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Textos de Luiz Dolino

Gabriel-Garcia-Marquez-FB

Por Luiz Dolino*,
Outono, 2014

Em dois momentos desfrutei do convívio com esse gênio da literatura.

A primeira vez ocorreu em Havana, 1988. Estava em Cuba acompanhando uma missão comercial, quando, num domingo preguiçoso, fomos almoçar num paladar, como são chamados alguns locais em que nada denuncia o seu perfil comercial – na verdade um restaurante familiar. Nesses ambientes, o cliente desfruta do que de melhor é possível produzir numa cozinha precária e sem acesso a farto ou mesmo variado material para o consumo.

Tudo transcorria como previsto. A casa dispunha de jardim com um amplo gramado e o nosso grupo foi acomodado debaixo de um caramanchão polvilhado de hibiscos floridos – eramos os únicos. Iniciados os trabalhos, mojitos, mani, jogávamos conversa fora. Eis que identifico, atravessando o prado, um casal. Ela de vestido branco comprido, certamente de origem mexicana. Ele com a indefectível gayabera, camisa típica da região caribenha. Não tive dúvida e anunciei: está chegando o Gabriel Garcia Marques.

Tranquilos, silenciosos, ocuparam uma pequena mesa a curta distância da nossa. A partir daí acometeu-me a dúvida: falo ou não falo. Respeitarei ou não a privacidade? Difícil escolher. Como deixar passar uma oportunidade como essa? Decidi depois de amplas consultas ao grupo. Escreveria um bilhete e pediria ao rapaz que estava nos atendendo que levasse o torpedo. Assim foi feito. Na posição em que me encontrava à mesa não dispunha de ângulo que favorecesse a visão da cena. Esta me foi descrita por um amigo do lado aposto ao meu: entregou, ele colocou os óculos, leu, guardou no bolso da blusa. Portanto, nada a fazer.

Lembro que, no meu recado, eu caprichei no castelhano para dizer: sou fulano, seu admirador, de profissão pintor. Queria cumprimentá-lo, mas, sobretudo, respeito a sua privacidade. Como não logrei sucesso, confesso que acabei esquecendo da ilustre presença às minhas costas. Nosso festim seguiu seu curso natural, muita conversa, muita risada e boa comida, regada com o melhor rum da ilha.

Estávamos nos licores quando percebi que uma mulher se encaminhava para o portão no fundo do jardim. O assunto da vizinhança com Gabo voltou à baila e eu percebi, ato contínuo, uma presença ao meu lado. Era ele quem perguntava: quem é o pintor brasileiro que me mandou um bilhete? Sorridente me identifiquei. Nesse momento chegava a bandeja com mais bebida e café. Convidei-o para um brinde.

Na verdade, a resposta do escritor não foi nada simpática. Ele olhou para o próprio pulso e disse que tinha 5 minutos para nós. Em condições naturais de temperatura e pressão, eu teria arranjado um jeito de dispensar. Mas, como se tratava de quem, preferi insistir. Ele aceitou um cálice raso e brindou conosco. Não sei como, a partir desse instante mágico, engrenamos numa conversa. Depois de muitos 5 minutos, meia hora talvez, sem remédio, vi que a mulher retrocedeu, até porque o marido já estava abancado às gargalhadas conosco.

Quando Gabo se chegou a nós, eram 4 horas, talvez. Anoitecia quando ele disse: agora me vou! Onde vocês estão hospedados? No Hotel Nacional. Pois bem, amanhã, por volta das 11 horas, passo por vocês para seguirmos juntos para visitar San Antonio de los Baños. Iríamos conhecer a escola de cinema mantida pelo escritor.

O dia seguinte foi ainda mais rico que o anterior. Gabo, com mil compromissos, foi generoso em nos levar, mas, no local, nos deixou a cargo de um guia. Foi ótimo assim mesmo. Nesse encontro, dei-lhe uma gravura. Agradeceu e disse: seu trabalho vai ficar aqui na escola.

Dez anos passados, estava na Índia.

Fui hóspede de uma farm house, distante, portando, do centro do Nova Deli. Lá, tinha a meu serviço exclusivo um empregado a quem nada tinha para pedir. Ele me acompanhava silencioso como uma sombra. Chegava a ser incômodo. Fiquei uns dez dias. No último, tinha que pegar um voo tardio rumo à Europa. Nessa noite, precisei do serviçal. Confessei-lhe não saber dobrar camisas e pedi ajuda, sendo prontamente atendido.

Estabelecido o diálogo mínimo, sou surpreendido pela pergunta: o senhor é artista, não? Sim. Ele disse num inglês precário: eu sei, tem um quadro seu na sala do patrão e vi também um livro sobre o seu trabalho editado em francês e inglês. Sorri. E o jovem prosseguiu: você é amigo do Gabriel Garcia Marques, não? Disse que não, provocando uma expressão de perplexidade no seu rosto ingênuo.

O rapaz então tentou explicar a sua incompreensão ante o fato de eu ter uma foto no meu livro abraçado ao escritor sem que fosse amigo. Contei que, entre nós, na nossa cultura, essa imagem possivelmente não tem o peso, a mesma importância que tem entre os hindus. Senti, no entanto, que não convenci. Deixando de lado esse aspecto absurdo para ele, continuou: você já leu Cem anos de solidão? Disse que sim. Ele então me contou que encontrou o livro na biblioteca do patrão e que a sua leitura tinha modificado a vida dele, a ponto de convertê-lo em escritor… Queria saber se Gabo teria escrito outros romances em inglês. Esclareci que a obra foi toda produzida em espanhol e que certamente havia tradução de tudo.

Agora, era a minha vez. Perguntei-lhe em que idioma escrevia. Disse que em pradesh, língua falada na remota região em que havia nascido.

Imediatamente ponderei sobre a dificuldade daqueles que se expressam por meio de idiomas periféricos, como no nosso caso. Ele, não se dando por vencido, argumentou que essa limitação seria transitória, dado que, no futuro, ele encarnaria alguém com uma possibilidade maior de comunicação.

Eu precisava calar-me. Não consegui. Achei que ele merecia a minha opinião sincera. Disse então que, como procedíamos de culturas tão diferentes, ele teria que aceitar a opinião de que, no meu caso, a hora é essa. Sem chance de outra rodada. Ele ficou estupefato. Parecia dizer: que besta, que primata! Fazer o que?

Mais alguns anos, voava de Bogotá para Cartagena das Índias.

Quem adentra no avião? Gabo.

De novo a mesma sensação – falo, não falo. Falei.

Depois da decolagem, cheguei mais perto, me identifiquei, logo dizendo que ele não deveria se recordar de que em Cuba… Ele cortou e disse que sim, lembrava. Lembrava até da gravura que deixamos em San Antonio.

Disse-lhe então que tinha vivido na Índia uma experiência extraordinária e que gostaria de contar. Autorizado, prossegui com a novela. Esperava que o escritor se comovesse. Afinal, nos confins do mundo para nós, latino-americanos, um jovem pradesh modificou o curso dos seus sonhos após o contato com a sua obra. Nada. Gabriel Garcia Marques apenas sorriu. Inconformado, perguntei: você não acha toda essa história fabulosa? Não, respondeu seco. Acrescentando, depois de uma pausa teatral: é que sou como esse moço…

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*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e escrever pro Blog da Subversos.

PRIMEIRA NOITE

Por Luiz Dolino

A primeira noite de Antero em Niterói deixou a marca opressiva da
angústia. Nas outras noites também, sentia um terrível e inexplicável
desconforto. Antes, ele nunca teria cogitado em sair do Acre. Nas
margens da Amazônia, seu projeto se resumia em viver da caça ao
jacaré e da perseguição a pintassilgos. Antero foi quem primeiro se
expressou sobre o perigo. Foi direto ao ponto: para seguir nessa vida
é preciso autorização do IBAMA e contar com a Lei Rouanet.

Do IBAMA ele sabia tudo, afinal Cróvis, seu vizinho, não trabalhava
lá? Sobre a outra lei, ainda pretendia se informar. Qualquer hora
iria procurar o amigo. Com essa intenção, a paz voltou a reinar. Por
pouco tempo, é verdade, porque dessa lei de Rouanet continuou
sem ouvir falar. Para ele era suficiente poder pensar que o Cróvis,
funcionário de gravata, seria a qualquer momento a pessoa indicada
para esclarecer tudo. Ficou tranquilo e continuou a comprar alpiste.

Na verdade, esquecera completamente da ameaça que lhe rondava,
até que um dia, sem que nada lhe indicasse o perigo que o indiciava
de forma tão contundente, chega um pequeno batalhão na porta
de sua casa na remota Assis Brasil. Tudo tem um lado bom: junto
com a tropa, vinha o Cróvis. A autoridade deu voz de prisão. Cróvis
interrompeu a truculência que se anunciava e garantiu não ser
necessário, afinal o acusado foi até ali um homem de bem, tão
pacífico que nunca fez nada, além de caçar e prender dois bichinhos
pelos quais nutria até certo amor.

Atordoado, Antero foi aos poucos se inteirando de que algo muito
longe de sua imaginação se armava contra sua pacata rotina. Clóvis
Arruda, auxiliar administrativo, lotado no posto de fiscalização do
IBAMA, que funcionava no mesmo prédio anexo à prefeitura, onde
também trabalhava o pessoal da FUNAI, foi sua salvação. Com toda
paciência, pediu ao sargento Tenório que deixasse a questão por
conta dele e que aguardasse 15 minutos, antes de consumar a prisão
de Antero.

Foi então que puxou Antero pelo braço e foi logo dizendo, com
ares de patrono: meu amigo, você vai escapar dessa vez, mas, por
favor, amanhã mesmo você vai sair dessa cidade, pois do contrário
a sua vida vai virar um inferno. Antero parecia estar no miolo de
um pesadelo. Queria acordar, não entendia nada. Mal balbuciou: ô
Crovis, que que é isso? Eu tava aqui dando de cumê pros bichinhos.
Não tenho trabalho, nunca estudei, então o que que eu fiz de torto?

Bota atenção, Antero: ocê é meu amigo di criança, por isso que eu
vim com a tropa. Ocê vai ter que ir embora. Se não tem pra onde,
por enquanto, vou arranjar pro meu irmão fica com ocê em Niterói.
É longe, mas lá é bão, e Clementino trabaia lá de pedreiro. Ocê fica
cum ele e depois ocê vê o que é mió.

Foi só por isso que Antero chegou ao Largo da Batalha e já se
passaram seis anos. Nunca mais voltou para Assis Brasil, e nem quer.
Notícia de lá, tem nunca. Estudou um pouquinho no seletivo noturno.
Dona Isabel, professora muito boa, ensinou a ler e melhorou muito a
vida dele. Trabalha agora de caixa no supermercado e vai muito bem.
Mora ainda com Clementino e hoje tem uma vaga alugada no prédio
do lado do super.

Só pode ter sido pelo seu jeito de falar que a professora teve tanto
carinho com o aluno matuto. Ele fazia de tudo para aprender os
ensinamentos, mas não cresceu muito. Cabeça dura. De verdade, foi
o pastor Josias quem o fez aprumar. Pela primeira vez, usou gravata.
Ficou muito contente e sua alegria só não era completa porque –
além da Lei de Deus – ele padecia de temor pânico pela tal Lei de
Rouanet, que nunca entendeu por que tanto queria prejudicá-lo.

A sua esperança – e vive orando por isso sempre – é que um dia
algum irmão de mais luzes possa fazer a caridade de dizer o que é
isso e pra que serve e quanto ele terá que pagar pra se livrar desse
pecado. Jura – garantindo que pode vir soldado, delegado, autoridade

– que nunca fez mal nem a jacaré nem a pintassilgo. Estes então
tinham a maior das boas vidas nas suas gaiolas. Dava-lhes mamão,
alpiste e água sempre fresquinha. Eles cantavam que era uma
beleza. Até hoje, tudo isso se resume num grande sofrimento pra sua
alma. Desde a sua primeira noite em Niterói, não consegue dormir
sem pensar até quando estará por ser punido por essa tal Lei de
Rouanet.

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*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos.

Cenário adverso

por Luiz Dolino*

Se eu deixar você, jura que não me abandona?

Ontem, você partiu o queijo em fatias muito grossas. Normalmente, eu prefiro cortar uma por uma, à medida que vou comendo. O queijo de Minas fica logo amarelo. Por que você não comprou o Regina, que é naturalmente cor de gema de ovo? Tem tanta coisa que você sabe e por isso mesmo deveria conhecer bem os meus desejos. Claro. Demorei mas entendi – você não é mais a mesma.

Semana passada em Copacabana vi um assalto banal. Imagina que um menino, mal entrado na adolescência, tinha uma arma na mão. Do ônibus pude ver que era de brinquedo. Mesmo assim ele ameaçou e levou a melhor com a velha. Pudera. Sempre me pergunto, por que não sou eu a vítima. Queria ser sempre o objeto dessas violências. Tenho certeza de que, ao citar o seu nome para o meu algoz, eu conseguiria congelar a cena.

Não sei comer doce em calda sem me lambuzar. Você reclama sem razão, porque eu não tinha a intenção de manchar a toalha. Dona Magaly tem uma elegância tremenda para se comportar, sobretudo à mesa. Come as coisas mais esquisitas com a mesma sem cerimônia com que eu descasco uma banana. Você tem essa mania que é típica de mulher rica: sempre de escarpin. Outro dia, no consultório de Dr. Gastão, ouvi de um cliente para a moça da recepção: fulano (não entendi bem o nome) é muito arrogante, vive de salto alto.

Eu queria levar você para jantar numa churrascaria no Méier. Sei que você não aprecia esses ambientes suburbanos, mas é que a linguiça servida lá é única – faites à la maison. Comeríamos somente a entrada; depois, voltaríamos para o Leblon para terminar o jantar no Antiquarius, que é o restaurante mais caro da cidade e que você vive dizendo pra todo mundo que nunca foi. Assim, eu tiraria da lista mais um item de suas eternas insatisfações. Tudo tem um preço, minha cara. Saucisse no Méier, fígado de ganso no Leblon. Como vê, podemos sempre conviver com múltiplas realidades. Você é que finge não perceber.

Não vou mover uma palha para salvar nossa história. Amor, paixão, tudo isso é muito bom quando se acredita em fada. É igual time de futebol. A gente cresce torcendo pelo Vasco e nem sabe muito bem a razão de tal escolha que tem que valer para toda a vida. Em geral vem de herança. Depois de tanta dor, perdas e ganhos, taças e campeonatos, gastamos uma fortuna com o analista, que é a única pessoa que vive às custas do passado. Estou cansado. Vou dar uma volta, se demorar é porque fui ao cinema.

Olha, não mexe naquele embrulho ali não. Para conter a sua curiosidade doentia vou logo dizendo: é um skate. Contratei um professor, quer dizer, um garotão que é craque e que vai me dar aulas particulares três vezes por dia. Vai passar aqui toda terça e quarta. Vou trabalhar com ele de manhã, ao meio dia e no fim da tarde. Quinze minutos cada treino.

A vida começa a ficar muito desajeitada, você não acha? Espera aí. Não sai já não! Vamos descer juntos. Em quinze minutos tomo um banho. Hoje amanheci com um desejo: quero comer pastel. Você conhece algum lugar aqui por perto? Não, não é empada. Nessa padaria o que tem de bom são os salgadinhos. Eles não fritam nada lá não. Um pastelzinho tem o seu lugar. Nada consola mais uma alma carente. Será quem inventou o pastel? Pizza é coisa de italiano, quibe de árabe, sanduíche de inglês. E o pastel? Deve ser coisa de português. É verdade que nada supera a mulata, em matéria de invenção lusitana. Desculpe, não quis ofender. Estou falando de um ponto de vista antropológico.

Tem um artigo no jornal que fala da onda de calor que vem por aí, batendo todos os recordes no próximo verão. Acho que vou passar umas três semanas em Nova York. Pelo menos tem frio por lá. Não suporto esse negócio sebento, suado. Já viu como a pele das pessoas fica brilhando? Já estou me enxugando, não vou demorar. Porra! Mas essa toalha é nova? Logo vi. Não seca. A minha mãe, sempre atenta, quando comprava roupa de banho, mandava lavar umas cinco vezes antes de pô-las em uso. Mas esses cuidados hoje, quem vai ter? Falar nisso, aquela malandra da Janice telefonou que não virá aqui na sexta. Vamos passar o fim de semana com a casa sem arrumação.

Você pensou bem? Vamos ao Méier. Juro que eu vou me comportar como um lorde no restaurante mais tarde. Vou confessar uma coisa: meu sonho (antes de conhecer você, é claro, muito antes) era ter uma amante no subúrbio. Uma escurinha dessas que vão passando e arrasando. Eu tinha (?) uma fantasia – alugar uma quitinete em Olaria, Engenho Novo. Imaginava a Zona Norte como lugar ideal para veranear ou, como dizia o nosso porteiro, venerear. Eu chegaria no meio da tarde encontrando o meu amor à espera. Nuinha, se abanando com uma ventarola de papelão. O ventilador de teto estava sempre enguiçado…

Eu acho totalmente plausível o prazer se estabelecer quando dosado em partes generosas de carinho, calor, bom hálito e um certo torpor, sofrimento, quase dor. Acho que estou ficando romântico. Você sacou que tudo rimou na minha frase? Claro que você não escutou nada e se ouviu prefere fingir que não entende. O que eu preciso é encontrar um novo trabalho. A minha renda está ficando curta. Posso alugar esse apartamento, porque não preciso de 250m2 em Ipanema. Com a grana, mudo e vou morar muito bem no Flamengo, sobrando pelo menos uns dois mil por mês. Nem precisa fazer essa cara. O colega mais feliz e pra cima que tive morava em Vicente de Carvalho. Sabe onde fica? Nem eu, mas sei que é longe, no fim da Zona Norte. Enquanto eu saía para a escola 15 minutos antes de tocar o sinal de entrada, ele saía duas horas.

Você comprou o biquíni de que estava precisando? Vou deixar aqui 300 pratas. Eu vou dar de presente. Não compra aqueles mini, não. Morro de vergonha, todo mundo olhando pra você. Às vezes acho que estão é olhando pra mim. Só pode ser, porque o que mais tem na praia é mulher. Sujeito com cara de otário, o número é bem menor. Hoje, além de pastel, vou chupar um picolé de manga. A gente tem cada desejo, não é? Mas que importam para você os meus desejos? Nada. Claro. Também não sei a razão de ficar especulando sobre tudo. Dr. Trompowiski vinha sempre com um papo de insegurança básica. Pensar o tanto de dinheiro gastei para ouvir essas baboseiras. Ah, meu Deus, em quantos picolés eu poderia ter investido? Amanhã é dia de feira, você precisa de alguma coisa?

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*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos.

por Luiz Dolino*
para Mme. LLL

Conheci um tipo considerado por todos os seus contemporâneos como celebridade.
Celebridade, qualquer um sabe, é uma figura famosa, notável, de renome.
Tudo isso, realmente, ele foi.
Sua notoriedade vem do fato de ele ter sido inventor da régua sem fim.
Acho, naturalmente, que ele é, portanto, merecedor de todas as loas.
Nem por isso, entretanto, ele poderia ser comparado à Mme. Wiborowa.
Esta sim, para mim, a grande merecedora de notoriedade.
A ilustre dama mereceu sempre todos os tapetes vermelhos que, aliás, sempre estiveram postos à sua disposição.
Claro que ela nunca fez uso deles. Nunca deu um passo sobre essas passadeiras que seriam fatais para os seus costumes.
Natasha Wiborowa somente andava de patins.
Acordava e, já para os seus primeiros passos endereçados ao toalete, fazia o percurso calçada.
Isto quer dizer que já portava os patins bem encaixados nos seus pés.
Tinha uma coleção desses bizarros artefatos. Muita gente amiga, sabedora do costume dessa veneranda senhora, só fazia contribuir para o aumento da coleção.
Natasha W chegou ao Brasil em 1937. Claro, esperta, se mandou antes de Hitler invadir a sua Polônia natal. Na verdade, não escolheu o nosso país como destino. Tomou um navio no porto de Antuérpia. Como não falava nada além de polonês e o barco ostentava no costado o indicativo SS New York, não hesitou e pensou: é com esse que eu vou.
Mal sabia que tempos depois iria conhecer o samba de Pedro Caetano – é com esse que eu vou sambar até cair no chão. Não somente seria apresentada à canção como aprenderia a letra e se requebraria muitas vezes embalada naqueles compassos. Mas isso, certamente, antes de tomar gosto pelos sapatos de rodinhas.
Natasha, como milhares de imigrantes clandestinos, aportou onde jamais sonhara. No caso dela, na Praça Mauá em pleno Carnaval. Imaginou que estava chegando num país primitivo desses dos quais só tinha tido notícias em documentários igualmente primitivos sobre a Malásia, Pacífico Sul e outras plagas exóticas. Mas depois ficou sabendo de tudo e inclusive se tornou sócia-contribuinte do Cacique de Ramos, cordão carnavalesco que sempre a transportava para a cena inaugural de sua abordagem no Rio de Janeiro.
A primeira coisa que Mme. W aprendeu a dizer foi: não sei.
Entendeu logo que essa expressão curta e incisiva era de grande utilidade.
Sendo o brasileiro de natureza gentil e serviçal – mais ainda quando o personagem é importado – logo se ofereciam para esclarecer tudo que a Madame dizia ignorar, com a alegação do proverbial não sei.
Muito tempo se passou até que Natasha tomasse conhecimento da existência de Mário de Andrade, com quem inclusive tentou se relacionar, mas o grande poeta não estava para essas extravagâncias. Polaca naquele tempo tinha outro significado.
De qualquer sorte, chegou a ler Macunaíma e ficou feliz ao sacar a esperteza do nosso herói que custou, mas aprendeu aos cinco anos a dizer: ai que preguiça. Imediatamente, Mme. W fez a ligação de não sei com ai que preguiça.
Mme. W é uma figura tão, digamos, excitante (no bom sentido, porque com os seus 83 quilos não poderia mesmo aguçar o interesse de ninguém ou de poucos) e tanto é assim que eu já ia me perdendo no relato que tem como foco de interesse a personalidade luxuriante do nosso grande inventor, Artêmio Podo Beiral, PhD e membro da seita Rosa Cruz.
Não estou longe da realidade ao associar Mme. W e o Dr. Beiral.
Ele também não era brasileiro.
De pais galegos, nasceu mal o barco que os trazia zarpou de La Coruña. E esses sim, optaram e viajavam com suas economias para o novo mundo; para Niterói, lugar que já tinha recebido e dado fortuna aos seus primos que trabalhavam de sol a sol no negócio de padaria – hoje a famosa Beira(L) Mar. O nome primitivo do estabelecimento era Beiral Mar. Beiral da família e Mar porque estava numa cidade do litoral. Mas isso ficou muito complicado para a compreensão dos brasileiros que foram logo simplificando para Beira-Mar.
Os pais do futuro gênio, glória da Galícia ancestral e orgulho do povo da Praia Grande, antigo nominativo da velha capital fluminense, fizeram seu pé de meia se dedicando a vender e dar manutenção a bicicletas, triciclos e outras variantes do estilo, muito comuns como meio de transporte, sobretudo dos jovens naquele bucólico Icaraí.
Estabeleceram-se no Campo de São Bento, na Rua Lopes Trovão (José Lopes da Silva Trovão, médico, jornalista e político que deu nome ao logradouro). Ali fizeram dinheiro suficiente para devolver o jovem Beiralzinho para a metrópole, de modo a se converter em simples bacharel. Que nada. O guapo Teminho (de Artêmio) não queria saber das Ciências Jurídicas.
Partiu para as Ciências Exatas, Matemática. Grande matemático. E assim retornou à Icaraí.
Nessas alturas, seus pais já eram proprietários de três lojas/oficinas – duas no mesmo bairro e outra que não prosperou no Gragoatá.
Têmio já não seria mais chamado com essa intimidade. Nunca mais. Dai em diante Doutor Artêmio. Beiral ele não adotou porque podiam fazer uma associação imediata com o negócio de guloseimas ou de selim e guidom, onde família tinha prosperado.
Dr. Artêmio Beiral integrou grêmios recreativos e culturais. Brilhou como docente. Publicou. Fez o diabo. Bom partido, sempre driblava as moças esperando pela melhor, que acabou não chegando nunca. Solteirão, cometia poesias, sonhava com as Musas.
Um dia, teve que se defrontar com uma questão urgente e básica. Seu pai, seu Pepe, perdia muito dinheiro com o aluguel de bicicletas. Não tinha como avaliar, e por isso cobrar com segurança, o uso e o desgaste do equipamento. Confessou essa dificuldade ao filho ilustre e, humildemente, perguntou: você, que tanto sabe de Matemática, por que não cria uma fórmula para que eu a aplique ao negócio?
Teminho – o pai era o único que ainda insistia nesse tratamento – levou poucos dias para trazer a solução: a régua sem fim.
O invento poderia acompanhar todos os deslocamentos da bicicleta pela cidade e seu Pepe cobrar por quilômetros efetivamente circulados. Perfeito.
A glória de Doutor Artêmio só fazia aumentar.
Como uma estátua, ele caminhava de colete e tudo mais pela Rua Gavião Peixoto (Bernardo José Pinto Gavião Peixoto, militar e político – presidiu por duas vezes a Província de São Paulo).
Pois foi essa rua o palco do duplo infortúnio que uniu para sempre as figuras do inventor e Mme. Natasha Wiborowa.
Ele caminhando distraído, saudando os transeuntes sem lhes prestar a mais mínima atenção.
Ela esvoaçante em seus patins, apesar dos 78 anos recém-cumpridos, deslizando pelo calçamento daquela artéria movimentadíssima já em 1956.
Chocaram-se. Fraturam-se. Ele a bacia – imobilizado por muitos meses e condenado a uma cadeira de rodas. Ela a base do crâneo – morta quatro dias depois, apesar de socorrida no ambulatório da Beneficência Portuguesa, na Rua da Conceição. Dizem que a demora no socorro foi fatal. Naquele tempo o Hospital Santa Cruz (mesma coisa que Beneficência, depende da idade de quem lhe chama, porque hospital é coisa dos mais jovens) era então o melhor centro médico da cidade.
Doutor Artêmio paralítico jamais voltou a circular.
Mme. W virou lenda. Sobretudo depois que acharam nos seus guardados os papéis que revelavam sofisticados conhecimentos das artes marciais, sendo, pelo visto na documentação, que ela foi ao seu tempo uma referência mundial.
Dois gênios consagrados e que se mutilaram definitivamente, unindo seus desgraçados destinos numa sonolenta cidade nos anos 50.
Não fosse o meu esforço – tenho que confessar imodestamente – ninguém mais saberia dessa dupla que deu o que falar no seu tempo. Tanto assim que estão imortalizados em bronze, mas bem longe um do outro. Chega de colisões. Um pode ser visitado em busto altaneiro no Jardim São João. Outra, só a cabeça altiva fundida e implantada em plinto de granito de frente para o mar que tanto amava na Praça Getúlio Vargas.

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos

Por Luiz Dolino*

Meu Caro Mindlin.

Atendendo ao seu pedido, fiz um relato do que, sem esforço, me veio à memória sobre a minha relação com Carlos Drummond de Andrade. Certamente, essa história não é exatamente a que contei ao Cançado. No meu encontro com o biógrafo do Poeta, limitei-me às suas perguntas dele. Não adiantei nada sobre qualquer assunto que ele não tivesse manifestado preocupação.

P.S Não sei se você sabia que Carlos Drummond de Andrade tinha no seu registro civil e carteira de identidade o nome de Carlos Drummond Andrade (sem o “de”). Disse isso ao Cançado, que não se interessou pelo detalhe.

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Minha convivência com Carlos Drummond de Andrade se deu entre 1979 e a sua morte. Em janeiro daquele ano, fui à sua casa na rua Conselheiro Lafayete, em um final de tarde, para levar-lhe uma encomenda enviada por Maria Julieta que, como eu, vivia então em Buenos Aires.

Sobre o meu conhecimento e intenso convívio com a sua filha, deixo como depoimento o texto dela própria, escrito especialmente para o livro publicado em 1985 pela Universidade Federal Fluminense a propósito do meu trabalho como pintor.
A visita que fiz ao Poeta no verão de 79 transcorreu num clima de certa tensão. Mesmo eu havendo prevenido e marcado, como é do meu feitio, quando cheguei ao apartamento encontrei somente Dolores, que me recebeu calorosamente, dizendo que o Carlos estava por aparecer a qualquer momento. Assim foi.
Um tanto esbaforido e assustado, como se a minha presença o surpreendesse, Carlos envergava um blazer de veludo verde escuro, de corte antiquado, não por ser velho, mas consequência dessas roupas muito modernas no dia da compra e que, passada a moda, envelhecem rapidamente. Esse blazer chamou-me a atenção ainda mais pelo despropósito de portá-lo com o calor que fazia.

Procurou ser gentil comigo, até porque sabia muito bem da importância da amizade existente entre Maria Julieta e eu, cujas trocas efetuávamos sem reservas, escancarando, portanto, a intimidade de Carlos. Atribuí a isso o quase mal-estar que a minha visita aparentemente causava. Depois, com a convivência dos anos seguintes, pude ver que esse fenômeno pânico se desencadeava por muitos fatos, de maior ou menor relevância, segundo o mood do Poeta ou da natureza do assunto.

Como fã, deixei-lhe, na ocasião, a minha primeira edição de sua Obra Completa, onde transcreveu dias depois um poema, com generosa dedicatória.

Exerci essa atividade de correio entre Buenos Aires e Rio de Janeiro durante muito tempo ou sempre enquanto residíamos, Maria Ju e eu, na Argentina. Nas oportunidades subsequentes foi-me permitido um trânsito mais íntimo na casa, o que significava poder ficar onde desejasse, seja na sala ou no escritório, que me foi também franqueado.
Em 1980, as visitas ao Rio de Janeiro eram tão frequentes que, para maior conforto familiar, resolvi adquirir um pequeno, mas muito funcional e bem localizado, apartamento na rua Barão da Torre em Ipanema. O prédio estava em final de obras e, por isso, as facilidades para a sua compra eram consideráveis. Fiz o negócio e insisti com Maria Ju para que imitasse a minha iniciativa, quando menos pela operação comercial em si. E assim foi feito.
Viramos, Maria Ju e eu, vizinhos no Rio de Janeiro também, mais próximos ainda que em Buenos Aires. A partir disso, era mais comum encontrar o Poeta, sempre com Dolores, na Barão da Torre, seja no 704 de Maria Julieta ou no 1001, meu. Ainda nessa época, mais que nunca, sempre o correio, encomendas, embrulhinhos, malas, regalos “y otras cositas” vindas da Argentina.

Esse apartamento, comprado assim, um pouco na base do impulso, respondia de certa forma à atividade de conselheiro financeiro, e mesmo de agente, que fui assumindo gradativamente com relação às economias de Maria Ju. Essa função, mais tarde, foi estendida também ao Poeta, no que se referia às suas poupanças. Pai e filha confiavam plenamente nas indicações e ações que eu criteriosamente formulava, com base nas conexões que mantenho com o chamado mundo dos negócios. Foi assim até a morte de ambos.

A Barão da Torre veio a ser o endereço de Maria Ju no Brasil, após o seu regresso definitivo em 1983, ocasião em que eu também abandonava Buenos Aires, transferindo-me para a África.
Nos dois anos que se seguiram, nosso convívio foi reduzido por força da distância geográfica que agora nos separava. Convivíamos em breves períodos de férias e falávamos constantemente ao telefone, ora por saudade pura ora para decisões acerca do portfolio familiar que eu continuava a cuidar. Em 1984, Maria Ju fez uma visita ao casal Azeredo da Silveira, embaixadores em Washington. Encontramo-nos nessa oportunidade e percebi, então, claramente, que a minha frágil amiga brindava-se com um último grande souvenir.

Para Carlos, a viagem de Maria Julieta não poderia ser explicada sob esse prisma. Apesar da objetividade com que ele sempre tratou o tema da doença de sua filha comigo, ao abordá-lo com as minhas apreensões sobre aquela Primavera na América, o Poeta desviou imediatamente o curso da conversa. Nesse tempo, eu já sabia o que lhe agradava e quanto e quando. Desconversei mas não me iludi. Nem ele, por certo.

II

No Brasil, quem nesse tempo deu alguns sinais de fraqueza foi Dolores, habitualmente a figura rochosa do trio. Falamos, Carlos e Maria Ju, sobre o assunto. Sugeri a visita domiciliar de um médico e ofereci para trazer um primo e compadre, jovem e competente professor titular de Cardiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre nesses detalhes somente porque me parecem ilustrativos do caráter e do comportamento do Poeta.
O médico foi comigo à Conselheiro Lafayete, levando, inclusive, um equipamento relativamente pesado. Finda a consulta, o Poeta levou o doutor para o escritório e lá ficaram os dois um bom tempo. Na saída da conferência, diz Carlos sorridente: Dolares (era assim que ele brincava – DolAres) é quem vai me enterrar! Despedido o médico, demorei-me um pouco mais na visita e soube, aliás como eu esperava, que não houve cobrança de honorários. Relatei tudo depois à Maria Ju, que comentou: “pena seu primo não ter cobrado, papai jamais voltará a chamá-lo”.

Em 1985, voltei a viver no Brasil. Era perto do Natal, que acabamos por celebrar juntos, com direito à troca de presentes. De Carlos recebi uma edição do seu Don Quixote feita no México, onde fez constar uma derramada dedicatória. Comentei brincalhão o excesso do seu escrito. Ele, na hora, pediu o meu volume de sua Obra Completa, então já autografada, e levou-a com ele. Tempos depois devolvia o livro com o seguinte comentário: só esta é minha “verdadeira” obra completa, pois manuscrevi uns versos que só existirão no seu exemplar.

A partir dessa época, teve início um tempo em que as doenças começaram a apertar o cerco. Por outro lado, o cenário era de um Brasil caótico; morte de Tancredo; instabilidade no ar. A análise de Carlos era sombria. Temia por tudo, até por um confisco que veio sim, mas depois de sua morte.
Com muito tato, falei, pela primeira vez, em mandar alguns recursos para o exterior, protegendo assim parte do seu patrimônio, ou pelo menos seus ativos líquidos. O Poeta reagiu mal, alegando que tudo o que tinha devia ao Brasil e aqui deveria permanecer. Aos poucos, com muita argumentação, lentamente rendeu-se. Abri para ele uma conta em banco suíço.

E mais uma vez preciso justificar o meu relato. O detalhe sobre essa operação vale por ser revelador daquela personalidade. A conta foi aberta com um pseudônimo como contrassenha. A escolha de Carlos foi, então, consagradora de dois dos seus afetos: Mário Flag seria o titular fictício. Os dois poetas do seu coração foram assim invocados, como que apadrinhando a atitude que a princípio ele havia repudiado.
Ainda no capitulo das atividades comerciais e financeiras do Poeta, há um fato que também muito me ajudou a compreender aquela alma justa e atormentada.

Maria Julieta estava péssima. Passávamos as tardes lado a lado no hospital velando o sono profundo de nossa querida. Um dia, bruscamente, ele me fez um sinal para que saíssemos do quarto. No corredor, isolados, de uma forma muito sua, direta e sofregamente, comentou: acho que o fim está próximo. Meu silêncio concordava com a sua avaliação. Perguntou-me, então, pela primeira vez, como ficariam as reservas de Maria Ju, caso aquele estado comatoso se alongasse. Expliquei sumariamente e adiantei-lhe uma preocupação: minha procuração não permitiria movimentações expressivas ou totais. Sugeri que, imediatamente, transformássemos as contas individuais em conjuntas, atribuindo também a titularidade ao Pedro Augusto, seu neto. Carlos concordou com o alvitre. Teríamos, para tanto, que colher a assinatura de Maria Ju em um dos seus próximos e cada vez mais raros instantes de lucidez. Posso dizer que foi muito penoso conseguir contornar esse empecilho.

III

Salto o penoso capitulo da morte de Maria Julieta, que logo sobreveio.

Nos dias que se seguiram – foram doze no total – estive com Carlos muitas vezes. Acho que diariamente, para fazer companhia ou para tomar decisões como procurador que era de ambos.
No fim de semana, como de hábito, retirei-me para Petrópolis. No sábado pela manhã, Pedro me telefona e diz que Carlos estava internado desde aquela madrugada. Adiantou-me que tudo estava sob controle, segundo o parecer da médica Elizabeth Freitas. Manifestei, então, a minha intenção de descer. Pedro disse-me que não via essa necessidade, mas que o próprio Carlos havia pedido que me avisassem. Não hesitei. Naquela mesma tarde, estávamos todos reunidos no Pró-Cardíaco de Botafogo: Dolores, os três netos e eu, com Ismélia, minha mulher.

Estive alguns minutos no CTI. Carlos estava muito agitado e fazia um visível esforço para se comunicar e, nessa luta, parecia querer sentar-se, o que os aparelhos e soro impediam. Havia à sua disposição um pequeno bloco e caneta. Este material foi-lhe oferecido e ele tentou usá-lo sem sucesso. Sempre muito agitado, ouviu o neto Carlos Manoel dizer: calma Carlos, calma, logo estaremos de volta à Conselheiro Lafayete, ao que o Poeta respondeu com um gesto de uma nítida “banana”.

Momentos depois foi profundamente sedado. Nunca mais voltou à tona. Passou assim o domingo e na segunda-feira, por volta das três horas da tarde, o médico de plantão nos informou, ao Carlos Manoel e a mim (únicos naquele momento no hospital) que Carlos só respondia a 30% dos impulsos do respirador artificial. Foi mais explicito dizendo que um paciente em condições normais deveria aproveitar 100% da ajuda do aparelho. Ficou tudo claro. O fim estava próximo.

Por volta das cinco horas, Lygia Fernandes chegou acompanhada de outra senhora e logo se dirigiu ao CTI. Carlos Manoel e eu estávamos sentados no degrau de uma escada rente à porta, de guarda. O neto estranhou o que seria uma impertinência ou invasão. Lygia deixou a acompanhante e fez menção de entrar no pequeno quarto ao mesmo tempo em que o neto fez um movimento contrário para impedi-la. Segurei o seu braço e disse discretamente de quem se tratava. Tranquilamente, retornamos à nossa posição original. Eu pude identificar aquela visitante porque há tempos Maria Ju havia me apontado sua figura em Ipanema. Carlos Manoel sabia da sua existência, mas jamais poderia reconhecê-la.

Lygia ficou a sós com Carlos cerca de meia hora. Retirou-se como chegou, em silêncio, desconhecendo-nos solenemente. Afinal, poderia ter alguma curiosidade sobre quem seriam aqueles dois sentinelas e ainda mais o Carlos Manoel, cujos olhos azuis traiam logo o parentesco tão próximo.

Logo depois das nove da noite o Poeta estava morto, os aparelhos desligados. Telefonei imediatamente e avisei ao Pedro que estava com Dolores. Vieram em seguida, trazendo o terno escuro para a derradeira cerimônia. Telefonei também para o Embaixador Antônio Azeredo da Silveira, que chegou num passe de mágica, imediatamente.
Ficamos, Silveira e eu, junto ao corpo, que estava sendo preparado. Foi feita a barba pelo enfermeiro e dei o último nó de gravata, ajustando o laço no pescoço de Carlos. Silveira recomendou ainda que o enfermeiro colocasse as dentaduras no Poeta e acrescentou: “a gente precisa cuidar sempre a aparência. Carlos parece um Quixote na sua magreza”.

A partir desse momento, também por sugestão de Silveira, aguardamos o que poderia ser alguma reação oficial à morte do Poeta. A TV Globo, de plantão ali todo o dia, já havia divulgado. Chovia muito.

Apesar de o Carlos sempre ter se manifestado contrário a qualquer homenagem, foi Silveira quem alegou que, morto, sua vontade deveria submeter-se ao que poderia ser um desejo nacional e que o país tinha o direito de cultuar suas glórias… E Embaixador sonhava. Não houve qualquer movimento ou atitude que justificasse aquela vã expectativa. Coube ao Octávio Mello Alvarenga que, então, havia se juntado ao pequeno grupo, escolher a urna. Às onze horas da noite o corpo saiu para a capela da Real Grandeza no São João Batista. Ali, fui eu quem determinou a retirada de um crucifixo da cabeceira e que se suprimissem os castiçais em volta.
Estávamos presentes, Dolores, os netos, May e Antônio Azeredo da Silveira, com sua filha Cristina, Octávio Mello Alvarenga, Ziraldo, minha mulher e eu. No meio da noite, um ou outro. Lembro de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, que ficaram um longo tempo. Só pela manhã o movimento começou.

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net – e colunista do Blog da Subversos

por Luiz Dolino

Durante a minha larga estância em Buenos Aires, entre 1979 e 1984, pude estar com Jorge Luís Borges duas vezes. Não é pouco, considerando que o bruxo da calle Maipú já estava com mais de 80 anos, circulando, portanto, num ritmo menos acelerado. A primeira vez, na livraria Ateneu. Estava autografando o primeiro volume de suas obras completas, editado pela Emecé. Dia 25 de junho de 1980. Nesta data, eu mesmo estava celebrando 35 anos. Foi Borges quem, de próprio punho, assinalou a efeméride como se vê logo abaixo de sua firma no meu livro.

Em outra ocasião, a convite de Maria Julieta Drummond de Andrade – afeto muito particular – fiquei diante do grande escritor, que se dispôs a comemorar conosco o 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, ainda que numa celebração tardia, já que o poema apareceu em 1572.

Em muitos momentos, venho sendo agraciado com privilégios. Não me lembro de outra situação em que pude desfrutar de uma cabeça tão brilhante, como nesse encontro com Jorge Luís Borges. Cego, com olhos muito abertos, desviava a minha atenção com seu estrabismo divergente. Com uma das mãos, ia tateando a mesa em busca do copo d’água; com a outra, segurava firme o bastão de madeira, seu guia no escuro.

O discurso, a conversa do escritor vagava pelos territórios mais variados de uma suposta literatura contemporânea de Camões. Falou longamente sobre poetas persas, o que depois fiquei sabendo ser uma recorrência. Citou, recitou, divagou por muito tempo. Em dado momento, acompanhava aquela excursão tão absurda para os meus sentidos e ia pensando: talvez ele esteja caducando. De onde está, como voltar ao tema? Pois, para meu espanto, retornava.

Tempos depois, lendo, tomei conhecimento de que essa circum-navegação mental era uma das características de sua abordagem. Digressões as mais estapafúrdias eram, por assim dizer, um prato frequente no cardápio daquele gênio. Foi assim, numa dessas derrapagens, que ouvi pela primeira vez o nome de Gadda. Borges foi enfático ao mencionar o fato de ser ele apenas um aprendiz diante da capacidade especulativa desse escritor seu contemporâneo.

Carlos Emilio Gadda (1893-1973), como muito depois cheguei a me inteirar, além de romancista e poeta, é considerado dos ensaístas mais brilhantes do seu tempo. São consideradas suas obras capitais: O castelo de Udine (1934), O conhecimento da dor (1963) e Eros e Priapo (1967). A propalada técnica especulativa do italiano justificava a menção de Borges. Segundo o argentino, Gadda desenvolveu como ninguém a capacidade de analisar o texto, forçando o leitor a vivenciar a experiência (anotei essa passagem). A questão surgiu no momento em que Borges reclamava de si a insuficiente condição de, como Gadda, poder aprofundar-se no contexto e, simultaneamente, seduzir o espectador. Tudo mentira. Borges praticou ali, praticou sempre, exatamente esse figurino.

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net

http://mail-attachment.googleusercontent.com/attachment/?ui=2&ik=e09ea0340e&view=att&th=138914cc345834f7&attid=0.1&disp=inline&realattid=f_h4pyglfz0&safe=1&zw&saduie=AG9B_P_Khx1L6Gkukcoi56UOzND_&sadet=1345139676309&sads=ekhJnPcq3VdHJGtJkcdcEBmSMLMPor Luiz Dolino*

A percepção desse processo de utilização da lembrança (até então inerte

como a Bela Adormecida no Bosque do inconsciente) tem algo da violência

e da subitaneidade de uma explosão, mas é justamente o seu contrário,

porque concentra por precipitação e suscita crioscopicamente o passado

diluído – doravante irresgatável e incorruptível.

Pedro Nava – em Baú de Ossos

Pedro Nava, Pedro da Silva Nava. Meu amigo entre 1976 e 1984, ano da sua morte. A primeira vez que tive contato com esse que foi considerado o mais importante memorialista de nossa língua por vozes insignes está registrada em carta que enviei ao escritor em 1976.

Sempre cultivei um gosto pela palavra escrita, pelo registro. Li Baú de ossos, primeiro volume das memórias de Nava, publicado em 1972, somente em 1975. Vivia então no México e o livro me chegou por generosidade de Fausto Alvim Júnior, poeta, matemático, doutor em Lógica. Fiquei perturbado com o livro, seja pela dissertação, seja pelo estilo, pelo traçado do panorama de um Brasil do qual apenas suspeitava.

Vivido o turbilhão dessa leitura, ato contínuo, passei a escrever para o autor. Carta longa, circunstanciada, escorada em mundos e fundos, de muitas páginas, vazadas na minha letra bem desenhada e de rasgos avantajados. Contra os meus hábitos, demorei a dar por finalizada a obra. Pensei e concluí que era muita pretensão – sem conhecer Pedro Nava – meter-me a falar. Então rasguei tudo. E não me arrependo. Continuei querendo me manifestar. Faltava a forma adequada.

Lembrei que Pedro Nava falava de um personagem, Antônio Sales.

Esta figura foi marcante na formação do escritor. Nava descreve um passeio com tio Sales na Galeria Cruzeiro, no centro do Rio de Janeiro, aos 6 anos de idade. Antônio Sales levou o sobrinho para ver a tarde passar pela Avenida Rio Branco. Foi quando lhe disse: menino, por aqui irão passar Rui Barbosa, Machado de Assis,
Santos Dumont, os grandes do nosso tempo. Nava, então, conclui o parágrafo dizendo: e eu vi Rui Barbosa, eu vi Machado de Assis, eu vi Santos Dumont. Pronto, tinha descoberto o mote de que precisava para escrever ao Dr. Pedro Nava.

Remeti para a Rua da Glória 190 um cartão breve, onde dizia ter um filho de 6 anos, idade dele naquela tarde. Pedia, portanto, que me indicasse um local por onde costumasse passar frequentemente. Queria levar o meu filho para que ele pudesse dizer um dia: eu vi Pedro Nava. A partir daí, uma porta, um portal, se abriu e o endereço
do meu amigo passou a ser um ponto de referência nas passagens de nossa família pelo Brasil.

Nos 8 anos que se sucederam, estive muito próximo do escritor. Pessoalmente, por carta, telefone e até em uma visita que o casal, Nieta e Nava, nos fez em Buenos Aires, onde estávamos vivendo. Na oportunidade, foi publicada a única tradução das obras de Nava de que tenho notícia – Poliedro traz um prefácio que preparei para a edição argentina e é um dos trabalhos dos que mais me orgulho em ter colaborado.

Por que toda essa memorabilia? Agora, volta ao mercado uma preciosa reedição das obras de Pedro Nava. Desde de que surgiu o primeiro volume em 1972, já se vão 40 anos. Há, portanto, uma geração de brasileiros que surgiu depois desse fenômeno editorial. Nava escreveu e começou a publicar suas memórias depois de completar 70 anos de idade. Antes, conseguiu (?) se conformar com a biografia de médico famoso, Professor Emérito de Reumatologia da Universidade do Brasil. Como cientista, escreveu e publicou mais de
100 títulos.

Nava teve um fim trágico: matou-se aos 81 anos. Para a motivação imediata do gesto, há uma série de versões. Para mim, que comungo da opinião de Manuel Bandeira, o suicídio é vocacional. No caso, o próprio Nava dá a chave. Ele disse, com uma pitada de humor, que o homem deveria ser eliminado ao completar 50 anos por uma questão de higiene pessoal…

*Luiz Dolino é artista plástico – www.dolino.net

Inauguramos hoje, aqui no Blog da Subversos, mais uma categoria: ‘ficções’! ‘Ficções’ será, simplesmente, o que anuncia ser: um espaço onde autores convidados, escritores ou não, publicarão pequenas vinhetas narrativas, que poderão – mas não obrigatoriamente – ter continuidade aqui mesmo no blog ou alhures.

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DIAS MISTERIOSOS

Por Luiz Dolino*

Era uma vez um dia mais que ensolarado, um dia de ouro.
A natureza engalanada – plantas, animais, pedras.
Tudo rebrilhava, polido, ácido.
O granito das montanhas vibrava.
As lagartixas procuravam loucamente o parceiro para fazer amor – conseguiam 400 vezes por dia, pelas estatísticas mais conservadoras.
Nisto não faziam muita vantagem porque, ao que se apurou, o intercurso sexual do réptil dura menos de 5 segundos… e isso com aqueles machos mais exuberantes e galantes.
Mas como dizia do dia radioso, as plantas, estas também exibiam cores as mais fulgurantes.
Naturalmente que esse estado de resplandecência afetou toda a população de São Gonçalo.
Claro que em outras localidades a luz intensa também atinge seres vivos e inanimados.
Mas foi de São Gonçalo que tive notícias as mais instigantes.
São Gonçalo – especificamente o bairro da Covanca – tem umas peculiaridades curiosas, para dizer o mínimo.
Lá, as mulheres só dançam com outras do mesmo credo sexual, excluindo curiosamente as lésbicas, declaradas ou não.
Lá, as crianças são contratadas pela prefeitura para ensinarem regularmente aos adultos bons modos, educação no trânsito e artes cênicas.
Eu mesmo conheço duas atrizes que se formaram nessa escola para adultos conduzida por pequenos professores.
Há uma página www.sangoncovancatheater.uk onde podem ser encontradas informações detalhadas sobre a experiência realizada nessa cidade fluminense mundialmente considerada como de vanguarda.
Na internet, no mesmo endereço indicado, há testes que podem ser autoaplicáveis, de modo a permitir que o interessado tenha uma noção das suas chances para conseguir matricula nesses cursos.
Melhor ainda é visitar o próprio site da prefeitura de São Gonçalo www.saogonçalovanguarda.gov.br.
Ali está tudo muito bem explicado.
E por que estou falando disso? Porque ali fica muito claro o por quê desse mundo inovador – a incidência solar sobre o bairro já citado.
Atribui-se às propriedades de solarização constante nessa área, digamos, a sua indiscutível vocação para o moderno.
Trata-se de uma sociedade voltada para o experimentalismo, para o ineditismo.
Tanto é assim que a Covanca é hoje o maior empório para a exportação de jovens para os grandes centros mundiais, todos com larga experiência no mundo do prazer, também traduzido como da prostituição.
Mas isso é um assunto escabroso que não interferirá nesta história.
Aqui, o que de melhor se poderá desfrutar será a informação fresca de como se pode chegar a ser ainda mais feliz nos tempos calorosos e suarentos de hoje.
O casal de prefeitos – sim porque lá existem dois governantes, um homem que atua de 8 até 20 horas e a sua mulher, a partir dai até às 7 horas da manhã.
Entre 7 e 8 horas, a cidade vive o caos, em total desgoverno pela ausência das autoridades, que, nesse horário, se dedicam a fazer pilates.
É, portanto, o horário mais favorável à azaração, e nesse caso, e somente nesse, admiti-se a atuação de homosexuais de ambos os sexos.
Mas o mais interessante desta história –  e é sobre isso exclusivamente que vamos falar daqui para diante –  é o efeito estufa que a permanente solarização impõe.
Parece que as pessoas que ali vivem, entre 2 e 5 da tarde, portanto durante a administração masculina, inflam.
Algumas chegam a pesar na média 130 kg.
Outra coisa bizarra: entre 3 e 4 da manhã, na administração feminina, as pessoas assumem um colorido estravagante.
Umas ficam literalmente verdes, outras furta-cor (essas as mais comuns, sobretudo entre a população mestiça).
Mas entre inflações gordurosas e oscilações cromáticas, a população procria.
O bairro da Convanca ostenta um dos maiores índices de fertilidade do planeta.
Há o caso de uma senhora – dona Maria das Dores Paz Altavista – que, em 15 anos de casada, jamais mestruou.
Teve 16 filhos no período: 2 homens e 14 meninas, todos furta-cor porque nasceram de madrugada.
O fenômeno hoje é muito conhecido e objeto de muita especulação nos grandes centros de pesquisa, sobretudo os mais afamados com sede na Patagônia.
Pela singularidade dessa região tão atrativa para ordas de curiosos, as famosas embarcações aéreas que partem da Praça XV de Novembro no Rio de Janeiro têm feito uma rota específica somente para deixar o passageiro no bairro do Barreto, na vizinha Niterói, muito próximo do local dessas ocorrências.
A frequência, preços e horários desse transporte público poderão ser checados no endereço www.transsaogoncoreshumanasindefinidas.gov.com.br
Vou logo adiantando que a frequência – isto eu já confirmei e posso informar – é de uma embarcação por trimestre.
Mas a narrativa vai seguindo o seu curso e o narrador saindo daquele que é o seu propósito fundamental: contar o romance de funestas consequências, ambientado no bairro e cidade dos quais nos ocupamos e vivido por Darlene Paz Altavista, sétima filha de dona Maria das Dores.
A menina, flor de formosura –  sobretudo se contemplada fora daqueles horários em que se infla e se colore – aos 14 anos incompletos deu de dar.
Enfeitava-se toda e a garotada vibrava. Garotada de ambos os sexos, naturalmente.
O plano da menina era ficar bem escolada e virar produto de exportação.
Queria porque queria viver em Lisboa; era o seu grande sonho.
Não precisava nem conhecer línguas (falo naturalmente dos idiomas) e estaria confortavelmente instalada na Europa, situação geográfica até hoje discutível, mas isso é outro assunto de viés político, sócio-cultural, fora do nosso objetivo primordial.
A única coisa certa na sua cabeça irredutível: o seu projeto de ser puta na União Européia; disso Darlene não abriria mão.
Até que topou com Antero.
Mulato sarado, bem dotado, com larga experiência, figurando até nos classificados de O Globo, na parte destinada ao anúncio de acompanhantes.
Antero, talvez sofrendo do mesmo efeito que atingia as lagartixas, das que dei notícia anteriormente, tinha um enorme potencial, digamos que, reprodutivo.
Com isso, é claro, sempre foi muito requisitado (desde os 16 anos) para grandes produções.
Era tamanha a sua capacidade de repetência que se qualificou no mercado varejista como reprodutivo Triple A – designação atribuída aos que ejaculam sem maiores dificuldades duas ou mais vezes no curto espaço de uma hora.
Pois bem, os dias de sol começaram a ficar cobertos de sombras.
Nuvens, aguaceiros torrenciais.
Darlene foi covardemente assassinada.
Teve a garganta cortada com faca de cozinha da marca Tramontina, daquelas com cabo de madeira e serrinha até a ponta, segundo o laudo pericial.
Covardemente, porque foi encontrada nuínha, com um ar de extremo prazer na contração final.
A autopsia registrou que havia abundantes sinais e evidências cabais de coito recente.
Antero nunca pode ser condenado pelo crime passional que cometera.
Várias testemunhas asseguram que ele foi visto andando desperado na chuva.
Acabou se afogando numa poça, em plena Praça Hilário de Brito, logradouro bem conhecido de uma comunidade periférica na Covanca.
Os jornais foram cruéis na descrição do romance de final tão aflito, inundado e imponderável.
Os dias de chuva são muito misteriosos.
Ao que tudo indica, parece que esses dias aziagos, se combinados com temperaturas escaldantes, contribuem decisivamente para cozinhar os miolos e corações apaixonados.

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*Luiz Dolino é artista plástico [ http://www.dolino.net/ ]

por Luiz Dolino*

Minha proposta é a de abordar o processo da criação, a partir da experiência que vivo cotidianamente dada a minha condição de artista.

Antes, porém, advirto que pretendo abordar o tema apoiado em três documentos que me foram fundamentais para a aproximação do universo criativo: Le mystère Picasso, Poetics of music e The dyer’s hand.

No filme O mistério de Picasso, de 1956, o cineasta Henri-Georges Clouzot convenceu o pintor a trabalhar utilizando um material especial que possibilitou a filmagem pelo lado contrário de cada tela. O resultado são 20 obras (todas destruídas em consequência do acordo firmado com o diretor), onde Picasso se apresenta completamente nu – no sentido de desprotegido – diante do público, revelando de maneira direta e sem subterfúgios o seu processo de criação. Ver o documentário, declarado Tesouro Nacional pela França em 1984, foi e continua sendo das experiências mais definitivas se procuro refletir sobre a vertigem da criação.

Outro documento que produziu um efeito ao mesmo tempo esclarecedor, mas, em larga escala, muito mais inquietante nas minhas reflexões sobre o processo criativo foi a série de palestras proferidas por Igor Stravinsky na Universidade de Harvard, em 1939. Essas conferências foram feitas em francês sob o título Poétique musicale sous forme de six leçons e fazem parte da prestigiosa antologia de Charles Eliot Norton Lectures on Poetry.

Nos seis encontros em que o compositor se apresentou ante uma plateia eclética, composta por estudantes que cursavam as mais variadas disciplinas na Universidade, o processo criativo do próprio Stravinsky no ambiente musical, como o de outros músicos, pintores, escritores e poetas, integram o discurso do compositor, no seu esforço magnifico de tentar informar sobre o demônio criativo.
Ainda falta dizer sobre W.H. Auden e a coletânea de ensaios publicados pelo Poeta ao longo de suas atividades na Universidade de Oxford. O mote desses textos é expresso pelo próprio ao afirmar, de cara, que é lamentável que em nossa cultura um poeta tenha condições de ser muito mais bem-sucedido, do ponto de vista financeiro, escrevendo ou falando a respeito de sua arte que, propriamente, praticando-a. No Brasil, todo esse material foi publicado em 1993 sob o título geral de A mão do artista.

Na verdade A mão do artista é o segundo capitulo do livro, onde o Poeta se detém mais especificamente na questão do processo criativo. E aqui ponho em destaque o fato de Auden confessar ter aceitado o desafio de destilar ante o público suas próprias inquietações e motivações para edificar a sua obra dado exclusivamente à sua precária condição de vida, do ponto de vista de meios materiais.

Nos três casos mencionados – Picasso, Stravinsky e Auden – nos acercamos de um fato inexorável: há por trás do impulso criativo desses gênios do século XX uma espécie de micróbio que corrói seus espíritos não deixando margem à outra escolha que não seja aquela que lhes permitirá o expurgo de seus demônios. Simultaneamente, pelas obras citadas, percebemos que há o cultivo de um ímpeto comum: a necessidade de estabelecer uma ordem no que lhes parece ser o império da desordem. Podemos então inferir que o processo criativo estaria atrelado a dois cabos: exorcismo e caos. Ao demiurgo cabe, portanto, sacralizar, deixando rastros (obras) que denunciam a redenção suprema.

*Luiz Dolino é artista plástico [ http://www.dolino.net/ ] 

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