simplificação e empobrecimento dos recursos e dos usos da linguagem.


Tal cadeia associativa descreve com inusitada precisão, o que parece se reproduzir no contexto dos raros relatos de jovens que uma vez aderidos à jihad, sobreviveram ao terror, e encontram-se em processo de “desradicalização”; elas parecem também, em alguma medida, organizar o laço social dos “meninos do tráfico”, deixando entrever que já não estamos no terreno das referências simbólico-identificatórias.


Nota-se ainda, que em ambos os contextos, há uma propensão a que “super-identidades” encontrem consistência e ancoragem em “fratrias de gozo”. As mutações da ordem simbólica e a diluição do campo do Outro, favorecem a uma proliferação das irmandades (LAIA, 2016, p.49), nas quais grupo, célula ou facção poderão encarnar o corpo do Outro por meio de uma satisfação direta e mortífera das pulsões (MILLER, 2016, p.28): sociedade de massas – isolamento acompanhado de um sentimento de fracasso e/ou exclusão – desenraizamento – cooptação e adesão irrestrita – “super- identidades” – em lugar das ideologias, as “fratrias de gozo” – naturalização da violência. Ou seja, parece que estamos diante de uma cadeia formadas pelos mesmos elos constituintes de um estado totalitário, o que parece indicar que mesmo no seio de sociedades democráticas, diferentes formas de organização totalitária poderão subsistir, sob a forma de microcosmos totalitários.

 


3. Desenraizamento e jihadismo

Em “Le djihadisme, est une révolte générationale et nihiliste”, o estudioso do islã Oliver Roy (2015) aborda o que supõe se constituir como uma das causas do desenraizamento próprio aos jovens da jihad [5], a saber, uma ausência de transmissão. Em sua grande maioria nascidos em países europeus, os jovens jihadistas rompem com seus pais, e mais exatamente com aquilo que seus pais representam em termos de cultura e religião. Antes da conversão, são jovens ocidentalizados, que não se revoltam minimamente contra a ocidentalização, ou seja, compartilham a cultura de sua época e lugar. Quase todos cometeram pequenos delitos e tiveram uma passagem pela polícia. Mas eis que, nos diz Roy, um belo dia, convertem-se a uma facção radical do Islã que rejeita o conceito de cultura. Encontram na jihad um lugar e uma promessa de reconstrução de si, sem o apoio e a referência dos pais ou da cultura ocidental. Eles se radicalizam em torno de um grupo de ‘amigos’ encontrados no bairro, na prisão, ou em algum clube esportivo. Com eles recriam uma ‘família’, uma fraternidade de gozo, em torno da vontade de matar e do fascínio pela própria morte. Tudo isso bastante facilitado pelas redes sociais, amplamente utilizadas na exibição e propagação do terror.


Um relato contundente do processo de radicalização de um jovem belga foi publicado recentemente na revista Piauí (TAUB, 2015, p.48-55). Essa reportagem narra o périplo de Jejoen Bontinck, que aos 18 anos participou de um programa radical de formação de jihadistas, tendo sido, em seguida, cooptado pelo Estado Islâmico. Filho de pai belga e mãe nigeriana, nascido na Nigéria, mas criado em Antuérpia, estudou num prestigiado colégio jesuíta, até que aos 15 anos tropeçou em matemática, teve que mudar de colégio, foi abandonado pela namorada, e nas palavras do pai “caiu num buraco negro” (p.49). Foi uma garota marroquina da nova escola com quem estava saindo quem, aos 16 anos, apresentou-lhe ao islamismo.

 


4. O desenraizamento e o caso dos “meninos do tráfico”


Do lado de cá, o desenraizamento certamente se apresenta com diferentes contornos e nuances. Encontrei em recente texto de Gilson Iannini (2016), uma hipótese que conflui com recente relatório de pesquisa apresentado por ocasião do VIII ENAPOL [6], cujo tema é “A biopolítica e as novas segregações” (MACÊDO, 2015). Iannini aborda nesse artigo, entre outras coisas, o controverso tema da inclusão social pela via da universalização do mercado de consumo nas últimas décadas no Brasil, o que certamente trouxe uma série de benefícios para o país, entre eles, a erradicação da fome e a diminuição da desigualdade social. Entretanto, problematiza as consequências de se identificar o cidadão ao consumidor, e também o risco de se reduzir a cidadania ao acesso aos bens de consumo, apontando, como preço a pagar, o desenraizamento do sujeito em relação à sua classe social, em troca do pertencimento ao mercado global consumidor. Essa é uma questão bastante polêmica, que merece desdobramentos.


Ela nos interessa aqui, na medida em que nos ajuda a pensar um caminho de investigação em relação ao modo de desenraizamento próprio aos jovens brasileiros moradores de vilas e favelas, cooptados pelo tráfico de drogas, disseminadores de uma rede de violência em troca de uma “super- identidade”, funcional apenas no âmbito de determinada rede, célula ou facção criminosa, que parece ter como pilares, justamente, as cadeias de consumo encabeçadas pela adição. Indagamos, ainda, se o desenraizamento do jovem brasileiro, certamente proveniente da interação de uma ampla gama de fatores – incrementados pela precariedade simbólica, pela prevalência dos espaços virtuais de socialização e pelas “fratrias de gozo” – encontraria no fenômeno da homogeneização pela via do consumo (BIGNOTTO, 2012, p.72-74) um de seus pilares de sustentação.

 


5. Desenraizamento, um modo de vida?

Parece-me, ainda, que o fenômeno do desenraizamento seja suficientemente amplo na contemporaneidade, para objetarmos sua circunscrição e seus efeitos unicamente ao serviço da pulsão de morte. A errância do jovem contemporâneo, como uma das expressões de diferentes experiências de desenraizamento, parece não desencadear apenas consequências nefastas, mas também marcar um modo de vida, algo muito próprio da juventude ocidental, cuja imagem mais próxima seria aquela de alguém que almeja viver a vida como estivesse num eterno road movie. Se o clássico road movie, a la Wim Wenders em “Paris, Texas”, atravessado de cabo a rabo por uma narrativa minimalista, mas existente e central, já quase não se faz mais no cinema; vemos hoje, em seu lugar, uma proliferação sem fim de programas de viagens, em séries de todos os tipos e pra todos os gostos e idades, além dos milhares de blogs e vlogs de viajantes amadores e profissionais a viralizarem na web e no youtube. Esse é certamente e por excelência, o road movie contemporâneo: difuso, múltiplo, efêmero e viral, onde não há narrativa nem introspecção. Há apenas a descrição de um trajeto qualquer, movido pelo gosto de perambular de um a outro ponto do globo, com ou sem finalidade, de preferência sem ponto de chegada, o que parece indexar o movimento de toda uma geração, apontando algo que poderíamos nomear como um desenraizamento generalizado.

 

NOTAS

[1]  Contribuição ao Colóquio de encerramento da Pesquisa Internacional “Adolescências em tempos de guerra: modos de pensar, modos de operar” – FAFICH – Núcleo Psilacs (Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo),experiência clínica e investigativa com a adolescência em conflito com a lei, coordenado pela Profa. Andréa Guerra.

[2] Cf. http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2016/03/23/em-carta-suicida-terrorista-belga-reclamava-de-fuga-constante.htm.

[3] Expressão cunhada pelo rapper MVBill, que dá título ao documentário “ Falcão, meninos do tráfico”, realizado entre 1998 e 2006, em parceria com Celso Athayde e o centro de Audiovisual Central única das Favelas, retratando a vida de jovens das favelas brasileiras envolvidos com o tráfico de drogas. A expressão “Falcão” usado nas favelas, que designa aquele cuja tarefa é vigiar a comunidade e informar quando a polícia ou algum grupo inimigo se aproxima.

[4]  Notas de aula do curso “Pensar o totalitarismo: interpretações contemporâneas da barbárie”, proferido por Newton Bignotto no primeiro semestre de 2016, no âmbito do programa de Pós Graduação em Filosofia da UFMG.

[5]  Guerra santa dos mulçumanos. Luta armada contra os infiéis e inimigos do Islã.

[6]  VII Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana. XIX Encontro Internacional do Campo Freudiano. São Paulo, 4,5 e 6 de setembro de 2015.


Referências Bibliográficas:

ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

BIGNOTTO, N. “Homogeneidade e exceção”. In: Curinga. Belo Horizonte: EBP-MG, n.35, 2012, p. 63-74.

IANNINI, G. Vai ter golpe: “o rei está nu! matem a rainha!”. In: Revista Cult. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/03/vai-ter-golpe-o-rei-esta-nu-matem-a-rainha/ . Acesso em: 10/04/2016.

LAFER, C. A política e a condição humana. In: Arendt, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p.347.

LAIA, S. “Jovens daqui e do Estado Islâmico”, Revista Cullt. São Paulo, n.211, abril de 2016, p.48-51.

MACÊDO, L. . A biopolítica e as novas segregações. São Paulo: VII ENAPOL, set 2015. Disponível em: . http://oimperiodasimagens.com.br/pt/faq-items/a-biopolitica-e-as-novas-segregacoes-luciola-freitas-de-macedo/. Acesso em: 10/03/2016.

MILLER, J-A. “Em direção à adolescência”. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, março 2016, p.20-29.

ROY, O. “Le djihadisme, est une révolte générationale et nihiliste”. In: Le Monde, 20/11/2015. Disponível em: http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/11/24/le-djihadisme-une-revolte-generationnelle-et-nihiliste_4815992_3232.html. Acesso em: 10/03/2016.

TAUB, B. O caminho até a jihad.Piauí, dez 2015, p.48-55.

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*Lucíola Freitas de Macêdo é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise e autora de 

Por Lucíola Freitas de Macêdo*

 

Antecedentes

Antes de entrar mais diretamente em nosso tema de trabalho desta noite, gostaria de relançar, a partir de nosso próprio campo, alguns pontos cruciais da fala do professor Newton Bignotto a propósito do tema da homogeneidade e da exceção na política. Parece-me especialmente interessante, para a nossa discussão, relançar o modo como Bignotto localiza uma espécie de cisão entre a política clássica, fundada, na lógica fálica, sob os auspícios das diferentes figuras da exceção – encarnadas no mundo grego pela figura do legislador, na Idade Média pela figura do Rei, e na modernidade pelo soberano –, e o traço homogeneizador da cultura contemporânea, o consumo. Digo cultura em vez de política contemporânea porque ele parece defender que a busca da homogeneidade é uma pretensão pré-política, pois apaga a marca da diferença como elemento constituinte do corpo social e da política desde a Antiguidade Clássica até o Estado Moderno, como também, sua figura fundante, a exceção. Não poderíamos, portanto, falar rigorosamente de política quando estamos no reino da homogeneização. Bignotto defende que o imperativo “todos iguais pelo consumo” se sustenta num modo de identificação pré-político, uma vez que resulta na eliminação da diferença como elemento de coesão social. O que estaria no horizonte do homem reduzido ao organismo e à sua condição pré-política, é, não propriamente, o horizonte da política, mas o que Michel Foucault chamou nos anos setenta de biopolítica.

O caminho feito por Bignotto levou-me a retomar um artigo que escrevi há alguns anos – “A biopolítica como política da angústia”[2] – à luz do que temos discutido neste momento de preparação para a nossa Jornada. Nesse texto, retomo a proposição de Miller em suas “Intuições milanesas”, da globalização como figura do não-todo na contemporaneidade, a partir da qual proponho e interrogo o problema da biopolítica como uma figura do não-todo.

Em psicanálise, quando falamos de homogeneização, estamos nos referindo à homogeneização dos modos de gozo, o que não deixa de confluir com a tese de Bignotto, ao localizar o consumo na contemporaneidade [3] como uma das máscaras do totalitarismo e da pretensão de homogeneidade.

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Hoje estreamos uma nova coluna no Blog da Subversos. Trata-se de Shamisen, de Lucíola Macêdo. Psicanalista e poeta, autora do livro de poesias Soante, ela começará a nos fazer ouvir algumas notas de seus pensamentos. Incluídos nelas, silêncios em que vai se revelando, em torno do vazio, o objeto que a poesia e, por vezes, a psicanálise contornam. Shamisen, instrumento de cordas japonês, fará ressoar, então, para nós, o vazio que Lucíola contorna e inscreve com sua delicada e aguçada escrita, feita de verso e de prosa.

Tatiane Grova

Editora da Subversos e do Blog da Subversos

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  CARTOGRAFIAS DE UM LUTO

por Lucíola Freitas de Macêdo*

O filme Elena é um testemunho. Um objeto de arte ao serviço do trabalho de luto onde parecia haver apenas lugar para a melancolia. Havia a melancolia de Elena que nasce na clandestinidade de seus pais: traça-se aí um destino? Havia também a de sua mãe. Parecia uma única é só melancolia, ambas amalgamadas. A clandestinidade parece ter funcionado como causa e condição do amor dos pais. Com o fim desta, dá-se a primeira separação. Elena para de filmar, começa a se distanciar, e depois, escolhe de novo a clandestinidade, vai para Nova York em busca de um sonho: ser atriz. O gozo clandestino parece central no destino que une essas mulheres: o mundo deserto, o desamparo, o desligamento, a solidão.

Sete anos, a pior idade. O suicídio da irmã, a culpa da sobrevivente e a fantasia mortífera da mãe: entrar num carro e se jogar num precipício. E o resto, era só silêncio. Uma razão (ainda que provisória) para viver: fazer a mãe sorrir. Medo de enlouquecer, como Elena. Vinte e um anos. Percebe: que está mais velha que Elena, não morreu nem enlouqueceu: “Você Elena, está dentro de mim… me afogo em você, a minha Ofélia… a dor e o prazer de trazê-la entranhada na carne, a dor no prazer… pouco a pouco as dores viram água… a água e o sonho…”. Ofélias flutuam de dor e prazer. Elena é sua “memória inconsolável, de onde tudo nasce e dança”. Memória que parece não encontrar conforto, mas encontrará um lugar no objeto de arte: Elena, o filme.

A via do sujeito e a do objeto de arte

A via do sujeito:

Petra declara em recente entrevista: “através da arte consegui ressignificar o trauma da perda da minha irmã, elaborando meu luto por esse viés”… “o filme era algo que devia a minha irmã e havia me prometido fazer dez anos antes; é também uma oportunidade de discutir o suicídio de um ponto de vista feminino”… “O filme tem como objetivo tirar minha irmã do mundo dos esquecidos e trazê-la de volta”… “o encontro com os diários de Elena foi como tocar o mundo dos esquecidos. Esse encontro criou uma espécie de crise de identidade, pois em alguns momentos já não sabia mais quem era minha irmã e quem era eu”, o que é notável também no filme. Dos sonhos: “um dia acordei perturbada com um sonho em que Elena e eu nos confundíamos e eu já não sabia quem havia morrido, se ela ou eu, e foi a partir dessa confusão de identidades entre as duas que pensei em iniciar o filme. Mergulhei no filme para cumprir minha promessa, pois sentia que devia isso a Elena”.

O que foi possível ler: Petra parecia assombrada pelo espectro e não exatamente pela memória da irmã, pois para lembrar é preciso ter esquecido. Assombrada pela culpa por não ter sido possível salvar a irmã. Assombrada por uma dívida que atribuíra a si mesma, que se de início parecia impagável, pois se constituía no simples fato de estar viva, parece começar a deixar de assombrá-la no momento em que coloca-lhe um preço: fazer um filme para Elena.

Dá–se um primeiro mergulho: nos diários e imagens filmadas por ela ao longo de sua vida; Petra decide ela mesma se servir desse utensílio que conectava a irmã à vida; com o filme, empresta sua própria voz à irmã, dá-lhe voz, misturando-se com ela. Nesse ponto, há o trato do artista com o objeto de seu luto e com seus objetos a, como matéria incandescente por meio da qual virá a moldar e esculpir um objeto de arte.

Há um primeiro tempo, que é o do trauma, marcado pelo instante de um encontro com o real.

Depois um segundo tempo, no qual o sujeito escolhe o caminho de emprestar sua voz à irmã: é ela quem fala misturada em sua voz, através das suas imagens e de seu corpo.

O caminho do luto por meio da criação e o empréstimo da voz ao objeto de amor, para sempre perdido, assemelha-se, curiosamente, ao caminho trilhado também por Mallarmé, que ao identificar-se com a irmã morta, escreve Heródias, e depois, com a perda da mãe e também a do filho, engendra sua obra ao mesmo tempo em que labuta com seus lutos. Ou ainda, aquele de Primo Levi, autor de Os afogados e os sobreviventes,cuja obra se inscreveu a causa de emprestar sua voz aos submersos, aos milhões de judeus mortos nos Campos de Concentração Nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

No terceiro tempo, um segundo mergulho: não no corpo da irmã, no qual poderia afogar-se de uma vez por todas. O filme, em sua condição de objeto de arte, virá a funcionar como objeto separa’dor. Em seu processo de criação Petra constitui, entoa e modula uma voz própria, de modo que Elena poderá silenciar, passando a não mais ocupar a totalidade de seu ser, de seu corpo, de suas entranhas. Deste momento em diante, passará a habitar sua memória, “como memória inconsolável, de onde tudo nasce e dança”. Onde é possível mergulhar e flutuar. Mergulhar e flutuar.

Algumas considerações sobre o objeto de arte: se o irrepresentável existe

Muito pertinente, me parece, foi a escolha estética de Petra: operar por meio da estética do fragmento e da bricolagem de cenas-sombra, borradas , como as cenas dos sonhos, ou como num mergulho nas imagens da memória inconsolável para descobrir, através deste gesto’processo’experiência, como flutuar.

O filme me trouxe à memória, de imediato, um livro de Jacques Rancière que se chama O destino das imagens, especialmente a passagem na qual interroga, quanto ao objeto de arte, se o irrepresentável existe. Trarei aqui algumas elaborações preciosas de Rancière, pois me parecem muito pertinentes quanto ao que está em jogo no filme que acabamos de assistir, sobretudo no que concerne o objeto de arte e a representação do trauma. Vejamos o que ele nos diz:

O problema apresentado no título não requer uma resposta em termos de sim ou não. Concentra-se antes no se: sob quais condições é possível declarar certos acontecimentos como irrepresentáveis? Tal indagação é motivada por certa intolerância, declarada, do autor, quanto ao uso inflacionado da noção de irrepresentável e de uma constelação de noções vizinhas: o não apresentável, o impensável, o intratável, que acabam por englobar sob um mesmo conceito uma série de fenômenos heterogêneos – a representação do holocausto, o sublime kantiano, a cena primitiva freudiana, o Quadrado branco sobre fundo branco de Malevitch – envolvendo-os com uma aura de terror sagrado.

O horizonte do problema convoca uma indagação mais restrita acerca da representação como regime do pensamento na arte. O que se quer dizer, exatamente, quando se fala que certos acontecimentos, ou situações, são irrepresentáveis pelos meios da arte? Quer dizer que por um lado, é impossível tornar presente o caráter essencial da coisa em questão. Não se pode coloca-la diante dos olhos, nem encontrar para ela um representante que esteja à sua altura. Por outro que algo é irrepresentável pelos meios da arte em virtude da própria natureza desses meios, pois 1) esta se caracteriza por um excesso de presença, o que é por si só uma traição à singularidade do acontecimento; 2) Esse excesso de presença tem por correlato um status de irrealidade que retira da coisa representada seu peso de existência; 3) o jogo do excesso e da falta que lhe é próprio, se tornaria incompatível com a gravidade da experiência que contém. Então se indaga se certas coisas seriam da alçada da arte, já que não podem se acomodar ao excesso de presença, ou à subtração de existência que definiriam, em termos platônicos, seu caráter de simulacro.

Mas eis que é possível enxergar nas narrativas de testemunho, um novo tipo de arte. Se trata menos de narrar o acontecimento que de testemunhar um aconteceu que excede o pensamento, não só por seu excesso próprio, mas porque é próprio do aconteceu exceder o pensamento. Testemunha-se, deste modo, de um desacordo fundamental entre aquilo que nos afeta e aquilo que o nosso pensamento poderá elaborar. É próprio deste novo modo de arte inscrever o rastro desse irrepresentável.

Há objetos que arruínam toda e qualquer relação harmoniosa entre presença e ausência, entre sensível e inteligível, entre mostração e significação, entre agir e padecer, de modo que esse impossível exigirá um novo modo de arte. Ou seja, a impossibilidade de representação é relativa, no campo da arte, ao que está em jogo, ao que estrutura a ordem representativa à qual se endereça. O que se opõe ao regime representativo da arte não é um regime da não representação, mas aquilo que produz uma ruptura, ou a derrocada de determinado regime representativo. Então, de novo a pergunta: em determinado regime de arte o que a ideia de irrepresentável? Pode ser uma falha na regulagem entre o sensível e o inteligível, tal qual a fórmula de Lyotard, mas ao invés dessa falha aniquilar ou implodir a representação, ela poderá, ao contrário, permitir, por exemplo, uma coexistência entre sentido e sem sentido, entre presença e ausência, tal como costumamos encontrar nas obras que se dedicam à representação de fenômenos tidos como irrepresentáveis, a exemplo da literatura produzida ao longo dos últimos anos em torno da experiência dos Campos de Concentração.

A experiência do inumano não conhece intrinsecamente, ou a priori, nem uma impossibilidade absoluta de representação e nem, tampouco, uma língua própria. Não há uma língua própria do testemunho. Nos casos em que um testemunho se propõe a expressar uma experiência do inumano, a ficção estética se contrapõe à ficção representativa. A rigor, seria possível dizer que o irrepresentável repousaria justamente aí, na impossibilidade de uma experiência se expressar em uma língua própria, estável, convencional e convencionada (tal como Levi certa vez afirmou: à língua faltam-lhe palavras para dizer da ofensa). Mas essa coexistência entre próprio e impróprio, excesso e falta, sensível e inteligível, é uma marca mesma do regime da arte.

Tomemos como exemplo o filme Shoa, de Claude Lanzmann, para então fazermos o exercício de pensar o irrepresentável que se faz objeto de arte, também no filme Elena: a cena de hoje é semelhante ao extermínio de ontem pelo mesmo silêncio, a mesma calma do lugar. Tanto hoje, durante a filmagem, como ontem, cada um cumpre a sua tarefa de modo muito simples, sem falar sobre o que faz. Mas essa semelhança revela, ao mesmo tempo, uma dessemelhança radical, a impossibilidade de ajustar a calma de hoje à calma de ontem. A inadequação do lugar deserto à palavra que o preenche confere à semelhança um caráter alucinatório. A impossível adequação do lugar à palavra e ao próprio corpo da testemunha atinge o cerne da supressão a ser representada. A palavra da testemunha enquadrada pela câmera confirma o inacreditável, a alucinação, a impossibilidade de que as palavras preencham esse lugar vazio, invertendo a lógica das coisas. Desse modo, o real do Holocausto que é filmado, então, é o real de seu desaparecimento, de seu inacreditável, seu caráter lacunar. É isso o que se torna legível: sua fratura, sua lacuna, seu não há. Para Rancière, não haveria, intrinsecamente, uma propriedade do acontecimento que possa vetar de uma vez por todas suas possibilidades de representação, interditando a arte enquanto artifício que se constitua como bordas do real. Não haveria o irrepresentável como propriedade do acontecimento.

Mas é preciso fazer escolhas: pelo presente, contra a tentação de uma narrativa inesgotável, própria à perspectiva histórica; pela materialidade do processo, ao invés da busca pela representação das causas; é preciso deixar o acontecimento em suspenso em relação às causas, pois este é rebelde a qualquer explicação por um princípio de razão suficiente, seja ele ficcional ou documental. Deixar “em suspenso” não se opõe aos meios dos quais a arte poderá dispor: investigar algo que desapareceu, um acontecimento cujos rastros se apagaram, encontrar testemunhas, convidá-las a falar da materialidade do acontecimento sem dissipar seu enigma. Foi isso o que fez Lanzmann e também, a seu modo, Petra.

Colocaram-se a trabalho, movidos por um terror primeiro, por um choque inicial que os transformaram, em um primeiro momento, em reféns de seu Outro. O inconsciente, esse estranho familiar, se fez presente, concreto. Assim, a arte teve a chance de se constituir como testemunha do “acontece”, do que arrebata, do que desampara o pensamento, como inscrição de um choque do significante com o corpo, esse também da ordem de um acontecimento. O disse Petra, para Elena: “me afogo em você”.


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Oféia Elena

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* Lucíola Freitas de Macêdo é Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, Diretora de Ensino do IPSM-MG, Doutorado em Psicanálise e Estudos da Cultura-UFMG, autora de Soante (poemas, Scriptum 2013) e editora da Coleção Estudos Clínicos (Scriptum)..

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