Borges: o leitor

Por Fátima Pinheiro

A singularidade de Jorge Luis Borges (1899-1986) faz com que sua obra seja considerada uma das mais importantes da literatura mundial. O seu encontro com a escrita, entretanto, passa por sua experiência radical com a leitura, e é esse aspecto que pretendemos destacar neste ensaio baseado em uma entrevista que ele concedeu à The Paris Review [1], aos 67 anos, de onde selecionamos breves fragmentos.

Algumas passagens que recortamos desta entrevista colocam em questão o lugar do leitor- escritor, via paixão pelo texto, paixão entranhada no sangue argentino do autor e embebida na cultura anglo-saxônica.

Desde o início de sua atividade de escritor Borges já demonstrava ser tocado pelo efeito das palavras no texto. Ao começar a escrever acreditava que nenhuma frase comum deveria ser usada nos seus textos, uma frase não deveria se mostrar de forma fácil. Jamais poderia dizer: “fulano entrou e sentou” porque lhe parecia ser simples demais. Julgava que teria que descobrir alguma maneira extravagante de dizer aquilo. Mas o tempo lhe revelou que isso só trazia aborrecimentos para o leitor.

Borges reporta o problema à juventude do escritor, que na tentativa de ocultar o que é óbvio, tolo ou lugar comum, cria uma ornamentação barroca. Observa também que se o escritor se empenhar em ser moderno ou contemporâneo terá que ficar inventando palavras o tempo todo, esforçando- se para fazer jus ao fato de sê-lo. Ele ressalta, no entanto, que à medida que o tempo passa, o escritor percebe que as ideias, boas ou más, devem ser expressas de forma clara para o leitor. E com certa ironia acrescenta: se você está tentando ser Ezra Pound aí mesmo que não funciona!

Na sua prosa clássica, Borges revela que o seu encontro com as palavras se dá de uma forma muito singular: ”Quando me deparo com uma palavra deslocada, isto é, com uma palavra que pode ser usada pelos clássicos espanhóis, ou uma palavra usada nas favelas de Buenos Aires, ou seja, uma palavra diferente das outras, eu a risco, e uso uma palavra comum”. Esse gosto pelo comum, em Borges, é uma ode ao leitor, e está remetido diretamente à Stevenson que defendia a ideia de que em uma página bem escrita todas as palavras deveriam ter a mesma aparência. Se você escreve uma palavra rude, surpreendente ou arcaica, você quebra a regra, diz Borges, e a atenção do leitor é distraída pela palavra.

Se por um lado a preocupação de Borges é dirigida ao leitor, uma vez que para ele as pessoas deveriam ser capazes de ler com fluência, mesmo que a escrita seja da ordem da filosofia, da metafísica, ou qualquer assunto. Por outro lado, ele não acredita que os leitores de sua obra captem as alusões e referências nela contida, uma vez que essas são inseridas simplesmente como uma espécie de brincadeira íntima. Uma brincadeira que não necessariamente precisaria ser compartilhada, mas caso fosse, só realçaria o seu valor.

A extrema sensibilidade de Borges em relação à palavra parece advir de sua posição de leitor, pois além de ter lido muito ficção e poesia, Borges era um assíduo leitor de enciclopédias. Quando muito jovem não costumava, em função de sua timidez, requisitar livros, mas como era de hábito, toda noite pegava, em uma biblioteca, um volume da Encyclopedia Britannica, deliciando-se com a leitura.

O seu interesse pela língua inglesa era notório, embora tenha confessado que por medo pouco escreveu nessa língua. Entretanto, com ela mantinha uma relação estreita, dando destaque a ela no desenvolvimento de sua obra. Borges era também um estudioso do anglo-saxão e nórdico antigos, estudo que lhe permitiu se aproximar mais da metáfora, mas que abandonou posteriormente, por considerá-la “uma fraqueza da carne” para os poetas.

Borges maravilhava-se com as palavras, e algumas mereceram por parte dele uma deferência especial, como as palavras everness e neverness inventadas por Bishop Wilkins, escritor que criou uma linguagem artificial, e de quem Borges gostava muito. A palavra everness foi descrita por Borges como terrível, assustadora e maravilhosa, fazendo uso dela em alguns de seus textos. No entanto considera neverness, uma palavra cheia de desesperança e desespero, e se admirava pelo fato dela jamais ter sido usada pelos poetas.

A fala de Borges é contundente em relação ao público que o lê, ao ser interrogado para quem ele imaginava escrever, ele responde: “talvez para uns poucos amigos íntimos”, excluindo-se como leitor de sua obra, dizendo nunca ler o que escreve. Revela, assim, uma intimidade da qual o pudor é testemunha: “receio demais sentir vergonha do que fiz!”

Como vemos, está presente na sua fala aquilo que marca o seu estilo único, personalíssimo: o de um escritor/ leitor sutil, erudito e muitas vezes irônico, que desdobra a palavra por um viés pouco explicativo e não afeito às metáforas. Mas o seu traço descarnado e enxuto recorta o seu amor pela leitura como se observa em Um leitor do livro Elogio da sombra:

Que outros se jactem das páginas que escreveram;

a mim me orgulham as que li.

Não fui um filólogo,

não pesquisei as declinações, os modos, a laboriosa

mutação das letras,

o de que se endurece em te,

a equivalência do ge e do ka,

mas ao longo de meus anos tenho professado

a paixão da linguagem.

Minhas noites estão cheias de Virgílio;

ter sabido e ter esquecido o latim

é uma possessão, porque o esquecimento

é uma das formas da memória, seu impreciso porão,

o outro lado secreto da moeda.

Quando em meus olhos se apagaram

as vãs aparências amadas,

os rostos e a página,

entreguei-me ao estudo da linguagem de ferro

que usaram meus antepassados para cantar

espadas e solidões,

e agora, através de sete séculos,

desde a Última Tule,

tua voz me alcança, Snorri Sturluson.

O jovem, ante o livro, impõe-se uma disciplina precisa

e o faz em busca de um conhecimento preciso;

em minha idade, toda tarefa é uma aventura

que limita com a noite.

Não acabarei de decifrar as antigas línguas do Norte,

não afundarei as mãos ávidas no ouro de Sigurd;

a tarefa que empreendo é ilimitada

e há de acompanhar-me até o fim,

não menos misteriosa que o universo

e que eu, o aprendiz.

É na primorosa articulação entre a escrita, o bem dizer e o saber ler, que Borges nos faz encontrar a potência de sua obra, levando assim até as últimas consequências o seu trabalho com a letra. E como não é só a surpresa que está presente na sua obra, lemos os seus textos, uma, duas, infinitas vezes, e instigados por sua arte concluimos: “a surpresa, está lá, sim, mas há também os personagens, o cenário, e a paisagem para nos satisfazer” [2]…

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[1] Os escritores: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das letras, 1988.

[2] Assim Borges se referiu às histórias de detetive.

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