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Textos de Oficina Literária Ato Zero

A publicação que se segue é fruto do seminário Ação Lacaniana, atividade mensal da Escola Brasileira de Psicanálise, seção-Rio. No dia 13 de junho passado, num encontro coordenado pela diretora de Cartéis e Intercâmbio da EBP-Rio, Sarita Gelbert, tivemos a oportunidade de conhecer de perto o belo trabalho da oficina literária “Ato Zero”. Traremos um aperitivo do que é a produção dessa oficina a seguir e também na próxima semana. Boa leitura!

Paula Legey
Editora do Blog da Subversos

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FIGURA 1

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1. Luiz Guilherme Barbosa

A Oficina Literária Ato Zero reúne escritores adolescentes que são alunos do Colégio Pedro II, em seu campus no bairro de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro. A convite da Escola Brasileira de Psicanálise, os escritores da oficina foram provocados a narrar suas experiências com a leitura e a escrita literárias, e os textos compostos foram apresentados ao público da Escola numa noite especialmente aberta à escuta, no dia 13 de junho de 2016. Agradeço, então, ao convite e à recepção tão acolhedora de todos da Escola, e à Subversos pelo convite à publicação. Quem desejar acompanhar os passos da Oficina, basta nos encontrar no Facebook, com o nome de Ato Zero, ou então no site geleiacomrequeijao.wordpress.com.

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FIGURA 2

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FIGURA 3

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Assinar contratos de abandono em vez de posse. A impropriedade da autoria de tal maneira organizando cada cláusula, e então o contrato, ele mesmo, vai ruindo em sua autoridade de firmar uma relação justa entre as partes. Mas que partes compactuam num texto onde se lê incessantemente a indecisão de autor a leitor? Ou ainda, acompanhando o rigor de Giorgio Agamben ao tratar da questão: “O autor não está morto, mas pôr-se como autor significa ocupar o lugar de um morto”. As assinaturas do contrato em que, por excesso de rigor e risos, se abandonam os direitos autorais compõem apenas o bando de fantasmas que assombra, desde a escola, os leitores distraídos dos contratos sem cartório. Na escola, assinam-se contratos de abandono. Formar o bando é o ato do qual não há escape, firmar a letra no papel é o contrato que não abandona o bando. Um contra-ato. A máquina de escrever contra-atos de direitos autorais cede, em suas teclas, à força singular dos dedos que, firmando a letra, marcam, na letra, sua ausência. São máquinas contra-atuais os dedos escritores em oficina.

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2. Júlia Moura

 

Mansas
Me chegam palavras para tirar da mente
O vazio. Elas vêm sempre
Acompanhadas de seus verbetes:
Os reais e os que me são convenientes.

Aflorar é vir à tona, emergir,
Além de uma das minhas palavras favoritas.
Aflorar deveria ser tatuar flor:
“Marquei o afloramento para às 10”;
“Onde você aflorou seu braço?”

E se me perguntam o que penso agora,
Digo que não penso, verto,
Transbordo, como dizem os dicionários,
E lembro de pensar. E não verto mais,
Penso. E não escrevo mais. Penso.

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FIGURA 4

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3. Gabriela Almeida

Chegou, então, o segundo semestre. Eu e Alexandre começamos a namorar. O professor passou uma proposta de trabalho final da oficina, que a gente deveria fazer usando o Google ou o jornal impresso como meios de exploração. No começo, não gostei muito. Mas eu tinha que fazer alguma coisa, né. Então sentei no chão do meu quarto num domingo, com uma pilha de jornais no colo. Apertei o play do Spotify numa playlist da minha banda nacional preferida, Engenheiros do Hawaii, e fiquei dando uma olhada no conteúdo que tinha em mãos. O jornal é uma coisa bem esquisita. Encontrei notícias de todo tipo (a maioria eram ruins), manchetes bizarras, muitas letras e muitos números.

Esse último elemento me aborreceu um pouco. Eu, particularmente, tenho um sério problema com os números — não sei o motivo, talvez seja só porque eles não são letras. E estava lá, observando o caderno de economia, quando começou a tocar “Números”, uma música que amo. Ela é uma crítica à obsessão da sociedade atual por esses elementos, que levam uma importância tão grande sem serem realmente importantes em muitos casos. A música corria em meus ouvidos enquanto eu fitava o papel, com raiva. Eu queria mudar aquilo. Eu não me importava com a economia, e não achava que merecesse um caderno inteiro de jornal (CHEIO DE NÚMEROS). E veio naturalmente: peguei canetas e fui riscando todos os números que estavam na página, desde a data até os gráficos econômicos. Ao fim, escrevi bem grande a primeira parte do refrão da música. “E eu, o que faço com esses números?”.

Aquilo foi libertador. Percebi que o jornal era meu, e poderia alterá-lo quantas vezes e como quisesse, o que se tornou meu projeto. Quando mostrei ao professor os jornais que tinha feito — que eram esses dos números, um com uma notícia feliz (da família que adotou uma criança que sofria maus-tratos), onde escrevi a segunda parte do refrão (“A medida de amar é amar sem medida”), e outro com várias manchetes coladas e um grande ponto de interrogação, com versos da música “3a do plural” —, ele os definiu como “clipes visuais” dos Engenheiros. Gostei bastante da ideia, o que me levou ao meu jornal mais importante.

Pensei o seguinte: o jornal representa o meu clipe. Posso transmitir o que eu quiser nessa TV, e boicotar todas as transmissões recorrentes. Olhei, olhei, olhei. O jornal não me agradava. Fiquei cansada de ver tanta informação manipulada, notícia trágica e, é claro, números, que decidi que não dava mais. Eu não queria mais jornal, não queria mais clipe. Eu ia tirar do ar. Sabe aquela imagem com várias cores que as televisões velhas exibiam quando estavam pifadas? Ela simbolizava exatamente o que eu queria. Pedi tinta guache pro professor e pintei meu jornal, tirei do ar tudo aquilo que não estava me agradando. Quando mostrei pro Alexandre, ele disse que estava tão lindo e inspirador que queria emoldurar. E o professor teve a mesma reação, com o acréscimo de comentários filosóficos sobre minha obra.
Bem, eu só queria dizer que amo literatura e que a oficina mudou definitivamente a minha vida como artista. Eu acho que nunca pensaria em boicotar um jornal, nem mesmo em me aventurar na poesia. E, caso fizesse, com certeza não teria tido tanto conforto e facilidade como tive, graças à oficina.

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FIGURA 5

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4. Mariana Freitas

Lembro bem do meu primeiro dia na Oficina Ato Zero, escrevemos frases em nossos braços. Eu estava maravilhada e ao mesmo tempo nervosa pensando que poderia ser a menos habilidosa entre todos que estavam ali. Já minha mãe espalhou a notícia para a família e todos foram olhar a publicação que o Luiz colocou no blog sobre o que tínhamos feito.
A cada dia na Oficina tive uma aprendizagem nova, conheci um pouco mais dos alunos que antes eram estranhos que apenas estudavam no mesmo colégio que eu. Percebi que a questão não estava em ser a melhor do grupo, ninguém jamais será melhor entre nós, porque somos diferentes e isso fica muito claro em tudo que produzimos.

É incrível como uma palavra dita pelo Luiz ou por algum autor produz coisas tão diferentes em cada um. Cada um. Um cada que vira um, mas ainda é cada. E a Ato Zero foi o lugar que encontrei para me expressar, me aliviar, me divertir, me conhecer, às vezes fugir, aprender sobre literatura e alcançar outras pessoas. Me sinto muito bem quando leio textos que me tocam de alguma forma e espero poder fazer isso também.
Precisamos de alguém que nos incentive e nos diga que somos capazes, e o Luiz me ajudou nisso, dizendo sempre para tentarmos mesmo falhando. Quando recebi uma mensagem dele elogiando meu primeiro texto feito na Oficina, senti que eu não era tão ruim assim e que não queria mais esconder o que escrevia.

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