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Colunas | ‘Submundos’ por Marcelo Veras

Por Marcelo Veras*

 

São muitos os fatores para que estejamos encurralados entre as exigências da própria vida e a velhice de nossos pais. As famílias do passado tinham seis, nove, mesmo doze filhos. Nessas grandes famílias, um virava doutor, um morria atropelado, um dava pra beber; um pouco de tudo se diluía nas expectativas familiares. Tudo muda com o afunilamento das famílias. Hoje, um casal que se arrisque a ter três filhos já é considerado um casal corajoso. Se em 1940 a taxa de fecundidade no Brasil era de 6,16, em 2015 atingimos 1,78. Isso contando com todo o território nacional. Paralelamente, a expectativa de vida que em 1940 era de 45,5 anos, em 2015 passou para 74,68 anos. Ou seja, os números são o retrato de um novo tema, invariável na maioria dos nossos pacientes, a velhice dos pais.

É quase um anagrama: ávida vida. Nossa avidez, contudo, não é de vida, é de juventude. Acontece que envelhecemos e duramos, muito mais do que a razão em nossos cérebros previa. Enquanto o número de filhos encolheu, os pais sobreviveram. Ninguém mais sabe o que fazer com seus velhos pais e avós. A velhice é um pouco de tudo; decadência, fragilidade, debilidade, isolamento, separação, objetalidade. Pensei em como poderia abordar a questão do envelhecimento a partir da última clínica de Lacan.

As separações, a perda da memória, a proximidade da morte, tudo leva a pensar que o que dá consistência ao Eu está prestes a se desenlaçar. Lacan trabalha as questões da vida em um rebatimento dos nós em uma superfície bidimensional, o que nos permite pensar a velhice e a demência senil a partir do Real, do Simbólico e do Imaginário.

Normalmente, não coloco gráficos e matemas em meus textos aqui no Blog, mas hoje achei que valeria a pena. Falarei de modo simplificado, espero. Trago uma imagem de uma conferência de Lacan chamada “A terceira”, que está publicada na revista Opção Lacaniana, número 62.

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E o que essa imagem nos traz? Nossa existência supõe que a carne, a matéria de nossa chegada no mundo, encontra todo um universo familiar simbólico que antecipa o próprio nascimento. Houve quem apostasse no trauma físico. Sem dúvidas, quando chegamos no mundo, células, fibras e neurônios encontram mudanças no ambiente real. O conforto do útero é substituído por um ambiente inóspito. Essa é a teoria de Otto Rank, a existência de um traumatismo no nascimento de origem corporali [1]. Mas não é esse o trauma que importa para Lacan. É do real do corpo e do universo simbólico que lhe antecede que emerge um ser único, consistente e capaz de se identificar no espelho e se dizer “eu”.

O que chama a atenção é que algo funciona como furo de cada um dos registros lacanianos. Temos, de início, o Real. E o que é mistério para o real – nesse gráfico, o real da psicanálise se aproximando bastante do que é o real da ciência, ou seja, o real em seu conjunto de átomos, células e substâncias químicas. O que faz furo, o que é mistério para esse real, é a própria vida, a vida que se forma e que se esvai com o encontro dessas substâncias. A vida fura o real, como na frase que poderia propor desse modo: do pó do real viemos, para o pó do real retornaremos.

Temos, em seguida, o simbólico, terreno em que encontramos as histórias escritas que nos precederam, que anteciparam a emergência nesse pó do real daquilo que chamamos vida, histórias que também escrevemos e que serão lidas por outros. O que faz furo no simbólico, em todas as épocas, em todas as culturas? A morte, sem dúvidas. Por mais que falemos que todos os homens são mortais, por mais que atravessemos milhares de anos de religião, a morte é um furo em nossas palavras. Como dizia Bobbio, a morte é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.

E, por fim, o que faz furo no imaginário? O mistério que escapa ao imaginário é o modo como saímos da fase em que catamos as diversas peças avulsas das imagens que encontramos ao nascer para, daí, formarmos um “eu”, uma unidade, um corpo. Nosso corpo, a percepção de unidade de nosso corpo, aquilo que nos faz singulares, é o mistério do imaginário.

Mas, percebam que há zonas de interseção entre esses três círculos. E o que o envelhecimento tem a ver com isso? Enquanto o sujeito se diz “eu”, ele tenta dar consistência à sua vida. Com a velhice, o corpo nos escapa cada vez mais, ou seja, o imaginário, a todo o momento, aponta à ruidosa separação entre nosso desejo e nosso corpo. Por isso, gosto de dizer que envelhecer é se afastar cada vez mais dos pés.

Por outro lado, com a velhice, aquilo que fazia furo no simbólico, aos poucos vai tomando aspectos de precipício. Um encontro inevitável, cada vez mais próximo. Sem dúvidas, essa proximidade não deixa impactar nas ações de nosso desejo. Trata-se do “duro desejo de durar”, do poeta Paul Éluard.

E o que vai por último? Sem dúvidas é a vida, que, em algum momento, retorna ao pó do real. Com a senilidade, percebemos que o nó da existência ganha novos contornos. O interesse pelo mundo das trocas simbólicas cede lugar para as memórias antigas. Os protagonistas empalidecem, um a um vão perdendo seus nomes e se tornando apenas alguém que sustenta a relação imaginária. Aos poucos, desaparecem os nomes dos netos, das noras, depois dos filhos, toda a tensão entre o corpo e o simbólico parece se atenuar. Por fim, o corpo não se reconhece mais no espelho, mas a vida insiste, ou resiste. Devemos todos estar preparados para essa clínica que é um misto de psicanálise, resgatando o desejo, e terapias cognitivas, resgatando a funcionalidade imaginária. Caso contrário, a medicina prolongará enormemente o real da vida, mas onde estará o sujeito?

 [1] Das Trauma der Geburt und seine Bedeutung für die Psychoanalyse (1924)

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

 

 

Por Marcelo Veras*

 

 

Pouco importa os anos de análise, os textos publicados ou os pacientes na clínica. Ao atravessar a rua, todo analista deve olhar para a esquerda e a direita. Para justificar minha opinião eis o tríptico:

1- Conversando sobre impossíveis e as telecidadanias

Na educação, na política e na psicanálise o impossível está presente, ao menos é essa a proposta freudiana. Nem sempre é fácil identificar, tanto no mundo como nos nossos consultórios, o que é impotência e o que é impossibilidade. Há uma aversão ou recusa do impossível na contemporaneidade. A degradação do impossível à impotência faz com que esse três domínios do impossível sofram suas consequências. Na educação, passa-se do impossível à educar para um ensino que tem como vocação maior a inserção no mercado, sem nenhum compromisso na formação crítica. Na política, passa-se da exigência de formar uma consciência política que acolha a alteridades para sua redução em mera doutrinação a-crítica. Já na psicanálise, somos confrontados a sujeitos com tolerância zero à frustração, submetidos a uma exigência de uma imagem de sucesso, levando cada vez mais a procura de tratamento do sofrimento subjetivo pela lógica do coaching

Nesse caldo azedo, há ainda um inquietante fenômeno moderno, que é a doutrinação pelas mídias atuais. Essa mídias são mais agressivas pois não seduzem apenas pelos escritos, discursos e mecanismos clássicos de identificação na formação de massas. Há, acima de tudo, o componente aditivo que faz com que o sujeito, passivo diante da televisão, assista compulsivamente o noticiário das 8, das 9, das 10, sem se dar conta que o “mesmo ” em questão não vem da notícia, e sim da pulsão. Assim, o noticiário televisivo produz uma estranha massa ao combinar identificação e submissão aos significantes mestres impostos e reiterados com um dispositivo de sublimação da pulsão sexual. Quem sabe um pouco mais de sexo e menos Globonews ou CNN faça bem ao telecidadão

2 – Zadig e o Corridor de la tentation

Há um capítulo intitulado “A dança”, no final de Zadig – de Voltaire – que parece retratar questões muito atuais, aliás o que sempre acontece com Voltaire. 

O rei Nabussan pede ao sábio Zadig que lhe ajude à encontrar um Tesoureiro honesto. O sábio faz uma proposta. E assim, os 64 candidatos devem inicialmente passar sozinhos por uma sala onde se encontram todos os tesouros do rei. E assim todos procederam. O que não sabiam é que em seguida teriam que dançar na frente de todos.

Como assim? Pergunta o Rei, por quê dançar?

Eis que todos começam a dançar horrivelmente, desajeitados, pesados, e só então se percebe que todos estavam com os bolsos repletos de peças de ouro. Apenas um dançou levemente e com altivez, sua roupa de seda estava leve e não possuía ouro algum consigo. Foi difícil resistir ao charme dessa sala que Voltaire chama de Corridor de la Tentation.
Zadig encontra ao final um homem virtuoso para servir ao rei. Quem dançará mais leve em Brasília, haverá alguém que possa dançar nu ao sair do Corridor de la Tentation?

3 – O cidadão analista

Que a psicanálise se inscreve na cidade é um fato consumado. Hoje é possível saber com que ferramentas um psicanalista pode se servir ao dialogar com a psiquiatria, com o discurso jurídico ou mesmo, sentado nas calçadas, com os consumidores de crack. Quando Lacan propõe, em uma nota de pé de página dos Escritos, que a realidade seja tomada como uma fita de moebius, surge o avesso da questão. Como a cidade incide sobre o cidadão analista, aquele que supostamente deve saber que em toda formação social há um gozo insensato que escapa à doutrinação dos ideais. 

Minimamente, o cidadão analista deve se posicionar sem fazer uso da obviedade do discurso moral. O gozo e a violência da pulsão são (a)morais, ou seja, os ideais de uma cidade sem pichações, de uma política sem corrupção, de drogas apenas reguladas pelos lucros da indústria farmacêutica, fazem parte da utopia de uma polis higienizada por um esforço coletivo de sublimação sem restos. 

Como cidadão, por sinal também analista, sou um conversador. Conversar quer dizer também escutar. Com o tempo venho percebendo que há várias maneiras de estancar uma conversa. Uma delas é conduzir a conversa para denominadores comuns, daqueles que aniquilam qualquer diferença entre ácido e básico, esquerda e direita, Voltaire e Rousseau, e por aí vai.

Ultimamente um dos maiores denominadores comuns é “Não tenho partido, tenho um país”, ou “Queremos acabar com a corrupção”. Fico pensando, há alguém que ouse dizer em público, “Quero corrupção” ou “Acabemos o país”? Isso apenas mostra como entre a enunciação e o recalcado há um mundo. 

Como muitos colegas, me bato diariamente contra o lacanês, aquele jargão que cala qualquer interlocução. Assim, quando tento conversar sobre política, percebo que nada é mais hipnótico do que o eixo a-a’ das pequenas diferenças ( quem roubou mais, quem foi mais corruptor…). 

Ora, um programa político é muito mais do que a (má) qualidade dos políticos. Estão em jogo valores essenciais como a qualidade da educação, da saúde, dos direitos humanos, valores que deveriam ir além do banal comércio da corrupção generalizada. Prefiro pensar que um cidadão atravessado pela psicanálise saiba distanciar-se das miragens que apagam diferenças irreconciliáveis em um Brasil tão grande.

Como pensar que meritocracia é apenas dar oportunidades iguais para populações desiguais? Como pensar que caminhamos no bom sentido e ao mesmo tempo vemos a escalada crescente de mortes de jovens, de pretos, de trans, de homos, de mulheres, und so weiter…?

O cidadão analista pode ser aquele que sabe elevar o objeto dejeto de uma cidade à dignidade de um discurso. Fazer falar o que se quer calar, e não fazer coro ao que quer se identificar

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

Por Marcelo Veras*

Ao afirmar que um gozo incomunicável se infiltra em toda comunicação, Lacan reitera sua tese de que não há comunicação sem mal-entendidos, e que o único modo de ultrapassar essa condição estrutural da fala é através da crença de que há um sentido comum. Tal crença é difícil de ser sustentada, naturalmente, uma vez que tudo leva à sua inconsistência. Ou seja, sem o Outro, não nos entendemos. O problema é que a consistência desse Outro é sempre uma estrutura de ficção.

Onde mais percebemos a incomunicabilidade dos corpos é no sexo. Nossas primeiras experiências sexuais não foram programadas pelos códigos do que é certo ou errado. Há, desse modo, sempre um desencontro entre o gozo experimentado no corpo e o tratamento simbólico que vem, como resposta do Outro, tentar esclarecer os mistérios do corpo sexuado. Configura-se, portanto, um núcleo de solidão e incomunicabilidade sexual que se fará presente no escândalo lacaniano da célebre afirmação: “não há relação sexual”. Na teoria lacaniana, que passou por várias etapas, essa frase foi proferida em perfeita coerência com os desenvolvimentos em torno de conceitos como a “lalíngua” e a “apalavra”, neologismos lacanianos dos anos 70.

Essa solidão nos traz um desafio. A definição de humano como categoria universal fixa o sujeito como um ser social, que se humaniza precisamente através da experiência da linguagem e do contato com o Outro. Mas, como diz Lacan, o ser é habitado pela lalíngua, os ruídos que fazemos com o corpo e que são a prova mesmo de que o corpo vivo se distingue da comunicação. Isso provoca imediatamente um complexo giro na relação entre o que pode ser definido como fala e o que pode ser definido como comunicação. É como entendo o neologismo falasser de Lacan: um ser que experimenta, em sua própria essência, a linguagem em seu limite último, exilada de qualquer significação.

A inversão que se produz, a partir dessa concepção de falasser, é que aquilo que faz Um, ou seja, aquilo que dá ao sujeito a certeza de existir, passa a ser vivido como um corpo estranho ao Eu que fala, pois as palavras nunca dão conta daquela primeira experiência de gozo, sempre ficando um resto que não consegue ser alcançado pelas palavras.

Isso aproxima o pensamento lacaniano do Tao chinês, como mostram os versos do velho sábio Lao Tzu:

juntaram-se uma vez ao um:
“O céu ao juntar-se ao um tornou-se luminoso
a terra ao juntar-se ao um tornou-se estável
as forças naturais ao juntarem-se ao um ficaram poderosas
os vales ao juntarem-se ao um tornaram-se plenos
os que governaram, ao juntarem-se ao um,
tornaram-se autênticos chefes sob o céu”

Da perspectiva do falasser, o laço social não é ordenado exclusivamente pelo discurso e pelas trocas da intersubjetividade e inclui, para além da significação das palavras, o modo como estas vibram no corpo como instrumentos de gozo. Não se trata do corpo que serve para trocas imaginárias ou que pode ser falado através de palavras. Trata-se do corpo que funciona como obstáculo ao laço social, no que ele tem de eminentemente incomunicável e que resiste à significação. Todo discurso totalitário tem aversão ao que não faz parte de seus códigos. O que mais incomoda é o modo de gozar do vizinho.

Por isso me causou espanto que o discurso de um deputado de extrema direita seja acolhido com palmas em pleno reduto da sociedade hebraica. Isso mostra uma outra vertente do laço social que não passa pela identificação ao líder ou o apego a determinado discurso do mestre: algo muito mais perturbador entra em jogo aqui. Explico através de um outro exemplo recente. Na semana passada circulou nas redes sociais que um casal vinha sequestrando crianças em uma cidade do sudeste. Bastou a divulgação dessa notícia para que um casal em seu carro, estranho a uma população local, fosse alvo de linchamento e por muito pouco não fosse assassinado. É possível que os primeiros linchadores tivessem ainda em mente a ideia de que teriam encontrado o casal criminoso, mas o movimento que se seguiu, e que pode ser visto na internet, mostra que em instantes uma população ávida de linchamento participava sem saber do que se tratava.

A comunhão do discurso de extrema direita do deputado e parte da sociedade hebraica mostra que, para além dos discursos, uma conjunção heteróclita fez surgir o objeto da segregação. Quanto mais sem sentido, quanto mais estranho aos discursos, mais chances temos de esse objeto ser eliminado, numa vã tentativa de eliminar o gozo perturbador que desde a infância nos habita.

Como afirma o psicanalista Jacques-Alain Miller, ninguém melhor do que o louco para denunciar a ironia de que o laço social, no fundo, é uma escroqueria – já que o Outro que garantiria o laço social não existe – e que todos nós estamos sós no momento em que apostamos na humanização do outro com quem partilhamos o estar no mundo.

Se por um lado a clínica psicanalítica é o avesso dos movimentos de massa, o momento para a aproximação dos dois no mesmo campo de trabalho é dos mais oportunos. Nenhum significante mestre do momento está à altura de pacificar o coletivo sem restos. É preciso, em qualquer discurso, sermos um pouco mais humildes e aceitar que algo será perdido. Podemos estar unidos em nossos ideais, mas sempre solitários em nossas perdas.

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.




Por Marcelo Veras*

Quando pensávamos ter feito grandes avanços na Saúde Mental, as sucessivas mudanças políticas recentes pesaram fortemente fazendo o relógio rodar no sentido anti-horário. Sempre insisto nessa tecla: a Saúde Mental é barrada. Ela é barrada, pois a soma de seus discursos não aponta para a promessa do Um holístico do ser biopsicossocial. Isolados, cada um em seu canto, esses discursos chegam a fazer semblante de promover o enlace do louco em sofrimento com o mundo que o rodeia. Contudo, o real que agora se descortina faz caírem todos os semblantes. Ele emerge quando a cacofonia dos discursos, sobretudo nos hospitais psiquiátricos, faz reverberar o objeto a que lhes escapa. Dizer que a Saúde Mental é barrada é dizer que o espaço do mental não deve ser obturado por nenhum discurso do mestre.

Tenho acompanhado algumas reuniões que foram conclamadas para discutir o retrocesso nas políticas públicas de Saúde Mental, a última se referiu ao fechamento abrupto de hospitais públicos por todo o Brasil. Não, isso não é uma boa notícia, nenhum espírito progressista pesou nessa decisão. Mais uma vez assistimos simplesmente a um espetáculo de desassistência dos pacientes das redes públicas. Nenhum plano concreto aponta para o fortalecimento dos serviços substitutivos. O mais provável é que, novamente, a falta de leitos públicos seja simplesmente substituída pelo aumento da oferta em leitos privados. É preciso notar que, com o avanço da utilização de novos procedimentos tecnológicos, a rentabilidade desses processos durante a hospitalização pode acabar forçando o aumento de indicações desses procedimentos.

Por que não gosto de hospitais psiquiátricos? Porque dirigi um, e é fácil notar que para o conjunto da ópera eles fazem muito mais mal do que bem. Minha passagem pela direção do Hospital Juliano Moreira, em Salvador, há quase duas décadas, ocorreu no momento em que todos lutavam por mudanças fundamentais no modelo de atenção. A degradação das condições humanas me fazia ver que não mais estávamos nos tempos do paciente reduzido ao objeto de algum discurso prevalente, tal como havia aprendido em minhas leituras de Foucault. Outra palavra me veio à mente, a expressão lacaniana “objetalidade”, conceito que Lacan evocou no seminário A angústia para tratar o objeto a caído de qualquer discurso.

A objetivação da loucura está na base discursiva da maioria dos movimentos de inspiração basagliana que impulsionaram a reforma psiquiátrica no Brasil e em todo o mundo. A seu modo, Lacan também tocou na questão, apenas mudando um pouco a perspectiva. Qual a diferença entre objetividade e objetalidade [1]. Não se trata aqui de buscar o objeto como “o último termo do pensamento científico ocidental”, ou seja, o objeto que pode ser alcançado e manipulado pela ciência. Ao contrário, a objetalidade coloca em evidência o “pathos do corte”, a pura perda e desconexão com o vivente. Enquanto o objeto compõe a cena de uma fantasia, ou seja, uma situação em que a alienação está presente, o “pathos do corte” é puro retorno pulsional da segregação. O que vem por aí é o retorno maciço de uma separação. A passar da objetivação à objetalidade, o que fracassa é a possibilidade de uma reconciliação erótica através da fantasia de um discurso qualquer. Uma Saúde Mental que não é blábláblá, sem dialética, puro corte. E, ponto.

 

[1] LACAN, J. “As pálpebras de Buda’. Em: O Seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 236.

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise.

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Por Marcelo Veras*

O que podemos esperar da troca do mais alto posto da psiquiatria americana, a direção do National Institut of Mental Health (NIMH)? Por treze anos a entidade foi comandada pelo notório Dr. Thomas Insel. Insel ganhou repercussão mundial quando a esperada quinta edição do DSM, que vinha sendo organizada pela Associação de Psiquiatria Americana, não foi referendada pelo NIMH no exato momento de seu lançamento. O DSM5 foi elaborado em meio a grandes polêmicas e resistências, principalmente quando o mundo descobriu o alto grau de comprometimento dos psiquiatras responsáveis com a indústria farmacêutica. Quando o NIMH desautorizou o DSM5 muitos comemoraram, pois a expectativa era de um manual ainda mais repleto de transtornos, aumentando enormemente o que poderia ser considerado uma patologia mental. Contudo, como chamou atenção Eric Laurent, em um artigo escrito logo após o anúncio do NIMH, não haveria muito o que comemorar, já que a crítica de Insel era precisamente que o DSM5 não era suficientemente “científico”, deixando entrever que o futuro da psiquiatria seria seu desaparecimento no oceano das pesquisas em neurociências[1].

 

As pesquisas translacionais

Efetivamente, a gestão Insel priorizou a neurociência e estrangulou progressivamente o orçamento para a pesquisa clínica. Afinal, com toda a crítica feita ao DSM, este era ainda um instrumento conectado à experiência clínica de profissionais que recebiam pacientes todos os dias. A partir de 2010, o NIMH instalou um novo critério para aprovação de pesquisas , chamado de RDC (Research Domain Criteria), que atrelava qualquer solicitação de financiamento à pesquisa translacional. O que é a Pesquisa Translacional? Trata-se de uma tendência mundial, crescente na pesquisa de doenças de todos os tipos, que visa agilizar a transferência de resultados da pesquisa básica à pesquisa clínica, afim de produzir benefícios para a comunidade como um todo. Em princípio a ideia é muito boa, pois visa reduzir o hiato entre a ciência pura e a prática clínica. As pesquisas translacionais no caso da psiquiatria envolvem sempre, em uma mesma pesquisa, tanto os genes, moléculas produzidas, células, e circuitos cerebrais, quanto o comportamento e os resultados clínicos obtidos.

Contudo, a crença de que o futuro da psiquiatria está no cérebro é tão consolidada, que solicitações de financiamento de pesquisas puramente clínicas passaram a ser sistematicamente negadas a partir dos novos RDC. A alegação do NIMH é sempre de que faltam nas propostas simplesmente clínicas uma “neurosignature”, espécie de selo de qualidade que implica a presença no projeto encaminhado de procedimentos atrelados aos pilares das neurociências. Em uma recente carta ao Times, o psiquiatra John Markowitz relata como ficou difícil propor uma pesquisa puramente clínica auspiciada pelo NIMH, já que, progressivamente, os fundos foram todos dedicados às pesquisas que incluem as neurociências. Atualmente apenas dez por cento do bilionária verba do NIMH é dedicada à trabalhos puramente clínicos[2].

 

Remédios para todos

Quem então se interessa pelos ensaios clínicos? Percebe-se que o espaço deixado vago foi fartamente ocupado pela indústria farmacêutica. Enquanto os neurocientistas se dedicam às pesquisas translacionais, a clínica psiquiátrica, na ponta, passa a ser orientada de modo cada vez mais explícito por protocolos duvidosos que levaram o consumo de medicamentos à patamares sem precedentes.

Dentre os projetos mais controversos encontra-se o Practice Support Program for Child and Youth Mental Health (PSP-CYMH), coordenado pelo Dr. Stan Kutcher. Trata-se de um programa que visa identificar patologias psiquiátricas entre os jovens em idade escolar. O programa foi largamente impulsionado por alguns crimes e suicídios cometidos por adolescentes em suas escolas, e que ganharam grande repercussão na imprensa. Nele, médicos generalistas recebem 2600 dólares por 10 horas de capacitação, para identificar precocemente possíveis distúrbios psiquiátricos em jovens em idade escolar. Assim, durante as visitas rotineiras para vacinação e demais check-ups anuais, os jovens pacientes passaram a responder a um questionário protocolizado visando identificar possíveis situações de depressão, ansiedade ou outro sintoma psiquiátrico.

A constatação foi que, com o questionário, o número de jovens diagnosticados e tratados com medicamentos aumentou para proporções muito acima da realidade. Um dos mais preocupantes métodos para identificar distúrbios de ansiedade entre os jovens é o SCARED, Screen for Child Anxiety Related Disorders[3]. Enquanto a maioria dos dados conhecidos indicava que não mais que 10 por cento dos jovens apresentam distúrbios de ansiedade, com o SCARED o numero de jovens diagnosticados e tratados foi simplesmente o triplo[4]. O questionário, elaborado pelo Dr. Kutcher, vem sendo questionado por inúmeras entidades. A crítica é que ele induz os generalistas a aumentarem ou persistirem com a prescrição de Fluoxetina em jovens que muito provavelmente não possuem patologia alguma, simplesmente problemas cotidianos do enfrentamento de situações escolares difíceis.

Chama ainda atenção que o programa não faz nenhum incentivo à escuta ou terapias não medicamentosas, simplesmente a prescrição, daí que ele vem sendo ironicamente chamado, ao invés de Educação Médica, de Programa de Promoção de Drogas.

Como então encontrar o sujeito do sofrimento psíquico? O país está dividido. Há os que apostam milhões de dólares na elucidação biológica precisa das doenças psiquiátricas, em pesquisas cuja duvidosa comprovação pode levar décadas até produzir algum sentido prático na clínica, mas há igualmente os que desenvolvem sua prática clínica em um meio completamente distorcido pelo charme da indústria farmacêutica[5].

Os devaneios podem ir mais longe. Um experimento recente[6]] permitindo que adultos pudessem atingir o ouvido absoluto[7], condição que normalmente somente se adquire na infância, levantou a hipótese de que é possível recuperar a neuroplasticidade neuronal da juventude. A partir desses dados alguns pesquisadores já cogitam uma intervenção muito mais ousada, se não seria possível apagar os traumas infantis e permitir ao sujeito um novo ponto zero em sua própria história[8]. Ignora-se completamente que nossos traumas, assim como os sintomas decorrentes, são constitutivos de nossa própria existência.

 

Uma bilionária foraclusão do sujeito

“Os avanços na genética humana estão remodelando a maneira como entendemos muitas doenças mentais, incluindo a esquizofrenia. Sabemos infinitamente mais sobre as mudanças de DNA… O próximo passo crítico é aprender como eles produzem a doença.”[9] Esse comentário da Dra Pamela Sklar compõe uma matéria com as expectativas de seis grandes pesquisadores no domínio das doenças psiquiátricas publicado recentemente na Revista Cell, uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo. Os comentadores estão todos muito otimistas e pedem ainda mais fundos para continuar a desenvolver suas pesquisas: “Precisamos declarar guerra à doença mental, que afeta a vida de uma em cada quatro pessoas, e priorizar o financiamento de pesquisas neurobiológicas inovadoras para uma melhor prevenção, diagnóstico, intervenção precoce e tratamento.”, alega no mesmo artigo Jeffrey Borenstein, daBrain & Behavior Research Foundation.[10]

Não é provável que o orçamento anual de 1,5 bilhões de dólares do NIMH tenha destino muito diferente nas mãos de seu novo diretor. Joshua Gordon assume o novo posto após uma larga experiência como professor no Columbia University Medical Center, onde é o responsável pelo currículo de neurociências[11]. Suas pesquisas, focadas na atividade neural de camundongos portadores de mutações com relevância em doenças psiquiátricas, deixam entrever que não é para breve uma reconciliação entre a Associação de Psiquiatria Americana e o Instituto Nacional de Saúde Mental. São dois gigantes de peso. Se o orçamento do NIMH é gigantesco, o aumento no consumo de medicamentos psiquiátricos no Estados Unidos tem as mesmas proporções. Enquanto em 1987, quando o Prozac foi lançado, os americanos consumiam 800 milhões de dólares em medicamentos psiquiátricos, em 2010 essa cifra subiu para 40 bilhões de dólares/ano. E assim a máquina anda muito bem. O NIMH, preocupado com suas pesquisas em neurociências, parece não ter nenhum papel regulador sobre o consumo em proporções abissais de medicamentos prescritos no cotidiano da clínica. Há cifras bilionárias para ambos na terra de Trump. Somente a clínica do sujeito continua proletária

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Em um ambiente tão inóspito, de que modo a psicanálise pode ser ouvida? Como mostrar uma face muito pouco conhecida da psicanálise em território americano, a psicanálise aplicada? Entre genes e ratos de laboratório por um lado, e uma venda crescente de medicamento por outro, poucas vozes se levantam contra essa bipolaridade obcecada em isolar o sofrimento psíquico no corpo cadaverizado da ciência ou rentabilizado pela indústria farmacêutica. Dentre as resistências mais ativas, podemos destacar o papel atual da organização não governamental MAD IN AMERICA[12]. Capitaneada pelo jornalista americano Robert Withaker, autor do best seller Anatomy of an Epidemic, a MAD se tornou uma das mais importantes associações contra os abusos e distorções da Saúde Mental americana. Sem dúvidas é necessário conhecer e interagir com essas resistências. Nas últimas décadas, a psicanálise acumulou uma enorme experiência em hospitais, serviços substitutivos e demais projetos sociais. Essa prática mostra que o mal-estar contemporâneo pode ter outro destino que não seja o entorpecimento. O sonho americano tem demonstrado seu amargo despertar, trata-se de um mal-estar que não será tratado por nenhuma droga, tampouco por promessas genéticas que podem beirar a eugenia. A psicanálise com certeza tem algo a dizer sobre os restos que nenhum muro consegue segregar.

 

[1] Laurent E., DSM 5, O fim de uma era, boletim Diretoria na Rede da Escola Brasileira de Psicanálise, link para acesso: http://www.ebp.org.br/dr/ebp_deb/ebP_deb001/laurent.html

[2] Markowitz J., There’s Such a Thing as Too Much Neuroscience, NYT de 14 outubro 2016 – http://www.nytimes.com/2016/10/15/opinion/theres-such-a-thing-as-too-much-neuroscience.html?emc=edit_tnt_20161014&nlid=67084594&tntemail0=y

[3] Sensitivity and Specificity of the Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders (SCARED): A Community-Based Study – Child Psychiatry & Human Development: June 2013, Volume 44, Issue 3, pp 391–399

[4] Wipond R., The Proactive Search for Mental Illnesses in Children, no site: https://www.madinamerica.com/2014/07/proactive-pursuit/

[5] Alison Bass, em seu livro Side Effects (Efeitos Colaterais), faz uma detalhada incursão no universo da indústria farmacêutica e suas tramas.

[6] Gervain J, Vines BW, Chen LM, Seo RJ, Hensch TK, Werker JF and Young AH (2013) Valproate reopens critical-period learning of absolute pitch. Front. Syst. Neurosci. 7:102. doi: 10.3389/fnsys.2013.00102

[7] Ouvido absoluto é capacidade que uma pessoa tem de formar uma imagem auditiva interna de qualquer tom musical marcado por um símbolo apropriado (nota, letra) de modo que se possa naturalmente identificar qualquer tom acusticamente apresentado

[8] Richard Friedman – Return to the Teenage Brain NYT de 8 outubro 2016http://www.nytimes.com/2016/10/09/opinion/return-to-the-teenage-brain.html

[9] “Developing Effective Treatments for Psychiatric Diseases” – Cell 165, June 2, 2016 1309

[10] idem

[11] NIH names Dr. Joshua Gordon director of the National Institute of Mental Health – www.nih.gov – new releases em 28 de julho 2016

[12] www.madinamerica.com

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*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise

submundos

 

por Marcelo Veras*

Existe uma diferença importante entre querer e desejar. Na maioria das vezes o querer se associa à frustração e ao capricho, enquanto o desejo se associa ao amor – mesmo que não saibamos o que isso quer dizer realmente – e à vida. Em diversas situações querer e desejar estão em franca oposição, dividindo o sujeito em duas partes completamente distintas. Ambos envolvem a relação do sujeito com o outro, o que muda é o modo como essa relação se estrutura. O querer supõe sempre uma demanda ao outro, uma súplica, uma outorga ao outro do direito de dar ou negar o que se pede. Esse outro pode ser tão próximo como a vizinha do lado ou tão longe como o próprio Deus. Deus, por sinal, está sempre ocupado demais para tratar de nossas misérias individuais. Ainda assim vivemos lhe pedindo coisas (será que se escreve “Lhe” pedindo coisas?, hum, não sei). Ouço muito no consultório alguém contar como tudo vem dando errado e concluir que Deus não está olhando para ele. Sempre respondo que, ou ele é um egocêntrico interestelar, ou ele deve reconhecer que não é tão importante assim, que Deus tem tarefas mais complexas do que se ocupar da traição do marido ou da perda do emprego. Já desejar é algo mais libertador, o desejo prescinde de sua realização, até mesmo porque, se fosse possível alcançar aquilo que desejamos, correríamos o risco de matar o desejo. O desejo tem algo de incondicional porque na verdade ele não precisa muito da aceitação do outro, é possível amar o outro à revelia. Se o querer é incondicional, o desejo pode ser realizado por partes, deixando sempre um gosto de quero mais. É uma falta a ser que lança uma promessa para o futuro, mais ou menos como no dia em que nos aprontamos para uma saída romântica mais tarde.

Toda essa questão de demanda e desejo, contudo, está aqui para tornar possível falar do modo como o par desejo/demanda organiza a espera de um filho por alguns casais no mundo atual. O mistério da reprodução sempre existiu, tradições milenares sempre foram consagradas à fecundação e filiação. Da deusa grega Maia Maiestas aos chás e simpatias de nossas tias, o homem sempre buscou no místico o mistério da concepção, isso sem falar na concepção da própria Virgem Maria, que realiza o sonho de todos os adolescentes de ter uma mãe imaculada. Tudo muda a partir do discurso da ciência.

A ciência, após escantear o Arcanjo Gabriel, cada vez mais, tem anunciado aos casais que querem ter filhos o slogan yes you can. Essa possibilidade muitas vezes se transforma em tortura. O declínio das velhas crenças e simpatias não eliminou a fé no Outro. O apelo ao Outro é o dispositivo universal para dar conta da insensatez do real corporal. Nossos corpos traem permanentemente nossos desejos, e aqui novamente a tensão entre desejo e demanda se instala. Assim, Santa Sara, virgem negra da fecundidade, também foi demitida e no lugar colocaram as novas tecnologias e a sedução dos resultados estatísticos. Nem sempre nossos corpos respondem aos nossos desejos, mas há sempre probabilidades. Mais uma intervenção, mais uma bateria de injeções, e de tratamento em tratamento o desejo de ter um filho se transforma em desespero. Em inúmeros casos, a relação sexual tem que ser cronometrada, a posição das pernas monitorada, se tornando um ritual que necessariamente tem que acontecer naquele dia, naquela posição, pouco importando se nesse dia pintou um clima ou se o casal está brigado. O importante é que naquele dia, mesmo sem tesão nenhum, eles farão a relação sexual existir em prol da demanda imperativa. Cada vez mais escuto histórias de casais que, à força de terem que transar no dia e de um jeito específico, desenvolvem uma verdadeira pane do desejo, restando para eles um sexo automático e repetitivo. O filho pode até vir, mas as sequelas desse kamasutra de hora marcada podem ser devastadoras. Em nome da família, o romance e a sedução vão embora.

Não sou muito de dar conselhos, mas com certeza se os casais são capazes de gastar verdadeiras fortunas em tratamentos de fecundação, sugiro que eles incluam no orçamento os custos de um ou dois dias de folga nos períodos férteis, esqueçam um pouco do relógio do trabalho e realmente namorem nesse dia. Assistam um filme, bebam um vinho, vão para uma pousada, tudo isso não custa mais do que um pequeno percentual do que se gasta em um processo de fertilização assistida. Em suma não levem o médico para a cama de vocês.

*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise

Apresentamos “Submundos”, a nova coluna do blog da Subversos. Nela contaremos com a preciosa contribuição de Marcelo Veras, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. A Subversos se interessa por temas na dobradiça entre psicanálise e cultura, unindo a orientação psicanalítica com a abertura para a arte, politica, e assuntos em voga nos nossos tempos. A coluna de Marcelo Veras tratará de temas candentes, em alta nas mídias e redes sociais. Nessa primeira publicação o assunto é o projeto de lei que ficou conhecido como “escola sem partido”, que tem suscitado amplos debates. Bem vindos à Submundos!

Paula Legey
Editora do Blog da Subversos

 

Como ensinar (o) mal

 

Por Marcelo Veras*

É fácil destruir uma geração, seduza-a com certezas absolutas. Para a psicanálise, somente é possível uma certeza absoluta sob forma de delírio. Isso porque a linguagem nos faz seres instáveis, daí que é impossível não sermos afetados pela palavra do outro. Essas palavras perturbam a condição narcísica que é condição estrutural do Eu. A precariedade do Eu vem dessa primeira condição política do ser humano que Freud chamou de solução de compromisso. Só há política porque há incertezas. Meu direito ao gozo esbarra sempre nos caprichos do outro, são as chicanas do desejo e da demanda.

No Seminário VI de Lacan lemos que, já na primitiva relação do bebê com seu objeto oral, encontramos a vontade canibal de destruição do outro. O sadismo está em jogo quando, para além da satisfação das necessidades, o bebê quer arrancar o mamilo com a boca e guardá-lo para si. É assim que, para Lacan, a separação não se produz entre a boca e o mamilo, e sim entre a boca/mamilo e o corpo da mãe. A educação começa quando separamos o bebê desse gozo de proprietário, iniciando o eterno processo de negociação que faz com que a demanda de gozo e política permaneçam em permanente tensão.

Ou seja, se deixamos prevalecer nossa vontade de gozo no campo onde queremos conviver com o outro, nos tornamos tiranos avessos à qualquer negociação política, pois o outro não é escutado, ele é simples instrumento ou obstáculo para o meu gozo.

Quais os impactos dessas constatações no processo de educação? Retomo aqui o início desse meu comentário, quando afirmo que uma geração se perde quando é afetada por dogmas irrefutáveis. É porque tudo que não pode ser questionado ou que não é assimilado por um processo interno de reflexão exige do sujeito uma crença delirante. O delírio não implica que o outro fale, o delírio ocorre quando, pouco importando o que o outro fale, o sentido já está decidido. É a matriz mesma do discurso paranóico. Na paranoia o outro se torna um mal a ser extirpado pouco importando o que ele tenha a dizer em defesa.

Quando promovemos uma educação que nega ao outro o direito de ser ouvido, de nos questionar e nos dividir com suas ideias diferentes, formamos seres submissos e preconceituosos. O medo do pensamento diferente os fará reféns das fórmulas já conhecidas. Eles não mais se arriscarão nas inovações e serão apenas repetidores das tradições. Eles não olharão para povos vizinhos e se aferrarão nos valores da família. Por fim, eles não ousaram ser, privilegiando a propriedade.

Essa questão é crucial diante do mal-estar atual na educação causado por projetos de lei que visam simplesmente acabar com o papel do educador, transformando-o em mero repetidor. Não precisa ser futurólogo para imaginar os efeitos, caso esses projetos sejam levados a cabo, sob a futura geração. Basta ouvir o discurso dos proponentes dessas leis para identificar em espelho o que acontecerá. E aqui não se trata nem de escola sem religião ou sem partido. Fui educado em parte num colégio religioso que não impediu que meu ateísmo fosse se construindo aos poucos, sem violências. Era uma boa escola em que havia espaço para questionamentos e inquietações. Lembro de uma professora de história (ah, essas matérias inúteis e subversivas!) que era o contraponto àquele ambiente rodeado de padres e hinos. Essa pluralidade ocorria porque, para além do temor de que alguns alunos fossem possuídos pelo diabo, a escola realmente se preocupava com a educação e não com a reserva de ideologias.

Tempos difíceis, pensávamos que o aplastamento da nova geração viria da ritalinização do comportamento e eis que agora é o Estado que pretende acabar com a inquietude e inovação de nossos alunos. Assim como Estamira dizia que o mundo estava sendo tomado por espertos ao contrário, digo que os proponentes desses projetos de lei que querem acabar com uma suposta doutrinação são na verdade doutrinadores ao contrário. Ao querer minar o importante papel de formador e transformador dos professores, o que eles temem realmente é o debate de ideias; quanto mais os leio mais vejo que não há ideia alguma por trás, apenas medo, poder e intolerância, não necessariamente nesta ordem. O que percebemos em uma lida rasa dos projetos de lei que circulam atualmente sob a égide do movimento Escola sem Partido é que no fundo eles não têm nada contra a doutrinação, contanto que a doutrinação seja a deles.

 

*Marcelo Veras é psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise

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